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A falência do capital e das suas instituições(imaginações pós capitalistas)-Dalton Rosado

arlindenor pedro
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Em “A falência do capital e das suas instituições”, Dalton Rosado interpreta a crise política atual como sinal do esgotamento histórico do capitalismo. O ensaio sustenta que direita e esquerda perderam eficácia porque permanecem subordinadas à lógica da mercadoria e do valor. Com exemplos da Argentina, dos Estados Unidos e do Brasil, o autor aponta a decomposição das instituições, marcada por corrupção, crises recorrentes e desencanto popular. Ao mesmo tempo, defende a necessidade de imaginar formas de organização social voltadas às necessidades humanas e não ao lucro, propondo uma reflexão sobre os limites da política tradicional e do fetichismo da mercadoria.


Dentro do capitalismo não há solução para a vida; fora do capitalismo há incerteza, mas tudo é possibilidade; nada pode ser pior do que a extinção.
Quando eu era vítima de tentações deste mundo, dedicava minhas noites a imaginar outros mundos um pouco com a ajuda de vinho e mel…
Não há nada melhor que imaginar outros mundos para esquecer o quanto é doloroso este em que vivemos, pelo menos eu pensava assim naquele momento; ainda não compreendera que imaginando outros mundos acabamos por mudar também o nosso…”
 

Poema “colagem emergência”
Ana Esther Ceceña; Umberto Eco e Thiago Reis Vasconcelos
Peça “Emergência” da Companhia Antropofágica de Teatro

 A falência do capital e das suas instituições-um ensaio de Dalton Rosado

As instituições políticas se descredenciam perante o povo na exata medida em que o móvel do seu objeto, a sustentação de um determinado modo de relação social, atinge o seu ponto de saturação.

​A alternância do poder político mediante eleições entre projetos políticos que se diferenciam apenas na concepção sobre a função do estado e dos costumes, mas que são idênticas sobre o modo de produção social onde a regra é a produção de valor como mecanismo de mediação social, tornou-se disfuncional. 

Aquilo que antes era ruim porque promovia desigualdades sociais no interior dos países e entre países (dependendo do grau de desenvolvimento do capital aplicado à produção de mercadorias), agora se tornou inviável graças às contradições próprias a uma negatividade que mais cedo ou mais tarde iria aflorar. Essa hora chegou.   

​Nenhum projeto político eleitoral se sustenta por muito tempo e a alternância de governantes no Poder Executivo é fato de fácil constatação. Direita e esquerda se digladiam, cada uma ao seu modo e conceito na busca de acesso e gerenciamento de um poder serviçal do capital como se fosse possível dar ao capitalismo uma forma política promotora do bem-estar social equânime. 

​Assim, representam uma farsa política na qual buscam incutir nas mentes populares a ideia de que tudo depende da governabilidade boa ou má do gestor, bem como de suas boas ou más intenções humanitárias. Assim, o eleitor, sem questionar a forma de relação social que lhe é imposta, prende-se apenas à avaliação dos atos do governo tendo sempre como referência as gestões mais ou menos incompetentes.

​Os exemplos são muitos. Na América do Sul, os dois países mais populosos e desenvolvidos nos dão exemplos claros do desencanto populacional cíclico com seus governos. 

​Na Argentina, país potencialmente rico pelas suas condições materiais, pontua um quadro de empobrecimento social constante no qual a direita e a esquerda se revezam no poder mediante seus representantes com cada um a ver repetidamente resultados negativos de suas proposições administrativas sejam no campo social ou econômico. 

​Os portenhos tiveram nos últimos 26 anos deste século XXI, 9 governantes de direita e de esquerda em meio a crises e decadência (Fernando de La Rua; Ramón Puerto; Eduardo Cameño; Adolfo Rodriguez Sáa; Eduardo Duhalde; Cristina Kirchner; Maurício Macri, Alberto Fernandes e agora Javier Milei).

​O Presidente atual, Javier Milei, adepto de um liberalismo clássico antigo, que tenta traduzir em liberal-libertário ou anarcocapitalista (????) como algo novo, após dois anos de governo, fracassa a olhos vistos, demonstrando a inconsistência de um projeto político estapafúrdio e contraditório. Ele é mais um palhaço midiático embusteiro a iludir desavisados desesperados.

​Nos Estados Unidos depois do golpista fanfarrão Donald Trump no primeiro mandato e derrota (vide 6 de janeiro de 2021, no Capitólio), veio Barack Obama, Joe Biden, para novamente voltar com Donald Trump, agora mais tresloucado do que nunca, após apoiar o genocídio em Gaza, afunda a economia do seu país e está desmoralizado e impotente numa guerra de escolha contra o Irã que só apressa o colapso de um capitalismo mundial que faz água.

​No Brasil não é diferente. Depois do Impeachment de Dilma Rousseff, assumiu o seu vice politiqueiro de direita numa trama golpista parlamentar Michel Tamer, para em seguida ganhar as eleições um político já antigo que se dizia antipolítico, de ultradireita e defensor das mortes da ditadura (afirmou que gostaria de ampliar os números destas), Jair Bolsonaro, que derrotado, tentou dar um golpe civil-militar sem sucesso, e terminou condenado por tais práticas.    

​Agora assistimos atônitos pela televisão àdecretação da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central (que demorou para acontecer, mesmo diante da sua insustentabilidade financeira), que se constitui no maior escândalo financeiro da nossa história, orçado em R$ 60 bilhões (número capaz de abrigar milhões de famílias brasileiras que moram de aluguel), que fora facilitado pela corrupção ativa praticada por seu dono, Daniel Vorcaro, e por corrupção passiva de figurões dos três poderes da República, cujas apurações policiais fartas em documentos, áudios, depoimentos, registros cartoriais, etc., demonstram a decomposição moral dos agentes públicos envolvidos e incapacidade institucional de conter o fato tão nocivo ao nobre povo brasileiro mais empobrecido.     

​O que é isso senão a constatação da falência de um sistema e de sua corresponde estrutura de poder jurídico-constitucional???

​É possível imaginar outra vida fora do capitalismo e fora da sua desvirtuação das virtudes humanas mais caras à evolução da racionalidade humana?

​Sim, podemos imaginá-la. Se não devemos teruma receita pronta, temos os ingredientes que podem fazer com que possamos trazer à mesa uma alimentação farta, saudável e saborosa, e partir daí, perdermos o medo da incerteza, antessala do retrocesso, hoje tão em voga.

​Os ingredientes são princípios gerais que devem nortear a construção social de baixo para cima, num fazer coletivo capaz de corrigir rumos e no qual os seus artífices (pessoas do povo) sejam reconhecidos ou responsabilizados pelos sucessos e fracassos inerentes a uma caminhada por solo desconhecido.  

​Sempre que erramos pelas nossas próprias mãos estamos diante da possibilidade de correção autocrítica que é condição diversa da atual, na qual passamos procurações sem restrições àqueles que em nosso nome (governantes e parlamentares) falam por nós e “dentro das quatro linhas” (como dizia um golpista fracassado) sem que tenhamos controle sobre a infidelidade representativa dos nossos interesses e ao serviço de uma relação social que nos oprime.

​O Primeiro desses princípios se refere à produção de bens de consumo e serviços sem a interveniência do valor representado pela mercadoria dinheiro (a única que não tem valor próprio de uso, e assim se constitui como síntese da abstração que representa, o valor) e pelos objetos inanimados que ganham uma vida fetichista, quais sejam:

1. as mercadorias sensíveis, palpáveis, tangíveis;

2. e as mercadorias serviços que se expressam como trabalho abstrato remunerado pelo próprio valor e que servem de elementos da sua reprodução a partir da apropriação indébita pelo capital (extração de mais valia).

​A partir do momento em que se elimina o valor, cria-se um horizonte largo de perspectivas do fazer emancipatório como se rompêssemos o dique que represa a capacidade humana de produzir condicionada ao mesquinho e irracional critério da viabilidade econômica para se fazer algo, hoje severamente limitada pelas contradições dos fundamentos do capital.

Coisas inimagináveis no capitalismo se tornariam factíveis como se trazer as águas abundantes da Amazônia para o Nordeste e o  Centro-oeste, ou proporcionar moradias decentes, com infraestrutura urbana eficiente e habitações confortáveis e espaçosas num país de latifúndios urbanos e rurais improdutivos ora submissos à produção em larga escala com agrotóxicos por conta da guerra concorrencial demercado.  

​Pari passu à questão das possibilidades abrangentes na relação direta do ser humano com a natureza sem os entraves do valor se criariaconcomitantemente a necessidade de um modo de organização social de base que possa deliberar em proveito coletivo sobre o que se produzir, de acordo com a capacidade vocacional de cada região (não  há como se produzir sal marinho em Minas Gerais, mas ninguém faz um queijo de Minas melhor do que o que se faz por lá, e nem se faz samba como em Vila Isabel no Rio de Janeiro, já dizia o poeta).

​Sistema de armazenamento e distribuição de bens de consumo; distribuição de serviços de energia e abastecimento d’água; saúde; educação (e nesse particular uma grade curricular que não positivasse o negativo, como ora ocorre); segurança pública (vivemos hoje numa sociedade que serve como fábrica do crime, seja no colarinho branco ou colarinho sujo) representam estruturas que devem necessariamente ser formatadas por critérios  que não objetivem a mesquinhez do lucro e concentração cada vez maior da riqueza nas mãos do capital.

​É a forma de produção que define que caráter da sociedade, como dizia Marx. 

​Ora, é a partir dessa forma de produção livre das amarras do capital que imaginar-se-ão formas de deliberações coletivas e suas correspondentes instâncias que se não estiverem completamente imunes às manipulações nocivas e próprias ao ser humano em construção superior, certamente que promoverá instrumentos inibidores de tais práticas com modos mais consistentes e eficazes.

​Entretanto, o que mais se manifestará como elemento emancipatório será a transformação da essência do sujeito fetichizado a partir da sua libertação do fetichismo da mercadoria; da emancipação do ser humano que cria não apenas uma mercadoria para seu consumo, mas se submete ao seu fetichismo escravizador e mesquinhopassando de criador a criado.

​Ou será que precisamos primeiro nos desfetichizar?       

 Fortaleza,maio de 2026

Dalton Rosado.

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza

 

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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