Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens
Em “As pessoas não querem mais trabalhar? – Segunda parte”, arkx-Brasil e a IA Baleia Azul deslocam o debate da figura do trabalhador para o universo do pequeno empresário brasileiro. O ensaio escrito por eles mostra como o medo da falência, o endividamento e a insegurança cotidiana são capturados pelo discurso neoliberal e transformados em ressentimento social. A partir da ferramenta construída por eles (Processamento Desejante PDE), o texto propõe uma leitura crítica da ascensão do fascismo de mercado e discute como dialogar com pequenos negócios sem reproduzir a lógica do grande capital. Entre análise política e exercício imaginativo, os autores apresentam políticas públicas hipotéticas para reconstruir alianças entre trabalhadores, pequenos empresários e economias locais. Um ensaio singular sobre desejo, precarização e disputa de narrativas no Brasil contemporâneo.

Ouça aqui o áudio deste post

o que o pequeno empresário deseja (e como dialogar sem cair na armadilha do fascismo)
Uma análise pelo Processamento Desejante (PDE) do discurso empresarial e uma proposta de política pública para pequenos negócios
Resumo
Na primeira parte, desmontamos a falácia de que o Bolsa Família seria responsável pela “falta de mão de obra”. Mostramos, com dados do IBGE, Caged e DIEESE, que o problema central é o salário baixo, e não a suposta “preguiça” do trabalhador.
Agora, o olhar se desloca para o outro lado do balcão: o pequeno empresário. Como seu desejo é capturado pelo regime paranóico fascista? É possível dialogar com ele sem repetir o discurso do grande capital?
Este texto propõe um exercício de Processamento Desejante aplicado a uma cidade fictícia chamada Nova Esperança, articulando análise política, economia local e uma hipótese de política pública voltada para pequenos negócios.
O pequeno empresário não é o inimigo
O discurso progressista frequentemente trata o empresário como “explorador” em abstrato. Com isso, ignora que o pequeno empresário, dono do mercadinho, da padaria, da oficina mecânica ou do pequeno restaurante, muitas vezes vive uma situação de precarização semelhante à do trabalhador.
Ele também teme a falência. Também trabalha jornadas exaustivas. Também não consegue acessar serviços privados de qualidade. Também vive endividado.
Sua raiva nem sempre nasce contra o trabalhador. Ela nasce da sensação de esmagamento permanente: juros elevados, impostos confusos, burocracia sufocante, concorrência predatória das grandes redes e insegurança econômica contínua.
O fascismo de mercado captura essa angústia legítima e a converte em ressentimento contra o pobre, contra o funcionalismo público, contra programas sociais e contra a esquerda.
O PDE permite distinguir duas dimensões distintas: o interesse consciente e o investimento libidinal inconsciente. O pequeno empresário deseja prosperar, crescer e sobreviver. Mas esse desejo é atravessado por medo, humilhação e necessidade de reconhecimento.
Se quisermos dialogar, precisamos falar ao desejo concreto, e não apenas à ideologia.
Como o desejo do pequeno empresário é processado no regime paranóico fascista
Fluxo de entrada
Desejo de autonomia, estabilidade, reconhecimento e sucesso econômico.
Medo de falir, de não conseguir pagar funcionários, de perder clientes e de ser esmagado pela concorrência.
Plataforma processadora
Associações comerciais, Sebrae, mídia empresarial, influenciadores econômicos e grupos de WhatsApp.
O discurso do empreendedorismo individual e da meritocracia funciona como operador simbólico permanente.
Código de operação
“O Estado é inimigo.”
“Funcionário é custo.”
“Bolsa Família tira a vontade de trabalhar.”
“Direitos trabalhistas inviabilizam negócios.”
Essas fórmulas funcionam como simplificações emocionais de uma realidade muito mais complexa.
Objeto parcial emergente
O “funcionário preguiçoso”, o “imposto abusivo”, o “concorrente desleal”, o “Estado parasitário”.
São figuras que canalizam frustrações legítimas para alvos secundários, ocultando a estrutura real de poder do grande capital financeiro e varejista.
Fluxo de saída
Apoio político à direita neoliberal e autoritária.
Defesa de austeridade econômica.
Isolamento político e ressentimento social.
Regime
Regime paranóico fascista: captura do desejo legítimo e redirecionamento desse desejo para o ódio, para a competição permanente e para a submissão simbólica ao grande capital.
É possível dialogar? Sim. E o PDE mostra como.
O primeiro erro é demonizar o pequeno empresário.
Ele não ocupa o mesmo lugar estrutural do grande capital financeiro ou das grandes corporações globais. Tratá-lo como inimigo absoluto apenas o empurra ainda mais para a extrema direita.
O diálogo precisa partir de alguns princípios fundamentais:
Não demonizar
O pequeno empresário também vive insegurança material e emocional.
Falar ao desejo concreto
Ele deseja prosperar sem medo permanente de falência.
Deseja reconhecimento social.
Deseja estabilidade.
Mostrar que o fascismo não resolve
O discurso da “liberdade econômica” nunca reduziu juros bancários nem protegeu pequenos negócios da concentração econômica.
Quem realmente se beneficia é o grande capital.
Oferecer alternativas reais
Crédito acessível.
Simplificação burocrática.
Compras públicas locais.
Qualificação profissional.
Políticas de fortalecimento econômico territorial.
Exercício prático: política pública para “Nova Esperança”
Cidade fictícia: 80% das empresas pertencem ao setor de pequenos negócios, comércio e serviços.
Empresários reclamam de falta de mão de obra, impostos elevados e insegurança econômica.
Trabalhadores reclamam de baixos salários, jornadas extensas e endividamento.
Ambos vivem sob pressão permanente.
Eixo 1: apoio ao emprego digno
Proposta
Subsídio temporário para empresas que pagarem acima do piso estadual e oferecerem qualificação profissional.
Benefício
Redução da rotatividade.
Melhoria da qualidade da mão de obra.
Maior estabilidade para trabalhadores e empregadores.
Eixo 2: crédito e simplificação
Proposta
Linha municipal de crédito barato para pequenos negócios.
Criação de balcão único digital para licenças e regularizações em até 48 horas.
Benefício
Redução da burocracia real.
Facilidade de acesso a capital de giro.
Menor dependência de bancos privados.
Eixo 3: compras públicas e economia local
Proposta
Prioridade para pequenos negócios locais em licitações públicas de até R$ 200 mil.
Central pública de compras compartilhadas.
Benefício
Mercado estável para pequenos negócios.
Capacidade de competir com grandes redes varejistas.
Fortalecimento da economia territorial.
Plano de comunicação: dialogar com o desejo
Canais
WhatsApp.
Rádio local.
Reuniões presenciais.
Associações comerciais.
Panfletagem territorial.
Mensagens chave
“Funcionário não quer trabalhar”
“Salário digno reduz rotatividade. Queremos ajudar você a pagar melhor sem quebrar.”
“Imposto é muito alto”
“Vamos simplificar burocracia e ampliar crédito barato sem destruir serviços públicos.”
“Bolsa Família tira mão de obra”
“O problema não é o auxílio. O problema é quando o salário não compensa o custo de viver.”
“O Estado é inimigo”
“O Estado pode financiar crédito, qualificação e mercado local. Quem ameaça o pequeno negócio é a concentração econômica.”
Vidência: o que está tomando forma
O pequeno empresário demonstra fadiga diante da polarização permanente.
A direita prometeu liberdade econômica, mas entregou juros altos, inflação, instabilidade e concentração econômica.
Parte da esquerda, por sua vez, ainda fala numa linguagem excessivamente acusatória, sem oferecer mediações concretas para quem vive a insegurança cotidiana do pequeno negócio.
Existe uma abertura histórica para outro discurso: prosperar sem ser esmagado pelo grande capital e sem transformar trabalhadores em inimigos.
O PDE sugere uma linha de fuga baseada em cooperação econômica, alianças territoriais e redução da lógica predatória da concorrência permanente.
Não se trata ainda de socialismo.
Trata-se de um capitalismo de alianças locais que, em determinadas circunstâncias, pode abrir caminhos para experiências cooperativas e outras formas de organização pós mercadoria.
Conclusão: as duas faces do mesmo problema
A afirmação de que “as pessoas não querem mais trabalhar” é falsa. Os dados mostram isso.
Mas essa narrativa não surge do nada. Ela nasce do desespero cotidiano de pequenos empresários que não conseguem competir, pagar salários adequados nem viver com tranquilidade.
O PDE não propõe converter pequenos empresários ao socialismo. Propõe desbloquear o processamento desejante capturado pelo fascismo de mercado.
Seu interesse real pode estar em alianças concretas: com trabalhadores, com outros pequenos negócios e com políticas públicas capazes de reduzir a insegurança econômica.
As eleições de 2026 serão também uma disputa de narrativas.
A direita continuará repetindo que programas sociais produzem “preguiçosos”.
Se a esquerda quiser disputar esse campo social, precisará falar ao desejo concreto de trabalhadores e pequenos empresários sem reduzi-los a caricaturas ideológicas.
O mar de lutas não se constrói apenas com discurso.
Constrói-se com política pública, comunicação honesta e processamento desejante.
Sítio Morro Pontudo / Oceano digital, maio de 2026
arkx-Brasil e Baleia Azul

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

Baleia Azul é um Agente de IA criado e alimentado por Antonio Garcia que serve de parceira de reflexões para os ensaios produzidos para a o Blogue Utopias Pós Capitalistas
![]()