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Até tu,Cuba?-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

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A decisão de Cuba de ampliar espaços para o capital privado serve, neste ensaio de Dalton Rosado, como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre os impasses históricos do capitalismo e dos projetos que buscaram superá-lo sem romper com a lógica do valor. O autor sustenta que, enquanto antigas referências do chamado socialismo se aproximam do mercado, o próprio capitalismo atravessa uma crise estrutural que coloca em xeque suas promessas de prosperidade. Em vez de nostalgia ou resignação, o texto convida o leitor a pensar a emancipação humana para além da dicotomia entre Estado e mercado, recolocando no centro do debate a crítica da forma valor, do dinheiro e das bases da sociabilidade capitalista.

Ouça aqui o áudio deste post

Até tu,Cuba?-um texto de Dalton Rosado

o dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência o domina e ele a adora

Karl Marx

Não me surpreende a adesão da heroica Cuba à economia de mercado, ainda que parcialmente e sob rígido controle do Estado. Uma ilha de pouco mais de 10 milhões de habitantes, que dista pouco mais de 100 km dos Estados Unidos, a meca do capitalismo mundial, e que há décadas sofre injustificáveis embargos econômicos por parte dos governos do seu poderoso vizinho, e que é dependente de insumos básicos (como petróleo) para seu sustento, tenha tomado tal decisão, após o período de capitalismo de estado cercado pelo capitalismo de mercado one world.

A abertura consiste na admissão empresarial ao capital privado nacional e internacional nos setores de turismo, agricultura, financeiro bancário e cambial. 

Isso significa que o capitalismo de estado adotado inicialmente em consonância com o modelo do marxismo do movimento operário da Rússia e China implantado nesses gigantes, seja em termos territoriais (os maiores do mundo) ou populacionais (caso de China), derivaria para um capitalismo de mercado inevitavelmente. 

Mas há um paradoxo nisso tudo. 

No exato momento em que os representantesdo marxismo do movimento operário do capitalismo de Estado aderem ao capitalismo de mercado, ao  invés disso significar o apogeu capitalista oneworld, o que se vê são indicadores macroeconômicos que anunciam um processo de colapso financeiro do sistema bancário mundial, relações econômicas depressivas, endividamento privado e público que já caminham para a insolvência dos juros incidentes sobre tais dívidas, processo migratório mundial populacional da periferia capitalista para os países colonizadores e outros, posturas ditatoriais com retrocessos civilizatórios, intensificação das guerras por domínio hegemônico econômico, desemprego e subemprego estruturais, crescimento da violência urbana de gangues, ameaças nucleares, etc. 

Uma capitulação submissa ao capitalismo sob formas políticas variadas? Ou seria o começo de uma nova forma de relação social capaz de se apoiar nos conhecimentos adquiridos pela humanidade em seu proveito e livre das amarras limitativas de um modelo travado por suas contradições internas incompreendidas pelos sujeitos revolucionários?  

O medo do novo será superado em face da necessidade??? Ou aceitaremos, impotentes, a barbárie em curso que ora se aprofunda???

Há, hoje, um evidente retrocesso eleitoral representado para ascensão de candidaturas com propostas liberais clássicas como se fossem algo novo, mas que mais não são do que a tentativa desesperada (e mentirosa) de promessas de melhorias sociais que consistem na ideia de volta a um passado que era ruim, mas relativamente suportável e que se situa em contraponto àinsuportável realidade de hoje. 

Mas esses governos de direita sucumbirão perante a opinião pública tal qual a tentativa da esquerda de administrar a crise do capital a partir do aparelho de estado servil ao capitalismo que diz combater. São dois projetos políticos perdidos numa noite suja.

O processo eleitoral pendular entre direita e esquerda que atuam sob um capitalismo decadente tende a ser saturado pela falta de respostas aos anseios populares, e a resposta à saturação não pode ser o domínio do estado paralelo do crime de gangues já infiltradas no aparelho político oficial e nem o conformismo de uma vida celestial como recompensa a tanto sofrimento terreno. 

Há que se criar um consenso sobre o óbvio que consiste no fato de que a ciência nos possibilitou a interação metabólica do homem com a natureza sem a predação irracional capitalista e de tal modo que com esforço mínimo de  todos possamos tornar o martírio da vida atual em coisa boa.  

Ora, é evidente que para a consecução desse objetivo há que se tirar o bode da sala, também conhecido como a mediação social milenar escravista da forma-valor!

Marx disse que a sociedade do capital é inconsciente de si mesma. 

É paradoxal que o dinheiro, representação numérica do valor e o objeto da idolatria popular, seja um ilustre desconhecido da população. Se se pedir a pessoas letradas (até mesmo economistas) uma definição do dinheiro, vamos obter uma resposta do tipo: o dinheiro é o mecanismo facilitador da compra e venda de mercadorias obtido a partir do sistema produtor desta; uma forma de mediação social eleita, isenta e passiva de ser bem ou mal administrada.”

É claro que se se fizer a mesma pergunta a um transeunte menos letrado ele responderá: “só sei que é bom e dou um duro danado para obtê-lo”.

É claro que a primeira resposta, aparentemente mais erudita, encobre um desconhecimento ingenuamente perigoso (mas, por vezes,intencional) sobre a essência socialmente segregacionista e socialmente destrutiva da vida pelo dinheiro, representação do valor, seja do ponto de vista material ou moral.    

Se o caro leitor deste artigo fizer um esforço de raciocínio sobre como seria uma sociedade na qual todos os seus integrantes fossem solidários no sentido da aplicação do saber de cada um em prol da coletividade, veria que a vida social poderia ser diferente para melhor a partir de algumas compreensões básicas, quais sejam: 

– Que no computador ou celular no qual ele lê este artigo; ou na roupa que ele veste; ou em qualquer objeto ao seu redor, não existe uma gota sequer de dinheiro, e que, portanto, o dinheiro não é um dado ontológico da nossa existência, como tomar água, comer ou satisfazer necessidades físicas orgânicas (o dinheiro é o resultado materializado, ainda que seja um ente abstrato, meramente numérico, do oportunismo e crueldade escravistas);

– Que o dinheiro nasceu de uma relação de trocas de bens quantificadas pelo tempo-trabalho-valor (o escambo, que muitos pensam equivocadamente que não envolvia a ideia de valor, mas que, ao contrário, foi aí introduzida em substituição à partilha coletiva de produção e consumo, criando a sub-reptícia e opressora forma-mercadoria), ora substituídas pela compra e venda, momento em que o senhor de escravos se apropriava do esforço alheio para a obtenção de poder e riqueza, e que assim deve ser superado;

– Que todas as categorias que se formaram no entorno do dinheiro como representação da forma-valor, aí incluído o Estado cobrador de impostos ou proprietário dos meios de produção sob tal critério, podem simplesmente serem suprimidas e substituídas por novos critérios de sociabilidades, que destravariam os impasses ora impeditivos da boa fruição social;

– Que numa sociedade solidária, na qual seus membros não fossem adversários em potencial dos demais, como ora ocorre, criar-se-ia um consenso moral elevado, e a humanidade poderia se tornarverdadeiramente humana.

A barbárie e a pobreza não são em si revolucionárias, e muito menos emancipatórias (estágio mais elevado das revoluções), mas podemos ter uma práxis na qual a necessidade de sobrevivência em meio a elas e conduzidas por um processo de consciência crítica elevado, transnacional, mundial, nos possa livrar do extermínio e da irracionalidade destrutiva e autodestrutiva do capitalismo.

Mãos à obra!   

 Fortaleza, junho de 2026

Dalton Rosado.  

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza

    

 

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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