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Neste ensaio provocador, Dalton Rosado convida o leitor a enxergar a Copa do Mundo de 2026 para além das fronteiras nacionais e dos uniformes das seleções. Partindo de uma antiga previsão de Pelé, o autor argumenta que a presença africana se tornou uma das forças centrais do futebol contemporâneo, seja nas seleções do continente, seja nos inúmeros jogadores afrodescendentes que brilham pelas equipes das Américas e da Europa. Ao relacionar esporte, colonialismo, diáspora africana e desigualdades sociais, o texto propõe uma reflexão sobre a profunda influência histórica e cultural da África na formação do futebol mundial. Uma leitura que combina paixão esportiva, memória histórica e interpretação social do jogo mais popular do planeta.
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A copa de 2026 é africana-um ensaio de Dalton Rosado
O escrete é a pátria em calções e chuteiras”
Nelson Rodrigues
Pelé disse um dia que uma seleção africana ainda seria campeã do mundo na coipa do mundo de futebol. A seleção do Marrocos foi a que avançou mais longe numa copa do mundo e isso já ocorreu em 2022 quando alcançou o quarto lugar da competição. Pelé, dias antes de nos deixar, chegou a ver o seu prognóstico se aproximar da realidade.
Num jogo histórico o Marrocos perdeu por 2 a 1 para a Croácia que havia eliminado o Brasil na semifinal nos pênaltis, e mostrou a força do futebol africano como prenúncio do que virá.
Mas a África, por sua bela e inconfundível etnia, espalhou-se pelo mundo de tal modo que já em 1958, um menino brasileiro de 17 anos com ascendência africana, seria campeão do mundo e que seria escolhido já ali como futuro Rei do Futebol, denominação que se consolidou com a mais brilhante carreira futebolística mundial, ainda hoje com conquistas inigualáveis.
A França, país colonizador de cerca 20 países da África desde meados do século XX (Marrocos, Tunísia, Guiné, Camarões, Togo, Senegal, Madagascar, Benin, Niger, Burkina Faso, Costa do Marfim, Chade, República do Congo, Gabão, Mali, Mauritânia, Argélia, Comores, Djibouti, República Centro Africana) dos quais extraiu riquezas que fizeram a sua pujança econômica pari passu à manutenção da pobreza crônica, manteve a moeda francesa como válida para as transações comerciais, fato que fortaleceu as relações de comércio internacional entre ditas colônias.
Não é de se admirar, portanto, o fato de que a seleção francesa de futebol, que conquistou duas copas (1998 nem 1918) nos últimos 28 anos (com pretensão de ganhar em 2026) tenha entre os seus jogadores uma majoritária presença de afrodescendentes, com destaque par Zinédine Zidane, afro-argelino, e Kylian Mbappé, francês filho de Camaroneses. Dos 26 jogadores convocados pelo técnico Didier Deschamps 18 são afrodescendentes; é a mais africana entre todos as seleções da copa mundial de 2026.
A presença africana nas copas é generalizada e crescente e se constitui como a etnia mais presente entre as várias seleções mundiais.
O Brasil, por exemplo, tem histórico glorioso de afrodescendentes nas suas conquistas, desde Leônidas da Silva (o diamante negro) e Zizinho, atéde ícones como Djalma Santos, Garrincha, Didi, Everaldo, Jairzinho, Romário, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Nazário entre outros.
Atualmente o Brasil tem cerca de 75% a 80% de afrodescendentes no seu elenco, tais como Gabriel Magalhães, Gleiser Bremer, Danilo Santos, Alex Sandro, Douglas Santos, Vini Jr., Neymar, Igor Thiago, Raphinha, Luiz Henrique, Wesley e Rayan.
Tal como o Brasil, as seleções da América do Sul têm forte contingente de afrodescendentes à exceção da Argentina, Chile e Paraguai.
O Uruguai tem tradição de grandes jogadores afrodescendentes como José Leandro Andrade, a “maravilha negra” da copa de 1930 vencida pela celeste olímpica, e Victor Andrade (sobrinho da “maravilha negra”), campeão da copa de 1950 no Maracanã na final contra o Brasil, também apelidado de “pérola negra”. Atualmente a seleção uruguaia tem dois afrodescendentes: Nicolás de láCruz e Rodrigo Aguirre.
O Equador com 13 afrodescendentes na sua seleção é uma das seleções de grandes contingentes de ancestralidade do continente africano. Craques como Spencer, Antônio Valência, Ivan Hurtado e Enner Valência figuram como expoentes do futebol mundial da gloriosa etnia africana.
A Colômbia tem cerca de 40% a 50% de sua seleção formada por afrodescendentes certificando a forte presença na América do Sul dos africanos que foram trazidos para a América como escravos e que por aqui ainda lutam por espaços numa sociedade capitalista que os segrega há séculos.
Os Estados Unidos, ora governado por um neto de imigrante alemão, mas que ora os perseguem (menos quando se tem dinheiro para comprar a cidadania) e que humilha alguns países ferindo o espírito esportivo do futebol (hoje transformado em merchandising como perigosa mercadoria valiosa e lamentável mecanismo político), tem também um contingente de afrodescendentes de 12 jogadores entre 26 convocados (46%), ou seja, há imigrantes e imigrantes… dependendo da utilidade e do dinheiro!
O receptivo Canadá tem também cerca de 13 jogadores afrodescendentes entre os 26 convocados, o que bem demonstra a prevalência dessa etnia no futebol mundial se se considerar a sua população e a diáspora mundial escravista.
Os países que compõem a União Europeia, como Alemanha com 5 afrodescendentes (com destaque para Jamal Musiala, de descendência nigeriana; Antonio Rudiger, de Serra Leoa; Jonathan Tah, Costa do Marfim; Lerou Sané, Senegal); Reino Unido, com 12 jogadores entre os 26; Bélgica com 8 jogadores entre os 26; e Portugal com 5 entre os 26, formam o quadro que estamos analisando.
A conclusão a que se pode chegar sobre o surgimento de grandes jogadores da etnia africana no futebol e se deve a dois fatores preponderantes, quais sejam:
a) Físicos – aliado a uma boa compleição e resistência, vem uma malemolência na cadência que facilita o balanço, ao contrário dos cinturas-duras;
b) Sociais – o futebol é um esporte barato, porque nas periferias pobres, onde moram os segregados sociais, há sempre um terreno baldio com duas traves de tijolos e uma bola de borracha ou de couro com um bocado de meninos (e agora de meninas) a correr atrás dela.
Essa não é uma copa mexicana, estadunidense ou canadense, mas africana; basta ligar a televisão para assistir aos jogos e se comprovar isso; sobretudo porque há muitas seleções africanas comsuas alegrias contagiantes.
Cuidado Ancelotti… a França é africana.
Vai Brasil, buscar esse hexa!
Fortaleza,junho de 2026
Dalton Rosado

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza