Fundado em novembro de 2011

Resisto,escrevo,logo descanso…-Alaor Junior

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

 

Em tempos em que produtividade se confunde com valor humano, Alaor Júnior propõe uma pausa para refletir sobre o preço subjetivo da sociedade do desempenho. Dialogando com Byung Chul Han, Foucault, Bauman, Freud, Sartre, Clarice Lispector e Florbela Espanca, o autor transforma a escrita em gesto de resistência diante do cansaço, da ansiedade e da perda de sentido. Mais do que um ensaio sobre o esgotamento contemporâneo, este texto é uma defesa da literatura como espaço de liberdade, autoconhecimento e reconstrução da identidade. Um convite para pensar, respirar e, sobretudo, continuar a “palavrar” quando o mundo insiste em nos reduzir ao silêncio.

Ouça aqui o áudio deste post

Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive.

Florbela Espanca

 Resisto,escrevo,logo descanso…- um ensaio de Alaor Junior

Ontem à noite, conversava com uma amiga, ela é daquelas queenfrenta dores similares às minhas, incômodos naturais que acometem os que resistem às demandas de um sistema adoecido. Posso lhes afirmar: é muito incômodo. Bem isso, fugimos às normas, somos avessos à alienação e assumimos o preço dessa posição. Sempre debatemos e esvaziamos nossos potes de indignações. Talvez o senso crítico, tão necessário aos que se atiram à arte, nos leve a tais percursos. Nossas percepções e conclusões são concêntricas: apesar de todo progresso, fartura científico-tecnológica, permanecemos em uma sombra existencial, que insiste em se firmar nas coxias, nos espreitando, silenciosa, cercando as personificações teatrais que o mundo atual tanto valoriza e que, por vezes, exige tais posturas ao troco de aceitação. Sim! O que nos incomoda é a lacuna relacional que atravessa o ser humano. (Humano? Há reflexões a tecer.) Diga-se da lança afiada, apontada ao âmago,que afronta convicções e que se perde no grande vazio que arrebata as massas.

Para lidar com essa realidade distópica cada qual busca suas válvulas de escape, expediente necessário ao equilíbrio, porém sem subverter do caráter, eis aí o valor da maturidade. É necessário que tenhamos consciência do nosso lugar no mundo, bom-mocismo é falácia. Particularmente, além das muitas reflexões, lanço mão da arte, em especial da literatura, tento me ocupar com leituras que ajudem a consolidar uma visão de mundo diferenciada, menos ingênua. Da mesma forma, me atiro ao exercício da escrita, que tem me auxiliado na dissolução de angústias, ao passo que compartilho e acredito na função primordial da letr[ação]: abrir passagem para novas óticas de realidade.Não tenho a pretensão soberba de mudar o mundo, mas com o pouco que me predisponho, eu o balanço. Entendo que estamos neste plano, uns para os outros.

No meio do papo, discutimos sobre o livro “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, que bem exprime um dos tentáculos que oprime o meio contemporâneo, cada vez mais ácido. No jogo capitalista, com uma sociedade que impõe a conquista de resultados, somos impactados pelas pressões de desempenho e produtividade. Haja energia, haja estrutura de ego, haja convicção. Métricas, cronogramas, indicadores, tudo a serviço do controle. Lembremos Foucault, os olhos da vigilância mergulham ao nosso profundo, enferrujando identidades, tolhendo subjetividades. A disciplina está distorcida pela ciranda de interesses. Diuturnamente incorporamos um ar de normalidade para o aumento da hiperatividade, a autocrítica fica dilatada, as exigências de foco e concentração se expandem, nos consomem, promovendo um esgotamento físico e mental, portas abertas à fragilidade psíquica, em suma, potencializa-se uma doença social, somatório das trincas individuais. Na torpe equação do mercado, sujeito é tão somente número…

A infeliz verdade é que as pessoas vão se entregando voluntariamente à imolação do eu, amargo cadafalso, algumas ficam reféns de uma vida cinza,amornada pelo fel das insatisfações, disfarçada por devaneios excessivos, a engrenagem é lubrificada com conveniente toxidade. Fato é que Freud já nos apontava as discrepâncias entre o desejo individual e as pressões dos quereres coletivos. Estamos perdendo os limites do horizonte. Miopia coletiva. Eficiência e sucesso são marcas cada vez mais pesadas, as redes sociais valorizam num crescente a condição do “ter” em detrimento do “ser”, e é nesse joguete do aparentar que as energias se esvaem, deslizam ao poço. E tudo isso é somado às concepções de uma vida líquida expressa por Bauman. Resultado? Somos nadadores fragilizados, superficiais. Curva descendente. Afogamentonum mar dissonante.

Voltando ao teatro, convivemos em um palco de fantoches sociais que desfilam em um mundo mágico, colorido pela positividade exacerbada, que tenta se colocar como máscara do sofrimento, idealismo camuflado. A conta chega à intensidade da autocobrança que nos flagela, passamos a questionar nossa capacidade e a própria personalidade. O espelho está trincado. A angústia frente aos erros nos engessa, o medo nos turva, a ignorância limita, o horror empedra. Os dados apontam para as doenças do século: depressão, transtorno de ansiedade, síndrome de burnout, transtorno de atenção e hiperatividade, somatizações diversas, insegurança, entre outras.

Frente a todo esse quadro a Sociedade do Cansaço deflagraautoexigências nos sujeitos, condições que beiram um leque de insanidades e emperram o funil dos valores, levados à subversão. Paulatinamente nos asfixiamos. Caracteriza-se aí a violência instalada, o autor a chama de “violência neuronal”, causada pelo estresse e pela exaustão perante a realidade vivenciada. No apelo popular, estamos nadando e morrendo na praia. Mas, o neoliberalismo goza a serviço das elites, é ferramenta oportuna ao patronato que pisoteia o bem estar individual. Só mais uma matrícula, só mais um crachá, só mais um cargo à troca de muita carga.

A imaginação dilatada vem como anestésico frente a tanta mediocridade, a criatividade transita pelo patamar da necessidade vital de manter a integridade do ser. Nesse arrastar, somos traídos pelo tempo que nunca para. É por isso que escrevo, as letras me evocam sanidade, é ato de resistência. A possibilidade agoniada de mergulho nos meus abismos, ao profundo desconhecido, precisa ser maior que o medo de estagnar, de colapsar. E através das pautas reforço e alinhavo a minha identidade, vou digerindo concepções, regurgitando ideologias baratas que tentam me condicionar em formas que não me cabem mais. Haja coragem! Palavras da estirpe de subversão e evolução me aliviam o cansaço, e nem me venham com presunção, afinal elas me ajudam a reforçar a certeza do que não quero e a potencializar meus desejos. No espaço pautado eu me vejo, me reconheço e me encontro. Escrevendo, eu consigo contemplar o grande silêncio depositado ao íntimo, contraponto à sociedade de ruídos insanos.

Clarice Lispector nos falou: “não sei se quero descansar, por estar realmente cansada, ou se quero descansar para desistir”. Consegue refletir sobre tal condição? Ainda não cheguei ao patamar do desistir, por enquanto me permito a rima do resistir, o que me aguça o prazer da escrita, concretização da linguagem que brota da ideação sã. Em suma, gosto de me reportar à Sartre, o existencialismo me completa com vigor libidinal. E há nisso algum mal?Estamos sós e sem desculpas, condenados à liberdade. De certa forma não nos criamos, estamos no mundo com o qual precisamos lidar, e como tal, somos livres e responsáveis por tudo o que fizermos. A vida é de escolhas, cada qual com seu preço e valor. Byung-Chul nos alerta que a cultura do desempenho nos faz esquecer que o descanso é uma forma de resistência. Creio nisso. Aí minha escrita se faz presente, é através dela que alivio meu cansaço. A palavr[ação]me traz vida, me revigora, vem no avesso do espelhamento da sociedade de aparências, de tantas imagens cansadas…

E que fique a pergunta a pulsar: vamos palavrar?

Saquarema (RJ), julho de 2026

 Alaor Júnior

 

 

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
2 Comentários
  • O dilema trazido pela citação da Clarice Lispector resume bem o nosso momento: muitas vezes o cansaço flerta perigosamente com a desistência. A percepção de que as pessoas estão se entregando voluntariamente à ‘imolação do eu’ por causa de métricas e redes sociais é dura, mas precisa. Usar a escrita para criar um espaço de silêncio e elaboração no meio desse ruído coletivo me parece não apenas um exercício de criatividade, mas de autopreservação.

  • Bom dia todos.
    Alaor, cada texto seu me faz lembrar que escrever é uma forma de continuar vivo. O mundo tenta nos convencer de que só vale quem produz, quem aparece, quem vence. Mas, para mim, a escrita sempre foi o lugar onde ainda consigo respirar. Gostei muito quando você trata o descanso como resistência. Hoje parece que até pensar virou um luxo. No fim, talvez escrever seja exatamente isso: uma recusa em deixar que o mundo nos transforme em algo que não somos. Obrigado por mais uma leitura que não termina quando acaba. Ela continua trabalhando dentro da gente.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Ensaios e Textos Libertários