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O ensaio de Danton Rosado interpreta as eleições de 2026 como continuidade da polarização entre direita e socialdemocracia, ambas subordinadas à ordem capitalista. Argumenta que essa disputa encobre uma unidade estrutural baseada na manutenção da república burguesa e da lógica do valor. Ao recuperar o golpe de 1964 e o papel das elites, sustenta que o sistema político apenas administra a crise do capital. A contenção do bolsonarismo aparece como ajuste interno dessa ordem. O autor critica a crença no desenvolvimento econômico como solução e aponta para a crise do sistema produtor de mercadorias. Como resposta, defende o voto nulo e a necessidade de alternativas ao capitalismo.
“As visões se clareando, até que um dia acordei… porque gado a gente mata, tange, ferra, engorda e mata… mas com gente é diferente!”
Geraldo Vandré, dos anos 60…
Eleições 2026, mais do mesmo- um ensaio de Dalton Rosado
Novamente se coloca diante de todos os brasileiros um filme já antigo que vem se repetindo mais intensamente neste início de primeiro século do terceiro milênio: trata-se da polarização eleitoral entre a direita e a socialdemocracia (menos ou mais reformista), que se entrelaçam numa conciliação governamental e de classes com suporte em um parlamento tradicionalmente conservador e a alta cúpula do judiciário politicista.
O Brasil tem uma característica singular: uma perigosa natureza liberal clássica morena (de umlaissez faire particular) da sua elite.
Foi ela que se uniu contra as reformas de base de João Goulart dando azo a uma orquestração militarista que o depôs e que fora planejada desde os Estado Unidos nos anos sessenta das tensões mais agudas por aqui vividas em face da guerra fria agudizada com a revolução cubana.
Foi assim, de mãos dadas com setores conservadores da Igreja Católica, latifundiários e o emergente empresariado nacional que ocorreu um golpe militar quase consensual, algo muito parecido com o grito de independência de D. Pedro I no riacho de Ipiranga diante das suas margens plácidas para uma meia dúzia de participantes.
Só depois, num golpe dentro do golpe no final da década de 60, com o famigerado AI-5, é que setores militares mais recalcitrantes e embriagados pelo poder que viam fugir das suas mãos, montaram o esquema de torturas e mortes dos opositores e do falso “milagre brasileiro” e assim mesmo numa dimensão menor do que as que ocorreram na Argentina e no Chile, sem que se queira aqui diminuir a gravidade da ignomínia covarde de figuras como o Coronel Brilhante Ustra, ora representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro e sua turma de miliciantes.
Foram as domingueiras bolsonaristas de orientações fascistas desde o “filósofo” Olavo de Carvalho (que me perdoem os discípulos de Sócrates pela inclusão deste nome entre eles) a pedir a volta do AI-5, o fechamento do Congresso (dominado pela elite desde o Império até os dias de hoje), do STF, dos militares linha dura ao poder político, etc., que fizeram a experiente elite política brasileira, serviçal de um capitalismo retrógrado, com o apoio e beneplácito do judiciário, a purgar os pecados dosescândalos do Mensalão e da Operação Lava Jato e suas flagrantes irregularidades processuais, e trazer Lula ao páreo eleitoral como figura confiável da ordem democrática burguesa capaz de conter a direita megalomaníaca que destoa da tradição elitista e sub-repticiamente conservadora brasileira.
As recentes tentativas de golpe de Estado da direita neonazista foram barradas pela elite brasileira que com apoio de setores militares antenados como o sentimento institucional elitista e respaldo do Judiciário, pôde conter os impulsos golpistas; o Brasil desde muito tempo não precisa ter lua de mel com lençol manchado de sangue para comprovar a sua estabilidade político-constitucional.
Lula serve ao capitalismo atual em crise mais do que modelos intempestivos, megalomaníacos e narcisistas como o autocrata Donald Trump que somente apressam a derrocada do sistema produtor de mercadorias com colapso anunciado.
A elite brasileira sabe disso, e é por isso que Flávio Bolsonaro quer se apresentar como a versão “paz e amor do filho do papai”, ou seja, como a dizer: “senhores da elite brasileira, confiem em mim; eu não quero matar 30.000 subversivos; não preciso de cabo e soldado para fechar o STF; eu,meu pai, meus irmãos e toda a família somos políticos de há mais de 30 anos vivemos dela; somos do e no sistema e nunca fui um outsider; rasguei a camiseta com foto do meu BRILHANTE ídolodeslUSTRAdo; revoguei os títulos dos meus milicianos por mim condecorados, etc.,etc., etc.”
Diante disso, como fica alguém que é crítico da economia política com base nas reflexões marxianas; estudioso da macroeconomia depressiva da terceira revolução industrial da microeletrônica/cibernética; denunciador de uma ordem político/econômica promotora da guerra que assassina vidas civis seja por bombas ou pela fome, destrói residências, edifícios, pontes, estradas, escolas, trens, caminhões e demais veículos, navios mercantes, etc., etc., etc.???
A opção é negar o voto como forma de protestoda farsa eleitoral que já se expressa no grande número de abstenções e votos nulos que cresce a cada dia apesar das intensas campanhas midiáticas oficiais conclamando ao voto e sob punições de vários tipos (multas, restrição a concurso público, obtenção de passaporte internacional, etc.).
Não aceito o enquadramento eleitoral restritivo empírico de seguir caminhando de cabeça baixa rumo ao matadouro como gado e me dou o direito de um pensar alternativo que elaboro por conta de que ambos os projetos eleitorais se assentam sobre uma identidade de base insustentável: o capitalismo.
Por sua vez o eleitor, acostumado a raciocinar pelo bolso, tem nos altos e baixos da economia o termômetro de avaliação da boa ou má governabilidade, como se tudo dependesse da qualidade de uma ação governamental e como se o capitalismo fosse um dado ontológico, útil e insuperável da existência humana, tal como a necessidade de se tomar água ou comer os alimentos.
Os candidatos, sabendo disso, defenderão a retomada do desenvolvimento econômico de um lado oposicionista, ou a melhoria das relações econômicas sob seu comando, de outro ladogovernista, sem que todos (candidatos e eleitores) se apercebam de que não há possibilidade de se superar as dificuldades sociais cada vez mais agudas sem se superar o sistema produtor de mercadorias, ou seja, sem que se extirpe o mal em si, de base, capitalista, que faz a mediação social e que é causa dos males socias e da falta de atendimento das necessidades de consumo (com reflexos significativos na moral decadente por ele patrocinada).
É incômodo discordar das verdades eleitorais estabelecidas apesar de que elas se desnudam facilmente tal como uma vestimenta de papel diante da chuva; é incômodo (e por vezes até perigoso) desafiar o coro dos contentes que se digladiam alternativamente em situação e oposição no exercício de um subpoder político sem soberania de vontade: a república burguesa serviçal do capitale do seu mercado, o verdadeiro e absolutista poder social.
Mas para quem desafiou a ditadura militar, combatendo nas trevas (para usar uma expressão deJacob Gorender) por compreensão e sentimento anticapitalista, não há por que se aceitar o comodismo de se votar no ruim por medo do péssimo sem denunciar o gosto amargo dessa escolha emparedada; a busca do melhor é a referência norteadora para sairmos dessa camisa-de-força.
O capitalismo mundial vive um processo de depressão e guerras e o processo eleitoral mais parece a discussão sobre o tratamento de uma inflamação de unha cravada num corpo em processo de septicemia; daí o porquê de tanta abstenção de voto (mesmo obrigatório), votos nulos e incredulidade eleitoral cada vez mais acentuada de que falamos.
A República burguesa apresenta um escândalo atrás do outro sem que ninguém faça autocrítica da decomposição orgânica de sua estrutura.
Agora assistimos a uma metástase de corrupção em todos os poderes praticadas por um espertalhão estelionatário assassino, Daniel Vorcaro, que percebeu a ganância e dependência dos figurões institucionais ao dinheiro e extrapolou o crime em si da atividade bancária para praticar um estelionato de R$ 60 bilhões (são 600 mil casas populares do programa habitacional “minha casa, minha vida”, uma grande cidade, capaz der abrigar 2,5 milhões de favelados), corrompendo as mais altas autoridades da República e lhe abrir as portas do crime.
Será que diante de tudo isso não podemos sequer pensar numa forma de estruturação socialalternativa ao sistema produtor de mercadorias; será que o nosso pensar está de tal forma condicionado a ponto de aceitarmos tudo sem aprender a dizer NÃO e ver a morte sem chorar???
Não! Eu vivo pra consertar!
Fortaleza, março de 2026
Dalton Rosado.

Dalton Rosado é carioca do Rio Comprido,advogado, escritor, articulista de blogs e jornais, e desde longa data atuou contra a ditadura militar. Foi fundador do PT e do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza.
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Os textos, estão muito bem escritos e sinceramente, só de pensar que um Flávio Bolsonaro, pode vir a ser eleito, me dá uma dor no peito. Não merecemos tamanho retrocesso, sócio- político.