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Na virada para 2026, Silvie Armand escolhe o silêncio de uma janela no Porto para atravessar o luto, o tempo e o mundo. Enquanto os fogos iluminam o Douro, ela revisita a morte do pai, os impasses da Europa e escuta, à distância, a pulsação festiva do Brasil. Entre solidão e esperança, Norte e Sul, a crônica reflete sobre onde ainda pode nascer um novo caminho para a humanidade. Um texto íntimo sobre começar o ano não com promessas, mas com lucidez e escuta.

Não desci à rua naquela noite. Fernand e Maria José insistiram, havia uma tasca na Ribeira, amigos, vinho, gargalhadas prometidas. Agradeci com um sorriso cansado e fiquei. Preferi o silêncio do apartamento, o eco leve dos meus próprios passos, a janela aberta sobre o Douro. Às vezes é preciso não ir para poder ficar — ficar com o que pesa, com o que ainda não encontrou nome.
Do alto, vi a cidade se reunir. Pequenos pontos de luz se moviam como constelações humanas ao longo da margem do rio. A Ponte Dom Luís I recortava o céu com a sua estrutura firme, quase maternal, sustentando o peso de mais um ano que se despedia. Quando os fogos começaram, o céu explodiu em cores que não pediam licença. Vermelhos, azuis, dourados. O rio devolvia tudo, duplicado, como se quisesse lembrar que nada acontece apenas uma vez.
Fiquei ali, sozinha, com uma taça de Vinho do Porto na mão e a memória do meu pai ainda muito próxima. O enterro em Paris voltava em imagens fragmentadas: o frio do cemitério, as mãos imóveis, o som surdo da terra. A morte tem esse hábito cruel de não respeitar calendários. Enquanto o mundo conta segundos para um recomeço, ela permanece, inteira, alheia às datas. Pensei que talvez o luto seja isso: uma forma de tempo que não obedece ao relógio.
Quando as doze badaladas do antigo relógio cuco do apartamento soaram, não fiz pedidos. Limitei-me a respirar fundo. A Europa, pensei, entra em mais um ano cansada, tensa, presa entre fantasmas antigos e crises que já não fingem ser passageiras. Há guerras à porta, democracias fatigadas, um medo difuso que se espalha pelas conversas baixas e pelos discursos altos. O velho continente parece saber muito sobre o passado e pouco sobre como inventar o futuro.
Foi então que o telefone vibrou. Era Jussara a minha amiga brasileira. Ligava de Copacabana. Ao fundo, o som era quase irreal: dois milhões de pessoas, disse-me, um mar humano extasiado, música, corpos juntos, alegria sem vergonha. Falava com a voz embargada de quem acredita. “Silvie”, disse-me, “aqui a gente ainda sabe celebrar, mesmo com tudo desabando.” Ao fundo ouvi a voz da multidão entoando o refrão da música do Belchior: “ ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”. Fantástico!Fechei os olhos. Vi aquelas areias brancas, o Atlântico aberto, os fogos refletidos no mar. Um outro mundo começando o mesmo ano de um jeito radicalmente diferente.
Enquanto o Porto se acalmava lá embaixo, pensei nisso. Talvez a resposta não venha dos lugares que sempre se imaginaram centro. Talvez o novo precise nascer onde a dor convive, paradoxalmente, com a invenção. O sul do planeta carrega feridas profundas, mas também uma capacidade rara de criar vida no meio do caos. No Brasil, apesar de tudo, há ainda uma energia coletiva que insiste, que dança, que ocupa as ruas como quem reivindica o direito de existir plenamente.Eles se recusam a morrer!
A Europa pensa demais antes de sentir. O sul sente antes de organizar o pensamento. Talvez seja desse desequilíbrio que algo novo possa surgir. Não uma salvação ingênua, mas um outro modo de estar no mundo — menos disciplinado, menos cínico, mais aberto ao improviso da vida.
Os fogos cessaram. A cidade entrou num silêncio estranho, quase respeitoso. Fechei a janela devagar. Lá fora, o Douro continuava a correr, indiferente às datas, às fronteiras, às promessas humanas. Antes de apagar a luz, pensei no meu pai, nos amigos, na amiga distante em Copacabana, na Europa que hesita, no sul que pulsa. Talvez 2026 não traga respostas. Mas talvez traga sinais.
E, naquela solidão escolhida, senti que ficar ali — entre o luto e a esperança, entre o Norte que envelhece e o Sul que insiste — era exatamente onde eu precisava estar para começar mais um ano.
Porto, janeiro de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários