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O paradoxo da crise do capital-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

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Em “O paradoxo da crise do capital”, Dalton Rosado analisa a contradição entre o colapso crescente do capitalismo e a incapacidade da sociedade de questionar a lógica do dinheiro, da mercadoria e da exploração. O ensaio denuncia o fetichismo da forma valor, critica tanto as elites econômicas quanto setores políticos presos às categorias do próprio capital, e aponta o avanço da desagregação social, da miséria e da violência. Mais do que uma crítica econômica, o texto é um chamado à reflexão sobre a necessidade de imaginar formas emancipadas de organização da vida para além do capitalismo.

Ouça aqui o áudio deste post

O paradoxo da crise do capital-um ensaio de Dalton Rosado

Já estou cheio de me sentir vazio

Renato Russo

Na mitologia grega se conta que havia um enigma: “decifra-me ou te devoro!”. Tratava-se de uma guardiã da cidade de Tebas que devorava o visitante que não respondesse à pergunta: qual o animal que de manhã tem quatro patas, de tarde tem duas e à noite tem três? 

​A resposta correta que salvaria o visitante era: “o ser humano”, vez que ao nascer engatinha de quatro; na vida adulta se põe de pé, ereto, e em dois pés; e ao envelhecer precisa de uma bengala. 

​Fazendo uma analogia com a mitologia grega, a difícil pergunta da atualidade é: “como sair da crise do capital antes que ela nos devore?”

​Somos viciados em dinheiro de tal forma que o consideramos como dado ontológico da nossa existência, tão indispensável como o ar que respiramos, a água que bebemos ou o alimento que ingerimos. 

Sequer desconfiamos que quando a esquadra de Pedro Álvares Cabral chegou à Bahia, há apenas 526 anos, diante dos olhares surpresos daqueles seres humanos que estavam na praia; aqui viviam pessoas saudáveis e belas, com suas vergonhas desnudas, como relatou Pero Vaz de Caminha, na sua famosa carta ao Rei Dom Manoel I, de Portugal, e que eles viviam sem dinheiro…

Quando muito, consideramos que o dinheiro é apenas um instrumento útil à vida social, que pode ser bem ou mal-usado, tal como uma faca que pode cortar o alimento que vai matar a nossa fome, ou assassinar alguém, ou seja, a faca pode ser boa ou má dependendo do modo e do fim a que se destina.

Mas o dinheiro não é um mero instrumento de uso; ele transcende a sua função de meio de uso a que serve para representar numericamente um quantitativo de valor, uma abstração criada pela mente humana para mensurar o tempo-valor de trabalho coagulado na produção de um bem de consumo (sensível, palpável ou tangível como cadeira, ou insensível como um serviço de uma cuidadora de idoso).

Assim, o dinheiro representa uma forma de relação social, a forma-valor, cujo objeto é proporcionar a acumulação de si mesmo a partir da sua subtração de quem a produz por quem detém a administração do próprio valor (o capital), também chamado de capitalista, num processo social segregacionista, de cunho escravista e concentrador da administração da riqueza nas mãos de uns poucos serviçais privilegiados do mesmo capital, como súditos obedientes, a que karl Marx identificou como processo de extração de mais-valor.

O dinheiro é a representação numérica, monetária, de um mal social em si, a forma-valor.

É aí que surge um paradoxo: por que um mal em si, cujos resultados sociais negativos são claramente perceptíveis, seja materialmente ou intelectualmente, permanece intocável, mesmo que em processo de disfuncionalidade???

Discutem-se modelos políticos; discutem-se a competência de governantes nesses modelos políticos; discutem-se o combate à corrupção com o dinheiro dito público (que é apenas estatal); discutem-se direitos sociais (trabalhistas, políticos, identitários, ecológicos, da qualidade dos atendimentos de serviços públicos, etc.; mas não se discutem a disfuncionalidade da forma-valor, a sua negatividade, como se fosse um tema tabu cuja discussão representa um incômodo para todos, sejam aqueles que estão comodamente postados nas funções de administradores do capital ou de beneficiários das tetas estatais advindas dos impostos cobrados ao povo já explorado pela extração da mais-valia (grafamos essa parágrafo porque ele representa o enigma a ser resolvido).

Aos explorados, educados para a adoração fetichista ao dinheiro e à propriedade, por inconsciência sobre o objeto de sua própria exploração, resta o sentimento de culpa por não ser tão próspero como alguém que ele conhece e que ficou rico furando a bolha da sedimentação social miserável. Ele espera conseguir ficar rico a partir de algum mecanismo pessoal, e ainda joga no jogo do bicho ou loteria esportiva fazendo planos de como gastar o dinheiro como milionário…

Aos ricos ou remediados cabe o aperfeiçoamento do sistema capitalista e sua ordem jurídico-constitucional, desde que o capital continue incólume como forma de mediação social, apesar de sua disfuncionalidade cada vez mais abrangente que ameaça a comodidade cínica dos bem-aventurados cuja percentagem é cada vez mais reduzida.

Discutir uma nova forma de relação social, livre do fetichismo da mercadoria dinheiro e das demais mercadorias tangíveis, e que negue as categorias capitalistas que dão sustentação ao sistema (trabalho abstrato, mercadorias, mercado, valor e sua representação numérica denominada como dinheiro, instituições patronais e trabalhistas, instituições estatais, direito burguês, partidos políticos, políticos, estado, etc.), mais parece como mexer num vespeiro sem o sistema de proteção, mesmo que se considere a negatividade social em curso.

Quem deveria não temer o novo, porque o velho já está insuportável, além de não saber como fazê-lo, não sabe, também, se pode existir algo além do que está posto, ou seja, acordar para ganhar dinheiro pouco para pagar custos de vida maiores… ou, o que aos seus olhos parece pior, que é estar desempregado, ameaçado de despejo por não pagar o aluguel, por corte da energia e água por atraso no pagamento da conta, e ver sua família faminta…

É o desespero social a maior fábrica do crime cada vez mais organizado e abrangente para o qual não há número de cadeias e de polícias capazes de contê-la…

​Quando vejo a discussão estéril sobre as razões da alternância de poder político focada na competência e perfil ideológico do governante meparece a preocupação de cura de uma unha cravada num corpo metastizado pelo câncer e condenado à morte. 

​Há um muito de cinismo na burguesia que defende aos seus privilégios vendendo a tese de que a prosperidade capitalista beneficia a todos sem levar conta as ilhas de prosperidade em meio a oceanos de pobreza; mas há, também, muito de hipocrisia a quem se dizendo anticapitalista defende as suas categorias, inclusive seus ricos partidos quase bilionários com dinheiro público a ser gasto em campanhas eleitorais, que é extraído dos impostos cobrados ao povo.

​O paradoxo se estabelece entre uma conjuntura de colapso capitalista e o imobilismo social que deveria empurrar a sociedade num movimento social forte para o novo no qual a produção de bens de consumo sirvam apenas para a satisfação das necessidades sociais de consumo e que esteja coadunado com a entourage social ao redor desse objeto teleológico num correspondente mecanismo horizontal de decisão popular construído a partir dos seus pressupostos emancipatórios que sirvam de exemplo a ser adotado amplamente mundo afora.

​Topa?

 Fortaleza, maio de 2026

Dalton Rosado.

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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