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Na primeira crônica da travessia amazônica, Silvie Armand embarca em Macapá rumo ao extremo norte do Brasil. Ao lado de Olga, Mateus, do barqueiro Francisco Ladeira e do jovem indígena Aruan Karipuna, ela inicia uma jornada fluvial pelo grande rio Amazonas em direção ao Oiapoque. Entre preparativos de viagem, paisagens imensas e reflexões íntimas, o primeiro dia revela não apenas a geografia da Amazônia, mas também um deslocamento interior de Silvie. O rio impõe outro tempo, outra escala e outra forma de escutar o mundo. A travessia apenas começa.

O primeiro dia da travessia-uma crônica de Silvie Armand
O dia ainda não havia nascido por inteiro quando cheguei ao cais de Macapá. A cidade despertava devagar, como se o calor da madrugada ainda segurasse o tempo entre as casas e o rio. Diante de mim, o Amazonas se abria como uma extensão quase oceânica de água barrenta, larga demais para caber na palavra rio. Não havia horizonte definido. Apenas uma superfície viva, respirando lentamente, carregando troncos, ilhas de vegetação e o rumor profundo de uma corrente que vinha de muito longe.
Ali, de pé, Olga já me esperava.
Vestia um daqueles vestidos largos e coloridos que parecem feitos para o vento e para o sol. Ao seu lado estava seu companheiro, Mateus, apoiado numa caixa de mantimentos, conversando com um homem magro de boné e olhar tranquilo. Foi Olga quem fez a apresentação com um sorriso quase cerimonial.
“Silvie, este é nosso grande amigo e protetor: Francisco Ladeira.”
Era o dono do barco que nos levaria até Oiapoque e, mais adiante, até a pequena comunidade que eles chamavam simplesmente de Utopia. Aparentando já ter entrado na meia idade, Francisco tinha a presença silenciosa dos caboclos amazônicos, homens que vivem mais no rio do que nas cidades. Falava pouco, mas observava tudo com uma atenção paciente. Havia nele uma aparência paternal, um tipo de serenidade que só o convívio longo com o rio parece ensinar.
Seu barco era um casco de madeira de médio porte, sólido, marcado por anos de travessias. Descendo ao porão, abrigava um motor forte de barulho constante. A cabine de comando era simples e em baixo abria-se para uma área coberta por uma lona resistente, onde estenderíamos nossas redes. Ao fundo, barris de combustível aguardavam a hora de entrar em ação.
O nome pintado na lateral dizia Esperança do Norte.
Antes mesmo de subir a bordo, Olga apresentou o quinto integrante da viagem.
Era um rapaz indígena, talvez de quinze ou dezesseis anos, de olhos atentos e movimentos rápidos. Estava descalço, com uma camisa leve e um pequeno facão preso à cintura. Seu rosto trazia aquela mistura rara de juventude e serenidade que encontramos às vezes em pessoas profundamente ligadas à terra e ao rio.
Seu nome era Aruan Karipuna, e logo se mostraria imprescindível para aquela travessia.
Vinha de uma aldeia próxima ao rio Curipi e, segundo Francisco, conhecia os canais da costa e as entradas de rio como quem conhece os corredores de casa. Carregava duas caixas de pesca e um sorriso discreto que aparecia e desaparecia com a mesma rapidez das correntes do rio.
O cais de Macapá era um pequeno teatro de despedidas e partidas. Homens carregavam sacos de farinha, caixas de gelo, redes enroladas. Barcos maiores soltavam motores ruidosos enquanto embarcações menores chegavam carregadas de peixe. No meio daquela coreografia cotidiana, nosso barco recebia os últimos preparativos para alguns dias longe das cidades.
Mateus conferia a lista de mantimentos, além de um grande cesto cheio de frutas e outro de condimentos que eu jamais havia visto antes.
Galões de combustível.
Água mineral.
Arroz, farinha,biscoitos, café,açúcar,sal e peixe seco.
Redes de dormir.
Remédios básicos.
Uma caixa de ferramentas.
Um estojo com rádios individuais de comunicação.
Francisco caminhava pelo convés com gestos tranquilos, verificando as amarras, escutando o motor, tocando a madeira do casco como quem conversa com um velho companheiro de estrada.
Foi então que Olga colocou em minhas mãos um livro já bastante gasto.
“Para a viagem”, disse.
Era Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo, da jornalista Eliane Brum, que há anos acompanha os conflitos e as transformações da Amazônia.
Folheei algumas páginas enquanto o céu clareava. Logo nas primeiras linhas aparecia a palavra banzeiro. No vocabulário amazônico, ela designa o movimento turbulento que grandes embarcações provocam na superfície do rio, ondas fortes que desorganizam a água aparentemente tranquila.
Fechei o livro por um instante.
Talvez aquela viagem fosse também um banzeiro em minha própria vida.
O sol surgia quando soltamos as cordas. O barco afastou-se lentamente do cais e entrou no grande canal do Amazonas. Macapá foi ficando para trás como uma linha baixa de casas, torres e telhados. Em poucos minutos a cidade desapareceu no horizonte e restou apenas o rio.
A água carregava uma força silenciosa. Troncos enormes desciam com a corrente como animais adormecidos. Em certos momentos, o rio parecia mais mar do que rio, largo demais para o olhar poder medi-lo.
Aruan sentou-se na proa e passou a observar a água com atenção. De tempos em tempos apontava algo para Francisco.
Um banco de areia escondido.
Um tronco submerso.
Uma mudança sutil na corrente.
Olga estendeu uma rede sob a cobertura de lona e ali se acomodou. Mateus organizava caixas e equipamentos. O motor seguia constante, empurrando o barco contra a imensidão do canal.
Passei boa parte da manhã olhando o horizonte, deitada na rede azul que me coube. O vento forte batia em meu rosto.
Pensei na longa estrada que me trouxe até ali. Na vida que deixei para trás em Nova Iorque. No jornal que abandonei quando percebi que minhas perguntas já não cabiam em suas páginas. Ali, sobre aquele rio gigantesco, aquelas antigas urgências pareciam menores. Aquele mundo me envolveu completamente.
O Amazonas impunha outra escala.
Ali o tempo não era medido por agendas, discursos ou manchetes, mas por correntes, marés e vento. A própria ideia de pressa parecia absurda naquele cenário onde a água vinha atravessando o continente desde os Andes até o Atlântico.
Em alguns momentos eu voltava ao livro. Lia algumas páginas e levantava os olhos para o rio. Era estranho perceber como aquelas palavras pareciam dialogar diretamente com o mundo que nos cercava.
As frutas nos acolhiam quando a fome e a sede apareciam.
O calor cresceu ao longo da tarde. O sol caiu pesado sobre a superfície barrenta do rio. Francisco diminuiu a velocidade em certos trechos onde a água ficava mais rasa. Aruan observava o comportamento das aves e a cor da corrente para indicar o caminho mais seguro.
Foi no meio da tarde que surgiram as primeiras ilhas.
No horizonte apareceram manchas verdes suspensas sobre a água. O arquipélago do Bailique começava ali, uma constelação de ilhas baixas cobertas por vegetação espessa e cortadas por canais sinuosos.
Francisco apontou para uma abertura estreita entre duas faixas de mangue.
“É por ali.”
O barco deixou o grande canal do Amazonas e entrou num braço de rio mais calmo. O vento diminuiu e a água ficou mais escura. Casas de madeira de cores vibrantes começaram a surgir sobre palafitas, erguidas acima da maré. Uma imagem bela e inesperada, onde as casas dos ribeirinhos pareciam integrar-se à paisagem como parte natural daquele paraíso.
Uma grande emoção tomou conta de mim. Escondi dos outros as lágrimas.
Crianças brincavam na beira da água. Cães latiam com a aproximação do barco. Um grupo de pescadores levantou a mão em cumprimento.
A pequena comunidade se chamava Vila Progresso, uma das aldeias do arquipélago.
Francisco encostou o barco num cais simples de madeira. O motor foi desligado e, pela primeira vez desde a manhã, o silêncio se impôs com clareza.
O rio continuava correndo devagar ao redor das casas enquanto o sol se punha lentamente.
Armamos as redes no convés enquanto Mateus acendia um pequeno fogareiro para preparar peixe com farinha. Olga conversava com algumas mulheres da comunidade e Aruan desapareceu por alguns minutos antes de voltar trazendo dois peixes que havia conseguido com pescadores da vila.
A noite caiu rápida, como acontece na Amazônia, e o cheiro de peixe frito tomou o ambiente.
Sentada na borda do barco, observei o céu escuro se encher de estrelas. O ar estava quente, úmido e cheio de sons invisíveis vindos da floresta e da água.
Abri novamente o livro e li algumas linhas à luz fraca de uma lanterna. Ao lado, ouvia as conversas de meus parceiros de viagem. Uma grande tranquilidade parecia nos envolver.
Pensei que aquele era apenas o primeiro dia da travessia.
E que o rio imenso diante de nós ainda guardava muitos caminhos antes de chegarmos ao Oiapoque.
Macapá, meio do mundo, março de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários