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Vivemos uma época marcada por guerras permanentes, crises climáticas, revolução tecnológica e crescente indiferença diante do sofrimento humano. Partindo dos ensaios de Stefan Zweig e dialogando com pensadores como Hesse, Chesterton, Jung, Hegel e Cassirer, André Márcio Neves Soares propõe uma reflexão inquietante sobre o nosso tempo. Se o século XX conheceu o “mundo insone”, abalado pelo horror das guerras, o século XXI parece mergulhar em um “mundo anestesiado”, onde a violência cotidiana e a distração digital caminham lado a lado. Um ensaio provocador que convida o leitor a despertar da apatia antes que a barbárie se torne irreversível.

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O mundo anestesiado-um ensaio de André Márcio Neves Soares
Três semanas após o início da Primeira Guerra Mundial, o escritor austríaco Stefan Zweig escreveu o primeiro dos seus textos para afastar a ansiedade e a inquietação perante o conflito. Esse texto, denominado “O mundo insone”, foi seguido de outros quatro e, reunidos, deram origem ao livro intitulado “Durante a Primeira Guerra Mundial”.
Se você, leitor, encontrar alguma similitude entre este ensaio e o texto de Zweig, mostrará estar atento à leitura. Isso porque, embora o contexto em que Zweig escreveu seu ensaio seja bastante diferente do momento atual, é possível encontrar pontos em comum e, infelizmente, piores em alguns aspectos.
De Zweig ao “Mundo Insone”
Zweig afirmou, no começo do ensaio, que o mundo estava dormindo menos em razão do início da Primeira Guerra Mundial. Ele disse que acordar de um pesadelo inútil era uma bênção diante da verdade aterradora da guerra de todos contra todos. Para ele, o tronar dos canhões, o barulho ininterrupto dos trens, o trote dos cavalos cruzando os campos e os disparos incessantes das armas agoniavam não apenas os seres humanos, mas também os animais e a natureza adormecida. Com efeito, a humanidade arrastou todos os seres vivos para sua batalha assassina.
O assombro de Zweig foi a constatação de que a Primeira Guerra Mundial ultrapassou os limites de qualquer guerra anterior na história, o que chamou de “uma inflamação no imenso organismo da humanidade” (Zweig, 2013, pág. 200).
- No passado, sempre havia um lugar, mesmo nos momentos mais purulentos, onde ainda havia o sono e o silêncio.
- Pessoas acordavam e dormiam sem um sono febril.
- Mas o terror que então sacodia o organismo vivo da terra parecia reverberar pelo cosmo inteiro
A excitação coletiva das terminações nervosas da humanidade, oriunda do temor e da dúvida dos desesperados, ensejou o retorno dos verdadeiros e falsos profetas, que voltaram a ter ascendência sobre as massas. Pois a vigília é constante em um mundo sem permissão para estar longe dos campos de batalha. Ninguém pode ficar indiferente à realidade transformada pela guerra: seres vivos e nações.
O Otimismo e o Desencanto de Zweig
Para Zweig, um otimista em última análise, uma nova ordem seria erguida após dias tão abrasadores e noites tão sufocantes. Uma nova paz preencheria a rotina diária. Ele escreveu, em tom de esperança, que os combatentes que regressassem saberiam apreciar melhor a beleza da vida, com mais seriedade e justiça. O chão do novo templo da paz seria regado pelo sangue sacrificado dos milhões que morreram, para que a doçura do sono pudesse ser reconquistada.
Mas será que Zweig realmente acreditava nisso? É razoável supor que cultivava a esperança como forma de se manter vivo. De fato, ele temia o futuro após o fim da Grande Guerra. Seu contundente ensaio “A tragédia do esquecimento”, escrito em 1919, é basilar para entendermos sua impaciência — e posterior desespero — diante dos impasses políticos da velha Europa.
Animando com a criação da Liga das Nações, sequer se deu conta das pesadas reparações exigidas pelos vitoriosos, que alimentaram a chama da vingança nos perdedores. No seu texto, confessou o desencanto com o sonho de uma nova Europa, livre do misterioso espírito do esquecimento. Ele constatou, perplexo, que o que chamou de “supremo conhecimento” submergiu para sempre, mal os povos voltaram a ter um pouco de repouso.
A enorme fadiga, o instinto de sobrevivência e a lassidão psíquica das pessoas favoreceram o jogo político da velha mentira e da insensatez dos verdadeiros culpados pelos horrores da Grande Guerra, que estimularam a vontade coletiva do esquecimento.”
Se a razão não conseguiu evitar esse esquecimento, só nos restou a falta de discernimento para evitar a contínua divisão entre os povos.
O Século XXI e o “Mundo Anestesiado”
Da janela do meu escritório, reflito como esses dois ensaios de Zweig fazem eco no nosso momento atual. Apesar de o mundo ainda não estar envolto numa Terceira Guerra Mundial (pelo menos não de fato), parece que já esquecemos os tempos sombrios das duas grandes guerras. Podemos constatar isso na corrida dos países pelo rearmamento militar, inclusive em nações como o Japão, outrora pacifista, e o Brasil, mediador usual em conflitos internacionais.
Mas existe uma diferença fundamental. Se a perspectiva de Zweig era a de um “mundo insone”, atualmente vivemos em um “mundo anestesiado”. Estamos a viver com guerras regionais perenes desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas a sensação é de que não nos importamos mais.
O Cenário Geopolítico Atual
Nesse aspecto, a ascensão de Trump ao governo estadunidense pela segunda vez é sintomática. O que se tem visto em seu segundo mandato é uma jornada bélica em proporções muito maiores do que no primeiro:
- O sequestro de Maduro na Venezuela;
- O apoio a Israel no conflito em Gaza, tanto na narrativa quanto no fornecimento de armamento;
- O apoio implícito a Putin na invasão da Ucrânia;
- A tentativa de tomar a Groelândia da Dinamarca;
- O cerco a Cuba pela fome e falta de combustível.
Atos de violência extremos que, todavia, não parecem ser suficientes para gerar um sentimento de revolta mundial. A possibilidade de Trump perder as eleições de meio de mandato deve-se mais à alta da inflação (causada pela guerra contra o Irã) do que à indignação pelas atrocidades patrocinadas através de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, Cisjordânia, Líbano e Irã, ou pelo cancelamento da ajuda internacional à ONU frente ao recente surto de ebola na República Democrática do Congo.
Nada disso parece ser suficiente para alarmar o mundo. O silêncio dos comuns reina numa época conturbada de transições: seja a climática, energética, tecnológica ou humana.
A Uniformização e a Inteligência Artificial
Em seu texto de 1925, “A monotização do mundo”, Zweig pareceu antecipar a severa globalização que nos acomete:
“Tudo se torna mais uniforme nas manifestações da vida exterior; tudo se nivela de acordo com um esquema cultural homogêneo. Os hábitos individuais de cada povo se desgastam, os trajes se uniformizam, os costumes se internacionalizam.” (Zweig, 2013, pág 213)
Os sintomas iam da dança, da moda, do cinema até o rádio. A consequência era uma monotonia entranhada, uma obsessão louca pela eterna fuga do tempo, fruto da mercantilização da vida e da servidão pela máquina. O ideal médio do povo tornou-se a diversão sem esforço.
Se no início do século passado Zweig já chamava a atenção para os malefícios de uma vida pautada por tal comodidade, o que podemos dizer, cem anos depois, em um mundo varrido pela Inteligência Artificial? Devemos nos lançar à servidão?
O intelectual G. K. Chesterton afirmou, às vésperas da Segunda Guerra Mundial:
Há na estupidez uma estranha força traiçoeira, porque ela pode estar não apenas fora das regras, mas também fora da razão
Chesterton avisou que a chamada evolução humana nada mais era do que um subterfúgio para o progresso e posterior destruição do intelecto humano. Concordo com o que ele escreveu.
Os sintomas da nossa insanidade irracional estão a postos para todos verem:
- Número recorde de guerras regionais por procuração;
- Corrida inédita para o rearmamento militar;
- Ascensão sem paralelos da extrema-direita mundial;
- Ataques coordenados ao bem-estar social na Europa;
- A volúpia das Big Techs pelos avanços da IA e seus modelos de dupla finalidade (vigilância civil e utilização em larga escala nos conflitos mundiais).
Os Infortúnios da Contemporaneidade
Vale lembrar as palavras de Hermann Hesse em meio à Primeira Guerra Mundial sobre as máquinas que antecederam os atuais drones: ele ironizava que, desde que o fuzilamento da população civil passou a ser feito automaticamente por balões a gás a milhares de metros de altura, as fronteiras haviam se tornado ilusórias.
Alguém aí se lembrou do conflito praticado por Israel contra os palestinos? Ou das deportações do serviço de imigração de Trump (ICE)? Ou do bloqueio contra Cuba? Alguém prestou atenção ao CEO da Anthropic, Dario Amodei, alertando que os modelos mais recentes de IA podem escapar do controle humano? Infelizmente, apenas uma pequena parcela da humanidade está atenta.
Os nossos infortúnios atuais são variados:
- São os infortúnios de todos os povos assolados pela máquina neoliberal da guerra sem limites;
- É a tecnologia viciante que transforma o TikTok num deus “ex-machina”, convertendo homens em senhores e escravos através da virtualidade da vida;
- São os milhões de desempregados pela mesma tecnologia que os fascina;
- É a sucção das potencialidades do planeta em favor de uma mínima elite em busca de fuga para o cosmos, deixando bilhões a morrer lentamente.
Continuamos anestesiados. Voltamos a ser sonâmbulos, vivendo de modo inconsciente. O estresse diário apaga a consciência e a memória. Não nos importamos com o sofrimento alheio, com o aquecimento global, com a desertificação ou com a volta das armas nucleares. Apenas fechamos nossos olhos.
A Distopia do Futuro e a Psicologia das Massas
Qual o sentido de tudo isso? Como reverter essa anestesia aplicada pela vida virtual? Para Elon Musk, o primeiro trilionário da história, quanto pior as condições da humanidade, melhor para seus negócios. Para Donald Trump, quanto mais oportunidades para mostrar os músculos estadunidenses, melhor para seus fanáticos súditos.
Somado a isso, o recente fundamentalismo tecnológico de figuras como Peter Thiel e Alexander Karp (Palantir Technologies) parece resumir a vertente neoiluminista de moldar o ocidente em termos de um governo global tecnológico. É uma utopia científica onde todos sofrerão vigilância permanente baseada em cálculos binários frios, exarando um futuro distópico que deixa para trás filmes como Blade Runner e Matrix. O objetivo final está no que o teólogo Paolo Benanti chamou de “colonização do interior” — a destruição da capacidade do ser humano de questionar a si mesmo.
Como escreveu Ernst Cassirer sobre a visão hegeliana:
“Os homens são tão loucos que chegam a esquecer (…) no seu entusiasmo pela liberdade de consciência e pela liberdade política, a verdade que reside no poder.”
Não creio que no atual estágio possamos ver triunfar ideias capazes de reverter o imediatismo do prazer digital. São muitos os recalcamentos que o homem pós-moderno, à luz freudiana, precisa usar como defesa para afastar de sua rotina as angústias de uma vida precária e perigosa. Daí o retorno do neofascismo com toda força. Um pequeno indicador disso é que conjuntos musicais de K-Pop são mais vistos nas redes sociais do que as catástrofes humanitárias no Sudão ou no Congo.
A Abdicação da Humanidade
Escrevendo em 1945 no ensaio “Depois da Catástrofe”, Carl Jung detectou um sentimento de impotência que retornou neste início de século XXI, ainda mais forte pela potência do mundo virtual. Se lá atrás a “ganância insaciável dos desfavorecidos” foi manipulada pelos nazistas, a mesma ganância dos abandonados hoje pode nos levar ao estágio último da civilização. A diferença é que Hitler levou 11 anos para assumir o poder; hoje, alguns neofanáticos com potencial de destruir o mundo já estão no comando: Trump, Putin, Netanyahu, entre outros.
Nem por isso perdemos o sono. Não perdemos o sono porque bombas caem na cabeça de crianças. Mas, se ficarmos 5 minutos sem internet, perdemos o autocontrole, nossa ansiedade dispara e ficamos inseguros diante de um mundo real que não mais nos pertence.
Se, nesse ínterim, alguma bomba atômica for novamente explodida, talvez seja a hora de fazer o que Zweig fez ao saber do torpedeamento do primeiro navio brasileiro por submarinos nazistas quando residia em nosso solo: abdicou da humanidade.
Salvador, julho de 2026
André Marcio Neves Soares
Referências
- ZWEIG, Stefan. O mundo insone. Rio de Janeiro: Zahar, 2013;
- CHESTERTON, Gilbert Keith. A barbárie de Berlim. São Paulo: LVM Editora, 2023;
- HESSE, Hermann. Sobre a Guerra e a Paz. Rio de Janeiro: Record, 1974;
- CASSIRER, Ernst. O Mito do Estado. São Paulo: Códex, 2003;
- JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição. São Paulo: Vozes, 2013.

André Márcio Neves Soares é Administrador de Empresas, Psicólogo, doutor em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador – Bahia e funcionário público do judiciário federal e escreve regularmente para o Blogue Utopias Pós Capitalistas- Ensaios e Textos Libertários