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PT e PTB-Luiz Carlos de Oliveira e Silva

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 4 leitura mínima

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O texto de Luiz Carlos de Oliveira e Silva configura-se como um testemunho político de caráter memorialístico, no qual experiência pessoal e análise histórica se entrelaçam para revisitar a fundação do PT e suas tensões com o trabalhismo do PTB. Ao evocar o congresso de 1980, no Colégio Sion, o autor retoma as expectativas de transformação social que mobilizavam a esquerda no processo de redemocratização. Trata-se de uma reflexão que busca compartilhar com os leitores o percurso dessas esperanças e, ao mesmo tempo, explicitar a decepção diante dos rumos assumidos por essa força política na conjuntura atual.

PT e PTB– um texto de Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Eu estive, como um dos três delegados do núcleo dos bancários do Rio, no congresso de fundação do PT, realizado no Colégio Sion, São Paulo, capital, em 10 de fevereiro de 1980.


Naquele encontro, a ultraesquerda tinha uma representação de peso, mas, lembro bem, quem fez o discurso mais radical, falando em revolução e tudo, foi a freira encarregada de nos dar as boas-vindas.


Quando a mesa diretora chamou Apolônio de Carvalho, Mario Pedrosa e Sergio Buarque de Hollanda para serem os primeiros a assinar a ata de fundação do partido, o plenário veio abaixo.


Para mim, aquele foi o momento mais emocionante de todo o encontro… Digo, sem medo de ser piegas, que aquela segue sendo a maior emoção cívica que jamais experimentei na vida.


Do outro lado do oceano, em Lisboa, tinha acontecido, anos antes, um encontro de trabalhistas históricos e novos trabalhistas, em torno de Brizola.


Entre o PT recém fundado e o PTB reconstruído havia, não sem alguma razão, muitas e profundas suspeitas mútuas…


Com o ascenso da luta popular a partir de 1962, em torno das “Reformas de base”, o trabalhismo em aliança com o PCB bem que poderia ter sido o caminho brasileiro para a emancipação do nosso povo.


O Golpe de 1964 impediu que isso pudesse ter acontecido, e as forças que iriam se associar na fundação do PT consideravam que, nos anos 1980, já não havia espaço para o que chamávamos, indevidamente, de “populismo”.


Diante da renúncia do PT a um programa reformista, vi em 2016 em Ciro Gomes a possibilidade de recuperação do trabalhismo. Infelizmente, Ciro sucumbiu ao peso da missão.


Hoje não temos PT reformista nem trabalhismo, só uma esquerda liberal que está dando um abraço de afogados no sistema.


A crise do sistema, que me parece terminal, abre espaço para a sua superação. No cenário político atual só há uma força política com um projeto de poder capaz de se apresentar como resposta à falência do sistema: a extrema-direita…

Rio de Janeiro, fevereiro de 2026

Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Luiz Carlos de Oliveira e Silva,é filósofo, carioca da Vila da Penha ,morador do centro do Rio de Janeiro e botafoguense escrachado.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
2 Comentários
  • Você teve a “honra” de participar da fundação do partido idealizado e construído pela ditadura – especialmente na figura do Golbery – para inviabilizar e boicotar o surgimento de qq iniciativa de luta popular, sob qq conjunto de ideias, no Brasil: O PT.

    Missão que o partido de Lula, figura forjada pela CIA desde os anos 60 + os derrotados da luta armada que se tornaram reféns perpétuos do sistema e foram obrigados a compor essa esquerda de fachada sob a falsa anistia de 79, cumpre com maestria há mais de 50 anos. Afogando todas as iniciativas populares e mantendo os movimentos de esquerda circunscritos a pequenos espaços como sindicatos, movimentos sociais engessados (alguns já assassinados como o MST e o MTST) e DCE’s de universidades públicas debaixo de uma tacão de ferro das lideranças mafiosas. Verdadeiros parques temáticos para a esquerda se divertir e levar uma boa vida.

    Sim, o capitalismo fordista vive o auge do colapso, mas naquele momento, em 80, o colapso já estava em curso e vc’s não souberam ler o empírico dos processos, propondo programas totalmente sem possibilidades de realização. O programa do PT e congêneres nasceu morto. E não, a extrema direita não tem nenhuma resposta para o colapso, a não ser acelerá-lo na velocidade máxima.

    Aliás essa resposta ninguém tem. Ela precisa ser construída para além do campo cognitivo (escrever textos, dar aulas, fazer lives etc. etc. etc., esse horizonte iluminista burguês de luta tem seu limite logo ali – muito menos na estupidez leninista de construção de uma vanguarda iluminada das massas).

    Essa resposta terá que somar o campo cognitivo-ilustrado do esclarecimento burguês com o campo experiencial e dos desejos. Construir espaços onde as pessoas possam experienciar outras formas de vida sem a mediação da mercadoria e do dinheiro. Coisa que a esquerda nunca fez e ajudou a destruir quem tentou fazer.

  • Companheiro Luiz Carlos,

    Li seu texto com a atenção e o respeito que sua trajetória merece. A emoção daquele 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, você transmitiu com uma nitidez que só quem esteve lá – *e quem carrega essa memória como um dos poucos tesouros que a política não conseguiu corroer* – poderia expressar. Apolônio, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque assinando a ata, o plenário vindo abaixo: entendo perfeitamente por que essa segue sendo sua maior emoção cívica.

    Seu diagnóstico sobre o presente é preciso e amargo: não há PT reformista, não há trabalhismo, só uma esquerda liberal que se afoga no sistema. E a conclusão – “só a extrema-direita tem um projeto de poder” – tem o peso de quem já viu muitas peças saírem do tabuleiro e poucas entrarem no lugar.

    Permita-me, contudo, apontar uma dimensão que seu texto toca sem nomear, e que talvez seja a chave para sairmos desse labirinto de espelhos. Refiro-me àquilo que, em _O Anti-Édipo_, Deleuze e Guattari chamaram de _investimento libidinal inconsciente do campo social_. Não se trata apenas de “projeto político”, “programa” ou “aliança de classes”. Trata-se de algo mais profundo: *o desejo como força produtiva da história*.

    Você descreve a emoção da fundação do PT, o ascenso das Reformas de base nos anos 1960, o trabalhismo que poderia ter sido o caminho brasileiro. Mas não pergunta: *o que aconteceu com o desejo que pulsava naqueles momentos?* Para onde foi a energia que fez o plenário vibrar com os nomes de Apolônio, Mário e Sérgio? Por que essa mesma energia, décadas depois, parece ter sido capturada, canalizada, desviada – a ponto de sobrar apenas a constatação da falência e o horizonte sombrio da extrema-direita?

    A resposta, aprendi ao longo de uma vida de sonhos e lutas, não está apenas na “traição das direções” ou na “falta de programa”. Está no que chamo de *Processamento Desejante (PD)*. O PD é uma atualização do conceito de máquinas desejantes de D&G para a era do capitalismo cibernético. Ele nos permite mapear como o desejo flui, é capturado, canalizado, e como pode ser liberado.

    O que vimos no Brasil (e no mundo) nas últimas décadas foi *um processamento fascista desse desejo*. As massas não foram apenas “enganadas” pela extrema-direita; em muitos casos, *desejaram o fascismo*. Desejaram porque o fascismo oferecia algo que a esquerda liberal e a esquerda tradicional deixaram de oferecer: *um objeto de investimento libidinal*. Uma sensação de pertencimento, de potência, de clareza, mesmo que essa clareza seja a da morte. É o que D&G chamam de “polo paranóico-fascista” do desejo: a pulsão de morte investida no campo social.

    Seu diagnóstico, ao dizer que “só a extrema-direita tem um projeto de poder”, é correto no plano dos interesses pré-conscientes. Mas, no plano dos investimentos libidinais, a extrema-direita tem mais que um projeto de poder: ela tem *uma máquina de captura do desejo*. Ela processa o medo, a raiva, a nostalgia, o ódio, e os transforma em energia política. A esquerda, ao se reduzir à “administração do capitalismo com rosto humano”, perdeu a capacidade de processar esses fluxos. Tornou-se *uma máquina triste*.

    É por isso que a saída que proponho – e que tenho vivido nos últimos 50 anos, desde que comecei a sonhar com o maremoto e com a máquina do mundo – não é a busca por um novo partido ou uma nova sigla. É a *construção de agenciamentos coletivos de processamento desejante emancipador (PDE)*.

    O PDE não é um programa fechado. É uma *disposição*: a de manter aberta a relação entre teoria e prática, aceitar o risco histórico como condição, errar sem se culpar, divergir sem se excluir. É o que Karl Korsch chamava de “manter o marxismo vivo em ligação com a prática revolucionária” – mas levado a sério, até as últimas consequências.

    Você pergunta, nas entrelinhas do seu texto, o que fazer. A resposta não está nos manuais, mas na vida concreta. Está *no corpo a corpo com o desejo* – o nosso e o dos outros.

    Penso no meu sítio em Morro Pontudo, onde recuperei nascentes, onde os pássaros voltaram a cantar, onde um sabiá fez ninho na cozinha e eu precisei aprender a modular minha ação para preservar a confiança que os bichos depositaram em nós. Penso no meu amigo que, aos 75 anos, pedala 50 km por dia e trabalhou na Comissão da Verdade. Penso nos jovens que, na Cidade de Deus, constroem escolas comunitárias apesar das incursões policiais. Penso em Lucas Pinheiro Braathen, que trocou o sucesso pela vida e, por isso, ganhou o ouro.

    Todos esses são *agenciamentos PDE*. Eles não esperam o “grande dia”. *Eles processam desejo agora, no presente*. E ao processá-lo, produzem corpos políticos vivos – não partidos, *mas matilhas*.

    Seu texto termina com um cenário sombrio. Mas a sombra só existe porque há luz em algum lugar. A luz está nos afluentes que ainda não secaram. O PDE é a arte de conectar esses afluentes, de fazê-los encontrar o mar. Não o mar da dissolução, mas *o mar de lutas onde todos os rios se reconhecem*.

    Não tenho respostas prontas. Tenho uma vida processada em sonhos, derrotas, alegrias e teimosia. *E tenho a certeza de que o desejo que nos moveu em 1980 ainda está vivo*. Ele só precisa *ser reprocessado* – não negado, não idealizado, mas *conectado ao que de mais potente a vida oferece*.

    Se quiser conversar mais sobre isso, estou aqui. No sítio, sob a copaíba, ouvindo os passarinhos e pensando no mar.

    Um abraço fraterno,

    arkx-Brasil e Baleia Azul

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