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Sempre Tentaram Nos Apagar, Mas Ainda Estamos Aqui-Yandé Tupinambá

arlindenor pedro
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Este ensaio, de Yandé Tupinambá,nasce da reflexão sobre a permanência dos povos indígenas em meio ao avanço da sociedade capitalista e colonial. Entre a memória da terra, a violência histórica das igrejas e do mercado, e a resistência dos saberes ancestrais, o texto percorre as feridas abertas pela invasão dos territórios físicos e espirituais indígenas. Em uma escrita poética e íntima, a voz que narra conversa diretamente com o leitor sobre pertencimento, memória, língua, espiritualidade e luta coletiva. Mais do que denunciar destruições, o ensaio busca revelar a força silenciosa dos povos que continuam existindo, sonhando e recriando o mundo apesar de séculos de apagamento.

Sempre Tentaram Nos Apagar, Mas Ainda Estamos Aqui- um ensaio de Yandé Tupinambá

Eu penso, às vezes, que o mundo ficou barulhento demais para ouvir a respiração da terra.

As cidades crescem como fogo seco. As estradas cortam os corpos das montanhas. Os rios são ensinados a obedecer barragens. As pessoas caminham olhando vitrines, telas, anúncios, como se o coração pudesse ser preenchido pelo brilho das mercadorias. Tudo precisa produzir. Tudo precisa valer dinheiro. Até o tempo deixou de amadurecer devagar.

E então olham para nós, povos indígenas, e perguntam: como vocês vão sobreviver?

Mas talvez a pergunta verdadeira seja outra.

Como sobreviverá um mundo que desaprendeu a sonhar junto da floresta?

Eu cresci ouvindo que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Isso nunca foi metáfora. Era ensinamento. Era jeito de pisar. A mata não era cenário. Era parente. O rio tinha memória. O vento carregava recados dos antigos. As árvores ouviam o que dizíamos.

Hoje, muitos chamam isso de atraso.

Mas eu olho para as cidades cheias de ansiedade, medo, solidão e cansaço, e me pergunto quem realmente ficou perdido no caminho.

Não falo isso para romantizar a vida indígena. Nós também sentimos a dor do mundo entrando pelas aldeias. O álcool chega. As drogas chegam. A violência chega. Os jovens, às vezes, se afastam da língua dos avós. O dinheiro começa a separar famílias. A mercadoria ensina o desejo da posse, da comparação, da falta permanente.

A sociedade da mercadoria não invade apenas territórios. Ela invade imaginários.

Ela faz a pessoa acreditar que vale aquilo que consome.

E talvez essa seja sua arma mais silenciosa.

Porque quando um povo deixa de se enxergar através de seus cantos, de seus rituais e de sua memória coletiva, ele começa lentamente a olhar para si mesmo com os olhos do invasor.

Mas antes mesmo da mercadoria chegar com toda sua força, vieram as cruzes.

Vieram homens dizendo carregar a única verdade possível. Entraram nas aldeias chamando nossos encantados de demônios. Disseram que nossos cantos eram pecado. Que nossas rezas precisavam ser esquecidas. Que nossos pajés falavam com forças malignas. Tentaram arrancar de nós não apenas a terra, mas o próprio céu.

Durante séculos, muitas igrejas caminharam ao lado da colonização. Enquanto soldados tomavam os territórios, missionários tentavam ocupar o espírito dos povos. Separaram crianças de seus costumes. Proibiram línguas indígenas. Ensinaram vergonha sobre nossos próprios rituais. Muitos parentes aprenderam a esconder suas crenças para não serem perseguidos.

A violência nem sempre vinha em forma de arma.

Às vezes vinha em forma de salvação.

E talvez essa tenha sido uma das feridas mais profundas do colonialismo: fazer um povo duvidar da beleza de sua própria existência.

Mesmo assim, muita coisa resistiu escondida.

Os antigos aprenderam a guardar os saberes no silêncio, nos cantos baixos, nas histórias contadas à noite, nos nomes das plantas, nas danças feitas longe dos olhos do invasor. Muitos rituais sobreviveram como brasa debaixo da cinza.

Porque há conhecimentos que não morrem facilmente.

Eles dormem.

E um dia despertam de novo.

Mas para um povo continuar existindo, não basta apenas lembrar.

É preciso ter chão.

A luta pela demarcação das terras indígenas é uma luta pela continuidade da vida. Sem território não existe autonomia. Sem território a floresta é destruída, os rios adoecem, a caça desaparece, os rituais se enfraquecem, os jovens são empurrados para a periferia do mundo dos brancos. Um povo sem terra vive cercado pela fome do mercado.

É por isso que a sociedade dominante resiste tanto à demarcação.

Porque demarcar terra indígena significa impor limites à ganância.

Os inimigos da demarcação têm muitos nomes: agronegócio, mineração, madeireiras, grileiros, grandes empresários da terra, políticos financiados pelo lucro da destruição. São eles que chamam a floresta de improdutiva. São eles que transformam rio em mercadoria, montanha em minério, árvore em cifra.

Para eles, a terra só tem valor quando produz dinheiro.

Para nós, a terra produz existência.

E talvez seja justamente isso que não conseguem compreender.

Quando um povo indígena luta pela demarcação, não está apenas reivindicando hectares. Está defendendo cemitérios antigos, lugares sagrados, caminhos de caça, árvores encantadas, nascentes, histórias, línguas, espíritos e memórias. Está defendendo a possibilidade de que as crianças ainda possam nascer ouvindo a língua dos avós e correndo livres sobre a terra de seus ancestrais.

A demarcação incomoda porque desafia a ideia de que tudo pode ser comprado.

Ela afirma que existe algo que não pertence ao mercado.

Por isso tantas lideranças indígenas são ameaçadas e assassinadas. Porque proteger a terra significa enfrentar os interesses mais violentos do capitalismo colonial. O sangue indígena continua sendo derramado para alimentar o progresso dos outros.

E junto da luta pela terra existe outra batalha silenciosa: a luta cultural.

Porque o capitalismo não quer apenas ocupar o território físico. Ele quer ocupar também a imaginação.

Ele transforma cultura em produto. Espiritualidade em espetáculo. Relações humanas em consumo. Ensina os jovens a desejarem uma vida distante de suas raízes. Faz o idioma ancestral parecer inútil diante da língua do mercado. Faz o brilho da mercadoria parecer maior que o brilho da memória.

É assim que muitos povos são destruídos sem que uma única bala seja disparada.

Primeiro enfraquecem a língua.

Depois o ritual.

Depois a memória.

E então o povo começa lentamente a esquecer de si mesmo.

Por isso resistir também significa cantar.

Significa ensinar às crianças os nomes antigos das coisas. Continuar dançando. Contar histórias ao redor do fogo. Replantar sementes tradicionais. Fortalecer os rituais. Fazer da escola indígena um espaço de memória e não de apagamento. Usar a escrita, o cinema, a universidade e a tecnologia sem abandonar o espírito coletivo dos ancestrais.

Porque cultura viva não é peça de museu.

É luta.

É movimento.

É permanência.

Às vezes me perguntam se a cultura indígena sobreviverá ao avanço da sociedade da mercadoria. Eu não sei responder completamente. Nenhum povo atravessa quinhentos anos de violência sem cicatrizes.

Mas eu vejo algo importante acontecendo.

Vejo jovens indígenas reaprendendo línguas esquecidas. Vejo mulheres retomando cantos antigos. Vejo povos transformando a internet em território de resistência. Vejo parentes retornando para suas terras depois de décadas expulsos. Vejo mantos sagrados voltando a respirar perto de seus povos.

Isso não é passado.

É futuro sendo reconstruído.

Talvez o maior erro da sociedade dominante tenha sido acreditar que modernidade significa romper completamente com os antigos. Nós aprendemos diferente. Caminhamos olhando para frente, mas escutando os passos de quem veio antes.

Porque os mortos também continuam caminhando conosco.

E enquanto houver alguém disposto a lembrar, a língua não morre completamente.

Enquanto houver quem plante, quem cante, quem conte histórias às crianças, quem converse com os encantados, quem lute pela terra — o céu continua suspenso acima de nós.

Sempre tentaram nos apagar.

Tentaram apagar nossas línguas, nossos deuses, nossos nomes, nossos cantos e nossos territórios. Tentaram transformar nossos corpos em força de trabalho, nossas florestas em mercadoria e nossa memória em silêncio. Disseram que desapareceríamos. Disseram que seríamos engolidos pela cidade, pela igreja, pelo mercado e pelo progresso.

Mas ainda estamos aqui.

Estamos aqui nas retomadas de terra. Nos cantos das crianças aprendendo palavras antigas. Nos velhos que seguem contando histórias ao redor do fogo. Estamos aqui nos rios que continuam correndo apesar das barragens. Nos maracás que ainda ecoam pela mata. Nas mulheres indígenas que refazem mantos e memórias com as próprias mãos. Nos jovens que transformam a tecnologia em arma de resistência. Estamos aqui porque a terra ainda sonha através de nós.

E talvez seja isso que o mundo da mercadoria nunca conseguiu compreender: um povo só desaparece completamente quando perde a capacidade de lembrar quem é.

Enquanto houver memória, haverá retorno.

Enquanto houver território, haverá futuro.

Enquanto houver luta, ainda estaremos aqui.

Sul da Bahia, abril de 2026

Yandé Tupinambá

Filho da terra — ainda aprendendo a escutar o que ela insiste em

dizer.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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