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Em “ No Meio do Mundo” , sua nova crônica , Silvie Armand anuncia a decisão de deixar o centro do capitalismo e atravessar o Atlântico rumo à Amazônia., para a periferia. Convidada por uma amiga jornalista em Macapá, ela parte como repórter independente para acompanhar a expansão petrolífera na região. Entre Moscavide e a Margem Equatorial, a crônica articula ruptura pessoal, crise política e a busca por novos horizontes éticos. Mais do que uma viagem geográfica, trata-se de uma travessia interior: abandonar certezas liberais, confrontar o capitalismo em sua fronteira material e reaprender a olhar o mundo a partir das margens, onde a crise do capital se apresenta com uma outra cara.

No Meio do Mundo — uma crônica de Silvie Armand
Recebi a mensagem de Olga numa manhã fria em Moscavide. O bairro acordava devagar, os cafés abrindo as portas como quem não tem pressa de entrar no dia. Ela escreveu poucas palavras: “O Ibama autorizou. A Petrobras começa os testes. Vem. Preciso de olhos que não estejam comprometidos.”
Fiquei longos minutos olhando para o telemóvel. Não era apenas um convite profissional. Era uma convocação.
Desde que deixei o jornal, tenho tentado compreender o que significa escrever sem pertencer. Ser jornalista autônoma é, ao mesmo tempo, libertação e risco. Não há redação, não há linha editorial que me proteja ou me limite. Há apenas a responsabilidade direta pelo que vejo.
Meus amigos na Europa me incentivam e dizem:- te damos suporte, oh gaja!!. Escreva, nós iremos distribuir pela grande rede de resistência europeia e nos Estados Unidos. Isto me deu coragem!
Macapá, a cidade cortada pela linha do Equador.No meio do mundo!
A palavra ficou ecoando na sala pequena do meu apartamento. Tão distante das salas climatizadas de Nova Iorque onde aprendi a organizar o mundo em análises previsíveis. Tão distante dos corredores europeus onde a crise se debate em relatórios e cúpulas diplomáticas.Talvez estejam ali os elementos necessários para a formatação de um novo mundo, de uma nova civilização .
Olga está lá há anos. Saiu do Rio onde tinha uma vida estável e mergulhou fundo na vida ribeirinha. Trabalha produzindo artigos e é correspondente da plataforma Sumaúma, Fala da Amazônia como quem fala de um corpo vivo sob ataque. Conheceu de perto Eliane Brum em Altamira, no tempo em que Belo Monte era vendida como promessa de progresso e se revelava como fratura. Lembro-me das reportagens daquele período. Lembro-me da palavra desenvolvimento repetida como mantra enquanto o rio era ferido. É uma verdadeira correspondente de guerra!
Agora é o petróleo na Margem Equatorial.
O discurso é o mesmo. Segurança energética. Soberania nacional. Crescimento. Sempre há uma justificativa racional para perfurar o futuro.
Penso no que me levou até aqui. A ruptura com o liberalismo não foi um gesto ideológico súbito. Foi um cansaço profundo de ver a política administrar danos enquanto o sistema que os produz permanecia intacto. Também não encontrei abrigo na esquerda tradicional, muitas vezes aprisionada a categorias que já não alcançam o presente. Fui ficando entre lugares.
Talvez seja isso que me leva a aceitar.
Ir para a Amazônia não é apenas cobrir um conflito ambiental. É ir até o ponto onde a lógica da mercadoria encontra seu limite físico. Onde o capital deixa de ser abstração financeira e se transforma em máquina, sonda, estrada, fluxo migratório, corpo deslocado.
Tenho lido sobre o movimento recente na região. Trabalhadores chegando, comércio inflando, aluguéis subindo, tensões crescendo. A história se repete: antes mesmo de o petróleo jorrar, a promessa já altera o tecido social. A expectativa econômica reorganiza a cidade.
Pergunto-me o que busco ali.
Não é exotismo. Não é heroísmo. Talvez seja um outro eixo de pensamento. Se o mundo está se reordenando, talvez o seu centro real esteja nos territórios onde natureza e capital entram em colisão direta. Não nas capitais que administram a narrativa.
Olho pela janela de Moscavide. O inverno continua cinzento. Aqui, as ruas seguem modestas, disciplinadas. A crise europeia é fria, burocrática. Na Amazônia, ela é úmida, concreta, vegetal.
Percebo que essa viagem não é apenas reportagem. É uma travessia pessoal.
Durante anos escrevi a partir do centro. Agora quero escrever a partir da fricção.
Não vou como representante de ninguém. Vou como alguém que perdeu certezas.
Quero ver como vive uma cidade que se prepara para ser atravessada por uma promessa petrolífera. Quero ouvir os que defendem, os que resistem, os que simplesmente tentam sobreviver. Quero compreender se há, ali, formas de vida que ainda escapam à lógica total da mercadoria. Ou, se o capital já chegou também com sua gramática inevitável.
Talvez o Norte não seja apenas geográfico.
Talvez seja uma tentativa de reencontrar direção.
Macapá está acima da linha do Equador. Penso nisso com uma ironia íntima. Cruzar a linha pode ser também cruzar um modo de pensar.
Fecho o portátil. Escrevo a Olga que vou. Tomarei as medidas necessárias, fecharei o meu pequeno apartamento e vou .
Moscavide continuará sendo meu porto. Mas talvez seja tempo de navegar. Como disse o poeta: navegar é preciso!
Lisboa, inverno de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários