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Os diversos significados dos tarifaços-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 11 leitura mínima

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As novas tarifas comerciais impostas pelas grandes potências costumam ser apresentadas como simples instrumentos de política econômica. Dalton Rosado propõe uma leitura muito mais ampla. Para o autor, os tarifaços revelam as contradições profundas de um sistema que, durante séculos, defendeu o livre comércio e que agora recorre ao protecionismo para tentar conter sua própria crise. Partindo da crítica da economia política e dialogando com a teoria do valor, o ensaio examina as relações entre capital, Estado, tecnologia, migrações e guerras, sugerindo que os conflitos comerciais são sintomas de um impasse histórico mais profundo. Um texto provocador, que convida o leitor a olhar para além das disputas entre governos e a refletir sobre os limites da própria sociedade da mercadoria.

 

Ouça aqui o áudio deste post

O livre comércio serve à causa do progresso econômico e serve à causa da paz mundial.

Ronald Reagan (Em discurso sobre o comércio internacional, defendendo a eliminação de barreiras comerciais)

Se reclamarem, se quiserem uma tarifa zero, então que fabriquem seu produto aqui nos Estados Unidos

Donald Trump no dia do anúncio do tarifaço

 

 Os diversos significados dos tarifaços-um ensaio de Dalton Rosado

O protecionismo comercial das nações é coisa antiga; no Brasil data de 1844 a chamada Tarifa Alves Branco (do Visconde Caravelas, que foi Ministro da Fazenda) que consistiu no aumento dos impostos de importação visando favorecer a indústria nacional nascente; tal prática ocorreu em outros momentos como no início do século passado e ainda agora mais recentemente, na década de 1980 com as chamadas “leis da informática”, dando início à era da terceira revolução industrial da microeletrônica/cibernética.

​A produção de mercadorias destinadas ao comércio internacional representou a necessidade de expansão do capitalismo mundo afora, e teve a expressão dessa necessidade expansionista marcada a partir da primeira revolução industrial inglesa.

Na Inglaterra ocorreu a embrionária substituição da mão de obra humana assalariada, trabalho abstrato, empregada nos teares ingleses movidos com máquinas. Esses teares foram substituídos em grande parte pelo surgimento das máquinas à vapor, que por sua vez fez surgir as estradas de ferro e suas “Marias Fumaças” movidas pela mesma fonte energética abrindo caminhos mundo afora e suprindo os nichos de trabalho anteriormente suprimidos.

Para cada suprimento de trabalho abstrato surgiam mais oportunidades de novos nichos de necessidade de mão de obra humana. Era a época da ascensão possível do capitalismo nascente.

​O capitalismo é uma forma de relação social que se sustenta (exclusões sociais escravistas à parte) pela necessidade de expansão num movimento parecido com a força energética de equilíbrio de uma bicicleta que precisa de velocidade para se manter de pé e é nesse sentido que se situa a nossa análise crítica dessa forma de relação social que, como todo mal, por si se destrói.

​Os Estados Unidos e a Europa, ao longo dos dois últimos séculos, foram defensores intransigentes do livre comércio, vez que como grandes produtores de manufaturados precisavam vender suas mercadorias para o mundo menos desenvolvido e fazer a pujança econômica e hegemônica dos seus interesses e riquezas concentradas. Agora mudou a postura tangido pelos ventos das contradições capitalistas; é o capital dando ordens à política sem soberania de vontade (vide Ronald Reagan ontem e Donald Trump de hoje, ambos conservadores de direita e republicanos).

​É que o capitalismo é a contradição em processo como desenvolvimento de uma equação irresolúvel que ao final termina por demonstrar a sua incongruência. Segue o baile macabro dos zumbis inconscientes teleguiados…

​O mercado, chamado por Adam Smith como a “mão invisível”, é o altar da guerra de concorrência onde as mercadorias se digladiam na busca pela vitória e é onde ocorre o confronto épico de uma abstração torna real, ou seja, o valor de compra das mercadorias que rege de modo oportunista o valor de uso destas e o subordina à sua autofagia socialmente destrutiva e por fim autodestrutiva da própria forma.

Destarte, o capital criou o nacionalismo a partir do seu interesse e necessidade de ter o Estado nacional a lhe proteger e fazer o controle monetário do próprio capital; mas aí surge a verdade subliminar anteriormente eclipsada: o capital é uma lógica paradoxalmente cumulativa dele mesmo, sem dono específico que lhe dite outras regras que não as suas próprias; os entes privados ou estatais lhe são submissos; e assim o capital tende à autodestruição quando atinge o limite previsível de sua expansão.   

Por ser um Deus abstrato tornado real, absolutista, contraditório, paradoxal, que não aceita nada nem ninguém acima de si, ele assim transforma os capitalistas em servos voluntários privilegiados da sua administração e seus estados nacionais, como servos políticos e espaços receptáculos de canais de sobrevivência de sua forma, ou seja, faz com que o capital, administrado por entes empresariais privados regulamentados pelo Estado, que apenas cumpre ordens da lógica em curso, migre para espaços de mão de obra barata (trabalho abstrato de onde se extrai mais valia cada vez mais precarizada) em busca do lucro vital.

O povo trabalhador é apenas o ingrediente de carga escravizado.

Essa é a explicação facilmente observada quando da migração de empresas capitalistas multinacionais em busca de mão-de-obra barata, fenômeno que vai desde a China, hoje uma locomotiva da economia capitalista mundial, até a Índia e outros países asiáticos, Américas Central e do Sul, México, África, etc.

Nesse contexto, estabelece-se uma contradição irresolúvel: empresas com sede original em países capitalistas, produzem mercadorias baratas (que produz fenômeno da desubstancialização do valor a ser logo adiante explorado) na periferia capitalista para serem vendidas em países que estão perdendo sua hegemonia (caso exemplar dos Estados Unidos),mas que são impedidas de fazê-lo por conta dos tarifaços.

Ora, não se pode produzir mercadorias e vendê-las num volume global compatível com a necessidade de expansão capitalista e entra em cena o conflito entre estados nacionais capitalistas protecionistas e o capital privado empresarial multinacional one world que está se lixando para os governos e políticos protecionistas que contrariem o fluxo do capital.

É a explicitação do horizonte limitativo da expansão sem a qual o capitalismo entra em crise falimentar e na crise de conceitos ora evidenciada; “em casa que falta pão todos brigam e ninguém tem razão”, diz o dito popular.

A busca pela redução dos custos de produção de mercadorias visando a vitória na guerra concorrencial de mercado, força a substituição majoritária do trabalho vivo, dos salários dos trabalhadores, pelo trabalho objetivado, das máquinas, que não têm salários, trabalham 24 horas e não fazem greves, mas provocam endividamento incompatível com os juros desse mesmo endividamento. Tudo converge para um fim melancólico e perigoso para humanidade causado pelo capital. 

​O fenômeno da mecanização da produção em maior escala provoca o desemprego e subemprego estrutural, pari passu à redução da massa global de valor e sua desubstancialização formando um quadro que a cada dia se torna mais incontornável, ainda que quase todos queiram se agarrar aos pressupostos e fundamentos capitalistas exauridos pela própria dinâmica das contradições.

Nesse quadro global de contradições é evidente que as tarifas alfandegárias politicistas, estatais, sem soberania de vontade sobre o capital, não apenas se tornam inócuas como agravam o quadro de depressão da economia mundial. A tarifas são a pretensão de defesa em um combate previamente perdido no qual se evidencia a fraqueza econômica do emissor. 

Da mesma forma, as guerras de controles militaristas estatais já não oferecem solução, seja porque as ocupações militares terrestres não conseguem promover a socialização saudável da economia no país ocupado (esse é a razão dos fracassos no Vietnã, Afeganistão, Iraque, Síria, Criméia, etc.) ou seja porque a economia globalizada já não permite a estabilidade da vida social sob o tacão do arbítrio.

Por outro lado, a perseguição aos migrantes da diáspora capitalista mundial somente demonstra a xenofobia nacionalista do capital que transforma o ser humano estranho ao seu semelhante, seja pela etnia, cor da pele, cultura, etc., porque é a expressão do individualismo que torna todos adversários de todos, subvertendo a natureza humana original que somente pôde sobrevier graças à solidariedade de grupos nos quais todos protegiam os demais contra as intempéries do tempo e da vida animal. 

Hoje, com a letalidade militar nuclear e o aquecimento global fruto da irracionalidade da produção capitalista, estamos todos ameaçados, até mesmo aqueles bilionários que pretendem se esconder em bunkers contra a radioatividade nuclear.

Pôxa, logo agora que atingimos um grau elevado do saber, vamos perder a oportunidade de usar esse saber em nosso proveito?        

 Fortaleza, julho de 2026

Dalton Rosado.

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza

 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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