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Neste ensaio Paulo Baía analisa o clima eleitoral como um espaço de distorções entre percepção e realidade, onde pesquisas viram alvo de disputa simbólica. Segundo ele, a apresentação dos dados revela uma sociedade fragmentada. O livro O Brasil no Espelho, obra que para ele é referência, mostra um país plural e dividido, com crescente influência religiosa reorganizando a confiança social e política.As pesquisas, portanto, são essenciais para confrontar o real — ainda que incômodo — e expõem o desafio central: reconhecer o Brasil como ele é realmente.

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Entre números e crenças: a difícil arte de reconhecer o Brasil que existe- um ensaio de Paulo Baía
Com o mês de outubro se aproximando, com abril, maio e junho marcando o início e a intensificação das campanhas eleitorais para deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República, o país entra mais uma vez naquele estado febril em que tudo parece decisivo e, ao mesmo tempo, tudo parece distorcido. As pesquisas eleitorais se multiplicam, surgem novos institutos, metodologias são comparadas, margens de erro são discutidas como se fossem armas retóricas. O ambiente se adensa. E, nesse contexto, ouvir alguém dizer “pesquisamos” não é apenas uma bobagem ou uma infantilidade política. Em muitos casos, é uma tentativa quase íntima de não sofrer. É uma forma de proteger a própria crença contra a evidência. Em outros, é algo mais duro. É má fé. É cinismo. É a recusa deliberada do real.
Escrevo isso não como observador distante, mas como alguém que há décadas transita entre a sociologia, a política e a escuta atenta das ruas. Há algo de intensamente revelador nesse gesto de negar a pesquisa. Ele diz menos sobre o número e mais sobre o sujeito. Ele revela o desconforto de uma sociedade que perdeu, em grande medida, a capacidade de se reconhecer no que vê. E é exatamente nesse ponto que O Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, se torna uma obra indispensável
Não se trata apenas de um livro sobre opinião pública. Trata-se de um esforço rigoroso, sustentado por dados e leitura fina da realidade, para compreender o que o Brasil se tornou. Ou melhor, os Brasis que passaram a coexistir. A força do livro está em sua capacidade de nos obrigar a encarar algo que preferiríamos evitar. As pesquisas não são projeções de desejo. Elas são fotografias de um momento. E o momento nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos que fosse.
Há uma dimensão quase estética na forma como o autor organiza os dados. Não estética no sentido ornamental, mas no sentido de composição. Cada número é colocado no lugar certo, cada tendência é contextualizada, cada variação é interpretada com cuidado. E o que emerge dessa composição é um país fragmentado. Não apenas dividido politicamente, mas estruturado por camadas distintas de percepção, confiança e sentido.
O Brasil aprendeu a fazer pesquisas com uma competência admirável. Isso precisa ser dito sem hesitação. Poucos países conseguiram desenvolver, com tanta consistência, um aparato de sondagem amostral tão sofisticado. O survey, enquanto instrumento, atingiu aqui um nível de precisão que merece reconhecimento. Amostras bem desenhadas, estratificação cuidadosa, leitura estatística consistente. Há talento, há método, há ciência. E, ainda assim, o resultado é frequentemente colocado sob suspeita. Não por falha técnica, mas por incompatibilidade simbólica.
O problema não está no número. Está no olhar que o interpreta.O que mais me chama atenção na leitura do livro é a maneira como o sentimento religioso atravessa toda a análise. Não como tema isolado, mas como eixo estruturante. A religião, no Brasil contemporâneo, não é apenas uma esfera da vida social. Ela é uma gramática. Ela organiza a forma como as pessoas entendem o mundo, julgam comportamentos, escolhem líderes. Ela oferece respostas onde o Estado falha em oferecer presença. E isso não é uma abstração teórica. Isso aparece com clareza nos dados.
Quando se observa que cerca de 73 por cento dos brasileiros confiam na Igreja Católica e 65 por cento nas igrejas evangélicas, enquanto partidos políticos ficam na casa dos 36 por cento e o Congresso em torno de 45 por cento, não estamos diante de uma curiosidade estatística. Estamos diante de um deslocamento de legitimidade. Algo se moveu. Algo mudou de lugar. A confiança, que deveria sustentar o edifício institucional, encontra-se ancorada em outro campo.
E aqui é preciso cuidado. Não se trata de condenar a religião. Seria um erro grosseiro. A religião oferece pertencimento, acolhimento, sentido. Ela organiza a vida em contextos de incerteza. Ela cria comunidade onde há fragmentação. Mas, ao mesmo tempo, ela redefine o terreno da política. Quando a moral religiosa passa a orientar a escolha eleitoral, quando o voto se torna expressão de uma identidade moral, a política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa de mundos.
Eu vejo isso nas falas cotidianas. Vejo isso nas conversas aparentemente simples. A economia, por exemplo, já não é percebida apenas pelos seus indicadores. Ela é filtrada pela crença. Um mesmo dado pode ser interpretado de formas opostas, dependendo do lugar de fala, da identidade política, da adesão moral. O real se torna maleável. Ou melhor, o real se fragmenta.”
E então voltamos às pesquisas.
O eleitor que responde a um questionário não é um sujeito neutro. Ele carrega consigo uma história, uma fé, uma experiência de vida, uma rede de relações. Ele responde a partir de um lugar. E esse lugar é cada vez mais marcado por pertencimentos fortes. A pesquisa capta isso. Ela traduz essa complexidade em números. Mas o número, ao chegar ao debate público, é imediatamente reprocessado pelas mesmas forças que o produziram..
Há algo quase trágico nisso. A pesquisa revela a fragmentação. A reação à pesquisa reforça a fragmentação.
Eu insisto nesse ponto porque ele me parece central. A recusa em aceitar o dado não é apenas um erro analítico. É um sintoma social. É a expressão de um país que se tornou incapaz de estabelecer um mínimo comum de realidade compartilhada. Cada grupo constrói sua narrativa, seleciona suas fontes, valida suas crenças. E, nesse ambiente, a pesquisa se transforma em objeto de disputa.
Mas é justamente por isso que ela é tão necessária.
Sem pesquisa, o debate público se dissolve em opinião pura. Sem método, não há parâmetro. Sem evidência, não há confronto possível com o real. O que resta é o ruído. E o ruído, como sabemos, favorece sempre as posições mais estridentes.
O livro de Felipe Nunes tem o mérito de recolocar a pesquisa no lugar que lhe cabe. Nem mais, nem menos. Ela não é verdade absoluta. Mas também não é ficção. Ela é um instrumento. E, como todo instrumento, exige leitura adequada. Exige interpretação. Exige disposição para aceitar que o mundo pode não ser como imaginamos.Talvez seja esse o ponto mais difícil. Aceitar que o Brasil real não coincide com o Brasil desejado.
Eu diria, com alguma convicção, que entre 60 e 70 por cento dos brasileiros vivem hoje sob uma lógica em que a religião oferece mais orientação do que as instituições legais. Isso não significa rejeição da lei. Significa hierarquia de sentido. A lei organiza. A religião orienta. E, em tempos de incerteza , a orientação tende a prevalecer sobre a organização.
Isso tem consequências diretas para a política. A figura do líder ganha centralidade. A linguagem se simplifica. A emoção substitui a mediação. A polarização deixa de ser apenas ideológica e se torna afetiva. O outro não é apenas adversário. É ameaça.
E, no meio disso tudo, as pesquisas continuam sendo feitas. Com rigor. Com método. Com precisão.
Talvez o maior elogio que se possa fazer a O Brasil no Espelho seja este. Ele não cede à tentação de agradar. Ele não ajusta o dado ao desejo. Ele sustenta o desconforto. Ele nos obriga a olhar. E olhar, em um país que se acostumou a desviar o olhar, já é um gesto político relevante.
Escrever sobre isso não é simples. Porque, no fundo, estamos falando de nós mesmos. Estamos falando da dificuldade de aceitar o que somos. Estamos falando da distância entre aquilo que acreditamos ser e aquilo que os dados mostram que somos.
E talvez seja por isso que tantos rejeitam a pesquisa. Porque ela não é apenas um número. Ela é um espelho incômodo. Não porque distorce, mas porque revela.
Rio de Janeiro, abril de 2026
Paulo Baía

Paulo Baía Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ
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