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O Deus Dinheiro e os Encantados da Terra-Yandé Tupinambá

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 8 leitura mínima

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Este texto é um grito contra o apagamento histórico dos povos originários e, ao mesmo tempo, um canto de resistência diante da decadência do mundo capitalista. Em uma escrita íntima, poética e profundamente política, Yandé Tupinambá denuncia o genocídio cultural promovido pela colonização, pelas igrejas e pela sociedade da mercadoria, revelando como a assimilação se tornou uma das formas mais violentas de destruição indígena. Ao longo do ensaio, os encantados aparecem como memória viva da resistência ancestral, enquanto a cultura Tupinambá surge não como vestígio do passado, mas como força capaz de inspirar os novos mundos que nascerão das ruínas da civilização do lucro. É um texto sobre luta, espiritualidade, pertencimento e esperança.

Ouça aqui o áudio deste post

O Deus Dinheiro e os Encantados da Terra-um texto de Yandé Tupinambá

Me ouça com atenção, parente!

Primeiro eles tentaram matar nossos corpos.

Depois tentaram matar nossos espíritos.

Queimaram nossas aldeias, proibiram nossas línguas, chamaram nossos encantados de demônios e nossos rituais de pecado. Arrancaram crianças dos braços de seus povos. Cobriram nossos nomes com nomes estrangeiros. Disseram que precisávamos abandonar quem éramos para nos tornarmos “civilizados”.

E quando perceberam que ainda resistíamos, inventaram outra violência.

A assimilação. Isto mesmo, queriam nos inserir na civilização deles.

Assimilar! Uma palavra aparentemente suave, mas profundamente cruel. Deixaríamos de ser o que somos, e seríamos o que ? Favelados, pobres trabalhadores nas suas cidades?

Mas, na verdade assimilar significa fazer desaparecer sem parecer destruição. Significa convencer um povo a esquecer lentamente de si mesmo. Fazer com que a criança indígena tenha vergonha de sua língua. Fazer com que o jovem queira abandonar sua aldeia para servir ao sonho do homem branco. Fazer com que nossos próprios olhos passem a enxergar nossa cultura como atraso.

Pois é . Eu vejo isso acontecer todos os dias.

O colonialismo aprendeu a trocar a espada pela mercadoria.

Hoje já não precisam incendiar todas as aldeias.Embora, quando é preciso ele o faz com prazer.

Basta inundar o mundo com consumo, individualismo, telas, dinheiro e falsas promessas de sucesso. Basta ensinar que felicidade é comprar. Basta transformar a vida em competição. Basta cortar o vínculo entre as pessoas e a terra.

O capitalismo não quer apenas explorar territórios.

Ele quer ocupar a alma.Quer que sejamos consumidores vorazes de seus produtos . Do seu estilo de vida . Da sua própria decadência .

Por isso o Deus mais poderoso deles, do nosso tempo, não é aquele pregado nas igrejas.

É o Deus Dinheiro. E eles querem que nós o adoremos.

Sabemos que é ele quem organiza as cidades dos brancos . É ele quem destrói florestas. É ele quem transforma rios em esgoto, montanhas em minério, gente em mão de obra descartável e a própria natureza em mercadoria.

Pois é…

Tudo precisa produzir.

Tudo precisa gerar lucro.

Tudo precisa ser vendido.

Até a espiritualidade virou produto.

Até o sofrimento virou espetáculo.

Até o amor virou consumo rápido.

E enquanto isso o mundo adoece diante dos nossos olhos.

As pessoas trabalham até perder o espírito. Crianças crescem sem escutar o silêncio da terra. Os velhos são abandonados. A ansiedade se espalha como fumaça venenosa. Os rios secam. O clima enlouquece. O céu pesa.

A sociedade produtora de mercadorias entrou em decadência porque destruiu exatamente aquilo que sustentava a vida: o vínculo.

Vínculo entre pessoas.

Vínculo com a terra.

Vínculo com os ancestrais.

Vínculo com o invisível.

É por isso que os povos indígenas ainda incomodam tanto.

Porque nós carregamos memórias que o capitalismo não conseguiu comprar.

Os encantados sobreviveram.

Nós não queremos o lixo da sua civilização decadente !

Nós sobrevivemos escondidos nos cantos sussurrados pelos antigos. Nos rituais feitos em silêncio durante a perseguição. Nos sonhos das crianças. Nas folhas da mata. Nos rios ainda vivos. Nos maracás que continuam ecoando apesar de quinhentos anos de violência. Nós estamos aqui.

Os encantados nunca abandonaram completamente esta terra.

Quem se afastou dela foi o homem branco.

O mundo moderno se orgulha de suas máquinas, de seus mercados e de seus impérios financeiros, mas perdeu a capacidade de conversar com a vida. Tornou-se uma civilização rica em mercadorias e miserável em espírito.

O “fim do mundo” já começou para muita gente.

Ele acontece quando uma pessoa perde o sentido da própria existência.

Quando a floresta vira apenas madeira.

Quando um rio vira apenas recurso.

Quando a vida inteira passa a ser medida pelo dinheiro.

Mas veja bem: eu não escrevo isso tomado pelo desespero.

Eu escrevo porque vejo outro mundo respirando debaixo das ruínas deste.

Vejo isso quando escuto os mais velhos contando histórias ao redor do fogo. Quando uma criança aprende uma palavra antiga. Quando um povo retoma sua terra. Quando um maracá volta a soar dentro da mata. Quando os jovens indígenas usam a tecnologia para proteger aquilo que o capitalismo tentou destruir.

A cultura Tupinambá tem muito a ensinar ao mundo que nascerá depois do colapso dessa civilização da mercadoria.

Nós sabemos viver coletivamente.

Nós sabemos dividir.

Nós sabemos escutar a terra.

Nós sabemos que ninguém existe sozinho.

Enquanto o capitalismo ensinou acúmulo, nossos antigos ensinaram partilha.

Enquanto o mercado produziu solidão, nossos ancestrais ensinaram parentesco.

Enquanto o homem moderno destruiu a natureza para sobreviver, nossos velhos ensinaram que sobreviver significa manter o equilíbrio entre todos os seres.

Eu tenho orgulho de ser Tupinambá.

Tenho orgulho dos encantados que caminham conosco.

Tenho orgulho dos nossos velhos, dos nossos cantos, das nossas retomadas, da nossa memória que sobreviveu mesmo depois de tantos séculos de violência.

Porque eu sei que nossa cultura não pertence apenas ao passado.

Ela pertence ao futuro. Sim, isto mesmo : nós somos o futuro !

O mundo que está morrendo diante dos nossos olhos é o mundo do lucro acima da vida.

E o mundo que começa a nascer precisará reaprender aquilo que os povos indígenas nunca esqueceram: que a terra é viva, que ninguém caminha sozinho e que existir é criar parentesco com tudo aquilo que respira.

Sempre tentaram nos apagar.

Mas nós atravessamos o fogo.

E agora estamos aqui para ajudar a sonhar o mundo que virá depois das ruínas.

Pense bem nisto , parente!

Sul da Bahia, abril de 2026

Yandé Tupinambá

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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