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Este ensaio de Paulo Baía analisa as eleições de 2026 como expressão da crise das mediações políticas no Brasil, diante das transformações do trabalho, da comunicação e das desigualdades. Nesse contexto, para o autor, a polarização e o medo reduzem a democracia a escolhas defensivas em um cenário global instável e marcado por tendências autoritárias. Ainda assim,ele identifica a persistência de um desejo democrático presente nas práticas sociais, apontando para a necessidade de uma Democracia Radical baseada na participação efetiva e na reconstrução das formas de representação.

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As eleições gerais de 2026 no Brasil: entre o colapso das mediações e a persistência do desejo democrático-um ensaio de Paulo Baía
Outubro de 2026 não chega como rotina. Chega como encruzilhada. O Brasil entra na eleição carregando mais do que candidaturas, alianças e slogans. Carrega um cansaço antigo, uma inquietação difusa, uma sensação de que a política, do jeito que foi construída, já não dá conta da vida como ela é vivida nas ruas, nos bairros, nas periferias, nos interiores esquecidos e nos centros saturados. Há algo quebrado. E não é pouca coisa.
A política que organizava o país perdeu o chão. Os partidos, que antes davam nome aos conflitos, hoje muitas vezes só administram interesses imediatos. Falam muito, significam pouco. Os sindicatos, atravessados pela precarização do trabalho, pelas transformações produtivas aceleradas e pela automação crescente em praticamente todos os setores, tentam representar um mundo que se reorganiza em velocidade brutal.
A inteligência artificial já não é promessa. É presença concreta, reorganizando ocupações, redefinindo competências, ampliando desigualdades e deslocando milhões de trabalhadores para zonas de incerteza. Os movimentos sociais resistem, seguem produzindo luta, mas enfrentam desgaste, perseguição e dispersão. As ONGs, que ocuparam espaços importantes, também vivem tensões, ora pressionadas, ora capturadas, ora distantes da vida concreta que dizem representar.
E há ainda um outro deslocamento profundo. As transformações comunicacionais alteraram radicalmente as teias de sociabilidade. As redes digitais ampliaram vozes, democratizaram acessos, criaram novas formas de expressão. Mas também fragmentaram o espaço público, intensificaram bolhas, espalharam desinformação e aceleraram conflitos. A comunicação se tornou instantânea, emocional, muitas vezes agressiva. O debate público perdeu densidade. Ganhou velocidade. E, nessa velocidade, perdeu capacidade de escuta.
E, dentro desse campo, um fenômeno precisa ser dito com clareza. Em certos momentos, o exagero identitário distorce a realidade da vida vivida. Transforma experiências legítimas em discursos rígidos, pouco permeáveis, que não dialogam com a complexidade do cotidiano popular. A vida real não cabe em categorias estreitas. O povo brasileiro é mistura, é contradição, é ambiguidade. Quando a política ignora isso, ela se afasta. E quando se afasta, perde força.
As mediações tradicionais estão em frangalhos. E, no lugar delas, o que cresce é uma polarização intensa, quase sufocante. Ela é real. Ela nasce de experiências sociais que não se encaixam. De um lado, quem viveu ou reconhece ganhos concretos em ciclos de inclusão, acesso e dignidade. De outro, quem sente que perdeu espaço, segurança ou reconhecimento. São mundos que se olham com desconfiança, quando não com hostilidade.
Mas essa polarização também é falsa. Ela simplifica demais. Reduz o país a dois campos duros, que não se escutam. Obriga a escolha entre opções que, muitas vezes, não conseguem dar conta da complexidade do Brasil. É uma armadilha. Organiza o conflito para impedir que algo novo surja. Mantém tudo girando no mesmo lugar, como se fosse impossível inventar outro caminho.
E, nesse cenário, o medo tomou conta da política. O medo virou idioma nacional. Medo de não conseguir pagar as contas. Medo da violência que atravessa o cotidiano. Medo de perder direitos. Medo do autoritarismo. Medo do colapso ambiental que já bate à porta com enchentes, secas, calor insuportável. Medo de guerras distantes que encarecem a vida aqui dentro. Medo de perder o trabalho para uma máquina, para um algoritmo, para uma lógica produtiva que não reconhece o humano. Medo do outro, sempre do outro.
O medo organiza discursos, campanhas, estratégias. Ele é usado, calculado, manipulado. E funciona. Porque o medo mobiliza rápido, cola fácil, gruda na pele. Mas ele tem um limite. O medo não cria. O medo não constrói. O medo só empurra para trás.
Quando a eleição vira uma escolha entre dois medos, a política encolhe. Vota-se para evitar o pior. Nunca para afirmar o melhor. É uma escolha amarga. Um cálculo de danos. A democracia fica pequena, quase sem ar. Sobrevive, mas não respira plenamente.
E tudo isso acontece em um mundo que também está em tensão. As guerras em curso reorganizam o tabuleiro global. Produzem insegurança, deslocamentos, aumento de preços, instabilidade. A crise climática não é mais previsão, é experiência concreta. A água falta onde sempre houve. A chuva destrói onde antes alimentava. O clima enlouqueceu, e isso muda tudo. A política não consegue mais ignorar.
Nesse ambiente, cresce uma onda autoritária que atravessa países. Discursos duros, simplificadores, que prometem ordem, controle, punição. No Brasil, isso aparece com força. Em outros lugares também.
A democracia passa a ser vista como problema, não como solução. E essa inversão é perigosa, porque oferece respostas fáceis para questões difíceis.
Mas o Brasil não é só isso. Nunca foi. Há algo que insiste. Um movimento subterrâneo, quase teimoso. Um desejo de vida que não desaparece. Ele não está organizado em um grande projeto único. Não tem dono. Mas está espalhado.
Está na memória de quem viveu momentos de ampliação de direitos e não esqueceu o que isso significa. Está nos movimentos populares que seguem firmes, mesmo com poucos recursos, organizando comunidades, criando redes de apoio, inventando saídas. Está nas iniciativas locais, nas cooperativas, nas associações, nos coletivos que fazem política sem necessariamente chamar assim.
Esse desejo também aparece na persistência de quem não abandona a política. Gente que se irrita, que desconfia, que critica, mas que continua participando. Continua votando. Continua discutindo. Continua tentando. Isso não é pouca coisa. É sinal de que algo ainda pulsa.
É nesse terreno que a Democracia Radical se coloca como necessidade. Não como slogan, mas como prática. Radical porque precisa ir à raiz. Radical porque não pode aceitar soluções superficiais. Radical porque exige reinventar a forma como o Brasil decide sobre si mesmo.
A Democracia Radical pede mais do que eleição. Pede participação real, contínua. Pede reconstrução das mediações, mas com outra lógica, mais aberta, mais conectada com a vida concreta. Pede escuta. Pede conflito produtivo. Pede coragem para enfrentar desigualdades históricas sem reduzir a complexidade social a fórmulas prontas.
Ela também exige deslocar o eixo da política. Tirar o medo do centro. Colocar o desejo no lugar. Não um desejo abstrato, mas um desejo ancorado na vida real. Desejo de viver melhor. Desejo de ter dignidade. Desejo de pertencer. Desejo de futuro.
As eleições de 2026 não vão resolver tudo isso. Não têm esse poder. Nenhuma eleição tem. Não existe partido salvador. Não existe campanha milagrosa. Não existe acordo de cúpula que reorganize o país de cima para baixo.
Mas elas podem ensinar. Podem mostrar, para quem quiser ver, que o modelo atual está esgotado. Que o medo, apesar de forte, não sustenta tudo. Que existe uma energia social que ainda não foi totalmente capturada.
O Brasil está diante de si mesmo. Com suas contradições, suas dores, suas potências. Entre o medo que paralisa e o desejo que insiste. Entre a repetição do que já não funciona e a invenção do que ainda não existe.
É nesse intervalo que a política pode renascer. Não como espetáculo vazio. Não como disputa de marketing. Mas como construção viva. Como experiência coletiva. Como criação de futuro.
E há mais. Esse desejo de vida não é apenas resistência silenciosa. Ele também é conflito, é disputa, é afirmação. Ele se expressa nas pequenas insubordinações do cotidiano, na recusa em aceitar a vida diminuída como destino. Ele aparece quando alguém organiza um grupo, quando uma comunidade se levanta, quando a solidariedade rompe o isolamento. Não é abstrato. É concreto, cotidiano, vivido.
Esse desejo de vida também carrega contradições. Nem sempre sabe para onde ir. Às vezes é capturado por discursos que prometem solução fácil, inclusive por narrativas tecnológicas que vendem eficiência sem perguntar quem paga o preço. Às vezes se dispersa. Às vezes se cansa. Mas não desaparece. Ele insiste porque está ligado à própria experiência de existir, de querer mais, de recusar a lógica da escassez permanente e da ameaça constante.
Talvez o maior ensinamento dessa eleição seja esse. O Brasil não é apenas o país do medo. É também o país do desejo de vida. E enquanto esse desejo continuar pulsando, mesmo que fragmentado, mesmo que confuso, ainda haverá possibilidade de reconstrução. Ainda haverá política no sentido mais forte da palavra. Ainda haverá futuro.
Rio de Janeiro, abril de 2026
Paulo Baía

Paulo Baía é Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ