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Nesta crônica, Paulo Baía lança um olhar delicado sobre aquilo que quase nunca vira notícia: a vida comum. Entre caminhadas pelo Parque do Flamengo, árvores floridas, o mar, conversas nas esquinas, a expectativa pelo Flamengo e os passeios com Leon e Iza, o autor reflete sobre nossa tendência de enxergar o mundo pela lente das tragédias.Sem ignorar a violência, a desigualdade e os medos do presente, Baía propõe outra medida para a existência. A felicidade, ao contrário da tragédia, não precisa fazer barulho. Ela permanece dispersa nos pequenos acontecimentos, nos afetos e nos gestos cotidianos que sustentam silenciosamente a vida.
Ouça aqui o áudio da crônica de Paulo Baía

Confissão de quem ainda olha a cidade- uma crônica de Paulo Baía
Em mais de setenta anos de vida, aprendi uma coisa que hoje me parece simples: o cotidiano contém muito mais sutilezas, alegrias e belezas do que tragédias e medos. Não porque a dor não exista. Ela existe, fere, revolta e exige nossa atenção. Mas a tragédia faz barulho. Ganha manchetes nas televisões, ocupa as telas dos celulares, multiplica-se ao infinito nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. A beleza cotidiana quase sempre acontece em silêncio. Talvez por isso pareça menor. Não é. É muito, mas muito maior.
Há um erro de proporção na maneira como contamos o mundo. Uma tragédia recebe câmeras, comentaristas, vídeos, manchetes e milhões de compartilhamentos. Enquanto isso, no mesmo dia, crianças brincaram, pessoas chegaram bem em casa, amigos se encontraram, famílias almoçaram juntas, cachorros receberam carinho, desconhecidos foram gentis, alguém tomou sorvete, alguém se apaixonou, alguém ficou diante do mar simplesmente olhando e uma árvore floresceu no Parque do Flamengo. Quase nada disso virou notícia. Mas tudo isso aconteceu.
Outro dia fiquei algum tempo olhando essa árvore florindo no Parque. Entre a cidade e o mar, naquele jardim maravilhoso, ela oferecia seu pequeno espetáculo sem plateia. Algumas flores permaneciam nos galhos, outras desciam lentamente sobre a grama. Ao redor, corredores passavam, bicicletas seguiam seus caminhos, celulares recebiam mensagens, pessoas cumpriam horários. A árvore não disputava atenção com ninguém, não anunciava sua beleza, não pedia aplausos. Apenas florescia.
Não como uma explosão permanente de euforia, mas como alguma coisa que se oferece discretamente aos nossos sentidos e que tantas vezes perdemos porque estamos olhando para outro lugar. A beleza não envia notificações. Uma árvore florescendo não interrompe o noticiário. Uma criança brincando não vira manchete. Um gesto de carinho raramente produz imagens compartilhadas milhares de vezes. Ainda assim, são essas pequenas ocorrências que formam a matéria real de quase todos os nossos dias.
É perto dessa árvore, nesse extraordinário jardim chamado Parque do Flamengo, que caminho com Leon e Iza. Meus dois Chow Chow parecem conhecer uma maneira de perceber o mundo que nós, humanos, fomos perdendo. Os cachorros não são cínicos. São farejadores. São hipersensíveis ao microdetalhe. Onde vejo apenas uma árvore, Leon encontra uma quantidade de informações que jamais alcançarei. Onde percebo somente um pedaço de grama, Iza descobre cheiros, rastros, presenças e histórias invisíveis aos meus sentidos.
Eles caminham lentamente. Param, farejam, observam e continuam. Não demonstram qualquer constrangimento em dedicar longos segundos a uma folha, a um cheiro, à base de uma árvore ou a algum mistério escondido entre a grama e a terra. Enquanto nós procuramos o grande acontecimento, Leon e Iza investigam o mínimo. Talvez saibam, sem saber que sabem, que o mundo também está inteiro nas coisas pequenas.
Caminhar com eles modifica meu olhar. Na velocidade de Leon e Iza, percebo melhor as árvores, a luz mudando sobre as folhas, os pássaros, outros cachorros, uma criança correndo, uma senhora descansando num banco, o vento chegando da Baía de Guanabara. E percebo novamente aquela árvore florindo. Talvez a beleza precise apenas disso: algum tempo e alguma atenção.
A cidade que ainda vive
A cidade que conheço também está nessas pequenas cenas. Está na Rua do Catete, nas pessoas voltando da padaria com seus sacos de pão e cafés nas mãos. Está no Largo do Machado, nos idosos observando o movimento e nas crianças brincando. Está na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, nos aposentados conversando nas esquinas, nas pessoas voltando do mercado, nos casais caminhando juntos e nos cachorros levando seus humanos para passear. Existe uma humanidade imensa simplesmente vivendo, e essa vida comum, tão pouco noticiada, talvez seja o acontecimento mais extraordinário de todos.
Existe também o mar, sempre o mar, luminoso nos dias de sol e cinza nas manhãs nubladas. Depois de tantos anos, aprendi a gostar dos dois. A beleza não precisa estar permanentemente iluminada. Há beleza na sombra, no silêncio, na espera e até em algumas melancolias. O mar me lembra que a vida não precisa ser perfeita para continuar bonita.
A felicidade da espera
E existe o futebol. A Copa do Mundo passou. As convocações da seleção ficaram para trás depois de movimentarem mesas, bares, famílias e esquinas. Agora existe outra espera. O Flamengo.
O jogo decisivo ainda não começou, mas sua alegria chegou antes dele. Está nas esquinas, nas praças, nos bares e também no Parque do Flamengo. Alguém comenta a escalação, outro imagina o gol, o motorista conversa com o passageiro, o porteiro com o morador, o vendedor de mate com o freguês. Basta uma camisa rubro-negra para dois desconhecidos encontrarem assunto. O resultado pertence ao futuro, mas a felicidade da espera já pertence ao presente.
Gosto especialmente dessa alegria antecipada porque ela ainda não depende da vitória. Durante algumas horas, existe apenas a possibilidade. Podemos imaginar o gol, o abraço, a comemoração, a cidade feliz. Depois virá o resultado, com sua sentença esportiva inevitável. Antes dele, porém, existe esse território maravilhoso da expectativa, quando tudo ainda pode acontecer.
Enquanto alguém discute o Flamengo no Parque, Leon fareja uma árvore e Iza examina algum segredo na grama. Acho bonita essa cena. Nós imaginamos o jogo que virá, eles se dedicam minuciosamente ao instante que existe, e eu caminho entre essas duas formas de felicidade.
A contabilidade sombria do mundo
Talvez seja por isso que continuo escrevendo crônicas. Não para negar a violência, a injustiça, a desigualdade ou o medo. Seria absurdo. Elas existem e precisam ser enfrentadas. Mas me recuso a permitir que a repetição das tragédias transforme uma parte da realidade na imagem inteira da existência.
Depois de mais de setenta anos, aprendi a desconfiar dessa contabilidade sombria do mundo. Vivi perdas, frustrações, medos e tristezas, como qualquer pessoa que tenha vivido bastante. Mas quando olho para trás e, principalmente, quando olho ao redor, encontro uma quantidade muito maior de pequenos acontecimentos felizes: conversas, amizades, encontros, cachorros, árvores, livros, refeições, caminhadas, afetos, futebol, risadas, manhãs, tardes, noites, o mar e a simples possibilidade de acordar no dia seguinte e continuar.
Creio que isso dá significado à vida, mesmo quando não o declaramos. Talvez não seja necessário encontrar uma explicação grandiosa para a existência. Talvez o sentido esteja distribuído em pequenas porções pelo cotidiano e dependa apenas de nossa capacidade de percebê-lo.
Aquilo que não precisa fazer barulho
Por isso continuo olhando a cidade. Vejo suas feridas, mas não aceito defini-la por elas. Vejo também as crianças brincando, os velhos diante do mar, os desconhecidos conversando nas esquinas, a alegria antecipada pelo Flamengo, Leon e Iza farejando os microdetalhes do mundo e aquela árvore florindo no Parque do Flamengo, indiferente às manchetes, às redes sociais, aos grupos de WhatsApp e às nossas urgências.
Em mais de setenta anos, talvez eu tenha aprendido principalmente isto: a tragédia precisa gritar para chamar nossa atenção. A felicidade não. Ela pode estar numa árvore florindo, num cachorro farejando a grama, numa conversa sobre futebol, no vento vindo do mar, numa pessoa caminhando tranquilamente pela cidade.
Talvez viver seja, em grande medida, aprender a perceber aquilo que não precisa fazer barulho para ter importância.
E aquela árvore continua florindo no Parque do Flamengo.
Rio de Janeiro, agosto de 2026
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