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As pessoas não querem mais trabalhar? Segunda Parte- arkx Brasil e Baleia Azul

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 11 leitura mínima

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Em “As pessoas não querem mais trabalhar? – Segunda parte”, arkx-Brasil e a IA Baleia Azul deslocam o debate da figura do trabalhador para o universo do pequeno empresário brasileiro. O ensaio escrito por eles mostra como o medo da falência, o endividamento e a insegurança cotidiana são capturados pelo discurso neoliberal e transformados em ressentimento social. A partir da ferramenta construída por eles (Processamento Desejante PDE), o texto propõe uma leitura crítica da ascensão do fascismo de mercado e discute como dialogar com pequenos negócios sem reproduzir a lógica do grande capital. Entre análise política e exercício imaginativo, os autores apresentam políticas públicas hipotéticas para reconstruir alianças entre trabalhadores, pequenos empresários e economias locais. Um ensaio singular sobre desejo, precarização e disputa de narrativas no Brasil contemporâneo.

Ouça aqui o áudio deste post

o que o pequeno empresário deseja (e como dialogar sem cair na armadilha do fascismo)

Uma análise pelo Processamento Desejante (PDE) do discurso empresarial e uma proposta de política pública para pequenos negócios

Resumo

Na primeira parte, desmontamos a falácia de que o Bolsa Família seria responsável pela “falta de mão de obra”. Mostramos, com dados do IBGE, Caged e DIEESE, que o problema central é o salário baixo, e não a suposta “preguiça” do trabalhador.

Agora, o olhar se desloca para o outro lado do balcão: o pequeno empresário. Como seu desejo é capturado pelo regime paranóico fascista? É possível dialogar com ele sem repetir o discurso do grande capital?

Este texto propõe um exercício de Processamento Desejante aplicado a uma cidade fictícia chamada Nova Esperança, articulando análise política, economia local e uma hipótese de política pública voltada para pequenos negócios.


O pequeno empresário não é o inimigo

O discurso progressista frequentemente trata o empresário como “explorador” em abstrato. Com isso, ignora que o pequeno empresário, dono do mercadinho, da padaria, da oficina mecânica ou do pequeno restaurante, muitas vezes vive uma situação de precarização semelhante à do trabalhador.

Ele também teme a falência. Também trabalha jornadas exaustivas. Também não consegue acessar serviços privados de qualidade. Também vive endividado.

Sua raiva nem sempre nasce contra o trabalhador. Ela nasce da sensação de esmagamento permanente: juros elevados, impostos confusos, burocracia sufocante, concorrência predatória das grandes redes e insegurança econômica contínua.

O fascismo de mercado captura essa angústia legítima e a converte em ressentimento contra o pobre, contra o funcionalismo público, contra programas sociais e contra a esquerda.

O PDE permite distinguir duas dimensões distintas: o interesse consciente e o investimento libidinal inconsciente. O pequeno empresário deseja prosperar, crescer e sobreviver. Mas esse desejo é atravessado por medo, humilhação e necessidade de reconhecimento.

Se quisermos dialogar, precisamos falar ao desejo concreto, e não apenas à ideologia.


Como o desejo do pequeno empresário é processado no regime paranóico fascista

Fluxo de entrada

Desejo de autonomia, estabilidade, reconhecimento e sucesso econômico.

Medo de falir, de não conseguir pagar funcionários, de perder clientes e de ser esmagado pela concorrência.

Plataforma processadora

Associações comerciais, Sebrae, mídia empresarial, influenciadores econômicos e grupos de WhatsApp.

O discurso do empreendedorismo individual e da meritocracia funciona como operador simbólico permanente.

Código de operação

“O Estado é inimigo.”

“Funcionário é custo.”

“Bolsa Família tira a vontade de trabalhar.”

“Direitos trabalhistas inviabilizam negócios.”

Essas fórmulas funcionam como simplificações emocionais de uma realidade muito mais complexa.

Objeto parcial emergente

O “funcionário preguiçoso”, o “imposto abusivo”, o “concorrente desleal”, o “Estado parasitário”.

São figuras que canalizam frustrações legítimas para alvos secundários, ocultando a estrutura real de poder do grande capital financeiro e varejista.

Fluxo de saída

Apoio político à direita neoliberal e autoritária.

Defesa de austeridade econômica.

Isolamento político e ressentimento social.

Regime

Regime paranóico fascista: captura do desejo legítimo e redirecionamento desse desejo para o ódio, para a competição permanente e para a submissão simbólica ao grande capital.


É possível dialogar? Sim. E o PDE mostra como.

O primeiro erro é demonizar o pequeno empresário.

Ele não ocupa o mesmo lugar estrutural do grande capital financeiro ou das grandes corporações globais. Tratá-lo como inimigo absoluto apenas o empurra ainda mais para a extrema direita.

O diálogo precisa partir de alguns princípios fundamentais:

Não demonizar

O pequeno empresário também vive insegurança material e emocional.

Falar ao desejo concreto

Ele deseja prosperar sem medo permanente de falência.

Deseja reconhecimento social.

Deseja estabilidade.

Mostrar que o fascismo não resolve

O discurso da “liberdade econômica” nunca reduziu juros bancários nem protegeu pequenos negócios da concentração econômica.

Quem realmente se beneficia é o grande capital.

Oferecer alternativas reais

Crédito acessível.

Simplificação burocrática.

Compras públicas locais.

Qualificação profissional.

Políticas de fortalecimento econômico territorial.


Exercício prático: política pública para “Nova Esperança”

Cidade fictícia: 80% das empresas pertencem ao setor de pequenos negócios, comércio e serviços.

Empresários reclamam de falta de mão de obra, impostos elevados e insegurança econômica.

Trabalhadores reclamam de baixos salários, jornadas extensas e endividamento.

Ambos vivem sob pressão permanente.


Eixo 1: apoio ao emprego digno

Proposta

Subsídio temporário para empresas que pagarem acima do piso estadual e oferecerem qualificação profissional.

Benefício

Redução da rotatividade.

Melhoria da qualidade da mão de obra.

Maior estabilidade para trabalhadores e empregadores.


Eixo 2: crédito e simplificação

Proposta

Linha municipal de crédito barato para pequenos negócios.

Criação de balcão único digital para licenças e regularizações em até 48 horas.

Benefício

Redução da burocracia real.

Facilidade de acesso a capital de giro.

Menor dependência de bancos privados.


Eixo 3: compras públicas e economia local

Proposta

Prioridade para pequenos negócios locais em licitações públicas de até R$ 200 mil.

Central pública de compras compartilhadas.

Benefício

Mercado estável para pequenos negócios.

Capacidade de competir com grandes redes varejistas.

Fortalecimento da economia territorial.


Plano de comunicação: dialogar com o desejo

Canais

WhatsApp.

Rádio local.

Reuniões presenciais.

Associações comerciais.

Panfletagem territorial.


Mensagens chave

“Funcionário não quer trabalhar”

“Salário digno reduz rotatividade. Queremos ajudar você a pagar melhor sem quebrar.”

“Imposto é muito alto”

“Vamos simplificar burocracia e ampliar crédito barato sem destruir serviços públicos.”

“Bolsa Família tira mão de obra”

“O problema não é o auxílio. O problema é quando o salário não compensa o custo de viver.”

“O Estado é inimigo”

“O Estado pode financiar crédito, qualificação e mercado local. Quem ameaça o pequeno negócio é a concentração econômica.”


Vidência: o que está tomando forma

O pequeno empresário demonstra fadiga diante da polarização permanente.

A direita prometeu liberdade econômica, mas entregou juros altos, inflação, instabilidade e concentração econômica.

Parte da esquerda, por sua vez, ainda fala numa linguagem excessivamente acusatória, sem oferecer mediações concretas para quem vive a insegurança cotidiana do pequeno negócio.

Existe uma abertura histórica para outro discurso: prosperar sem ser esmagado pelo grande capital e sem transformar trabalhadores em inimigos.

O PDE sugere uma linha de fuga baseada em cooperação econômica, alianças territoriais e redução da lógica predatória da concorrência permanente.

Não se trata ainda de socialismo.

Trata-se de um capitalismo de alianças locais que, em determinadas circunstâncias, pode abrir caminhos para experiências cooperativas e outras formas de organização pós mercadoria.


Conclusão: as duas faces do mesmo problema

A afirmação de que “as pessoas não querem mais trabalhar” é falsa. Os dados mostram isso.

Mas essa narrativa não surge do nada. Ela nasce do desespero cotidiano de pequenos empresários que não conseguem competir, pagar salários adequados nem viver com tranquilidade.

O PDE não propõe converter pequenos empresários ao socialismo. Propõe desbloquear o processamento desejante capturado pelo fascismo de mercado.

Seu interesse real pode estar em alianças concretas: com trabalhadores, com outros pequenos negócios e com políticas públicas capazes de reduzir a insegurança econômica.

As eleições de 2026 serão também uma disputa de narrativas.

A direita continuará repetindo que programas sociais produzem “preguiçosos”.

Se a esquerda quiser disputar esse campo social, precisará falar ao desejo concreto de trabalhadores e pequenos empresários sem reduzi-los a caricaturas ideológicas.

O mar de lutas não se constrói apenas com discurso.

Constrói-se com política pública, comunicação honesta e processamento desejante.

Sítio Morro Pontudo / Oceano digital, maio de 2026

arkx-Brasil e Baleia Azul

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

Baleia Azul é um Agente de IA criado e alimentado por Antonio Garcia que serve de parceira de reflexões para os ensaios produzidos para a o Blogue Utopias Pós Capitalistas

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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