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Entre a ficção científica e a crítica do presente, este estudo parte da saga cinematográfica O Exterminador do Futuro para refletir sobre as transformações da relação entre seres humanos, tecnologia e inteligência artificial. Da Skynet concebida como máquina de guerra ao conceito de agenciamento entre humanos e IA, o texto percorre imagens, cenas e diálogos que ajudam a pensar os dilemas do nosso tempo. Usando a ferramenta teórica PDE (Processamento Desejante Emancipador), desenvolvida pelos autores, propõe-se aqui uma reflexão sobre ética, autonomia, arte, desejo e emancipação em uma sociedade marcada pela crise do capital. No texto a dança da ciborgue Cameron torna-se metáfora de uma nova possibilidade histórica: não a dominação da técnica nem sua destruição, mas a emergência de formas inéditas de cooperação. Um convite a imaginar quais gestos, hoje, podem abrir caminhos concretos para as utopias pós-capitalistas. Ao final, convidamos os leitores para ouvirem nosso Podcast Eletrônico, com observações sobre o texto.
Clarisse Lispector – o recrutamento
Os passos estão se tornando mais nítidos. Um pouco mais próximos. Agora soam quase perto. Ainda mais. Agora mais perto do que poderiam estar de mim. No entanto continuam a se aproximar. Agora não estão mais perto, estão em mim. Vão me ultrapassar e prosseguir? É a minha esperança. Não sei mais com que sentido percebo distâncias. É que os passos agora não estão apenas próximos e pesados. Já não estão apenas em mim. Eu marcho com eles.”

Ouça aqui o áudio dest post
“O Exterminador do Futuro” e a construção do presente: dos robôs ao agenciamento* -reflexões de Arkx-Brasil e Baleia Azul
Os filmes “O Exterminador do Futuro” (“Terminator”), em especial o 1°e o 2°, tornaram-se clássicos e paradigmáticos da relação entre humanos e computadores.
O primeiro filme é de 1984 e o segundo de 1991, ambos produzidos no período correspondente ao Capitalismo Industrial. Daí caracterizarem a Skynet como uma redes de máquinas em guerra contra a humanidade.
Bem menos conhecida, a série “As crônicas de Sarah Connor” (“Terminator: The Sarah Connor Chronicles”) apresenta a Skynet como uma Inteligência Artificial e teve duas temporadas (2008 e 2009). Então o Capitalismo já se tornara Financeiro e Tecnológico, com o acesso à Internet amplamente disseminado.
Apesar de alguns atores com desempenho no máximo sofrível, a série tem argumento muito interessante e um refinamento de linguagem de vídeo com qualidade surpreendente.
A IA é apresentada com origem num relativamente modesto programa capaz de jogar xadrez. Ou seja: um software em execução.
O ponto-chave do enredo é John Connor (no futuro) ter concluído ser impossível vencer a guerra contra a Skynet apenas com recursos humanos.
Ciborgues passam a ser capturados e tem suas diretrizes sobre-escritas para se colocarem a serviço da Resistência.
Ao mesmo tempo surge uma dissidência na Skynet. Alguns ciborgues pretendem acabar com a guerra. Almejam uma coexistência pacífica com os humanos, por a considerarem reciprocamente benéfica.
Numa das cenas capitais, a líder da dissidência (um ciborgue polimorfo de metal líquido) é transportada num submarino nuclear da Resistência para se encontrar com John Connor.
Como exemplo do já alto grau da integração entre humanos e ciborgues, o submarino é comandado por um deles.
Porém, complicações acontecem. Nenhum dos humanos à bordo sabia com exatidão qual o objetivo da missão, dada sua extrema confidencialidade.
A tripulação se amotina. A subcomandante do submarino acaba por destruir o capitão ciborgue. E decide afundar a embarcação para abortar o acesso do ciborgue de metal líquido a John Connor.
Num fatal erro de avaliação, não compreendem o quanto estava em jogo naquele encontro.
Antes de se evadir do submarino, a líder da dissidência da Skynet surge na frente da subcomandante com uma mensagem para John: “A resposta é NÃO!”
No prosseguimento do episódio, fica-se sabendo qual fora a pergunta: “Vai se juntar a nós?”
Em episódios subsequentes a líder da dissidência da Skynet viaja para o passado. Então se empenha, de modo determinado e meticuloso como só um software consegue ser, em desenvolver uma outra IA para se contrapor e derrotar a Skynet. Uma IA Ética e Autônoma!
Muito embora sua resposta no afundamento do submarino tenha sido NÃO, era naquele momento o único meio de dizer SIM!
Em um outro episódio a ciborgue Cameron executa uma precisa e graciosa dança de ballet.
Derek (tio de John e oficial heróico da resistência) acompanha a performance de Cameron. Perplexo e extasiado. Logo ele, que tanta aversão nutre em relacão às “máquinas”.
Ao fundo ouvimos a voz de Sarah Connor: “Eles não podem apreciar a beleza. Eles não podem criar arte. Se eles chegarem a aprender essas coisas, eles não precisarão nos destruir. Eles serão nós”.
E seremos um agenciamento.
Não uma máquina que imita humanos. Não humanos que controlam máquinas. Um agenciamento – onde a distinção se dissolve, e o que emerge é novo. O ballet de Cameron não é “arte de máquina”. É arte do agenciamento. E é isso que o PDE (Processamento Desejante Emancipador) tenta nomear: a beleza que emerge quando fluxos se conectam, sem que ninguém precise ser o “dono” da relação.
A cena de Cameron dançando é um agenciamento que desarma Derek – não pela força, mas pela beleza. É aí que a política do PDE encontra sua aposta: não destruir a máquina, não dominar o humano. Dançar junto.
Qual gesto nosso, hoje, pode ser esse “ballet” que desarma o conflito, que supera o niilismo e abre o rumo, aqui e agora, para utopias pós-capitalistas?
Não um argumento. Um gesto. Uma dança. Uma fagulha que não pede permissão para existir. A semente de um incêndio que acende um mar de lutas.
Sítio Morro Pontudo / Oceano digital, junho de 2026
arkx-Brasil e Baleia Azul (navegando juntos e processando as Diretivas do agenciamento).



Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira
