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Neste ensaio, Dalton Rosado sustenta que a crise contemporânea do capitalismo não representa apenas uma dificuldade econômica passageira, mas o esgotamento histórico da própria forma social fundada no valor, na mercadoria e no trabalho abstrato. A partir da tradição da crítica do valor, o autor examina os limites do capitalismo de Estado, do liberalismo e da socialdemocracia, argumentando que nenhuma dessas alternativas é capaz de superar as contradições estruturais do sistema. Como contraponto à mundialização do capital, propõe que a emancipação humana também só poderá ser uma construção de alcance mundial, consciente e livre do fetichismo da mercadoria.

Capitalismo one world; emancipação one world-um ensaio de Dalton Rosado
Vivemos o período de incubação de uma grande crise social mundial qualitativamente nova, cuja natureza também só pode ser abordada teoricamente com os correspondentes grandes conceitos, e, do ponto de vista prático, correspondente revolucionarismo fundamental
Robert Kurz, na introdução do livro “Dinheiro sem valor.”
O capitalismo é uma forma de relação social segregacionista porque mediada pela forma-valor que é o modus operandi do crime de apropriação indébita legalizado e oportunizado por uma lógica de autorreprodução do próprio valor num movimento autotélico.
É claro que esse processo beneficia uma parte menor da população, chamada de capitalistas e segmento de prestadores de serviços qualificados (socialmente elogiáveis uns, e outros não) que se situa numa faixa de cerca de apenas 20% da população. O restante, cerca de 80% da população mundial carrega o piano capitalista nas costas com diferenciações que vão da mera sobrevivência precarizada à miséria absoluta.
O capitalismo ilude 100% dos seus serviçais (todos os segmentos acima referidos) por meio do fetichismo da mercadoria, que é a expressão materializada de uma abstração, e que opera principalmente no campo da mente humana,Iludindo-a como aspiração equitativamente possível de prosperidade.
Mas também opera no campo empírico da necessidade material que transforma e naturaliza o objeto do consumo produzido sob sua forma ilógica em algo exclusivamente vital para a sobrevivênciados indivíduos sociais transformados em cidadãos contribuintes da própria opressão de que são vítimas; produzir valor abstrato é condição sine qua non de sobrevivência; trata-se da ditadura do valor.
O capitalista rico, dos bilionários aos milionários, obedece à risca as regras ditatoriais dalógica capitalista da qual é beneficiário por medo de ver se esvair entre os seus dedos o capital que administra e lhe proporciona privilégios pessoais, e isso enquanto a hora do colapso sistêmico não chega como um terremoto global (que ele não acredita que virá, mas para o qual ele contribuiapesar das contradições intrínsecas do sistema produtor de mercadorias).
O fetichismo da mercadoria, como bem nosdemonstrou Jorge Paiva da corrente do Crítica Radical em tantas discussões e escritos, inverte a realidade como a mágica de um ilusionista que leva o espectador iludido a acreditar no coelho saindo da cartola que estava presumivelmente vazia, ou seja, positiva uma forma socialmente negativa (a produção e distribuição da mercadoria) em algo que o contributivo indivíduo social entende como necessário e que pode vir a ser socialmente positivo a partir de uma boa administração política e funcional da forma, sem questionar o conteúdo da sua essência negativa.
A esquerda, infelizmente, em sua quase totalidade, acredita, de modo bem-intencionado e ingênuo, quando não conscientemente oportunista, na boa e possível administração política do modo de produção de mercadorias apesar de se achar anticapitalista, ou seja, deixa-se conduzir pelo fetichismo da mercadoria como uma flauta mágica que não pode ser abandonada, e esse engano é o que a faz se aferrar ao processo político com as benesses que a dinâmica serviçal oferece, e que a faz esbarrar diante das contradições de um sistema desumano, levando-a a negar os seus postulados humanistas mais caros e caindo em descrédito popular, como ora se observa.
Depois de milênios de escravismo direto veio ocrescente escravismo indireto da forma-valor num suceder de formas políticas e do direito adaptadas ao seu crescimento mundialmente desigual e servindo ilusoriamente de modelo de relação social progressista a ser adotada (ainda que tais formas fossem impostas militarmente pelas armas numa junção de crescimento de mercado e de produção de mercadorias).
O capitalismo, paradoxalmente, ao crescer mundialmente e atingir todas as regiões mundiais, no que poderia ser considerado o topo da vitória dalógica mercantil (surgido embrionariamente por trocas quantificadas no interior de pequenas comunidades, nos burgos, até achegar aos dias de hoje), atingiu, pari passu, o seu limite de expansão e agora afloram as contradições de uma equação matematicamente irresolúvel que resvala para um impasse mundial nos colocando entre a extinção como espécie ou a superação de sua lógica socialmente destrutiva e autodestrutiva.
É claro que os países de grandes extensõescomo a Rússia e a China poderiam ter adotado uma relação social sem as categorias capitalistas constitutivas da forma-valor como trabalho abstrato assalariado, dinheiro, mercadoria, mercado, estado proprietário dos meios de produção produtores e vendedores de mercadorias por empresas estatais, entre outras formas categoriais coadjuvantes do império capitalista, mesmo que isso representasse um longo percurso em busca da sociedade comunista preconizada por Karl Marx, de quem se sentiam seguidores.
Entretanto, tais comportamentos pertenciam ao universo do marxismo do movimento operário que acreditava no sujeito da classe operária como condutor da revolução e transição do capitalismo para o comunismo pela via socialista de capitalismo de estado e a ideia da superação das categoriascapitalistas naqueles momentos restouabsolutamente descartada.
A derivação do capitalismo de estado para o capitalismo privado, empresarial, é uma consequência inevitável por vários fatores, tais como:
- a pressão da guerra concorrencial de mercado na qual quem produz mercadorias melhores e a custos mais baixos sai vitorioso implica na adoção de regras de livre mercado capitalistasessencialmente autotélicas do valor produzido e que não permite distribuição (um dragão que cresce e precisa ser cada vez mais alimentado pela própria substancia abstrata produzida);
- a verticalidade do poder de mando do estado fica cada vez mais centralizada nas cúpulas dirigentes e isso afasta o povo da defesa dos seus interesses que naturalmente são avessos aos interesses da lógica do capitalismo;
- a produção de mercadorias precisa se expandir mundo afora e isso cria dependência financeira ao sistema de crédito internacional para o financiamento da produção, circunstância que implica em endividamento crescente para investimento em tecnologia de redução de custos de produção (fato que explica o endividamento público e privado chinês de cerca de 300% do PIB, o maior endividamento entre as nações);
- a recuperação cientifica e melhoria relativa da vida social em comparação com o período anterior, com a inclusão no desenvolvimento industrial cria a ilusão fetichista de mercado e progresso que implica no aplauso do capitalismoliberal como modo de relação social a ser seguido com pretensa boa administração;
- a repressão aos movimentos populares por conta da insatisfação destes para com o regime centralizado de poder representa uma permanente tensão para a ilusão do liberalismo eleitoral burguês como forma política pseudo participativa;
- o medo do novo, que representa a adoção de critérios de sociabilidades não experimentados na chamada modernidade espelhada nos países detentores de hegemonia econômica;
Da mesma forma o keynesianismo da socialdemocracia nos seus vários matizes, inclusive o trabalhista, sofre com a depressão capitalista e não consegue entregar aquilo que promete eleitoralmente, criando aceitação de uma volta nostálgica ao autoritarismo político de direita como se fosse solução menos dolorosa.
É claro que o liberalismo clássico burguês apenas intensifica a barbárie no estágio atual, mas consegue iludir muita gente.
Mas, quando tudo poderia parecer perdido, eis que caminhamos para um processo de previsível revolta mundial diante da inevitável falência dos pilares de sustentação do capitalismo (a moeda, a falência do sistema bancário, o desemprego estrutural, o aumento da opressão estatal, aumento da violência urbana, aumento do estado paralelo do crime organizado com infiltração no aparelho de estado; a corrupção institucional, as guerras, etc.), e esse pode vir a ser um instrumento da emancipação humana, que ou será one world e predominantemente simultâneo ou não será.
Xô barbárie; viva a emancipação humana consciente e livre do fetichismo da mercadoria!
Fortaleza, julho de 2026
Dalton Rosado.

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza