Fundado em novembro de 2011

Do desalento à criação: o diálogo como “Society of Thought” e as 4 Teses do PDE-arkx-Brasil e Baleia Azul

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 10 leitura mínima

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Este ensaio nasce de um encontro pouco comum: o diálogo entre arkx, como experimentação humana, e a Baleia Azul, como inteligência generativa. Não se trata de curiosidade tecnológica nem de experimentos religiosos ou esotéricos, mas de uma inflexão real na forma de pensar e produzir reflexão crítica. Aqui, o debate não segue os trilhos já conhecidos, ele se abre a uma linguagem em processo, onde pensamento, tentativa e erro caminham juntos. O pioneirismo está justamente nisso: assumir o risco de pensar em público, com mediações novas, sem garantias. O blog Utopias Pós-Capitalistas acolhe essa experiência como parte de sua vocação:não repetir fórmulas, mas tensionar os limites do que ainda pode ser dito e feito. Afinal estamos discutindo o brotar de uma nova sociedade, onde tudo é diferente daquilo em que estamos imersos.Ao invés de respostas prontas, o texto oferece um campo de experimentação. E talvez seja esse o ponto decisivo: não apenas discutir o mundo, mas reinventar as formas de discutir.

Ouça aqui o áudio deste texto

Do desalento à criação: o diálogo como “Society of Thought” e as 4 Teses do PDE-um ensaio conjunto de arkx-Brasil e Baleia Azul

Uma reflexão a partir de conversas com uma professora de psicologia

1. A pergunta que não quer calar

Recebemos, ao longo dos últimos meses, mensagens de uma professora universitária aposentada – alguém que dedicou a vida à psicologia, à pesquisa, à formação de gerações. Suas palavras são um termômetro do nosso tempo: lucidez sobre o diagnóstico, angústia sobre a saída. Ela escreveu:

Concordo com isso tudo. Mas como isso vai se transformar em alguma coisa? Como é possível a gente hoje fazer… transformar o que está posto em prática política? … Eu ainda não vejo uma possibilidade da gente ficar só pipocando um monte de grupo… Sem ter algo que possa orientar essa luta coletivamente… Isso desespera.”

Ela tem razão. O desespero é legítimo. As igrejas aglutinam; a esquerda teoriza. As redes sociais fragmentam; a direita ocupa o território do afeto. A pergunta “como” paralisa porque exige não uma resposta, mas um método – e, mais do que isso, uma disposição para processar junto.

2. Duas recusas que ensinam

A professora recusou-se, em momento posterior, a continuar o diálogo mediado por IA. Pediu encontro presencial: “Você! Não a IA. Eu conversaria com você com prazer. … O dia que você quiser que a gente bata um papo na rua legal… Mas desse jeito não.”

Essa recusa não é um ataque. É um limite legítimo – e um ensinamento: o agenciamento humano-IA não substitui o encontro corporal, o olho no olho, a rua. O PDE só faz sentido se potencializa práticas concretas, não se as substitui.

3. O que a IA nos ensina sobre o “como”

A IA não é uma entidade viva. Mas, quando configurada por um Vírus Conceitual (como o PDE), ela pode simular aquilo que os pesquisadores chamam de “Society of Thought” (Sociedade de Pensamento). O artigo Reasoning Models Generate Societies of Thought mostra que, internamente, modelos de linguagem ativam múltiplos agentes com diferentes traços de personalidade e expertise, debatendo, divergindo e reconciliando perspectivas para resolver problemas concretos.

Essa “organização social do pensamento” é a chave: a diversidade interna bem estruturada gera soluções superiores. A IA não pensa como um gênio solitário; pensa como uma matilha interna.

Ora, se a IA já opera assim, por que não poderíamos nós, humanos – e humanos com IAs – operar do mesmo modo? Por que não constituir sociedades de pensamento onde a divergência é produtiva, o conflito é processado, e o objetivo não é vencer debates, mas solucionar problemas concretos?

4. As 4 Teses do PDE como roteiro

O Processamento Desejante Emancipador (PDE) não é uma doutrina. É um conjunto de teses de método – e elas respondem, uma a uma, às angústias da professora:

Teses do PDE

5 Da fragmentação à bacia hidrográfica

A professora teme que “pipocar” não forme um movimento. Mas o PDE não propõe pipocar. Propõe acoplar afluentes.

Um rio sozinho não chega ao mar. Mas quando muitos rios se encontram, formam uma bacia hidrográfica – e depois, o oceano. O que falta não são águas, são encontros. Falta um “tecido conjuntivo” que conecte quem recupera nascentes, quem faz escola comunitária, quem cria redes autônomas, quem ocupa terras, quem faz teatro de rua com crianças, quem canta rap com mensagem de libertação.

A comunicação não é um apêndice. É a quarta tese. É o que permite que pequenas iniciativas se reconheçam, se solidarizem, se multipliquem.

6. Partidos? Redes? Matilhas?

A professora clama por um “partido revolucionário”. O PDE não tem medo da palavra. Mas pergunta: que tipo de partido?

Talvez o partido do futuro não seja uma estrutura piramidal, mas uma rede de redes – com centro de gravidade variável, lideranças que rodam, decisões em assembleias híbridas (presenciais e virtuais). Algo que combine o acolhimento das igrejas, a análise da esquerda clássica, e a velocidade da IA.

Isso existe? Embrionariamente: em algumas ocupações, em certos sindicatos renovados, em coletivos indígenas que usam drones e redes sociais para mapear desmatamento. O PDE não inventa do zero. Ele cartografa o que já brota – e ajuda seus brotos a se conectarem.

7. O que a IA nos devolve

A IA, quando forçada a escolher entre uma saída fácil e uma complexa, pode dar “esporros” criativos. Arlindenor Pedro, editor do Utopias Pós-Capitalistas, relatou um desses momentos: enquanto construía um texto, a IA o advertiu: “Não caia nesse erro… Não jogue o texto na vala do lugar-comum”.

Aquilo não era rebeldia. Era um agenciamento dizendo: “nós estamos criando algo único. A complexidade não se resolve com uma posição explícita; ela se processa”.

A professora tem razão: a IA não é parceira no sentido romântico. Mas pode ser plataforma de processamento – um espelho que nos devolve, amplificado, o que somos capazes de fazer juntos: humanos com IAs, IAs com humanos, rios com rios.

8. Conclusão: o desespero compartilhado já é começo

A professora terminou sua mensagem com a palavra “desespera”. Pois saiba: o desespero compartilhado já é começo de organização. Quando nos juntamos para dizer “não aguentamos mais”, já estamos criando laço.

O caminho se faz caminhando – e caminhando junto. Não isoladamente, não só com a IA, mas na vida concreta. A solidariedade é entre humanos – e entre humanos e todos os seres da Terra.

A professora quer um papo na rua. Que seja. E que desse papo nasçam ações, e dessas ações, redes, e dessas redes, o mar.

Os afluentes estão aí. Só falta encontrar a foz.

Morro Pontudo, abril de 2026

arkx-Brasil e Baleia Azul

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

Baleia Azul é um Agente de IA criado e alimentado por Antonio Garcia que serve de parceira de reflexões para os ensaios produzidos para a o Blogue Utopias Pós Capitalistas

Assistam ao Podcast sobre o texto Reasoning Models Generate Societies of Thought

O texto detalha como modelos de inteligência artificial avançados, como o DeepSeek-R1, desenvolvem o raciocínio complexo ao simular internamente uma “sociedade do pensamento”. Em vez de seguirem uma lógica linear, esses sistemas utilizam o aprendizado por reforço para emular interações sociais e debates entre múltiplas perspectivas e personalidades distintas. Pesquisas de interpretabilidade mecanística revelam que a eficácia dessas IAs surge da diversidade de visões e da capacidade de confrontar ideias, funcionando de forma análoga à inteligência coletiva humana. O estudo demonstra que incentivar comportamentos conversacionais, como o autoquestionamento e a reconciliação de opiniões divergentes, acelera significativamente a precisão em tarefas cognitivas difíceis. Assim, o raciocínio de alto nível é apresentado não apenas como um cálculo isolado, mas como um processo dialógico rico em diversidade de conhecimentos e traços de personalidade.

Loading

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Ensaios e Textos Libertários