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Partindo de Vinicius de Moraes,Dalton Rosado nos apresenta, nesta sua crônica carnavalesca, o Carnaval como metáfora da felicidade intensa e passageira. Em memórias que atravessam Olinda, Salvador e Fortaleza, relembra encontros marcantes com Nara Leao e Caetano Veloso misturando ousadia juvenil e precariedade material. No Country Club de Fortaleza , transforma exclusão em triunfo simbólico. Já maduro, vê na festa uma breve suspensão das hierarquias sociais. A Quarta-Feira de Cinzas encerra a ilusão, mas preserva a experiência da alegria coletiva como gesto de resistência.

A felicidade do pobre parece, a grande ilusão do carnaval, a gente trabalha, o ano inteiro,por um momento de sonho para fazer a fantasia, de Rei, ou de pirata, ou jardineira, e tudo se acabar na quarta feira.”
Vinicius de Moraes
Carnaval, a grande catarse-uma crônica carnavalesca de Dalton Rosado
As histórias de carnaval são ótimas, e isso se deve, talvez, ao fato de que durante as festas da carne as pessoas de livrem das máscaras de caráter que lhe são impostas e se permitam extravasar os seus instintos humanos reprimidos pelo que se considera como sendo moralmente civilizado ou politicamente correto que nos é ensinado pelo rigor de uma ordem escravista, hierarquizada, oureligiosidade mais severa, fundamentalista.
Histórias de carnaval tenho várias, como aquelaem que me vi em Olinda em 1978, durante uma tarde de segunda feira de carnaval ao me encontrar lado a lado com Nara Leão, a quem admirava, numabarraca de comes e bebes fora do fuzuê, e não tive coragem de abordá-la por medo de uma frieza diante do meu encantamento e que pudesse desconstruir em mim a imagem de diva que por ela sentia.
Sai de fininho sem abordá-la, mas depois isso me valeu a fantasia de escrever um artigo sobre a hipótese de uma abordagem receptiva e com desdobramentos de uma convivência amistosa inesquecível (ela mascarada para que ninguém soubesse de quem se tratava e me acompanhando na curtição).
De outra feita, em Salvador, na Praça Castro Alves, que é do povo como o Céu é do Condor, na qual vivi 80 carnavais em três, 1976, 1977 e 1979, no frescor dos meus anos juvenis, vivi uma história inesperada.
Viajei com um grupo de amigos ricaços que me fora proporcionado (eu era um estudante de direito mais liso do quem um Mussum, o peixe escorregadio) em 1976, e me encantei com a presença de tantos artistas que transitavam pela Praça como simples mortais (apesar de estarem sempre rodeados pelos seus séquitos de admiradores).
À certa altura, já embriagado, recusei-me a ir para uma festa de clube (Baiano de Tênis, clube da elite) junto com o grupo; minha recusa terminou numa briga monumental. É que o fato se somou a outro; num contado meu com Caetano Veloso mais cedo, na tarde do mesmo sábado, afirmei para ele ser amigo de uma amiga comum (Birringa, com quem ele convivera em Salvador antes de ser famoso) que fê-lo vir até nosso grupo onde foi destratado e isso me deixou profundamente aborrecido.
Sem alternativas de permanência no mesmo local do grupo e com pouco dinheiro, só me restava voltar para Fortaleza ainda no domingo de carnaval. Foi quando me lembrei de uma Tia Freira, que morava em Salvador num Colégio particular para estudantes ricos onde era diretora, e com a minha namorada (que me aguentaria por longos 51 anos de convivência, três filhos e oito netos, até 2024, quando se tornou apenas invisível, mas presente, como diz a nossa neta Marina) fomos buscar o abrigo que salvou nosso carnaval (missa matinal e cachaça noite adentro paga por uns paulistas que se apiedaram da minha pobreza; no carnaval é assim).
Mas vou contar com mais detalhes uma outra história minha de carnaval, em 1975, um ano antes, em Fortaleza.
Era segunda feira de carnaval e eu tinha gastado no domingo os últimos recursos financeiros por conta de uma bebedeira e coisas que tais. Vendo a minha tristeza, a minha namorada (aquela mesma dos 51 anos de companheirismo tolerante por parte dela) me ofereceu uns trocados ganhos por ela nas costuras que fazia para amigas, suficientes para a compra de uma garrafa de cachaça. Tomei-a toda durante a tarde de carnaval junto com amigos da Rua e fiquei mais melado do que espinhaço de pão doce.
Como todo bêbado é corajoso resolvi dar um jeito de não parar por ali. Fui convidado por outros bebuns para ir para o Carnaval de Rua da Beira-Mar, circuito da Praia de Iracema, onde se pode beber e se divertir sem dinheiro. Caminhamos juntos na direção da folia aberta quando um deles me informou que nosso comum amigo Cirino, decorador do Baile de Carnaval do Country Club, o mais badalado da cidade naquele dia, estaria por lá.
Incontinenti, resolvi que iria entrar no Country Club, sem ser sócio, sem ingresso e sem dinheiro: coisas de bêbado em dia de carnaval.
Separei-me do grupo alguns quarteirões antes e segui no rumo da Avenida Barão de Studart até o referido clube. Entrei na fila de entrada e fui cumprimentado por alguns colegas ricaços da Faculdade de Direito que saudaram a minha chegada (eles eram sócios e tinham a entradagarantida).
Para minha planejada entrada havia a estratégia na cabeça de um penetra cuja coragem era alimentada pela embriaguez. Considerava a minha amizade com o decorador Cirino capaz de resolver a minha entrada no plano B, caso o plano A falhasse. Conjecturas e ousadia do futuro revolucionário que enfrentaria a ditadura militar após o término do curso de direito.
Chegou a hora decisiva; caso nada desse certo passaria a vergonha perante amigos e pessoas outras na fila. Com naturalidade, ao chegar à roleta da portaria de entrada e abordado pelo porteiro, que me pediu o ingresso, disse com frieza de bêbado: sou da equipe do Cirino, o decorador…
O porteiro, diante da pressão da fila para a entrada numerosa, disse simplesmente: pode entrar, ele está na parte administrativa do clube do outro lado, ao que eu respondi seguro: sim, já conheço. E entrei…
Ao entrar, veio ao meu encontro uma colombina conhecida que me abraçou saudando a minha presença e me levou para a sua mesa de pista me oferecendo um whisky escocês; mesa farta de rico, e assim pude beber e comer à vontade, e quando no salão cantavam a música “Bloco da Solidão” do cearense Evaldo Gouveia e chegavam palmas no refrão “por isso quando eu passar, batam palmas pra mim” eu dizia: obrigado, obrigado, obrigado. É que eu considerava estar sendo aplaudido pela minha felicidade e ousadia vitoriosa.
Ainda ontem, do alto dos meus quase 76 anos a serem completados em abril, e já sem o destemor da juventude para aventuras carnavalescas, olhei pela televisão para as multidões nos carnavais das cidades e fiquei feliz por perceber que aquelas pessoas não estavam nem aí para os problemas financeiros, afetivos, políticos, discriminatórios e tantos outros que certamente no dia a dia atingem a todos que ali estão.
Ali não se sabe quem é patrão e quem é empregado;
- Quem é mais rico ou mais pobre;
– Que o desembargador sisudo veste uma camisa listrada e sai por aí sem anel de doutor e a ouvir sem ofensas a frase “sossega leão” por seus requebros desajeitados;
- Que a afeto libidinoso não se obriga à heterossexualidade;
- Que o sapo namora a lua, numa noite de verão e canta a sua dor porque o coração é apenas um sentir a pulsar por amor;
- Que se diz sem se dizer, e apenas pelo modo de ser, que tudo poderia ser tão fraterno no dia a dia como um dia há de ser;
- Que se se oferece uma cerveja gelada a um desconhecido pelo simples prazer de se brindar à felicidade efêmera;
- Que se perdoa o beijo roubado quando a “vítima” diz sim e aceita o “roubo” com prazerconsensuado num olhar breve receptivo com sorriso;
- Que, infelizmente, a ilusão do possível acaba na quarta-feira porque o contraponto da felicidade é a tristeza que não tem fim, não tem fim, não tem fim, e é como a gota de orvalho numa pétala de flor, que brilha tranquila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor, já disse o poetinha maior;
O carnaval se trata de uma fraternidade catártica na qual o elo de unidade é o prazer embalado pela dança e pela música, bálsamos da existência humana.
Fortaleza, carnaval de 2026
Dalton Rosado.

Dalton Rosado é carioca do Rio Comprido,advogado, escritor, articulista de blogs e jornais, e desde longa data atuou contra a ditadura militar. Foi fundador do PT e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza.
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