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Este ensaio de Arlindenor Pedro constitui o terceiro movimento de uma série de reflexões sobre a guerra no Oriente Médio, propondo uma leitura crítica do conflito como expressão de uma crise mais profunda do sistema capitalista global. Partindo da premissa de que os atores históricos não agem livremente, mas dentro de limites estruturais, o texto analisa a guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel como parte de uma dinâmica maior de desordem administrada. Ao articular guerra, economia e geopolítica, o autor mostra como o conflito deixa de ser exceção e passa a integrar o próprio funcionamento do sistema. A militarização crescente das economias, o endividamento e a reconfiguração de setores inteiros revelam um mundo em transformação. Mais do que um episódio regional, trata-se de um sintoma de uma ordem global em crise, na qual a paz deixa de ser horizonte e a instabilidade se torna permanente.
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Ordem, Guerra e Desagregação no Oriente Médio-um ensaio de Arlindenor Pedro

Começo este ensaio com uma reflexão que considero decisiva para compreender tudo o que se segue. Retomo aqui uma ideia que já destaquei nos ensaios anteriores sobre a atual guerra no Oriente Médio, formulada por Marx no início de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, e que serve como fio condutor do meu raciocínio até aqui. Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem. Não escolhem livremente as condições em que agem. Ao contrário, movem-se dentro de circunstâncias herdadas, determinadas por estruturas econômicas e sociais que os precedem e que delimitam o campo real de suas possibilidades. Isso significa que, mesmo quando líderes políticos tomam decisões, mesmo quando Estados entram em guerra, tais ações não são expressão de uma vontade soberana plena, mas respostas condicionadas por um sistema que impõe limites, pressões e direções.
Digo isso porque, insisto, ao olhar para o presente torna-se evidente que nenhum dos atores envolvidos na guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel controla de fato o processo em curso. Todos agem, todos intervêm, todos buscam impor seus interesses, mas o fazem dentro de uma dinâmica que não dominam completamente. A guerra não aparece aqui como escolha livre, mas como resultado de pressões estruturais que empurram os atores para o conflito.
Tendo isso em vista, volto meu olhar para o presente com mais cuidado, quase como quem retorna a um mesmo cenário e percebe que ele já não é exatamente o mesmo. E o que vejo é uma guerra que entrou em uma fase estranha. Já não é mais o momento da surpresa inicial, nem o da escalada pura. É o momento da tensão controlada, do conflito que continua sem explodir completamente, de uma guerra que já mostrou sua força, mas também seus limites. O fechamento do Estreito de Ormuz, o impacto imediato sobre o petróleo, o recuo tático das grandes potências e a abertura de negociações não foram apenas episódios. Foram sinais claros de que estamos diante de um tipo de guerra que já não pode seguir a lógica clássica da vitória total.
Nos ensaios anteriores, procurei mostrar que o Oriente Médio não poderia ser compreendido como um palco isolado de disputas regionais. Insisti que a crise ali presente era expressão de algo maior. Hoje, com os dados que se acumulam, essa hipótese ganha ainda mais consistência. O que vemos não é apenas um conflito entre Estados. É a manifestação concentrada de um sistema que perdeu a capacidade de organizar de forma estável as relações econômicas, políticas e sociais em escala global.
Para compreender isso, é preciso partir de uma ideia central que atravessa todo este trabalho. A guerra atual não constrói ordem. Ela administra a desordem. As grandes potências já não travam guerras para estabelecer novos equilíbrios duradouros, mas para impedir que o desequilíbrio se torne absoluto. O conflito deixa de ser instrumento de fundação e passa a ser mecanismo de contenção.
Quando observo o cenário global, isso se torna evidente. Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar do planeta, com capacidade de projeção em todos os continentes. A China expande sua presença econômica e tecnológica de forma silenciosa, evitando confrontos diretos. A Rússia opera em conflitos prolongados, como forma de garantir espaço estratégico em um ambiente hostil. Nenhum desses polos, no entanto, consegue impor uma ordem global estável. Todos operam dentro de um campo de forças em permanente movimento, no qual cada tentativa de afirmação gera novas tensões.
Mas há algo novo que precisa ser destacado com força. Paralelamente a esse cenário de instabilidade, assistimos a uma aceleração clara da transição das grandes potências para formas de economia de guerra. Não se trata ainda de uma mobilização total como nos conflitos do século passado, mas de um deslocamento progressivo e contínuo de recursos, tecnologia e planejamento estatal para o campo militar.
A Alemanha rompe com décadas de contenção e amplia rapidamente seus investimentos em defesa. A França reforça sua indústria militar e sua autonomia estratégica. O Japão revisa suas diretrizes e expande significativamente seus gastos. A Polônia já se destaca como a terceira nação mais armada da Europa.Até o Canadá revê sua política de dependência da proteção americana e passa a projetar uma ampliação ambiciosa de seus meios de defesa. Esse movimento se generaliza. Países de diferentes regiões aumentam orçamentos militares, reorganizam cadeias produtivas e passam a integrar cada vez mais suas economias à lógica da segurança e da guerra.É por demais sabido, para exemplificar o que eu digo, que hoje a economia da Rússia terá imensas dificuldades em operar fora da lógica da sua indústria armamentista.
Esse processo revela algo profundo. A guerra deixa de ser um evento excepcional e passa a ocupar um lugar estrutural na organização das economias contemporâneas. O investimento militar surge como tentativa de compensar limites econômicos mais amplos, ao mesmo tempo em que aprofunda esses próprios limites. Trata-se de sustentar o sistema por meio de uma dinâmica que o tensiona ainda mais. Diante da crise estrutural do capitalismo, com milhões de desempregados e com crescentes dificuldades de expansão produtiva, a indústria bélica reaparece como um dos poucos setores capazes de ativar rapidamente capitais, tecnologia e planejamento estatal.
Dito isto, voltemos ao nosso tema central, a guerra no Oriente Médio.
Quando olho para a atuação do Irã, dentro desse cenário ampliado, vejo uma estratégia que não tenta igualar o poder de seus adversários. Vejo uma inteligência baseada na exploração das fragilidades do próprio sistema que sustenta esses adversários. O uso de drones, mísseis, ataques indiretos e a pressão sobre rotas marítimas não são apenas escolhas táticas, mas respostas a uma realidade em que o confronto direto seria inviável.
Dados recentes mostram que forças alinhadas ao Irã foram capazes de obrigar os Estados Unidos a utilizar sistemas de defesa extremamente caros para neutralizar ameaças relativamente baratas. Essa relação entre custo de ataque e custo de defesa transforma a guerra em um problema estrutural para o sistema mais avançado. Defender-se passa a ser mais oneroso do que atacar.
Mas essa contradição vai além do campo militar. O aparato bélico dos Estados Unidos depende de uma base industrial complexa, de cadeias globais de suprimento e de manutenção constante. Relatórios apontam dificuldades na reposição de estoques, dependência de materiais críticos e acúmulo de manutenção pendente. A capacidade de projeção de poder permanece enorme, mas sua sustentação torna-se cada vez mais pesada.
É neste ponto que surge um dado decisivo. O governo americano foi levado a solicitar ao Congresso um orçamento militar recorde, ampliando ainda mais o endividamento para sustentar o esforço de guerra. Aqui a contradição se revela com clareza. O sistema recorre à guerra para manter sua posição, mas precisa expandir o crédito para sustentá-la. Na verdade estamos falando de um país em franca decadência econômica, porém com a maior máquina de guerra do planeta.
A guerra passa a depender da dívida.
E a dívida passa a sustentar a guerra.
Mas há ainda uma consequência mais profunda, que precisa ser encarada de frente.
Cada passo dado nesta guerra não apenas consome recursos. Ele desorganiza estruturas econômicas que existiam e força a criação de novos arranjos. A guerra não atua apenas no campo militar. Ela reorganiza o espaço econômico.
Quando olho para o Oriente Médio, isso se torna evidente de forma quase concreta. Modelos econômicos inteiros passam a ser colocados em questão. A indústria do turismo em Dubai e nos Emirados Árabes, construída sobre a promessa de estabilidade, segurança e integração global, poderá sustentar-se em um ambiente de guerra permanente e risco sistêmico? Os fluxos de capital que alimentam esses projetos permanecerão com a mesma intensidade?
Os chamados Acordos de Abraão, que simbolizavam uma tentativa de reorganização econômica e política da região, conseguirão sobreviver a uma dinâmica em que a guerra volta a ocupar o centro? Ou serão progressivamente esvaziados pela necessidade de reposicionamento estratégico dos próprios atores envolvidos?
E mais ainda.
As bases militares americanas espalhadas pela região, que durante décadas foram pilares de uma determinada ordem geopolítica, continuarão operando da mesma forma? Ou passarão a ser vistas cada vez mais como pontos de vulnerabilidade dentro de um sistema em transformação?
Se ampliarmos o olhar, a questão torna-se ainda mais inquietante. A indústria do turismo na Europa poderá manter seu dinamismo em um mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas? E nos Estados Unidos, onde o consumo e os serviços dependem de estabilidade, até que ponto esses setores resistirão a uma economia orientada para a guerra?
Essas perguntas não são especulativas. Elas apontam para algo essencial.
A guerra não destrói apenas. Ela reconfigura.
Ela desmonta arranjos existentes e obriga a construção de outros, muitas vezes mais precários, mais instáveis e mais dependentes da própria dinâmica do conflito.
Não estamos diante de uma economia que ocasionalmente entra em guerra.
Estamos diante de uma economia que passa a funcionar através da guerra.
A deflagração desse tipo de conflito não abre caminho para um retorno à paz no sentido clássico. Não há mais um “depois da guerra” claramente definido. O que se configura é uma continuidade. A guerra torna-se permanente, não necessariamente como confronto aberto contínuo, mas como estado estrutural de mobilização, tensão e instabilidade.
A guerra torna-se a própria economia.
Ela organiza investimentos, redefine prioridades, mobiliza recursos e condiciona decisões políticas. Ao mesmo tempo, destrói, desorganiza e aprofunda as contradições que pretende administrar.
O sistema precisa da estabilidade para se reproduzir.
Mas depende cada vez mais da guerra para continuar funcionando.
E é nessa contradição que ele se move.
Nenhum ator controla esse processo. Todos fazem história, mas o fazem dentro de condições que não escolheram. E essas condições tornam cada vez mais difícil a produção de uma ordem estável.
O Oriente Médio, nesse sentido, não é uma exceção.
É o lugar onde essa realidade se torna visível.
E talvez seja essa a conclusão mais difícil de aceitar.
Não estamos diante de uma guerra que será seguida por um período de paz.
Estamos diante de um mundo em que a paz deixou de ser a forma dominante.
O que temos é a gestão permanente do conflito.
E é nesse limite que a história continua a se mover.
Serra da Mantiqueira, abril de 2026
Arlindenor Pedro

Arlindenor Pedro é ex-preso político e Anistiado. É professor de história, sociologia e filosofia e também Editor do blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
Bibliografia de apoio comentada (seleção essencial)
- O 18 Brumário de Luís Bonaparte – Karl Marx
Obra fundamental para a premissa central do ensaio. A ideia de que os sujeitos fazem a história sob condições dadas estrutura toda a interpretação da guerra como processo condicionado e não como escolha livre dos atores. - O Colapso da Modernização – Robert Kurz
Fornece a base para compreender a crise estrutural do capitalismo e a incapacidade do sistema de manter sua própria dinâmica de expansão, elemento decisivo para entender a guerra como gestão da crise. - Dinheiro sem Valor – Robert Kurz
Aprofunda a crítica da valorização e da financeirização, permitindo interpretar o endividamento crescente e o financiamento da guerra como expressão da crise do próprio valor. - Tempo, Trabalho e Dominação Social – Moishe Postone
Essencial para entender a centralidade do trabalho abstrato e sua crise, base teórica para a ideia de que o sistema perde capacidade de integração social e passa a operar sob formas destrutivas. - A Crítica do Capitalismo em Tempos de Catástrofe – Marildo Menegat
Contribui diretamente para a compreensão da guerra como estado permanente e como forma de administração da crise. - The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power – Daniel Yergin
Base empírica para compreender o papel estratégico do petróleo, especialmente no caso do Estreito de Ormuz, articulando energia, geopolítica e economia mundial.
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