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Para Onde Olhar — uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 7 leitura mínima

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Em meio a uma crise existencial que espelha o esgotamento europeu, Silvie Armand desloca o pensamento para fora do centro do mundo. Nesta crônica, ela interroga as margens do capitalismo — África e América Latina e o Oriente como territórios onde a vida nunca se deixou capturar por inteiro pela lógica da mercadoria. Sem idealizações, mas com escuta atenta, o texto propõe um desvio: talvez o futuro não surja de onde o poder se consolidou, mas de onde a existência sempre precisou resistir. Uma reflexão lúcida sobre colapso, periferia e a reinvenção do possível.

Para Onde Olhar — uma crônica de Silvie Armand

Há dias em que já não consigo pensar a Europa sem a sensação de esgotamento. Não como catástrofe iminente, mas como fadiga civilizacional. Tudo aqui parece excessivamente organizado para um mundo que perdeu o sentido do porquê. As instituições funcionam, os mercados abrem, os discursos seguem, mas falta algo essencial: a capacidade de imaginar outra vida que não seja mediada pela mercadoria.

Talvez por isso meu pensamento tenha começado a se deslocar. Não para frente, mas para os lados. Para fora do centro. Começo a suspeitar que os caminhos possíveis para um outro mundo não nascerão onde o capitalismo se consolidou com mais força, mas onde ele sempre chegou de forma incompleta, violenta, desigual. Nas periferias do sistema, onde a vida precisou aprender a existir apesar dele.

Penso na África, por exemplo, não como metáfora romântica, mas como território de saberes longamente desconsiderados. Ali, onde o capital nunca conseguiu organizar plenamente o tempo, persistem outras relações com a comunidade, com a terra, com a morte. Economias da partilha, do cuidado, da sobrevivência coletiva. Não são paraísos, não idealizo. Mas são experiências que escapam à lógica totalizante da mercadoria.

Penso também na América Latina. No Brasil, sobretudo, que conheço por vozes amigas e pela própria língua que me habita. Um país atravessado por brutalidades coloniais e desigualdades extremas, mas onde a vida insiste em se organizar em comum. Redes informais, solidariedades improvisadas, culturas populares que resistem à captura completa pelo mercado. Ali, muitas vezes, a vida vem antes do lucro porque não houve escolha.

Percebo que nessas regiões o capitalismo nunca foi plenamente naturalizado. Ele chegou como imposição externa, não como promessa cumprida. Talvez por isso suas fissuras sejam mais visíveis. Talvez por isso também surjam ali práticas que apontam para além dele: economias comunitárias, cosmologias não modernas, políticas do cuidado, resistências que não cabem nas categorias europeias clássicas.

Começo então a me perguntar se o capitalismo não foi, desde o início, um desvio perigoso da experiência humana. Um modo de produção singular na história, que reorganizou todas as formas de vida em torno de um único objetivo: a produção do valor, a multiplicação da mercadoria. Tudo passou a existir para servir a esse fim — o trabalho, o tempo, os corpos, os afetos, a própria natureza.

Talvez o que hoje chamamos de crise seja apenas a revelação tardia de suas consequências: a exaustão do planeta, a corrosão do vínculo social, o risco real de autodestruição da espécie. Pergunto-me, com uma inquietação que já não é apenas teórica, se a humanidade não terá confundido progresso com aceleração, liberdade com consumo, vida com produção incessante.

A Europa, ao contrário, parece prisioneira do próprio sucesso passado. Tudo aqui foi tão profundamente moldado pela forma mercadoria que imaginar algo diferente soa quase infantil. Fala-se em reformas, em ajustes, em sustentabilidade. Raramente em ruptura. Raramente em transformação real das relações sociais. O futuro, aqui, é sempre uma versão atenuada do presente.

Isso me inquieta e, ao mesmo tempo, me desloca. Talvez o erro esteja em continuar a procurar respostas onde o problema se consolidou. Talvez seja preciso escutar outros lugares, outras histórias, outras formas de viver o tempo. Não para copiar modelos, mas para reaprender a perguntar.

Sinto que a crise que me atravessa não é apenas pessoal nem apenas europeia. É uma crise de horizonte. O mundo como o conhecemos já não se sustenta, mas insistimos em mantê-lo de pé com discursos técnicos e medo do desconhecido. Enquanto isso, nas margens, seguem nascendo práticas de vida que não pedem permissão para existir.

Não sei ainda como essas experiências podem se traduzir em sociedades mais justas, menos violentas, menos capturadas pela lógica do lucro. Sei apenas que continuar a olhar apenas para o centro é insistir num espelho quebrado. Talvez seja tempo de aceitar que o futuro não falará com sotaque europeu.

Essa ideia não me consola completamente, mas me abre uma fresta. E, neste momento, uma fresta já é muito. Significa que o mundo não se resume ao seu colapso mais visível. Significa que ainda há lugares onde a vida não foi totalmente convertida em mercadoria.

Talvez seja por aí que eu precise começar a escutar com mais atenção. Não para salvar o mundo, mas para reaprender a habitá-lo.

Lisboa, janeiro de 2026

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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