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Em Janeiro: reflexões sobre um futuro incerto , Silvie Armand percorre as ruas frias de Moscavide enquanto o mundo parece perder o eixo. Entre restos de Natal, notícias de guerras e o reordenamento brutal das potências globais, a Europa surge como um território cansado, à margem da história. A crônica cruza o íntimo e o geopolítico para revelar uma insatisfação que já não é apenas melancolia, mas o início de um desejo de agir. Um texto sobre viver num tempo em que compreender já não basta.

Janeiro: reflexões sobre um futuro incerto — uma crônica de Silvie Armand
Janeiro pesa de um modo particular em Moscavide. As calçadas parecem mais duras, o frio mais honesto, a luz mais econômica. Caminho sem destino preciso, como se o bairro fosse um pensamento que se repete e se aprofunda. Há restos de Natal nos postes, fios luminosos desligados, estrelas cansadas aguardando remoção. A cidade não teve pressa em desfazer a ilusão. Talvez porque também não saiba o que colocar no lugar.
Enquanto ando, cresce em mim uma angústia espessa, sem forma clara, mas insistente. A Europa parece viver um tempo suspenso, como um corpo que continua a mover-se por hábito, mesmo depois de ter perdido o eixo. O capitalismo, aparece para mim em franca decomposição, já nãopromete futuro; apenas administra o colapso. As vitrinas seguem cheias, mas os olhares estão vazios. Há algo de profundamente desajustado entre o gesto cotidiano e o que se anuncia no horizonte.
Tenho a sensação de que o mundo se reordena diante de nós a partir de três grandes vértices de influência.China, Rússia e Estados Unidos se apresentam como placas tectônicas que se deslocam lentamente, mas com força suficiente para redesenhar tudo ao redor. Desses centros irradiam poderes secundários, alianças frágeis, dependências novas. A Europa, observo com um desconforto quase físico, já não está no centro de nada. Tornou-se um território de memória, de discurso moral, de hesitação. A decadência não é um colapso ruidoso, mas uma perda gradual de relevância. E isso talvez doa mais.
As notícias acompanham o ritmo dos passos, mesmo quando tento afastá-las. O governo Trump volta a dar sinais de abandono da OTAN, como quem retira a mão de um edifício em chamas e finge não sentir o calor. A ideia de proteção coletiva, já frágil, racha ainda mais. A crise com a Dinamarca, a disputa pela Groenlândia, transforma o gelo em moeda estratégica. Até o frio entrou no mercado. Até o fim do mundo tem cotação.
O avanço russo sobre a Ucrânia permanece aberto como uma ferida que o Ocidente aprendeu a suportar à distância. A guerra, prolongada, já não provoca espanto; tornou-se ruído de fundo. E talvez seja isso o mais aterrador: a normalização do inaceitável, a sensação de que o conflito pode transbordar, tocar outros países, redesenhar fronteiras que julgávamos fixas. A Europa observa, reage tarde, formula comunicados. Parece sempre chegar depois.
Penso nisso também porque o meu editor em Nova Iorque me escreveu ontem. Pediu-me uma série de textos sobre como os europeus estão a reagir a este abandono americano e ao risco de a guerra se aprofundar. O jornal prepara um caderno especial. Querem vozes, impressões, cenas do quotidiano. Caminho pelas ruas de Moscavide sabendo que, de algum modo, estou já a recolher esse material. Mas o que vejo não são análises claras, e sim um mal-estar difuso, um medo contido, uma adaptação silenciosa.
Em Moscavide, tudo isso chega diluído, mas não menos real. Chega no preço do pão, no silêncio do café, nos corpos que dormem nas entradas dos prédios. Os imigrantes tornaram-se parte da paisagem não porque foram acolhidos, mas porque foram deixados. As novas leis endurecem o discurso, mas não oferecem chão. Há uma violência contida no ar, um receio disciplinado que não se anuncia, mas se instala.
Penso que vivemos um tempo sem norte, no sentido mais literal e simbólico. As antigas referências ruíram, e as novas ainda não sabem falar. A política tornou-se gestão do medo. A economia, administração da escassez. A cultura, muitas vezes, um consolo frágil. Caminho e sinto que o mundo se desfaz aos meus pés não como tragédia súbita, mas como erosão lenta.
E, no entanto, o que mais me inquieta não é apenas o colapso externo. É a sensação de que já não basta compreender. Durante anos, acreditei que olhar com atenção fosse um gesto suficiente. Que nomear, escrever, refletir, produzir sentido, pudesse ser uma forma de ação. Agora, essa crença vacila. Não por descrédito da palavra, mas por exaustão do adiamento.
Sinto crescer uma insatisfação funda com a vida tal como está organizada, comigo mesma dentro dela. Não se trata de desespero, mas de uma lucidez desconfortável. Como se o mundo estivesse a pedir outra postura, ainda indefinida, ainda frágil. Uma micropolítica do quotidiano, talvez. Um gesto que não resolve o todo, mas que se recusa a reproduzi-lo cegamente.
Paro um instante junto a uma paragem de autocarro. Pessoas esperam em silêncio. Cada uma carrega o seu mundo particular, as suas perdas, os seus medos. Penso que o colapso não é apenas estrutural; é íntimo. Ele atravessa os corpos, as relações, os afetos. Vivemos um tempo em que o futuro deixou de ser promessa e passou a ser ameaça.
Retomo o caminho. Moscavide segue, resistente, modesta, imperfeita. O bairro não oferece respostas, mas oferece presença. Talvez seja por aí que tudo tenha de recomeçar. Não nos grandes arranjos geopolíticos, não nos pactos que se desfazem, mas na recusa silenciosa de aceitar a decomposição como destino.
Janeiro avança, e eu com ele. O mundo parece ruir, sim. Mas ruir não é desaparecer. É abrir fendas. E é nelas, talvez, que alguma coisa ainda possa nascer.
Moscavide, janeiro de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
By Carijó…
Muito intessante ….
By Lívio
Gosto muito dela seu texto é de uma sociologia poética que me agrada. Percebo que não é um texto eurocentrico, suas observações podem ser trocadas pelas ruas de Porto Alegre, Fortaleza, São Paulo ou qq outra cidade brasileiro quiçá do mundo. Nesse texto quando descreve a cidade, o bairro, as pessoas andando pra lá e pra cá cada um nas suas funções que são tantas que não vale enumerá-las. Essa observação me remete às minhas observações quando eu caminho pelas ruas de Goiânia onde moro atualmente e quando nas minhas andanças eu fico imaginando o que passa na cabeça de cada ser humano que cruzo. Fazendo um paralelo com o texto fico me perguntando o quanto de imbróglio “toca” essas pessoas. Será que os normais estão ligados no reordenamento das três potências mundiais? Será que o cidadão comum tá entendendo o quanto essa luta hegemônica resvala nas suas vidas no seu quotidiano? Enfim, não sei escrever sobre a minha agonia mas percebo uma GRANDE ALIENAÇÃO das pessoas comuns.