Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens

Ouça aqui o áudio deste post
As pesquisas eleitorais registram um momento da disputa política; não antecipam o resultado final. Com base na pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026, o professor Paulo Baía analisa a liderança de Eduardo Paes, a disputa pelo segundo lugar entre Douglas Ruas e Anthony Garotinho e os efeitos da reorganização institucional do Estado sobre o cenário eleitoral.Mais do que apresentar números, o ensaio interpreta a geografia do voto, a volatilidade do eleitorado e os fatores que poderão influenciar a campanha. Uma análise que mostra uma liderança consistente, mas uma eleição ainda em aberto, cujo desfecho dependerá da capacidade das candidaturas de dialogar com os diferentes territórios sociais do Rio de Janeiro.

A geografia eleitoral do Rio de Janeiro em 2026: Eduardo Paes, a disputa pelo segundo lugar e a reconstrução institucional do estado- um estudo de Paulo Baía
A pesquisa Genial/Quaest realizada no Estado do Rio de Janeiro entre os dias 21 e 25 de julho de 2026 revela uma eleição organizada em dois planos muito distintos. No primeiro, Eduardo Paes aparece isolado, com uma vantagem larga, consistente e distribuída por diferentes segmentos sociais e eleitorais. No segundo, Douglas Ruas e Anthony Garotinho disputam, em condição de empate estatístico, a possibilidade de chegar à segunda colocação.
1. Uma eleição dividida em dois planos
O levantamento entrevistou 1.200 eleitores fluminenses, possui margem de erro estimada em três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Esses elementos metodológicos são fundamentais. Uma pesquisa eleitoral não é uma profecia, nem uma urna antecipada. É uma fotografia produzida segundo regras estatísticas, capturada num determinado momento da vida política.

Essa fotografia, contudo, não é estática. Ela possui luz, sombra, distância e perspectiva. Permite observar quem ocupa o centro da cena, quem aparece nas margens, quem conserva força acumulada e quem ainda procura uma forma política capaz de transformar reconhecimento em voto.
No cenário mais amplo, Eduardo Paes alcança 38%. Anthony Garotinho e Douglas Ruas aparecem com 10% cada. Os demais candidatos ficam abaixo de 3%. Há ainda 19% de eleitores indecisos e 16% que declaram intenção de votar em branco, anular o voto ou não comparecer.
A vantagem de Paes sobre cada um dos dois candidatos empatados na segunda colocação é de 28 pontos percentuais. Sua intenção de voto é quase quatro vezes superior à de Douglas Ruas e à de Anthony Garotinho.
Há outro dado de grande significado político. A soma de Ruas e Garotinho chega a 20%. Mesmo juntos, os dois principais adversários permanecem 18 pontos abaixo de Eduardo Paes. Portanto, a liderança não decorre apenas da fragmentação da oposição. Paes possui uma posição própria, autônoma e amplamente superior.
A eleição fluminense, nesse momento, parece um território com uma montanha central e duas colinas em disputa ao redor. A montanha é Eduardo Paes. As colinas, ainda próximas em altura, são Douglas Ruas e Anthony Garotinho.

2. A série histórica da Quaest e a trajetória de Eduardo Paes
A comparação entre as pesquisas Genial/Quaest de abril e julho de 2026 permite observar a linha de evolução das principais candidaturas.
Em abril, Eduardo Paes registrava 34% no cenário mais amplo. Douglas Ruas aparecia com 9% e Anthony Garotinho com 8%. Em julho, Paes sobe para 38%, enquanto Ruas chega a 10% e Garotinho também alcança 10%.

A variação nominal é clara. Eduardo Paes cresce quatro pontos percentuais. Anthony Garotinho avança dois pontos. Douglas Ruas oscila um ponto.
É necessário interpretar essas mudanças dentro da margem de erro. Oscilações pequenas não podem ser automaticamente classificadas como crescimento estatisticamente consolidado. A passagem de Ruas de 9% para 10%, por exemplo, pode representar apenas uma oscilação amostral. O avanço de Garotinho de 8% para 10% também deve ser lido com cautela.
A variação de Eduardo Paes, de 34% para 38%, possui maior relevância política e estatística. Ainda que pesquisas distintas não devam ser comparadas como se fossem uma única medição contínua, a direção observada reforça a percepção de consolidação.
Paes não apenas permanece na liderança. Ele amplia sua distância em relação aos concorrentes e aumenta a capacidade de receber votos quando alguns nomes são retirados dos cenários estimulados.
Nos cenários mais reduzidos, Eduardo Paes chega a 42%, enquanto Douglas Ruas alcança 11%. A simplificação da disputa não produz uma concentração expressiva no candidato bolsonarista. Ao contrário, beneficia proporcionalmente o líder.

Esse movimento é central para compreender a eleição. Quando o cardápio de candidaturas diminui, parte relevante dos eleitores desloca sua preferência para Eduardo Paes. Isso demonstra que sua candidatura possui elasticidade eleitoral.
Elasticidade é a capacidade de crescer para além do núcleo inicial de apoio. Uma candidatura rígida fala apenas para os seus. Uma candidatura elástica consegue receber eleitores que não pertencem organicamente ao seu campo político, mas que a consideram aceitável, funcional ou segura.
Eduardo Paes aparece como uma embarcação capaz de recolher passageiros vindos de portos diferentes. Alguns chegam pela proximidade com o presidente Lula. Outros, pela identidade de centro. Outros, ainda, pela memória administrativa da Prefeitura do Rio de Janeiro. Há também os que não se identificam com sua trajetória, mas o consideram mais preparado do que os adversários.
A série histórica da Quaest sugere, portanto, uma trajetória de crescimento e recepção. Paes amplia seu desempenho sem depender exclusivamente da transferência de votos de uma única liderança nacional.
3. A base social e política da liderança de Paes
Eduardo Paes lidera entre homens e mulheres, entre jovens, adultos e idosos, além de apresentar bom desempenho em diferentes faixas de renda e escolaridade.
Seu melhor resultado ocorre entre eleitores lulistas e segmentos de centro esquerda. Entretanto, a candidatura também demonstra capacidade de alcançar independentes, moderados e parcelas do eleitorado de centro direita.
Essa composição é sociologicamente relevante. O Rio de Janeiro não é uma unidade eleitoral homogênea. É um mosaico formado por metrópole, periferias, cidades médias, regiões turísticas, áreas industriais, territórios agrícolas, municípios dependentes de receitas petrolíferas e localidades marcadas pela presença de redes religiosas, policiais, militares, empresariais e comunitárias.
Uma candidatura competitiva ao Governo do Estado precisa dialogar com essa diversidade. Precisa falar com a Zona Sul e com a Baixada Fluminense, com a Região dos Lagos e com o Norte Fluminense, com o Médio Paraíba e com a Região Serrana. Precisa compreender que o estado possui muitos centros e muitas periferias.
A força de Eduardo Paes nasce da articulação entre quatro capitais políticos:
- Capital de reconhecimento.
- Capital administrativo.
- Capital de coalizão.
- Capital de aceitabilidade.
Nas eleições majoritárias, a aceitabilidade funciona como uma ponte. Ela permite que o eleitor deixe sua primeira preferência e caminhe para uma escolha considerada mais segura. A Quaest mostra que Eduardo Paes possui essa ponte. Douglas Ruas e Anthony Garotinho ainda precisam construí la.
4. O paradoxo do voto espontâneo
Sem a apresentação dos nomes dos candidatos, 84% dos entrevistados não conseguem indicar em quem pretendem votar.

Eduardo Paes aparece com 9%. Douglas Ruas registra 3%. Anthony Garotinho tem 1%.
O dado central é que a eleição estadual ainda não ocupou plenamente a consciência cotidiana dos eleitores.
A Quaest também indica que 55% dos entrevistados admitem mudar de candidato, enquanto 43% afirmam possuir uma escolha definida.

Entre os eleitores de Eduardo Paes, 56% consideram a decisão definitiva. Entre os apoiadores de Douglas Ruas, o percentual chega a 61%. Entre os eleitores de Anthony Garotinho, apenas 45% dizem ter uma escolha consolidada.

A campanha de 2026 ainda possui uma larga planície de eleitores disponíveis. A questão é saber qual candidatura terá organização, mensagem, capilaridade e credibilidade para ocupá la.
5. Douglas Ruas e a dificuldade de transformar bolsonarismo em voto estadual
Douglas Ruas possui um ativo político importante. É o candidato identificado com o campo de Flávio Bolsonaro, com o Partido Liberal e com setores conservadores organizados no Estado do Rio de Janeiro.
Entretanto, os números mostram uma dificuldade evidente. Até julho, Douglas Ruas não conseguiu converter toda a força simbólica e eleitoral do bolsonarismo em intenção de voto para o Governo do Estado.
Seu desempenho permanece entre 9% e 11%, dependendo do cenário.
A transferência de votos nunca é automática. O voto presidencial não desce mecanicamente pela chapa como água por uma calha.
Douglas Ruas ainda precisa apresentar uma narrativa estadual própria sobre segurança pública, saúde, educação, desenvolvimento regional, mobilidade e reconstrução institucional.
6. Desidratação eleitoral ou estagnação política?
Na comparação entre abril e julho, Douglas Ruas não perde intenção de voto. Passa de 9% para 10%.
O conceito mais preciso, portanto, é estagnação.
Ainda assim, pode se falar em desidratação relativa. Ruas perde exclusividade política ao empatar com Anthony Garotinho.
Também há sinais de dificuldades para ampliar apoios territoriais, enquanto Eduardo Paes expande sua rede política.
7. Ricardo Couto e a nova arquitetura institucional do Estado
A conjuntura eleitoral também é influenciada pela atuação do governador interino Ricardo Couto.
Auditorias, reorganização administrativa, revisão de estruturas e redução de cargos modificaram o ambiente político estadual.
Essas mudanças não significam apoio institucional a qualquer candidatura, mas alteram as condições em que elas disputam.
Nesse contexto, Eduardo Paes aparece melhor posicionado por reunir experiência administrativa e capacidade de articulação.
8. O empate estrutural entre Douglas Ruas e Anthony Garotinho
Douglas Ruas e Anthony Garotinho registram 10%.

O empate é:
- Numérico.
- Político.
- Territorial.
- Comunicacional.
Também nos cenários de segundo turno a diferença entre ambos permanece dentro da margem de erro.
A disputa pela segunda colocação continua completamente aberta.
9. Anthony Garotinho entre a memória e o presente
Anthony Garotinho atua simultaneamente em dois tempos.
O primeiro é o da memória política construída como prefeito, governador e candidato presidencial.
O segundo é o presente, marcado pela atuação nas redes sociais, visitas aos municípios e reconstrução de alianças.
Sua força está no reconhecimento acumulado.
Sua principal limitação continua sendo a elevada rejeição.
10. A rejeição impede Garotinho de chegar ao segundo lugar?
Não.
A rejeição dificulta o crescimento, especialmente num eventual segundo turno.
Mas não impede matematicamente a chegada ao segundo lugar.
Para isso, Garotinho precisa apenas superar Douglas Ruas, e hoje ambos aparecem rigorosamente empatados.
11. Os cenários de segundo turno
Eduardo Paes vence com ampla vantagem tanto Anthony Garotinho quanto Douglas Ruas.

- Contra Garotinho: 48% x 18%.
- Contra Douglas Ruas: 52% x 16%.
Esses resultados mostram elevada capacidade de agregação eleitoral do líder da pesquisa.
12. Os demais candidatos e a dignidade do pluralismo
Os candidatos abaixo de 3% cumprem papel importante na democracia ao apresentar ideias, representar segmentos sociais e ampliar o debate público.
Entre eles, Cyro Garcia merece destaque pela trajetória ligada ao movimento sindical, à defesa dos trabalhadores e à tradição socialista.
Uma democracia forte também depende da existência de candidaturas minoritárias.
13. A disputa pelos 92 municípios

A eleição será decidida em todo o território fluminense.
Eduardo Paes busca ampliar alianças municipais.
Douglas Ruas procura fortalecer o enraizamento estadual do PL.
Anthony Garotinho tenta reconstruir antigas bases políticas.
Embora a percepção geral favoreça Eduardo Paes, somente uma cartografia política detalhada permitirá medir quantitativamente a migração de apoios municipais.
14. A eleição ainda não está encerrada

A pesquisa Genial/Quaest de julho mostra uma liderança consolidada, mas não uma eleição encerrada.
Eduardo Paes lidera todos os cenários, cresce na série histórica e amplia sua vantagem nos testes de segundo turno.
Douglas Ruas permanece estável em um patamar entre 9% e 11%.
Anthony Garotinho preserva capacidade competitiva e divide com Ruas a disputa pela segunda colocação.
Ricardo Couto reorganiza institucionalmente o Estado e altera as condições da disputa política.
Ao mesmo tempo, 84% dos eleitores ainda não indicam espontaneamente um candidato, e mais da metade admite mudar de voto.
A liderança de Eduardo Paes é consistente. A disputa pelo segundo lugar permanece aberta. O resultado final dependerá da campanha, das alianças, dos debates, dos acontecimentos nacionais e da capacidade de cada candidatura dialogar com os diferentes territórios sociais do Estado do Rio de Janeiro.
Pesquisa não é destino. É sinalização.
A Genial/Quaest indica, neste momento, que Eduardo Paes está mais próximo de transformar liderança em hegemonia do que Douglas Ruas ou Anthony Garotinho de converter o segundo lugar em alternativa efetiva de poder.
Mas o voto, como toda construção humana, preserva uma dimensão de liberdade, surpresa e invenção. É nesse espaço que a política continuará sendo escrita.

Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).