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À direita… rumo ao abismo!-Dalton Rosado

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 9 leitura mínima

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Em “À direita… rumo ao abismo!”, Dalton Rosado interpreta o avanço mundial da direita não como demonstração de vitalidade do capitalismo, mas como expressão de sua crise estrutural. Para o autor, o desencanto popular com as promessas não cumpridas pela esquerda e a incapacidade da direita de oferecer soluções duradouras revelam os limites de uma política aprisionada às categorias do capital. À luz da crítica do valor, Rosado argumenta que a emancipação humana não poderá nascer da simples alternância de governos, mas da superação das próprias relações sociais fundadas no trabalho abstrato, no dinheiro, na mercadoria e no mercado. Inspirado pelo espírito libertário do Maio de 1968, o texto identifica nas mobilizações populares e na rebeldia das novas gerações sinais de uma possível ruptura com a ordem existente. Uma reflexão provocadora sobre a crise da política, os impasses do capitalismo e a necessidade de imaginar outros horizontes para a vida social. Convidamos à leitura.

Ouça aqui o áudio deste post

Frase em Paris , citada por Guy Débora em 1968

      

À direita… rumo ao abismo!- um texto de Dalton Rosado

Paradoxalmente, a direita cresce mundo afora… mas ao mesmo tempo assina a sua certidão de óbito; algo como o último suspiro de um moribundo. Expliquemos.

          O crescimento da direita (mais eleitoral do que real) decorre do desencanto da população com a capacidade da esquerda em entregar aquilo que promete, ou seja, a integralidade das suas tradicionais bandeiras humanistas, mais por impossibilidades materiais do que por falta de boa intenção.

          O desencanto provoca um déjà vu (ainda que encabulado) com o passado (principalmente do pós-segunda guerra mundial) que foi menos ruim do que é o presente. Mas o fenômeno é como se fosse um puxão de orelha ou decepção com os governos “politicamente corretos” no sentido humanista; como se o eleitorado quisesse dizer: vocês me enganaram…

          Mas a roda da história caminha para a emancipação humana, se não se extinguir antes de alcançar tal desiderato (condição cada vez mais possível, seja por questão bélica ou ecológica), e nesse sentido o atual avanço da direita se insere num contexto “tsunami”, no qual o recuo das águas oceânicas prenunciam uma inundação violenta quebrando a placidez da costa marítima.

          Como os postulados da direita clássica são consistentes no livre mercado, estado mínimo e autoritário que representam um ideário ultrapassado pelas próprias contradições em processo do capitalismo, seus governos e candidatos terminam sempre por cair num descrédito pela aplicação pragmática negativa de tais postulados e por consequência são defenestrados do poder político, ainda que sejam sempre sustentados pelo verdadeiro poder no capitalismo: o poder econômico.

          Mas a esquerda, com toda a sua ortodoxia ou pretensa episteme socialista, ao ter como alicerce de sua condução política a preservação das categorias capitalistas, algo que empiricamente corresponde a se querer fazer um bolo doce com sal, termina por cair no mesmo resultado da direita, ou seja, o desgaste perante quem acredita equivocadamente (o eleitorado) que um governante governa e pode mudar o resultado da realidade da relação social a partir das diretrizes governamentais ditadas por uma constituição e regramentos  preestabelecidos e moldados na forma e na fôrma capitalista.

Mas a vida social é mais diversa do que a bitola estreita desses atores políticos obedientes a uma relação social absolutista, escravista, restritiva da capacidade do fazer em todos os níveis, excludente, contraditória, elitista, racista, xenófoba, misógina, irracional, ecologicamente destrutiva, e o escambau, e que por assim ser termina por extrapolar os marcos opressores preestabelecidos e aparentemente únicos, fazendo-os voar pelos ares.

Tal pressuposto libertário há de surgir como a eclosão de uma erupção vulcânica que expele as lavas vulcânicas como expressão da maior intensidade do calor subterrâneo que a promove.

Como é bonito ver os estudantes na vanguarda destemida de todos os cidadãos como a querer dizer-lhes como nos versos de Belchior:

eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens… vejo vir vindo do vento, cheiro de nova estação, eu sei de tudo na ferida viva, do meu coração…” 

As significativas manifestações na França, com centenas de milhares de manifestantes e se alastrando por diversas cidades francesas; e o mesmo ocorrendo em Portugal, Espanha, Grécia e Argentina têm algo em comum: a insatisfação popular com um contrato social que exclui a parte hipossuficiente dos contratantes.

O capitalismo faz água por todos os lados; o que sempre foi ruim, agora se tornou insuportável dentro de um contexto de internacionalização das relações sócio/econômicas no qual uma infecção localizada se expande como metástase, e este fator de comunicação interativa num capitalismo one world deve representar uma nova etapa da capacidade de mobilização sob bandeiras emancipacionistas.

Está matematicamente comprovado que a mediação social pela forma valor (mercadorias dinheiro, bens de consumo e serviços) atingiu o seu limite expansionista de autorreprodução pelas contradições dos seus próprios fundamentos e se tornou socialmente destrutivo e autodestrutivo da própria forma.

 A dinâmica das mutações sociais próprias às contradições capitalistas está tornando inviável a continuidade da existência das suas próprias categorias, que vão desde o trabalho abstrato produtor de valor (uma mercadoria hoje vendida a preço de banana, ora até dispensável estruturalmente, em maior parte), passando pelas mercadorias, mercado, emissão de moeda, sistema bancário e endividamento privado e público, direito, até a institucionalidade estatal e suas eleições nas quais se escolhe entre quem (e o que) já foi previamente escolhido.

É o anacronismo estrutural econômico e legal que promove a revolta e indignação  como resultante da perda de direitos, debacle econômica individual e sistêmica, desesperança, principalmente entre os jovens que chegam ao mercado de trabalho sem perspectivas e que olham para seus pais sem querer repetir aquilo que representa para eles, como resultado, a redução do bem estar e segurança social apesar de todos os ganhos extraordinários da saber adquirido pela humanidade, mas que não são colocados ao seu serviço.

Aos poucos a ficha está caindo que pode haver uma forma de relação social de produção e consumo de bens e serviços fora da restritiva e excludente mediação social pelo capital.

Essa é a deixa que está se tornando perceptível como no jogo de “caça ao tesouro” quando se está próximo da descoberta.

O futuro emancipacionista é cada vez mais próximo.   

Vive La France!

Viva o ressurgir do maio de 1968;

viva Portugal revivendo a revolução dos cravos de 1974;

viva a Espanha antifranquista rediviva;

viva a Grécia, berço dos filósofos clássicos;

viva a Argentina do imortal Che Guevara!

Fortaleza, outubro de 2026

Dalton Rosado.

Sobre o autor


DALTON ROSADO É ADVOGADO, ESCRITOR, ARTICULISTA DE JORNAIS E BLOGUES E COMPOSITOR NASCIDO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. VIVE E MILITA NA CIDADE DE FORTALEZA, CIDADE QUE O ACOLHEU, ONDE FAZ PARTE DO GRUPO CRÍTICA RADICAL DE FORTALEZA
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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