Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens
Wang Huning é uma das figuras mais influentes e menos conhecidas da China contemporânea. Este texto procura apresentar para os leitores deste blogue sua trajetória intelectual, suas principais ideias e o papel que desempenhou na formulação do chamado socialismo com características chinesas. Em seguida, a tradicional Nota da Editoria das Utopias Pós Capitalistas coloca esse pensamento em diálogo crítico com a teoria do valor dissociação, examinando seus alcances e seus limites diante da crise estrutural do capitalismo. Convidamos o leitor a percorrer essas duas perspectivas e, ao final, acompanhar também o podcast eletrônico preparado especialmente para esta edição, que aprofunda os principais argumentos do artigo e da nota editorial.
Ouça aqui o áudio deste post

Da Crítica da América à Construção da China: o papel do pensamento de Wang Huning na construção do socialismo com características chinesas
Quando se fala na ascensão da China como potência global, a atenção costuma concentrar-se em seus indicadores econômicos, no crescimento de sua capacidade tecnológica, na modernização das Forças Armadas ou na crescente influência diplomática exercida por Pequim. Muito menos frequente é a pergunta sobre as ideias que sustentam esse projeto histórico. Afinal, qual concepção de sociedade orienta a construção do chamado “socialismo com características chinesas”? Que reflexão política procura dar coerência a um país que combina planejamento estatal, economia de mercado, inovação tecnológica e uma das mais antigas tradições civilizacionais do mundo?
Responder a essas questões significa necessariamente aproximar-se da obra de Wang Huning. Embora seu nome permaneça praticamente desconhecido fora dos círculos especializados, poucos intelectuais exerceram influência tão profunda sobre os rumos da China contemporânea. Ao longo de mais de três décadas, Wang participou da formulação das principais diretrizes políticas adotadas por três gerações sucessivas de dirigentes chineses: Jiang Zemin, Hu Jintao e Xi Jinping. Trata-se de um caso singular na história política recente. Em vez de representar uma corrente partidária específica ou um grupo econômico, consolidou-se como formulador de conceitos, narrativas e fundamentos teóricos destinados a orientar o projeto nacional chinês no longo prazo.
Sua importância decorre justamente da discrição com que atua. Diferentemente de líderes políticos que conquistam espaço pela exposição pública, Wang construiu sua influência longe das câmeras e dos discursos. Seu trabalho desenvolve-se sobretudo na elaboração de diagnósticos, conceitos e estratégias capazes de oferecer unidade intelectual às grandes transformações vividas pela China desde o final do século XX. Por isso, muitos analistas o descrevem como o principal arquiteto ideológico do Estado chinês contemporâneo.
Nascido em 6 de outubro de 1955, em Xangai, filho de uma família originária da província de Shandong, Wang pertence à geração que atravessou a Revolução Cultural e testemunhou a profunda reorganização promovida por Deng Xiaoping a partir do final da década de 1970. Enquanto boa parte dos intelectuais chineses daquele período voltava sua atenção para a economia ou para a administração das reformas, Wang interessava-se sobretudo por uma questão mais ampla: compreender como diferentes civilizações organizavam o poder político, preservavam sua estabilidade institucional e enfrentavam os desafios da modernização.
Sua formação inicial ocorreu na Universidade Normal de Xangai, onde estudou língua francesa. Pouco depois, porém, direcionou seus interesses para a Ciência Política, área que definiria toda a sua trajetória intelectual. Em 1981 ingressou na Universidade Fudan, uma das mais prestigiadas instituições acadêmicas da Ásia, onde rapidamente se destacou como pesquisador e professor. Ali desenvolveria uma intensa produção dedicada à teoria do Estado, política comparada, administração pública, soberania nacional e análise dos sistemas políticos ocidentais. Seu reconhecimento acadêmico levou-o posteriormente à direção do Departamento de Política Internacional, transformando-o em uma das principais referências chinesas no estudo das instituições políticas contemporâneas.
Antes mesmo de assumir qualquer função junto ao Partido Comunista Chinês, Wang já havia construído uma obra acadêmica respeitável. Livros como National Sovereignty (1987), Analysis of Comparative Politics (1987), Analysis of Contemporary Western Politics (1988), Introduction to Public Administration (1988) e, posteriormente, Political Logic (1994), revelam um pesquisador preocupado em compreender não apenas o funcionamento dos diferentes regimes políticos, mas também as condições históricas que permitem a construção de Estados estáveis e capazes de promover o desenvolvimento nacional. Embora esses trabalhos permaneçam pouco conhecidos no Ocidente, eles exerceram influência significativa na formação de quadros políticos e administrativos da China.
Entretanto, foi uma experiência vivida fora de seu país que transformaria definitivamente sua trajetória intelectual.
Em 1988, Wang passou cerca de seis meses nos Estados Unidos como pesquisador visitante. Durante esse período percorreu dezenas de cidades, visitou universidades, centros de pesquisa, empresas, instituições públicas e acompanhou o cotidiano da sociedade norte-americana muito além dos circuitos acadêmicos. Seu objetivo não era simplesmente estudar o sistema político dos Estados Unidos, mas observar de perto a civilização que, naquele momento, representava o mais elevado grau de desenvolvimento econômico, científico e tecnológico do planeta.
O resultado dessa experiência foi publicado três anos depois sob o título America Against America. O livro rapidamente tornou-se uma referência entre intelectuais e dirigentes chineses interessados em compreender a potência que emergira como vencedora da Guerra Fria. Ao contrário de muitos relatos produzidos naquele período, Wang recusava tanto a admiração acrítica quanto a rejeição ideológica. Seu propósito era identificar os elementos que explicavam simultaneamente a extraordinária força dos Estados Unidos e as contradições que, em sua avaliação, poderiam comprometer sua capacidade de liderança no futuro.
Logo nas primeiras páginas, chama atenção o tom equilibrado da análise. Wang demonstra sincera admiração pela vitalidade das universidades americanas, pela criatividade científica, pelo dinamismo empresarial e pela capacidade de inovação tecnológica. Observa uma sociedade que havia transformado conhecimento em riqueza, pesquisa em desenvolvimento econômico e universidades em motores permanentes da inovação. Em muitos aspectos, via nos Estados Unidos um exemplo da importância estratégica da ciência para o fortalecimento nacional.
Mas essa admiração era acompanhada por um olhar atento às tensões internas daquela mesma sociedade. À medida que percorria diferentes regiões do país, Wang percebia contrastes que lhe pareciam cada vez mais significativos. Ao lado da prosperidade material conviviam bolsões de pobreza persistente. A extraordinária expansão econômica era acompanhada por desigualdades crescentes. A liberdade individual, celebrada como fundamento da sociedade americana, parecia caminhar paralelamente ao enfraquecimento dos vínculos comunitários e das formas tradicionais de solidariedade.
Um dos aspectos que mais o impressionaram foi a extensão alcançada pela lógica do mercado. Em sua percepção, o capitalismo norte-americano deixava progressivamente de organizar apenas a produção e o consumo para tornar-se referência dominante da própria vida social. Educação, saúde, cultura, lazer e mesmo aspectos das relações humanas pareciam submeter-se cada vez mais aos critérios da competição, da rentabilidade e da mercantilização. Não se tratava apenas da expansão da economia de mercado, mas da transformação do mercado em princípio organizador da sociedade.
Outro elemento recorrente em suas observações dizia respeito ao crescente peso da financeirização. Ainda no final da década de 1980, Wang registrava sinais de que a economia americana passava por um processo de crescente autonomização das atividades financeiras em relação à produção material. Embora não apresentasse previsões catastróficas, considerava que essa tendência poderia produzir desequilíbrios importantes no futuro, ampliando vulnerabilidades econômicas e sociais.
Igualmente marcante foi sua percepção acerca da fragmentação cultural. Wang observava uma sociedade extremamente diversa, capaz de incorporar múltiplas identidades, mas que encontrava dificuldades crescentes para construir objetivos coletivos compartilhados. O fortalecimento do indivíduo parecia ocorrer simultaneamente ao enfraquecimento de referências comuns capazes de assegurar coesão nacional. A democracia permanecia vigorosa, mas a multiplicação de interesses particulares parecia tornar cada vez mais difícil a construção de consensos duradouros.
Essas observações não conduziram Wang a uma rejeição da experiência americana. Pelo contrário. Ele reconhecia que justamente aquelas instituições responsáveis pelo extraordinário desenvolvimento dos Estados Unidos haviam produzido avanços científicos, tecnológicos e econômicos sem precedentes. A questão que começava a formular era outra: seria possível alcançar níveis semelhantes de modernização sem reproduzir os processos de fragmentação social observados na sociedade americana?
Essa pergunta marcaria profundamente toda a evolução posterior de seu pensamento.
A partir desse momento, Wang deixa de refletir apenas sobre os limites do modelo norte-americano para concentrar-se na construção de uma alternativa especificamente chinesa. Em vez de perguntar como a China poderia tornar-se semelhante ao Ocidente, passa a investigar como poderia modernizar-se preservando sua continuidade histórica, sua identidade cultural e sua capacidade de planejamento político. É exatamente dessa mudança de perspectiva que começará a nascer boa parte da arquitetura intelectual do projeto que, anos mais tarde, ficaria conhecido como socialismo com características chinesas.
A passagem da análise para a formulação de um projeto nacional constitui talvez o aspecto mais original da trajetória intelectual de Wang Huning. Muitos pensadores produzem diagnósticos consistentes sobre as transformações do seu tempo, mas poucos conseguem ver essas reflexões incorporadas à ação concreta do Estado. No caso chinês, essa transição ocorreu gradualmente. Após ingressar no núcleo de assessoramento da direção do Partido Comunista Chinês, Wang deixou de ser apenas um observador da realidade internacional para participar diretamente da elaboração das diretrizes que orientariam a modernização do país nas décadas seguintes.
É importante observar que Wang nunca propôs uma ruptura com a política de reformas iniciada por Deng Xiaoping. Ao contrário, parte do reconhecimento de que a abertura econômica foi decisiva para retirar centenas de milhões de chineses da pobreza e inserir o país entre as maiores economias do mundo. Sua preocupação consistia em impedir que esse processo produzisse, na China, os mesmos efeitos que identificara nos Estados Unidos: concentração excessiva de riqueza, enfraquecimento da autoridade pública, dissolução dos vínculos comunitários e perda da capacidade de planejamento estratégico do Estado.
Essa preocupação ajuda a compreender a crescente centralidade atribuída ao Partido Comunista Chinês na organização da vida política nacional. Frequentemente interpretado no Ocidente apenas como instrumento de controle político, o Partido aparece na reflexão de Wang como elemento articulador da continuidade histórica do Estado chinês. Sua função seria assegurar que a extraordinária expansão das forças econômicas permanecesse subordinada a objetivos nacionais de longo prazo, evitando que interesses particulares se sobrepusessem ao projeto coletivo de desenvolvimento.
Essa concepção encontra expressão na própria ideia de governança defendida por Wang Huning. Em vez de reduzir a política à competição periódica entre partidos ou à simples administração burocrática do Estado, ele compreende o governo como capacidade permanente de coordenar interesses econômicos, preservar estabilidade institucional, formular estratégias nacionais e promover coesão social. A legitimidade política, nessa perspectiva, não decorre exclusivamente dos mecanismos eleitorais, mas também da capacidade efetiva do Estado de melhorar as condições de vida da população, reduzir desigualdades, assegurar segurança e conduzir o desenvolvimento científico e tecnológico.
Foi nesse ambiente intelectual que ganharam consistência conceitos hoje amplamente associados à política chinesa. Um deles é o chamado Sonho Chinês, frequentemente reduzido pela imprensa internacional a um slogan nacionalista. Na realidade, trata-se de uma narrativa muito mais abrangente, que procura sintetizar prosperidade econômica, fortalecimento científico, recuperação do orgulho nacional, melhoria das condições de vida e reafirmação da continuidade histórica da civilização chinesa. Não é apenas um projeto de crescimento econômico, mas uma proposta de rejuvenescimento nacional.
Outro conceito importante é o da Prosperidade Comum. Depois de décadas de crescimento acelerado, a liderança chinesa passou a reconhecer que a ampliação das desigualdades poderia comprometer a estabilidade social e enfraquecer o próprio projeto nacional. A resposta não consistiu em abandonar a economia de mercado, mas em reforçar mecanismos de regulação, ampliar políticas redistributivas e limitar formas de concentração econômica consideradas incompatíveis com os objetivos de longo prazo do país. A preocupação central deixa de ser apenas produzir riqueza e passa a incluir a maneira como seus benefícios são distribuídos.
Essa orientação explica, em parte, a crescente regulação das grandes empresas de tecnologia, das plataformas digitais e dos conglomerados privados observada nos últimos anos. Para muitos analistas ocidentais, tais medidas foram interpretadas exclusivamente como ampliação do controle estatal. Sob a ótica de Wang Huning, entretanto, elas respondem a uma preocupação mais ampla: impedir que grandes centros privados de poder econômico adquiram autonomia suficiente para comprometer a capacidade de planejamento do Estado ou produzir desequilíbrios capazes de afetar a coesão social.
Ao lado da dimensão econômica, Wang atribui papel decisivo à cultura. Sua reflexão parte da convicção de que nenhuma sociedade permanece unida apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto ou pela expansão do consumo. Toda comunidade política necessita de referências históricas compartilhadas, valores comuns e uma narrativa capaz de atribuir sentido ao desenvolvimento coletivo. É nesse contexto que se compreende a valorização da história chinesa, do patrimônio cultural e da memória nacional observada nas últimas décadas.
Essa preocupação aproxima seu pensamento de elementos da tradição confucionista. Embora Wang raramente se apresente como um filósofo confucionista, diversos estudiosos identificam em sua obra conceitos claramente inspirados nessa tradição, como a valorização da harmonia social, da responsabilidade ética dos governantes, da educação como fundamento da vida pública e da importância da comunidade sobre o individualismo extremo. Não se trata de restaurar instituições antigas, mas de recuperar princípios considerados capazes de fortalecer a coesão social em uma sociedade profundamente transformada pela industrialização, pela urbanização e pela revolução tecnológica.
Essa síntese entre tradição e modernidade constitui um dos traços mais característicos do pensamento de Wang Huning. A China imaginada por ele não renuncia à inteligência artificial, à computação quântica, à robótica, às telecomunicações avançadas nem à liderança científica. Ao contrário, considera esses campos decisivos para a afirmação internacional do país. Mas sustenta que tais avanços tecnológicos precisam ser acompanhados por uma identidade cultural suficientemente sólida para impedir que a modernização resulte em fragmentação social ou perda de referências históricas.
É justamente dessa combinação que emerge o conceito de socialismo com características chinesas. Muito além de uma fórmula econômica, essa expressão procura afirmar que cada civilização possui condições históricas próprias para organizar sua modernização. A experiência europeia ou norte-americana não constituiria um modelo universal a ser reproduzido mecanicamente. A China deveria construir seu próprio caminho, articulando economia de mercado, planejamento estatal, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento institucional e preservação de sua identidade civilizacional.
Essa concepção também influencia a maneira como a China se apresenta ao mundo. Em lugar de propor um modelo único de desenvolvimento, a diplomacia chinesa insiste na ideia de que diferentes países podem alcançar a modernização por trajetórias distintas, respeitando suas tradições históricas, suas instituições e suas culturas. Trata-se de uma visão que procura romper com a noção, predominante durante décadas, de que o desenvolvimento dependeria necessariamente da adoção integral das instituições políticas e econômicas surgidas no Ocidente.
Independentemente da posição que se adote diante desse projeto, uma conclusão parece inevitável. A ascensão da China não pode ser explicada apenas por indicadores econômicos, políticas industriais ou investimentos em tecnologia. Ela também resulta da construção de uma visão estratégica capaz de integrar crescimento, planejamento, cultura, ciência e Estado dentro de uma narrativa coerente de longo prazo. Nesse processo, poucos intelectuais exerceram influência comparável à de Wang Huning.
Sua obra convida o leitor a refletir sobre uma questão que ultrapassa as fronteiras chinesas. Em um mundo marcado por crises econômicas recorrentes, rápidas transformações tecnológicas, crescente polarização política e redefinição das relações internacionais, como construir uma sociedade capaz de modernizar-se sem perder sua capacidade de planejamento, sua estabilidade institucional e sua identidade histórica? A resposta formulada por Wang certamente não encerra o debate. Mas compreender essa resposta tornou-se condição indispensável para entender não apenas a China do século XXI, mas também uma das experiências políticas mais influentes do nosso tempo.

Wang Huning e os limites de uma modernização dirigida pelo Estado

Ouça aqui o áudio desta Nota das Utopias Pós Capitalistas
O pensamento de Wang Huning possui um mérito que não deve ser subestimado. Ele percebeu muito cedo que a modernização capitalista não produz apenas crescimento econômico, inovação tecnológica e aumento da capacidade produtiva. Ela também provoca fragmentação social, enfraquecimento dos vínculos comunitários, expansão da mercantilização e submissão progressiva da vida cotidiana à concorrência. Sua leitura dos Estados Unidos identificou com precisão a coexistência entre extraordinário dinamismo científico e tecnológico, desigualdade crescente, individualismo exacerbado e perda de referências coletivas. Nesse aspecto, sua crítica aproxima-se de diagnósticos formulados por diferentes correntes críticas da modernidade.
A força de Wang está, portanto, na percepção de que o mercado não permanece restrito à esfera econômica. Ele tende a converter-se em princípio organizador de toda a vida social. Educação, saúde, cultura, relações pessoais e até as formas de percepção do tempo passam a ser subordinadas a critérios de eficiência, desempenho, rentabilidade e competição. Quando Wang observa essa expansão da lógica mercantil, ele toca num dos pontos centrais da crítica do valor: a sociedade capitalista não é apenas uma economia de mercado, mas uma forma histórica de sociabilidade mediada pela mercadoria, pelo dinheiro e pelo trabalho abstrato.
Há, entretanto, uma diferença decisiva entre o diagnóstico de Wang Huning e a crítica desenvolvida por Robert Kurz, Moishe Postone, Roswitha Scholz, Anselm Jappe, e outros autores ligados à crítica do valor dissociação que desenvolveram ferramentais teóricas que utilizamos frequentemente neste blogue para o entendimento da crise estrutural do capitalismo contemporâneo. Para Wang, a mercantilização excessiva, a desigualdade, a fragmentação cultural e o enfraquecimento da autoridade pública aparecem principalmente como efeitos de um mercado que escapou ao controle político. Já para a crítica do valor, esses fenômenos não são desvios corrigíveis de um sistema essencialmente administrável. Eles resultam da própria lógica fundamental da sociedade capitalista. E é isto que queremos acentuar nesta Nota da Utopias Pós Capitalistas.
Através da utilização da chave de leitura da crítica do valor, partimos da compreensão de que o capitalismo não se define apenas pela propriedade privada dos meios de produção, pela existência de empresários ou pela concorrência entre empresas. Sua estrutura mais profunda está na produção de mercadorias e na necessidade permanente de transformar trabalho humano em valor. O capital não é apenas uma classe social ou um conjunto de instituições. É uma relação social fetichista, um movimento de valorização no qual os indivíduos, as empresas e os Estados são obrigados a obedecer a imperativos que parecem possuir vida própria.
Nesse sistema, a produção não se orienta prioritariamente pela satisfação das necessidades humanas. Ela precisa demonstrar rentabilidade monetária. Alimentos, moradias, serviços de saúde, educação, transportes e tecnologias só podem ser produzidos de maneira socialmente reconhecida quando passam pela forma mercadoria e realizam valor no mercado. Mesmo quando o Estado intervém, regula ou planeja, ele continua dependente da produção de riqueza abstrata, da arrecadação de impostos, do crescimento econômico e da competitividade nacional.
É justamente nesse ponto que aparece o limite central do pensamento de Wang Huning. Sua resposta às contradições da modernidade consiste no fortalecimento do Estado, na reafirmação da autoridade do Partido, na regulação do mercado, na promoção da coesão social e na recuperação de elementos culturais capazes de preservar a unidade nacional. Essas medidas podem, em determinadas circunstâncias, reduzir desigualdades, limitar práticas monopolistas, orientar investimentos e impedir que grupos econômicos privados dominem completamente a condução da sociedade. Mas elas não eliminam as categorias fundamentais da forma social capitalista e nem estão imunes a crise do sistema global como um todo
A China continua organizada por meio da produção de mercadorias, do dinheiro, do trabalho abstrato, da concorrência internacional, da acumulação e da necessidade permanente de crescimento. Empresas estatais e privadas produzem para mercados nacionais e internacionais. Governos locais dependem de receitas, investimentos e expansão econômica. Trabalhadores vendem sua força de trabalho. O desenvolvimento tecnológico é medido pela capacidade de aumentar produtividade, reduzir custos e fortalecer a posição competitiva do país. A presença do planejamento estatal altera a forma de administração do sistema, mas não significa necessariamente sua superação.
Convidamos o leitor , portanto, a formular uma pergunta diferente daquela proposta por Wang Huning. Não se trata apenas de saber quem controla o mercado ou se o Estado consegue submetê-lo a objetivos nacionais. A questão é saber se uma sociedade continua submetida à obrigação de transformar energia humana, natureza e conhecimento em valor monetário. Enquanto essa mediação permanecer, a lógica da valorização continuará condicionando tanto as empresas privadas quanto as instituições estatais.
Robert Kurz em sua obra insistiu que o Estado moderno não está situado fora do capital. Ele constitui uma das formas necessárias da própria sociedade capitalista. O mercado não consegue reproduzir-se sem leis, infraestrutura, moeda, educação, sistemas de segurança, administração territorial e mecanismos de integração social. O Estado garante essas condições, mas depende, ao mesmo tempo, do funcionamento da economia. Sua capacidade de intervenção deriva da arrecadação tributária e da criação de crédito, que, por sua vez, pressupõem processos de valorização econômica.
Por isso, Estado e mercado não devem ser compreendidos como polos absolutamente opostos. Eles são dimensões complementares da mesma forma social. Em períodos de expansão, o mercado aparece como motor do dinamismo econômico. Em momentos de crise, o Estado é chamado a conter colapsos, sustentar empresas, garantir crédito, administrar conflitos e preservar a ordem. O fortalecimento do Estado pode limitar certas manifestações destrutivas do mercado, mas não suprime a lógica que produz essas manifestações. O Estado não está, portanto, fora da lógica de crise que assola todo o sistema capitalista.,mormente com a financeirização da economia global e da existência de bolhas que leva a economia a um colapso inevitável.
Essa observação é particularmente importante para a análise da experiência chinesa. A capacidade de planejamento do Estado chinês permitiu realizar transformações impressionantes em infraestrutura, industrialização, redução da pobreza, ciência e tecnologia. Seria intelectualmente irresponsável negar esses resultados. A questão colocada pela crítica do valor, contudo, não é saber se o Estado chinês é mais eficiente do que os Estados liberais ocidentais. É saber se essa eficiência produz uma forma de sociabilidade que ultrapassa a mercadoria, o valor, o dinheiro e o trabalho abstrato e está imune as suas crises .
A resposta, até o momento, parece negativa. A China não abandonou a lógica da acumulação. Pelo contrário, tornou-se um dos principais centros da produção mundial de mercadorias e uma peça decisiva das cadeias globais de valorização. Sua ascensão ocorreu por meio de uma combinação específica entre direção estatal, disciplina política, investimento maciço, exploração da força de trabalho, exportações, crédito e incorporação tecnológica. Essa combinação distingue o capitalismo chinês das formas liberais ocidentais, mas não o coloca automaticamente para além do capital e de sua crise estrutural
Outro ponto decisivo da crítica do valor, que realçamos aqui, está na análise da tecnologia. Para Wang Huning, o desenvolvimento tecnológico é um instrumento fundamental de soberania, modernização e fortalecimento nacional. Inteligência artificial, robótica, computação quântica e telecomunicações são vistas como meios de ampliar a capacidade produtiva, aperfeiçoar a governança e consolidar a autonomia chinesa diante das potências ocidentais.
A abordagem da crítica do valor não rejeita a tecnologia em si. Ela chama atenção, entretanto, para a contradição produzida pela automação dentro do capitalismo. O trabalho humano constitui a substância do valor, mas a concorrência obriga cada empresa e cada economia nacional a reduzir continuamente a quantidade de trabalho necessária à produção. A tecnologia aumenta a produtividade, mas expulsa trabalho vivo do processo produtivo. Quanto mais eficiente se torna o sistema, mais ele enfraquece a própria base sobre a qual se sustenta a produção de valor.
Moishe Postone em sua obra mostrou que essa contradição não é externa ao capitalismo. Ela está inscrita em sua própria dinâmica. A sociedade produz capacidades técnicas que poderiam reduzir drasticamente o tempo de trabalho e libertar os seres humanos de atividades penosas. No entanto, como o acesso aos meios de vida continua condicionado ao emprego e ao dinheiro, os ganhos de produtividade produzem desemprego, precarização, intensificação do trabalho e crises de financiamento.
A China também está submetida a essa contradição. Seu investimento em automação e inteligência artificial fortalece sua posição internacional, mas tende a reduzir a necessidade relativa de trabalho humano. O Estado pode administrar temporariamente os efeitos desse processo por meio de investimento público, crédito, criação de empregos e expansão da infraestrutura. Não pode, porém, resolver indefinidamente a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e a permanência de uma sociedade baseada na venda da força de trabalho.
A dimensão cultural do pensamento de Wang também merece uma análise crítica. Sua tentativa de recuperar elementos confucionistas, como harmonia, responsabilidade do governante, continuidade histórica e primazia da comunidade, responde a um problema real. A modernização capitalista dissolve tradições, desorganiza vínculos e transforma identidades em mercadorias. A recuperação da memória histórica pode oferecer resistência à homogeneização cultural promovida pelo mercado mundial.
Mas uma tradição ética não é capaz, por si só, de superar as categorias econômicas e sociais do capitalismo. Harmonia, disciplina, dever e responsabilidade comunitária podem funcionar como limites morais à competição, mas também podem ser mobilizados para exigir sacrifícios, conformidade e submissão dos indivíduos aos imperativos do desenvolvimento nacional. O apelo à coletividade não elimina automaticamente a dominação abstrata exercida pelo valor.
Já, Roswitha Scholz acrescenta a essa crítica uma dimensão indispensável que queremos lembrar aqui. Para ela a sociedade capitalista não se organiza apenas pela forma valor. Ela depende também de uma dissociação estrutural, por meio da qual atividades fundamentais à reprodução da vida, como cuidado, educação doméstica, manutenção dos vínculos afetivos e reprodução cotidiana das pessoas, são historicamente atribuídas às mulheres e desvalorizadas por não se converterem diretamente em trabalho abstrato e dinheiro.
A teoria do valor dissociação mostra então que o capitalismo não pode ser compreendido apenas pelo que é transformado em mercadoria. Também é necessário observar aquilo que ele separa, invisibiliza e transfere para esferas não reconhecidas como produtivas. Uma sociedade pode apresentar crescimento econômico, eficiência tecnológica e forte coesão nacional, enquanto continua sustentada por uma divisão sexual desigual do trabalho, por relações patriarcais e pela subordinação de atividades essenciais à reprodução social.
A recuperação de valores familiares e comunitários, presente em determinadas formulações políticas chinesas, precisa ser para nós examinada a partir dessa perspectiva. Quando a defesa da família significa transferir às mulheres a responsabilidade pelos cuidados, pela reprodução e pela estabilidade doméstica, ela pode reforçar precisamente a estrutura de dissociação que a crítica de Roswitha Scholz procura revelar.
Há ainda um problema político mais amplo. Wang associa a fragmentação social à multiplicação de conflitos, identidades e interesses particulares. Sua resposta privilegia a coesão, a estabilidade e a unidade. Mas lembramos que nem todo conflito é resultado de individualismo ou decadência cultural. Conflitos podem expressar desigualdades reais, formas de dominação e necessidades sociais que não encontram espaço de manifestação.
A busca de harmonia pode permitir planejamento e continuidade, mas pode também silenciar contradições sociais. A crítica do valor dissociação não propõe simplesmente substituir a ordem pela desordem ou celebrar qualquer conflito. Ela procura mostrar que as contradições não desaparecem quando deixam de ser publicamente visíveis. Uma sociedade organizada pela valorização do valor continuará produzindo tensões entre produtividade e emprego, crescimento e destruição ambiental, inovação e exclusão, riqueza abstrata e necessidades concretas.
A crise ecológica torna esse limite ainda mais evidente. O projeto de modernização chinês procura combinar crescimento econômico, liderança tecnológica e planejamento ambiental. A capacidade estatal chinesa permitiu avanços relevantes em energias renováveis, transportes coletivos e transição tecnológica. Mas a crítica do valor lembra que não basta substituir fontes energéticas ou tornar a produção mais eficiente enquanto permanecer intacta a obrigação de crescimento permanente.
O capital precisa transformar cada ganho de produtividade em expansão da produção, abertura de mercados e aumento da circulação de mercadorias. Uma economia pode tornar-se relativamente mais eficiente e, ainda assim, ampliar o consumo absoluto de energia, materiais e território. A superação da crise ecológica exige questionar a própria finalidade da produção, e não apenas administrar de maneira mais racional o crescimento.
O conceito de socialismo com características chinesas também precisa ser confrontado com uma definição mais rigorosa de emancipação. Se o socialismo for entendido apenas como propriedade estatal, planejamento econômico, direção política e redistribuição, a experiência chinesa pode ser apresentada como uma forma específica de socialismo. Se, entretanto, socialismo significar superação da mercadoria, do dinheiro, do trabalho abstrato e da produção orientada pela valorização, então a caracterização torna-se muito mais problemática.
A questão não é meramente terminológica. Ela diz respeito ao horizonte histórico. Um Estado forte pode dirigir o processo de acumulação de maneira mais eficaz e socialmente equilibrada do que um Estado liberal subordinado diretamente aos interesses privados. Pode limitar monopólios, reduzir pobreza e promover desenvolvimento científico. Mas isso ainda não responde à pergunta fundamental: como organizar a produção e a reprodução da vida sem depender do imperativo de transformar tudo em valor?
É nesse ponto que o pensamento de Wang Huning permanece aquém da crítica radical da modernidade. Ele procura preservar a sociedade diante dos efeitos desagregadores do mercado, mas não rompe com a lógica que transforma o desenvolvimento nacional em objetivo permanente e a população em recurso produtivo. Sua proposta é uma modernização disciplinada, coordenada e culturalmente enraizada. A crítica do valor dissociação, e nósconcordamos com isto, busca algo diferente: a superação da própria forma social que obriga indivíduos e coletividades a submeterem suas vidas à produção abstrata de riqueza.
Isso não significa rejeitar em bloco a experiência chinesa nem equipará-la automaticamente aos modelos liberais ocidentais. A China construiu capacidades de planejamento, infraestrutura e coordenação social que contrastam com a deterioração dos Estados submetidos ao neoliberalismo. Sua trajetória demonstra que o poder econômico privado pode ser limitado e que o desenvolvimento tecnológico pode ser orientado por decisões políticas de longo prazo.
Mas reconhecer essas diferenças não exige abandonar a crítica. Ao contrário, torna-a mais precisa. A China pode representar uma alternativa ao neoliberalismo sem representar uma alternativa ao capitalismo. Pode oferecer uma forma distinta de governar a modernização sem superar as categorias fundamentais da sociedade da mercadoria. Pode controlar melhor determinados efeitos do capital sem deixar de participar de sua reprodução global.
O grande mérito de Wang Huning foi perceber que uma sociedade não sobrevive apenas por sua capacidade de acumular riqueza. Ela necessita de vínculos, memória, valores, instituições e objetivos coletivos. Seu limite foi acreditar que esses elementos poderiam ser preservados por meio de um Estado forte, de uma cultura nacional renovada e de uma direção política capaz de disciplinar o mercado.
A crítica do valor dissociação conduz a uma conclusão mais radical. Enquanto a vida social continuar mediada pelo valor, pelo dinheiro e pelo trabalho abstrato, as formas de fragmentação, dominação e destruição continuarão reaparecendo, ainda que sob diferentes configurações nacionais. A questão decisiva não é apenas saber quem dirige a modernização, mas se a própria modernização capitalista pode continuar sendo o horizonte da humanidade.
O pensamento de Wang Huning ajuda a compreender uma das respostas mais importantes produzidas no interior da modernidade contemporânea. A China procura construir uma civilização tecnologicamente avançada, politicamente coordenada e culturalmente coesa, sem se submeter ao liberalismo ocidental. A crítica do valor dissociação, contudo, obriga-nos a formular uma pergunta que permanece aberta: será possível preservar a sociedade por meio de uma administração mais eficiente do capital ou será necessário superar a forma social que transforma pessoas, natureza e conhecimento em meios de valorização?
É nesse espaço de tensão que se situa a contribuição e o limite de Wang Huning. Seu pensamento oferece uma crítica poderosa à desagregação liberal, mas ainda não constitui uma crítica da sociedade da mercadoria. Ele procura construir uma China capaz de resistir ao destino dos Estados Unidos. A perspectiva das Utopias Pós Capitalistas pergunta se, permanecendo dentro da lógica do valor, a China poderá evitar as contradições que procura superar. Afinal, o exemplo do colapso do Capitalismo de Estado da União Soviética ainda está vivo na nossa memória .

O PidCast Eletrônico explora a trajetória intelectual de Wang Huning, influente teórico político chinês, contrastando sua visão com as críticas formuladas pela teoria do valor dissociação. A análise destaca como Wang identificou a fragmentação social e a mercantilização excessiva nos Estados Unidos, propondo um modelo chinês baseado no fortalecimento estatal e na coesão cultural. Em contrapartida, o PodCast mostra que a Crítica do Valor Dissociação argumenta com propriedade que o sistema chinês permanece preso à lógica do capital, pois não supera categorias como o trabalho abstrato e a produção de mercadorias. O debate centra-se na eficácia da intervenção política para conter as crises estruturais e ecológicas inerentes ao capitalismo global. Por fim, as fontes questionam se a modernização tecnológica sob direção estatal representa uma alternativa real ou apenas uma gestão mais eficiente da acumulação de valor.
Ouça aqui o áudio do PodCast Eletrônico