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Relatos da Zona Morta 1 – uma transmissão pirata-Eu sou Nóia Zero

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

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Interceptamos um sinal raro vindo da Zona Autônoma da Maré Livre — território emergente nas ruínas do velho Brasil. A transmissão pirata, assinada por um enigmático sobrevivente que se autodenomina Nóia Zero, inaugura os Relatos da Zona Morta: uma série de crônicas vindas do outro lado do colapso.Numa linguagem que mistura memória, crítica e resistência, Nóia Zero narra o fim do capitalismo como forma de vida e o surgimento de novas formas de existência nas margens do valor. O mundo que ele descreve é brutal, mas não sem fagulhas de reinvenção.Esses registros são mais do que ficção: são ecos possíveis do que já começou.


O mundo não acabou. Simplesmente colapsou.O capitalismo já era !

Nóia Zero,

Episódio 1 – “Eu sou Nóia Zero”

Meu nome é Nóia Zero.

Galera: se esse nome não te diz nada, melhor assim. Ninguém sobreviveu nesse mundo com nome de batismo. Todos os registros foram vendidos para as corporações antes da queda e quando começou o grande conflito. CPF virou ativo tóxico. RG, metadado de propaganda. A identidade virou dado mercantil. Quando o valor entrou em colapso, até os nomes quebraram.Atualmente, cada um escolhe o seu! Gosto do meu,sacou?

Nasci no fim de tudo. Ou no começo de algo que ainda não tem nome.

Mas esse é um relato, não um epitáfio. E cada relato carrega uma fagulha. O fato é que a Zona Morta ainda fala.E volta e meia eu vou mandar meus relatos para vocês .

Pois é: deu ruim !

Tudo começou a ruir depois da morte de Lula, no último ano de seu quarto mandato. Era 2032. Um símbolo se apagava: não por falência de discurso, mas por esgotamento de uma era em que o Estado ainda fingia intermediar o valor e o sofrimento. Seu vice, Alckmin, bem que tentou manter a roda girando. Mas carisma não se transfere por decreto, tá ligado! Quando o então governador de São Paulo contestou a eleição seguinte, o país mergulhou numa guerra de narrativas que logo se tornou guerra de balas. Ai, tudo desandou.

A Guerra Civil Brasileira foi uma decomposição social acelerada:Depois eu te conto com mais detalhes.

O fato é que o Norte virou confederação teocrática extrativista.

O Centro-Oeste, colônia agrotec de exportação direta à China.

O Sul, zona de controle corporativo.

E aqui, no que era o Rio de Janeiro, nasceu a ZAML — Zona Autônoma da Maré Livre. Existem várias zonas autônomas na cidade e pelo Brasil afora .Mas eu vou contar esta história a partir do local que vivo, onde nasci e viveram meus pais. Com o tempo vocês vão entendendo, tá ligado?

Lá fora, o mundo seguia em convulsão.

Após a morte do trapalhão do Trump, o vice ( aquele nazistão )assumiu com punho de ferro. Levou adiante os conceitos do MAGA. O Império Americano implodiu,virou um conjunto de feudos distópicos,onde os estados dominados pelos democratas se insurgiram com milícias locais, criando uma guerra civil alimentada por IA militares e drones suicidas. Nova York virou uma grande cápsula, onde só os riquinhos podem entrar. O interior, cemitério de algoritmos, uma zona de ninguém onde as milícias supremacistas fazem as suas leis.

A China virou império explícito, comandado por uma burocracia civil-militar, conectando Ásia, África e Pacífico com cinturões de crédito e chips.

A Rússia prolongou sua guerra interna na Europa, que já não tem fronteiras nem moeda confiável.A Europa é um caos, onde países surgem e outros desaparecem.Um feudalismo com tecnologia.

No Oriente Médio, o inferno repetido: bombas atômicas táticas, disputa entre os espectros do petróleo e da fé. Na Africa antigos reinados reapareceram com configurações confusas. A guerra se extende pelo continente.

As águas subiram. O calor não dá trégua. A natureza ficou hostil ao ser humano. E as Big Techs viraram governos com logo. Caraca, uma zona geral!

Aqui na Zona Morta, o que resta é vida desnuda — como dizia um velho filósofo, vida que pode ser morta, mas não sacrificada, pois já não pertence a nenhuma ordem simbólica oficial. Somos os descartáveis do valor, os homo sacer do capital em ruínas.

Mas também somos os que escaparam. Os que, privados de tudo, construíram outra coisa. Com lixo, com saberes quebrados, com arte do impossível. Nós reconfiguramos a vida, até então gerida pelo capitalismo, onde o valor parou de circular, tá ligado?

Minha função? Relatar. Registrar. Gravar para que um dia se saiba que não houve apenas colapso : houve ruptura.

Essa é minha primeira carta.

Assinada na ferrugem e no suor da ZAML.

No ano de 2056, depois do colapso.

— Nóia Zero

[Transmissão pirata interceptada pelo canal Utopias Pós-Capitalistas / Codificação: ZAML/2056/NZ-001]

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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