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Canudos continua a falar ao Brasil. Nesta resenha, Arlindenor Pedro analisa Uma Chave para Canudos, de Marcos Roberto Brito dos Santos, obra que amplia nossa compreensão de um dos acontecimentos mais decisivos da história brasileira ao recuperar o olhar de Alvim Horcades, testemunha direta da guerra. Mais do que uma leitura sobre o passado, o texto convida a refletir sobre a formação da identidade nacional, suas utopias e contradições. E, ao final, não deixe de assistir ao podcast da Utopias Pós-Capitalistas, que explora as utopias do povo brasileiro em diálogo com Os Sertões, de Euclides da Cunha, Visões do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda,Uma Chave para Canudos, além da obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz : O Messsianismo no Brasil e no Mundo,

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Resenha crítica de “Uma Chave para Canudos: Alvim Horcades e a Guerra contra o Belo Monte”,de Marcos Roberto Brito dos Santos

A história do Brasil é marcada por acontecimentos que ultrapassam seu tempo e continuam lançando luz sobre os dilemas do presente. Entre eles, a Guerra de Canudos ocupa um lugar central. Durante décadas, a compreensão desse episódio foi moldada principalmente pelos grandes clássicos da historiografia do século XX, obras indispensáveis que ajudaram gerações de brasileiros a refletir sobre a formação nacional. No entanto, cada época formula novas perguntas ao passado, e a renovação dos estudos históricos permite que personagens, documentos e perspectivas antes secundarizados revelem dimensões ainda pouco exploradas dos acontecimentos.
Esse movimento de revisão e ampliação do olhar historiográfico torna-se especialmente importante no momento atual. O Brasil atravessa uma profunda crise de identidade, marcada por disputas em torno da memória nacional, da democracia, da cidadania e dos próprios sentidos de pertencimento coletivo. Em contextos como esse, retornar a episódios decisivos da nossa história não representa um exercício de nostalgia, mas uma necessidade de compreensão. Canudos continua a interpelar o país porque expõe conflitos que permanecem vivos: as relações entre Estado e povo, centro e periferia, progresso e exclusão, civilização e barbárie e sem dúvidas o conceito de Utopias, existente no interior do imaginário popular.
É nesse contexto que Uma Chave para Canudos: Alvim Horcades e a Guerra contra o Belo Monte, de Marcos Roberto Brito dos Santos, adquire especial relevância. Ao deslocar o foco dos personagens mais conhecidos para a trajetória de Alvim Martins Horcades, o autor oferece um novo ângulo de observação sobre o conflito. Não se trata de substituir os clássicos, mas de dialogar com eles, enriquecendo a compreensão histórica a partir de fontes, testemunhos e experiências que permitem uma aproximação mais concreta e humana dos acontecimentos. O resultado é um livro que amplia nossa percepção sobre Canudos e, ao mesmo tempo, contribui para uma reflexão mais profunda sobre os caminhos percorridos pela sociedade brasileira até os dias atuais.
O livro representa uma das contribuições mais originais dos últimos anos para os estudos sobre a Guerra de Canudos. Em vez de retornar aos caminhos já amplamente percorridos pela historiografia tradicional, centrada em Antônio Conselheiro, Euclides da Cunha ou nos comandantes militares, Marcos Roberto Brito dos Santos, nosso colunista neste blogue, desloca o olhar para uma figura menos conhecida, mas fundamental: o estudante de medicina Alvim Martins Horcades, participante direto da campanha militar e autor de um dos testemunhos mais contundentes sobre a tragédia do Belo Monte.
Acredito que a principal virtude da obra está justamente nessa mudança de perspectiva. Marcos Brito demonstra que a compreensão de Canudos não depende apenas da análise dos grandes acontecimentos militares ou políticos, mas também da investigação dos sujeitos que testemunharam a guerra e produziram narrativas sobre ela. Nesse sentido, Alvim Horcades surge não apenas como personagem histórico, mas como produtor de memória e intérprete privilegiado dos acontecimentos. Aqui o autor sustenta a tese de que a experiência vivida por Horcades constitui uma verdadeira chave para compreender dimensões pouco exploradas do conflito.
Outro mérito importante é a pesquisa documental. O livro foi construído a partir de extensa investigação em arquivos da Bahia, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e de diversas instituições de memória. O resultado é uma obra solidamente fundamentada em fontes primárias, que recupera documentos pouco conhecidos e ilumina aspectos negligenciados da participação da Faculdade de Medicina da Bahia na guerra.
Particularmente interessante é a reconstrução do envolvimento dos estudantes de medicina no conflito. O livro mostra como a derrota das primeiras expedições militares e a crescente quantidade de feridos levaram à mobilização da Faculdade de Medicina da Bahia. Revela também as tensões entre professores e alunos. Enquanto parte do corpo docente permaneceu em Salvador organizando hospitais provisórios, os estudantes seguiram para o sertão. Horcades registraria posteriormente essa diferença de postura em termos bastante críticos, acusando seus mestres de permanecerem protegidos “entre muros” enquanto os jovens enfrentavam os riscos do campo de batalha.
Esse aspecto é um dos pontos mais ricos da obra. A guerra aparece não apenas como conflito entre Estado e sertanejos, mas também como espaço de disputa de narrativas, de gerações e de legitimidades. Marcos Brito revela que a experiência médica em Canudos não foi apenas humanitária; ela foi igualmente política, intelectual e simbólica.
O livro também se destaca por sua contribuição à crítica da historiografia clássica. Ao enfatizar a importância de Descripção de uma viagem a Canudos, publicado por Horcades em 1899, o autor chama atenção para um documento frequentemente eclipsado pela monumentalidade de Os Sertões. A comparação é inevitável. Enquanto Euclides da Cunha constrói uma interpretação grandiosa da formação nacional, Horcades oferece o testemunho direto de quem conviveu com os feridos, presenciou os sofrimentos da guerra e denunciou os degolamentos praticados pelas tropas republicanas.
Essa recuperação de Horcades possui ainda um significado maior. Ela demonstra que a memória histórica nunca é um território fechado. Muitas vezes, obras consideradas secundárias em determinada época podem revelar aspectos fundamentais da realidade quando revisitadas à luz de novas perguntas. É justamente isso que Marcos Brito realiza ao recolocar Horcades no centro do debate historiográfico.
Há ainda um aspecto que merece destaque: o esforço de humanização dos personagens históricos. O autor não transforma Horcades em herói nem em simples observador. Pelo contrário, procura reconstruir suas ambiguidades, seus limites e suas circunstâncias. Isso impede que o livro se converta em mera biografia laudatória e fortalece seu caráter historiográfico.
Do ponto de vista crítico, pode-se observar que a obra concentra grande parte de sua energia na figura de Horcades e em seu círculo intelectual, deixando em segundo plano a perspectiva dos próprios conselheiristas. Não se trata propriamente de uma falha, pois essa não é a proposta do trabalho, mas de uma escolha metodológica que delimita seu alcance. O leitor que busca uma análise mais ampla da experiência social dos habitantes do Belo Monte precisará recorrer a outras obras complementares.
Ainda assim, essa delimitação não diminui a importância do estudo. Pelo contrário. Ao aprofundar um aspecto específico do conflito, Marcos Brito consegue abrir novas trilhas de investigação e demonstrar que a história de Canudos continua longe de estar esgotada. Mais de um século após a destruição do arraial, o episódio ainda produz novas interpretações e desafia as leituras consolidadas.
Em síntese, Uma Chave para Canudos é um livro importante porque amplia o campo de visão sobre a guerra mais emblemática da Primeira República. Sua maior contribuição está em revelar que a memória de Canudos não foi construída apenas por Euclides da Cunha ou pelos vencedores do conflito, mas também por testemunhas como Alvim Horcades, cujas palavras preservaram aspectos da tragédia que a narrativa oficial tentou silenciar.
Num momento em que o Brasil procura compreender a si mesmo e reencontrar caminhos diante de suas múltiplas crises, revisitar Canudos deixa de ser apenas um exercício acadêmico. Torna-se uma reflexão sobre a própria formação do país, suas contradições históricas e os conflitos que continuam presentes em nossa vida coletiva. Ao recuperar a trajetória de Alvim Horcades, Marcos Roberto Brito dos Santos não apenas resgata um personagem quase esquecido. Ele oferece ao leitor uma nova chave para compreender Canudos e, por extensão, uma nova chave para refletir sobre o Brasil.
Serra da Mantiqueira, maio de 2026
Arlindenor Pedro
contato@utopiasposcapitalistas.com

Arlindenor Pedro é ex preso político e Anistiado. É professor de história, sociologia e filosofia além de Editor do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

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