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Descrição de uma viagem ao Ceará -Quixeramobim-Marcos Roberto Brito dos Santos

arlindenor pedro
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O artigo, escrito pelo historiador Marcos Roberto Brito dos Santos, doutor em História pela Universidade jFederal da Bahia (UFBA) e pesquisador da Guerra de Canudos, que apresentamos a vocês neste post do blogue Utopias Pós Capitalistas é um relato reflexivo de uma viagem realizada ao Ceará (Fortaleza e Quixeramobim) em maio de 2026, com o objetivo de percorrer algumas instituições que abrigam e resguardam documentos históricos e artefatos materiais relativos à Antonio Conselheiro e deles realizar registros imagéticos. Visitando o Instituto do Ceará, o Museu do Ceará e a Casa de Antonio Conselheiro, o autor apresenta as fontes históricas encontradas, refletindo sobre elas e seus produtores, os pesquisadores cearenses Ismael Pordeus e Pedro Wilson, que deram contribuições importantíssimas, entre fins da década de 1940 até meados de 1960, para uma revisão do olhar que até então se tinha sobre a figura histórica de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro.

Ouça aqui o áudio deste post

Descrição de uma viagem ao Ceará -Quixeramobim-um relato de Marcos Roberto Brito dos Santos

EM BUSCA DE ANTÔNIO CONSELHEIRO


Tô no rastreio da estrela, 
que atravessou o Sertão 
(…) meu coração garimpeiro”

Roze, Coração Candombá 
(Jorge Alfredo/Antonio Risério)

 

Este artigo é um relato reflexivo de uma viagem realizada ao Ceará em maio de 2026, com o objetivo de percorrer algumas instituições que abrigam e resguardam documentos históricos e artefatos materiais relativos à Antonio Conselheiro e deles realizar registros imagéticos. Visitamos, em Fortaleza, o Instituto do Ceará e o Museu do Ceará, e em Quixeramobim, a Casa de Antonio Conselheiro. Antes, porém, de iniciar as pesquisas de campo, empenhei-me num breve estudo e levantamento das informações que se tem sobre a infância, adolescência e juventude de Antonio Conselheiro no Ceará. Recorremos aos autores clássicos e contemporâneos – em sua maioria cearenses, alguns, membros do Instituto do Ceará – que biografaram ou trouxeram informações fundamentais sobre a trajetória deste homem. São eles: João Brígido, Barão de Studart, Eusébio de Souza, Padre Azarias Sobreira, Ismael de Andrade Pordeus, Abelardo Montenegro, Gustavo Barroso, Nertan Macedo, Ataliba Nogueira, José Calasans, Pedro Lima Vasconcelos, Oleone Fontes, José Augusto Moita.

​Feito isso, organizei-me para viagem. Na bagagem levava o nome de dois autores cearenses essenciais para a mudança de olhar sobre a figura histórica de Antonio Conselheiro, mas pouco conhecido do público em geral: Pedro Wilson e Ismael Pordeus. Saindo da capital baiana na noite de quarta-feira, 06 de maio, cheguei a Fortaleza neste mesmo dia, me hospedando em um hotel a meio caminho, cerca de 5 minutos a pé, entre o Instituto do Ceará e o Museu do Ceará, locais escolhidos para nossa primeira imersão nos documentos históricos.

 

1. UMA RÁPIDA PASSAGEM NO INSTITUTO DO CEARÁ

A quinta-feira, 07 de maio, seria toda ela dedicada a visita e pesquisas no Instituto do Ceará. Pretendia conhecer as instalações do instituto, o museu, a livraria e realizar pesquisas na biblioteca e hemeroteca da entidade. Contudo, por motivos que não convêm discorrer neste espaço, só me foi possível consultar alguns documentos da hemeroteca. Nela, pude ter acesso a alguns artigos de jornais em suas publicações originais: Antonio Conselheiro não é matricida, de Ismael Pordeus, publicado em 26 de setembro de 1949 no jornal O Nordeste (CE), e dois de Pedro Wilson Mendes, de 12 e 31 de julho de 1948, da série intitulada Antonio Conselheiro e o Drama de Canudos, publicado no jornal O Povo (CE). Um artigo procurado não foi encontrado, por lapso na série das edições disponíveis do jornal, e outro, em verdade, chegamos à conclusão de que nunca existiu. Discorreremos sobre este último documento inexistente na parte deste trabalho dedicada a Ismael Pordeus.

2- No Museu do Ceará – Anexo Bode IoIô

2.1. O Museu do Ceará e o Bode Ioiô

Chegando ao Museu do Ceará na manhã do dia 8 de maio, a primeira figura que me recepcionou foi a de um bode, que disposto no expositor central do museu, fitava todo aquele visitante que adentrava ao recinto. Segundo Mário Mendes Júnior, “o bode Ioiô era um caprino que durante as tardes se sentava no banco da Praça do Ferreira para ouvir as conversas dos letrados e nas noites, ia ao teatro.

(…). Seguia enterros. Sendo comuna tornou-se figura presente nas passeatas de protesto” (2023, p. 94).

Ouvi ainda do guia do museu, que há boatos de que teria se candidatado a vereador, sendo eleito para Câmara de Fortaleza. Para minha admiração também me esclareceu que aquele animal exposto no museu, era o autêntico bode, empalhado. Após sua morte, o Bode Ioiô tornara-se um símbolo da cultura cearense, dando nome inclusive ao anexo que abriga temporariamente o Museu do Ceará, enquanto o Palacete Senador Alencar permanecer em reforma.

Antes da viagem, o bode Ioiô não era de todo meu desconhecido. Havia, há algum tempo atrás, conhecido um pequeno verso, que me encantara, e que a ele se referia, assim dizendo:


sou o bode Ioiô,

Mais fino pai-de-chiqueiro

Sou vadio, sou boêmio,

Mulherengo e cachaceiro

Pelas ruas da cidade

Perambulo o dia inteiro”

De onde tirei minha sextilha



“Eu sou um pesquisador

Garimpo feito um mineiro

Documento, artefato

De Antonio Conselheiro

Pelos arquivos cearenses

Perambulo o dia inteiro”

2.2. O Berrante de Antonio Conselheiro

No Memorial de Vilanova (1964), do cearense Nertan Macedo, havia lido há algum tempo, que o Museu do Ceará guardava em seu acervo, um objeto museológico do arraial de Canudos: um berrante (também referenciado como “clarim”, “trombeta”, “búzio”, “chifre”) que teria pertencido a Antonio Conselheiro, e que por ele seria utilizado para conclamar seus seguidores à luta, no tempo da guerra, e à oração. Falando de Antônio Vilanova, líder conselheirista, e seu destino após a guerra, Nertan afirma:

“(…). Abandonou Canudos quando não mais havia esperança de sobrevivência. Para retornar ao Ceará donde nunca mais se afastaria, trazendo dos sertões da Bahia uma larga experiência da luta de guerrilhas. E, com ele, o grande chifre de boi – simbólico clarim sertanejo – que convocava à refrega os jagunços de Antonio Conselheiro, relíquia incorporada, hoje, ao patrimônio do Museu Histórico do Ceará” (MACEDO, 1964, p. 10-11).

Sobre este artefato histórico também encontramos informações em uma edição das memórias do Museu do Ceará intitulada Museu do Ceará: 75 anos (2007). As memórias ratificam as informações de que o berrante teria sido trazido por Antonio Vilanova de Canudos para Assaré, no Ceará, ao fim da guerra, e nos notifica de mais alguns detalhes sobre a história do objeto. Segundo a publicação, reproduzindo um entrevista com o então diretor do Museu, Eusébio de Sousa, para o jornal A Rua, de 26 de maio de 1936, o

“chifre foi trazido ao Ceará por um dos asseclas do célebre caudilho, de nome Vila Nova, filho de Assaré, que o ofertou ao cel. Francisco de Brito, alto fazendeiro do Crato”.

A primeira exposição da peça ocorreu na noite do dia 14 de maio de 1933, conforme matéria do jornal Gazeta de Notícias deste dia, que confirma a informação anterior de que teria sido ele doado pelo coronel Francisco Brito,

“adiantado agricultor no município do Crato, o qual patrioticamente o mandou para o Museu Histórico”.

Salta aos olhos como nestes registros dos anos 1930 e início da década de 1940 se reproduz uma visão negativa de Antônio Conselheiro. Vejamos abaixo como o item museológico e o líder da resistência sertaneja aparecem em matéria do jornal O Povo, de 31 de dezembro de 1941:

O CLARIM DE GUERRA DE ANTONIO CONSELHEIRO – O episódio de Canudos é uma triste recordação do Brasil de ontem. O reinado negro de Antonio Conselheiro, ou Antonio Vicente Maciel, como era seu verdadeiro nome, assinala uma das páginas mais deploráveis da história do fanatismo-ignorância no Brasil antigo, onde milhares de vidas preciosas e úteis se findaram, estupidamente massacradas pela horda de fanáticos que obedeciam a Conselheiro, que, assim como um estranho deus, das trevas, imperava como um rei naquelas regiões. (…). A campanha de Canudos repercutiu em todo o mundo e o nome de Antonio Conselheiro atravessou fronteiras, num exemplo típico de quanto é capaz o homem ignorante, quando alimentado por um cego fanatismo. Mas dele, hoje, só resta a melancólica lembrança e o seu clarim de guerra, que também servia para chamar os ‘fiéis’ na hora das orações, no arraial dos sertões baianos. Esse clarim nada mais é que um grande chifre de boi, hoje recolhido ao Museu Histórico, para admiração dos contemporâneos” (MUSEU DO CEARÁ, 2007, p. 111-112).

Por coincidência, o objeto não estava na reserva técnica, mas à mostra na atual exposição do Museu do Ceará, como é possível ver na fotografia abaixo:


Figura 2: Berrante atribuído a Antonio Conselheiro, trazido ao Ceará por Antonio Vilanova. Museu do Ceará.

2.3. Os escritos de Ismael Pordeus e a data de nascimento de Antônio Conselheiro

Ismael Pordeus foi um historiador cearense, nascido em Quixeramobim, membro do Instituto do Ceará, entidade que ingressou em agosto de 1955. Sua principal obra, a mais conhecida, intitula-se À margem de Dona Guidinha do Poço: história romanceada, história documentada (publicada em 1961 na Revista da Academia Cearense de Letras, e em 1963, no formato de livro). Nela, ele nos mostrou que a obra, de cunho naturalista, de Oliveira Paiva – Dona Guidinha do Poço – longe de ser pura ficção, é uma história romanceada, baseada em fatos passados na Quixeramobim de meados do século XIX. A narrativa retrataria a tragédia vivenciada por Maria Francisca de Paula Lessa, conhecida como “Marica Lessa”, que coincidentemente teria sido a madrinha de batismo de Antonio Conselheiro. Ismael Pordeus publicou ainda outros livros e artigos na revista do Instituto do Ceará e no jornal O Nordeste.

O professor e jornalista cearense José Parsifal Barroso o considera

um devorador de arquivos”, “um pesquisador arguto”, “um sedento da verdade”, vendo nele “uma capacidade desmedida de pesquisar, de discutir, de argumentar e de uma silenciosa coragem em defender a verdade, quaisquer que fossem as incompreensões e as consequências, desde que a houvesse encontrado e dela se apossado”

Funcionário público estadual, Ismael Pordeus foi readaptado no ano de 1963, ou seja, um pouco antes de sua morte, no cargo de Técnico de Pesquisas Históricas do Arquivo Público do Ceará. Parsival Barroso, governador do Ceará à época, lamenta que não o tenha investido nesta função anteriormente, pois “naquele caos informe e rarefeito que ainda é o Arquivo Histórico do Ceará (…), sua competência erudita e operacional teria feito milagres” (BARROSO, 1967, p. 300-304).

Como “devorador de arquivos” que foi, Pordeus conseguiu encontrar o registro de batismo de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, e, assim, com sua “sede de verdade” desvendou, definitivamente, a sua idade, divulgada erroneamente, até então, pelos historiadores e por seus biógrafos. Manoel Benício, em O Rei dos Jagunços, afirmou ter ele nascido “pelos anos de 1828” (1899, p. 35), seguido pelo Barão de Studart que já afirma peremptoriamente, em seu Dicionário Bio-Bibliográfico, publicado em 1910, ter sido no referido ano. Gustavo Barroso, no artigo O místico de Quixeramobim (1956), publicado na Revista O Cruzeiro, afirma haver dúvidas quanto a data, entretanto, sentencia: “Alguns autores indicam o ano de 1830, outros de 1835; mas o documentado Barão de Studart afirma ter sido o de 1828. Mais uma vez venceu o prestígio de quem fala! Embora houvesse outros que indicassem, às vezes por inferência, 1837, 1827, o ano de 1828 passou assim, para maioria, a ser a referência do ano de nascimento de Antonio Conselheiro, permanecendo entre muitos autores até mesmo após a descoberta realizada por Ismael Pordeus. Indicam o ano de nascimento como sendo o de 1828, Abelardo Montenegro no opúsculo Antonio Conselheiro (1954), Nertan Macedo em Memorial de Vilanova (1964), Paulo Dantas no livreto Quem foi Antonio Conselheiro? (1966), Ataliba Nogueira em Antonio Conselheiro e Canudos (1974, 1978, 1997), e Edmundo Moniz em seus livros sobre a guerra social de Canudos e a luta pela terra (1978, 1987, 2001). Somente em seu trabalho de 1969, Antonio Conselheiro, Nertan Macedo corrige o equívoco do livro de 1964.

O próprio Ismael Pordeus no artigo publicado no jornal O Nordeste ainda em 1949, Antonio Conselheiro não é matricida (onde também comprovou através de documentos a impossibilidade de Antonio Vicente ter assassinado a própria mãe, boato que correu à época e atravessou gerações), com dúvidas quanto a data, diria: “segundo o Barão de Studart, nasceu em 1828 (de documento em nosso poder, ainda em pesquisa, teria nascido em 1831)”. A elucidação completa, contudo, só viria anos depois, com o aprofundamento das pesquisas e a descoberta do batistério de Antonio Conselheiro.

Contudo, um escrito sobre a verdadeira idade de Antonio Conselheiro – tendo ele nascido efetivamente à 13 de março de 1830 – elaborado por Ismael Pordeus, só foi revelado e publicado após a morte do autor em 06 de setembro de 1964. No necrológio pronunciado por Luís Barros, na sede do Instituto do Ceará em outubro daquele ano, sendo este orador da entidade e amigo do falecido, foi feita a seguinte declaração:

Pouco dias antes de sua morte, mostrou-me Ismael Pordeus apontamentos sobre um trabalho que estava realizando sobre a família de Antonio Conselheiro. O Instituto do Ceará deve procurar esse trabalho para publicá-lo, com o destaque que merece, por ser talvez a última contribuição de Ismael Pordeus para o estudo de nossa história”.

Talvez Ismael Pordeus tivesse como projeto, um trabalho mais extenso sobre a família de Antonio Conselheiro, mas o fato é que o escrito encontrado referia-se à apuração e esclarecimento da idade do peregrino, enfim desvendada com a descoberta de seu registro em pesquisas realizadas nos livros de batismo da Diocese de Quixadá, Paróquia de Quixeramobim. O texto sobre a verdadeira idade foi publicado em 2011 pelo Museu do Ceará em uma coletânea de artigos de Ismael Pordeus sob o título Escritos sobre Antonio Conselheiro e a Matriz de Quixeramobim, estando a edição já esgotada. Obtive, antes mesmo da viagem ao Ceará, uma cópia, encaminhada por um amigo, mas tentei, sem sucesso, conseguir um exemplar do livro durante a viagem. Havia também identificado antecipadamente que os originais do texto datilografado, encontrava-se no arquivo do Museu do Ceará, sendo a obtenção de sua reprodução, um dos objetivos para os quais me lancei em uma viagem ao Ceará.

Figura 3: Original do escrito “A Verdadeira Idade de Antonio Conselheiro”, de Ismael Pordeus. Museu do Ceará.

No artigo Antonio Vicente no Ceará, o mestre José Calasans, aponta que Ismael Pordeus teria resolvido a questão da verdadeira idade de Conselheiro, “apresentando sua certidão de batismo”. Todavia, puxando logo neste ponto uma nota de rodapé, nos faz crer que a data teria sido revelada ainda em 1949, pois indica como fonte de sua afirmação o artigo Uma calúnia contra Antonio Conselheiro, de Gustavo Barroso, (originalmente publicado em 1957, mas igualmente presente no livro À margem da história do Ceará, de 1962), afirmando ainda que “o documento, também encontrado por Ismael Pordeus, foi publicado em O Nordeste, Fortaleza, 06-07-49”. Em nosso entendimento, trata-se de uma confusão, pois o artigo de Gustavo Barroso citado e outro de Ismael Pordeus, publicado em setembro (e não em julho de 1949) tratam especificamente do tema do matricídio atribuído a Antonio Conselheiro, e não sobre sua data de nascimento. Também realizadas buscas na edição apontada por José Calasans, durante nossa visita ao Instituto do Ceará, não encontramos nenhuma referência a Antonio Conselheiro nos artigos e notícias deste exemplar. Embora não haja indicação sobre a data em que Ismael Pordeus realizou seu grande achado, tudo nos faz crer que foi nas imediações do ano de 1964, quando mostrou o seu trabalho a Luis Barros. Quase certamente, não foi em 1949, como indicado por José Calasans, considerando que neste mesmo ano, no citado artigo Antonio Conselheiro não é matricida, Pordeus declara ter em seu poder um documento, “ainda em pesquisa”, que o levava a crer ter Antonio Conselheiro nascido no ano de 1831. 

Ismael Pordeus Júnior, filho do autor, em trabalho recente, por sua vez, afirma: “O documento [foi] publicado no texto de Ismael Pordeus, em artigo no jornal O Nordestee enviado a alguns pesquisadores com quem ele mantinha correspondências, como Gustavo Barroso” (2014, p. 15). Pordeus Júnior, entretanto, não indica a data da descoberta, nem aquela em que seu pai teria publicado o artigo no jornal O Nordeste e encaminhado o documento aos colegas.

Embora o texto A verdadeira idade de Antonio Conselheiro não esteja datado, há sinais no próprio texto de que teria sido escrito em 1964, como é possível verificar na passagem, onde se lê: “já em nossos dias (…) por Nertan Macedo, no seu festejado livro ‘Memorial de Vilanova’” (PORDEUS, 2011, p. 19). Ora, o livro de Nertan foi publicado em 1964! Concorre ainda o fato já citado de ele ter mostrado o escrito para Luís Barros no referido ano. Por outro lado, não há nenhuma indicação, nem indireta, do autor, de quando o batistério foi encontrado. E é bem verdade, todavia, que não necessariamente o esforço de publicação do achado, deva coincidir com a data da descoberta, e mesmo que o texto, elaborado por Ismael Pordeus, tenha sido produzido a um único tempo. Mas até comprovação contrária, os indícios nos levam a inferir que o texto foi produzido e o achado foi feito na década de 1960, particularmente no ano de 1964.

 

Um passeio por Quixeramobim e à Casa de Antonio Conselheiro

Cheguei em Quixeramobim ainda no dia 08 de maio, tão tarde a ponto de ir direto ao hotel para o descanso noturno. Começaria a conhecer a cidade apenas na manhã seguinte. Um amigo, João Batista Lima, historiador canudense, havia me recomendado ao mestre Neto Camorim, também historiador, que rapidamente se tornou um grande amigo e me guiou na cidade pelos principais pontos históricos locais: a Casa de Antonio Conselheiro, local de morada e comércio de secos e molhados de seu pai e posteriormente do próprio Antonio Vicente, sendo hoje um equipamento cultural que tem a “missão de preservar, pesquisar, documentar e comunicar a memória de Antônio Conselheiro”; a Igreja Matriz de Santo Antônio, onde Conselheiro foi batizado e se casou com sua prima Brasilina Laurentina de Lima; a Capela de Senhor do Bonfim, onde seu pai, Vicente Mendes Maciel, foi enterrado, membro que era da Irmandade dos Pardos desta igreja; a antiga Estrada de Ferro de Quixeramobim, inaugurada em 1894 e hoje parte do Memorial Comendador Garcia; entre outros. Em alguns destes locais, acompanhou-nos, Pedro Igor, atual gestor executivo da Casa de Antonio Conselheiro, e os professores Bruno Paulino e Hugo Lemos.


Figura 4: À esquerda, Casa de Antonio Conselheiro; à direita, Igreja Matriz de Santo Antonio, onde Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, foi batizado e se casou. Na imagem, os pesquisadores Neto Camorim e Marcos Roberto

 Pedro Wilson: precursor de um novo olhar sobre Antonio Conselheiro

As produções narrativas do século XIX formaram a base para uma representação perniciosa sobre a figura humana e histórica de Antonio Conselheiro que se difundiu e popularizou ao longo do século seguinte, e que até hoje ainda permanece enraizada em certos círculos sociais. Destacam-se entre aqueles que contribuíram para a construção deste olhar desfavorável, o cronista cearense João Brígido, o médico Nina Rodrigues, e o escritor Euclides da Cunha, com sua obra Os Sertões. 

João Brígido, que afirmou ter sido colega de infância de Antonio Conselheiro em Quixeramobim, sendo um dos primeiros a se manifestar na imprensa sobre a personalidade do peregrino, diria, em um artigo no Jornal A República, ainda em 1893, que

Ãã sua família sofria da afecção mental, própria para produzir os fenômenos que se observam nele”; que “o filho é uma completa emanação do pai, estando nas mesmas condições patológicas”, podendo ser estudado como espécie entre doentes mentais; que Antonio Conselheiro “deve apenas saber ler”; e que “na sua fé de estar no desempenho de uma missão divina, é um fanático (…)”.

O professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Bahia, Raymundo Nina Rodrigues, publicou em novembro de 1897, logo após o término da Guerra, um artigo na Revista Brasileira intitulado A Loucura Epidêmica de Canudos: Antonio Conselheiro e os jagunços, onde, valendo-se basicamente do depoimento de João Brígido, afirma ser “Antonio Conselheiro (…) seguramente um simples louco”: “o louco de Canudos”. Em seu diagnóstico médico, a partir do exame da história de vida do peregrino, conforme contada por terceiros, alega tratar-se de um caso de delírio crônico, psicose sistemática progressiva, de paranoia primária, variando as nomenclaturas de acordo com a teoria psiquiátrica da época que se quer adotar. Interpreta o comportamento de permanência do peregrino no arraial até o seu esgotamento, não como resistência social, mas como loucura, afirmando: “a conduta de Antonio Conselheiro, mantendo-se até à morte no seu posto, quando lhe teria sido facílimo retirar-se de Canudos para ponto mais estratégico, é a confirmação final da sua loucura na execução integral do papel do Bom Jesus Conselheiro, que lhe havia imposto a transformação de personalidade do seu delírio crônico”. Nina Rodrigues teve um papel fundamental para dar legitimidade social ao discurso da “loucura” de Antonio Conselheiro, sendo ele um homem de ciência, dotado de todo o prestígio que, na visão da sociedade, o torna confiável e incontestável interprete da realidade.

Os Sertões, de Euclides da Cunha, por sua vez, publicado em 1902, tornou-se um clássico da literatura nacional. Embora a tessitura de seu texto pareça abarcar visões ideológicas superpostas, sendo mesmo algumas poucas vezes favoráveis aos sertanejos, seu olhar sobre Antonio Conselheiro é bastante uniforme. Para Euclides, este “pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva (…), indo para a história como poderia ir para um hospício”. E ainda, sendo  “doente grave, só lhe podia ser aplicado o conceito de paranoia”. É um “gnóstico bronco”, um “grande homem pelo avesso”. Euclides da Cunha influenciou toda uma geração de literatos e interpretes da Guerra de Canudos. Os escritos sobre Antonio Conselheiro e Canudos da primeira metade do século XX (1902-1947) está praticamente todo submetido às concepções e leitura euclidianas e paradigmas científicos e historiográficos do século XIX, com clara deficiência de fundamentação documental e de crítica das fontes históricas utilizadas.

Nos últimos anos, instituições como a Casa de Antonio Conselheiro e alguns autores a ela ligados, como Bruno Paulino, tem realizado esforços substanciais para o resgate de pesquisadores/historiadores de meados do século XX, importantes para uma progressiva virada e releitura da personalidade histórica de Antonio Conselheiro. Bruno Paulino publicou, por exemplo, em abril de 2025, um breve artigo na Revista Boqueirão intitulado Ismael Pordeus e Antonio Conselheiro, em que aborda a contribuição deste pesquisador no desvendamento da data de nascimento e na refutação da acusação de matricídio por parte de Antonio Conselheiro. Antes disso, porém, como fruto de pesquisas realizadas em torno dos estudos sobre Antonio Conselheiro elaborados por Pedro Wilson Mendes, em fins da década de 1940, ele organizou a publicação de uma obra importantíssima sobre este autor: o Relatório da Expedição Pedro Wilson a Canudos e o Romance Histórico Sangue não lava a honra, de Mario Mendes Júnior (Luazul Edições, 2023). No prefácio “Um tesouro Histórico”, Paulino nos narra seu encontro com Mendes Júnior, sobrinho de Pedro Wilson, para uma entrevista e o seu empolgante desfecho:

“Quando findamos a entrevista, nesse abençoado dia 13 de março, Mário Mendes gentilmente me passou toda a sua pesquisa e os livros que tinha escrito, mas que nunca, até então, foram publicados. Sua intenção era que a partir daquele momento eles fossem conservados e conhecidos através da Casa de Antonio Conselheiro. Ao ter nas mãos todo material reunido por ele, eu não soube precisar meus sentimentos: era indescritível tocar a história. Folhetos, cartas amareladas, jornais antigos, livros que pesquisou, rascunhos de escrita, fotografias e anotações. Como disse: um ‘tesouro’ histórico. Fiquei tomado por emoção”.

Pedro Wilson Mendes foi um advogado e militante político cearense. Nascido em Baturité (CE), logo após a Revolução de 1930, ingressou na Faculdade de Direito em Fortaleza. Ainda calouro, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), e em suas lides, tornou-se um dos fundadores da Juventude Comunista – Seção Ceará, vinculada a Internacional Comunista de Moscou. Durante a Intentona Comunista de 1935, foi perseguido, junto com seus companheiros, pelas ruas de Fortaleza, escapando ao pular muros e telhados e se abrigar na casa de um deputado. Foi amigo e companheiro de partido de Gregório Bezerra, o que lhe custou, por este motivo, o encalço do DOPS. Em uma dessas perseguições pelo aparelho repressivo do Estado Novo, Pedro Wilson, salvou-se, escondendo-se a bordo de um navio cargueiro que se dirigia ao Rio de Janeiro, local onde passou uma temporada refugiado. Retornou a Baturité sob a proteção de amigos de seu pai, o major Pedro Mendes, mas em 1943, ao se posicionar publicamente pelo fim do Estado Novo e anistia dos presos políticos, teve sua casa revistada, seus livros apreendidos, sendo preso e conduzido a capital. Libertado em 1945, com a deposição de Getúlio Vargas, no ano seguinte, apresentou, em 22 de junho de 1946, pedido de desfiliação ao PCB (MENDES JUNIOR, 2023, p. 139-173). 

Entre 1948 e 1949, atuando como advogado e desvinculado do Partido Comunista, mas ainda adepto da revolução socialista, publica uma série de artigos no jornal O Povo (CE), sob o título Antonio Conselheiro e o Drama de Canudos. Ao todo, foram onze artigos, publicados entre 14 de junho de 1948 e 09 de outubro de 1949, que buscam refutar algumas das principais representações deletérias construídas em torno do personagem histórico de Antonio Conselheiro. Nas próprias palavras de Pedro Wilson, retirado de um dos seus trabalhos, tratava-se de um “esforço de reabilitação histórica do grande sertanejo dirigente das guerrilhas de Canudos” (O Povo, 05/08/1949).

Para Pedro Wilson Mendes, “de objetivo e real” pouco se teria dito, até então, sobre Antonio Conselheiro, para possibilitar o conhecimento das causas intrínsecas da Guerra de Canudos e da personalidade verdadeira de Antonio Conselheiro (O Povo, 14/06/1948). Buscando atingir seus objetivos de pesquisa, ele mergulha nos arquivos dos cartórios cearenses à procura de documentos que possam lhe dar os subsídios para uma reanálise do tema. Não faz apenas isso, mas relê os escritos de autores detratores de seu personagem como João Brígido e Euclides da Cunha.

Ao invés do atavismo biológico, proposto na interpretação destes dois autores, e de Nina Rodrigues, que os faz ver em Antonio Conselheiro um criminoso e louco por herança natural familiar, Pedro Wilson desenvolve uma leitura baseada em uma espécie de “atavismo cultural”, onde a cultura religiosa católica da família e do ambiente onde este está imerso, é o vetor responsável por seu comportamento místico. Dotado de uma visão marxista, ele interpreta o conflito entre Araújos/Veras (“famílias ricas”, “possuidoras de vastos latifúndios”) e os Maciéis (“família de camponeses pobres”, “vaqueiros”, “encarregados de rebanhos alheios”), como luta de classes. Permanece, todavia, como expressão do marxismo corrente àquela época, uma interpretação ainda vulgar da religião professada pelo Conselheiro, onde o cristianismo é sempre visto como cegueira, como ópio sedativo do povo, como um entrave à consciência de classe (O Povo, 12/07/1948; 31/07/1948).

Utilizando-se de documentos e mesmo da literatura produzida sobre a Guerra de Canudos por autores conservadores como Dantas Barreto, contrapõe-se a suposição lançada por João Brígido de que Antonio Conselheiro “deve apenas saber ler”. Mostra que diversas fontes apontam para o fato de ser ele um homem letrado, “bem alfabetizado e possuidor de tato, finura e sutileza, no manejo com as palavras” (O Povo, 02/08/1949).

Assim como Ismael Pordeus, que em setembro e outubro daquele mesmo ano de 1949, nas páginas de O Nordeste, publicará seu “Antonio Conselheiro não é matricida”, Pedro Wilson, antes dele, refuta com documentos e argumentos a “lenda arrepiadora” do matricídio. Uma lenda, que segundo ele, “continua a correr mundo”, atuando “na consciência popular” (O Povo, 05/08/1949). Também argumenta com base em documentos contra o suposto uxoricídio (assassinato da própria esposa), e de que teria sido ele o culpado pelo fracasso de seu casamento, conclamando: “reabilitemo-lo, pois, também sob este aspecto da vida conjugal, sob o qual tem sido tão insultado e caluniado”.


Figura 5: À esquerda, Relatório da Expedição Pedro Wilson a Canudos e o Romance Histórico Sangue não lava a honra, de Mario Mendes Júnior (Luazul Edições, 2023). À direita, um dos artigos “Antonio Conselheiro e o Drama de Canudos”, publicado por Pedro Wilson, no jornal O Povo, entre junho de 1948 e agosto de 1949. Instituto do Ceará (Hemeroteca).

Em fins de 1949, em data posterior à publicação dos artigos, Pedro Wilson, junto com mais dois amigos, resolvem realizar uma viagem a Canudos. Antes, porém, se dirigem a Assaré (CE), informado de que neste município morava um ex-combatente, sobrevivente da Guerra de Canudos, Honório Vilanova, irmão do comerciante Antonio Vilanova. Ali, Pedro Wilson pode entrevistar Honório, fotografar e conhecer verdadeiras relíquias da guerra, ainda guardadas pelo velho conselheirista, que resolve ao fim, acompanhar a expedição à Canudos. Ao retornar do sertão baiano, Pedro Wilson “montou uma exposição com fotografias, armamentos e outros materiais colhidos na cidade arrasada”, onde os visitantes puderam realizar perguntas aos membros da comitiva da viagem, em especial a Honório Vilanova, testemunha ocular da Guerra de Canudos.

Lamentavelmente, Pedro Wilson Mendes morreu em 1952, assassinado em uma tocaia orquestrada por um advogado, que se tornou seu inimigo em virtude de uma querela jurídica. Segundo João Bosco Fernandes Mendes,

“tendo em mente escrever uma biografia do Conselheiro, [Pedro Wilson] convidou o Prof. Abelardo [Montenegro] para participar do empreendimento. Realizou valiosas descobertas, mas faleceu antes de concretizar seu sonho. Abelardo levou adiante o projeto do amigo, usando os dados que este deixara em artigos, no jornal O Povo, e realizando suas próprias pesquisas. Esta informação nos foi transmitida pelo Prof. Abelardo, em contato que mantivemos com o mesmo” (1987, p. 87).

Abelardo Montenegro, em seu livro Antonio Conselheiro, de 1954, dedica a sua obra “à memória de Pedro Wilson Mendes”, fato que concorre com o depoimento dado a Fernandes Mendes. Este último, por sua vez, entende ser Pedro Wilson “o pesquisador mais eficaz na descoberta de documentos da fase ‘pré-messiânica de Antonio Vicente Mendes Maciel” (1987, p. 83). Aqui também vale uma interrogação proposta por Parsifal Barroso, em trabalho já citado, ao tratar das contribuições de Ismael Pordeus: ter-se-ia perdido, de fato, o melhor biógrafo de Antonio Conselheiro?

Considerações Finais

 Ismael de Andrade Pordeus e Pedro Wilson Mendes foram autores precursores de um novo olhar sobre a figura de Antonio Conselheiro, contribuindo, ainda nas décadas de 1940, 1950 e 1960, com uma produção documentada, que deu novos subsídios para a construção de uma nova historiografia e literatura sobre Antonio Conselheiro. Revisitá-los é, não apenas fazer justiça a estes pesquisadores, dando a eles um lugar na historiografia de Antonio Conselheiro e Canudos, mas também revelá-los ao público em geral e mesmo a muitos pesquisadores brasileiros do tema, que ignoram sua importância e produção histórica.

Desta forma, fazemos votos que novas pesquisas sejam realizadas e publicações organizadas em torno destes dois autores e do próprio Antonio Conselheiro. Já seria em boa hora, uma reedição dos “Escritos de Antonio Conselheiro”, de Ismael Pordeus, obra, como eu já havia citado anteriormente, esgotada e de difícil acesso fora do Ceará. Também estamos na expectativa da edição, pelo pesquisador Bruno Paulino, dos artigos de Pedro Wilson publicados em O Povo, na certeza que será uma bela contribuição para história e memória não apenas deste autor, mas do peregrino Antonio Conselheiro e de seu Belo Monte.


Figura 6: Na antiga Estação de Ferro de Quixeramobim, inaugurada no ano de 1894, da esquerda para direita, Neto Camorim, Marcos Roberto, Bruno Paulino, Hugo Lemos e Pedro Igor.

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Bahia, junho de 2026

Marcos Roberto Brito dos Santos

 

Marcos Roberto Brito dos Santos,p é doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador da Guerra de Canudos,

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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