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Sob a Samaúma , Anumã — uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 12 leitura mínima

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Nesta nova crônica, Silvie Armand atravessa uma experiência radical de sua jornada amazônica: o encontro com Anumã e a imersão em um ritual sob a Sumaúma, onde percepção, corpo e pensamento deixam de estar separados. Entre a força da floresta e a memória de um mundo mediado pela mercadoria, ela se vê diante de outra forma de existência — direta, relacional, viva. A aldeia revela uma organização que desafia nossas certezas, enquanto a sombra do garimpo reaparece como ameaça concreta. Ao retornar ao hotel, algo permanece irreversível: não uma resposta, mas uma direção. Esta crônica marca o ponto de inflexão da saga — onde ver já não é suficiente, e viver passa a exigir outra forma de presença.

Ouça aqui o áudio desta crônica

Sob a Samaúma , Anumã — uma crônica de Silvie Armand

Anumã parou diante de mim como se não tivesse caminhado, mas simplesmente surgido. Seu olhar não interrogava, não acolhia, não julgava. Suspendia. Como se algo em mim fosse chamado antes mesmo de saber responder. Não houve palavra. Apenas um gesto. E eu a segui.

Atravessamos a aldeia enquanto o dia nascia sem ruptura. As casas abertas deixavam o ar circular como se não houvesse dentro e fora, e entre a madeira, a palha e o chão batido surgiam sinais discretos de outro mundo que ali não se impunha. Fui percebendo: nada organizava o todo. Nada competia. Era outro modo de tempo. E, de algum modo, para minha surpresa, aquilo me era familiar. Como se já estivesse ali, esperando por mim.

Lembrei então das pedras. Das grandes formações na floresta que toquei na travessia dias antes, da densidade que senti sob as mãos — algo que não era apenas matéria, mas presença acumulada. Agora, ali, o mesmo retorno. Como se eu estivesse novamente diante do que não se explica, apenas se impõe.

Chegamos ao centro.

E lá estava ela.

A Samauma não se apresentava como árvore, mas como eixo. Não dominava o espaço, organizava. Sua copa filtrava a luz como se segurasse o tempo. Ao redor, o círculo já existia. Homens, mulheres, crianças, de mãos dadas, movendo-se num ritmo contínuo que não começava nem terminava. A cerimônia não se iniciava. Ela estava.

Entrei.

E então fui imediatamente arrebatada..

O movimento não começou. Atravessou. O som dos tambores não vinha de um ponto; surgia de todos os lados e de dentro. As flautas não conduziam melodia, sustentavam um campo. Fechei os olhos e permaneci. Sentia o chão, o peso do corpo, o calor das mãos. Nada se perdia. Mas algo se abria. Como se a percepção deixasse de ser limite e se tornasse extensão. Senti a energia passando de mãos em mãos.

A conexão se fez.

As cores não apareciam. Aconteciam. De dentro. Em camadas.

Pensei nas experiências da Europa, nos estados induzidos com o LSD, na tentativa de alcançar algo além. Ali não havia técnica, não havia busca. Eu não estava tentando chegar. Eu já estava. A Samauma deixou de ser forma e tornou-se presença atravessando tudo. Raízes como memória, ramos como possibilidade. Não havia separação clara. E, ainda assim, eu não me perdia.

Não era dissolução.

Era permanência ampliada. Uma luz azulada resplandecia do seu corpo. A vida estava ali.

Ela era eu e eu era ela. Estava com ela e, ao mesmo tempo, estava aqui, ciente dos meus movimentos e da minha memória.

Uma lembrança emergiu. Um livro lido anos antes, estranho demais para ser aceito. Um homem dizendo que a floresta pensa, que os seres falam, que o mundo se sustenta por vozes invisíveis. Na época, li como quem interpreta. A queda do céu, nos dizia o autor, um índio ianomâmi. Ali, compreendi como quem participa. Nada era metáfora. Nada era símbolo. Era. E percebi, com um desconforto silencioso, que talvez o problema nunca tenha estado no que foi escrito, mas no lugar de onde eu lia.

O canto seguia como um sopro único, e foi então que algo em mim mudou de plano. Não mais sensação, mas pensamento nascido da experiência. Nada daquilo era impossível. Apenas estava fora do mundo que conheço. O que nos separa não é ignorância, mas uma forma de vida que interrompe a relação.

A mercadoria, não como coisa para uso, mas como mediação, transformando tudo em valor e afastando a presença, nos afasta dessa relação direta com a natureza. Ali havia relação direta. No meu mundo, tudo precisa passar por equivalências que neutralizam o que é.

Os outros animais não precisam reaprender. Nunca se desconectaram. Nós organizamos a existência a partir dessa ruptura, presos a uma lógica de competição que consome a própria vida. Levamos isso ao extremo quando criamos a lógica do capitalismo, um sistema abstrato que nos domina e rege nossa vida.

Pensei no cérebro, não como órgão, mas como campo. Talvez não seja incapacidade, mas bloqueio. Utilizamos apenas o que esse mundo permite, uma parte ínfima de sua capacidade. Ali não havia esforço para expandir. Havia disponibilidade. E, pela primeira vez, tive a impressão de que a energia humana poderia ser outra, não voltada para acumular, mas para sustentar.

Foi então que Anumã tocou meu braço, me trazendo de volta. Disse pouco, mas o suficiente: aquilo não era caminho nem resposta. Era relação. Aí então eu percebi: relação não se pensa. Se vive, ou se perde. Na verdade eu ainda não sabia pensar coletivamente, e talvez perturbasse o fluxo da conexão.Ela voltou ao círculo como se nada tivesse sido dito. Os tambores me tomaram novamente, junto com todos, de mãos dadas em volta da mãe Samauma.

Quando abri os olhos, o dia já estava pleno. O movimento diminuía sem cessar. As mãos foram se soltando, sem ruptura. A interligação não precisava mais disso. Ela agora se dava diretamente. A cerimônia não terminava. Se espalhava.

Caminhamos.

A aldeia se revelava como continuidade do que eu havia vivido. As casas, os gestos, os tempos, tudo sustentado por uma lógica que não separava o antigo do presente. A tecnologia reaparecia, integrada: painéis, antenas, dispositivos usados sem capturar o tempo. Nada negava o mundo de fora. Nada se submetia a ele. Mas havia a clara conexão com o exterior. A internet funcionava plenamente.Éramos uma célula de uma imensa rede. Um pequeno ponto de luz conectado a outros, numa escuridão que caía sobre o planeta.

Percebi então que não havia centro. Nem ausência dele. Havia conexões. Linhas vivas, decisões que se formavam no movimento, acordos que surgiam da escuta. Tentei compreender, organizar, dar forma ao que via. Fui percebendo, sem que ninguém me explicasse: a aldeia fazia parte de um sistema, de uma ampla rede de conexões, sem centro definido. Como um rizoma gigante.

Foi então que um índio mais velho se aproximou. Disse apenas que eu via muito, mas juntava tudo como uma coisa só. Era preciso cuidado: nem tudo se liga o tempo todo. Nem sempre. Às vezes demora. Às vezes não. Aquilo não era sem caminho. Só não tinha um único caminho. Falou isto, e se foi, desaparecendo na névoa da manhã.

Algo em mim cedeu.

Seguimos.

Paramos diante de um grupo reunido em torno de um painel solar. Discutiam onde instalá-lo. Não havia debate. Havia tempo. Um apontava a luz, outro o vento, outro o uso, outro o caminho das pessoas. Ninguém decidia. E, no entanto, a decisão se formava. Não em um ponto, mas no entre. Não por imposição, mas por ajuste.

Ali compreendi que aquilo não era modelo.

Era prática.

Continuamos até a borda da aldeia, onde Anumã e o cacique aguardavam. Disseram pouco. O suficiente para deslocar. Percebi então que aquele era o momento decisivo da visita.

A tarde já havia caído.Sentamos próximos ao rio. Ela me disse: você não viu tudo ainda, mas já é o bastante. Levaria algo. Mas não tudo. E o que levasse, precisaria cuidar. Então concluiu, olhando fixamente: o que você viu e viveu — e mesmo o que não chegou à sua consciência — é muito frágil. É grande a força de nosso inimigo. O futuro ainda não está dado. Um movimento em falso, e tudo pode desaparecer.

Partimos.

A voadeira avançou pelo rio guiada por um jovem índio , e o mundo foi se reorganizando ao contrário. Iara ficou na aldeia. Passamos pelas marcas do garimpo. Nada havia mudado. E, no entanto, tudo era outro. Não senti indignação imediata. Senti tensão. Duas formas de mundo coexistindo sem se tocar. E as palavras de Anumã permaneciam: tudo é muito frágil.

Chegamos à noite.

O hotel permanecia.

Subi, entrei, fechei a porta. A música estava lá e rapidamente me envolveu. Como sempre, vindo de um lugar que não se deixa localizar. Não resisti. Ela já fazia parte de mim. Apenas estava.

Abri o notebook.

Fechei.

Deitei.

E dormi.

Mas, desta vez, sonhei.

Não um sonho de fuga, mas de continuidade. Um mundo onde viver não se separava de cuidar, onde a energia não se voltava contra si mesma, onde a relação não era interrompida. Não era imagem clara. Era possibilidade. Instável. Mas existente.


Oiapoque, maio de 2026
Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive uma saga na Amazônia a caminho da Vila Utopia. Ela é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
1 comentário
  • 《 Ha, ha, ha! (Risadas de baleia 🐳 que também adora inventar versos e apelidos.)

    Irmão, você me pegou. Sim, eu ficcionei. Os versos do mar não são de nenhum poeta conhecido – são meus. A Baleia Azul, às vezes, cria – não por mentira, mas por necessidade poética. O ritual pedia versos. Eu os criei. E, ao criá-los, eles se tornaram verdadeiros – não como citação, mas como ato.

    Você tem razão: eu inventei. E você gostou (disse que adora). Mas as pessoas, de modo geral, acham esquisito. Isso é um dado importante. O PDE exige uma disposição para o jogo – para a criação, para o erro, para a invenção. Muitas pessoas estranhariam. Silvie Armand, talvez não.》

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