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Os últimos dias-Arkx-Brasil 

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

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Há momentos na história em que a política deixa de caber nas disputas eleitorais e algo mais profundo começa a se manifestar: a memória de um povo que, apesar de tantas derrotas, nunca deixou de lutar. Neste texto de forte intensidade poética e política, Arkx Brasil, pseudônimo de Antônio Garcia, transforma uma caminhada solitária pela Serra da Mantiqueira numa travessia pela história das resistências populares brasileiras. Dos povos indígenas aos quilombos, das revoltas camponesas às lutas operárias, dos insurgentes do passado às mobilizações contemporâneas, emerge uma identidade coletiva que não se confunde com o nacionalismo nem se deixa aprisionar pelas instituições. Escrito sob a atmosfera de uma ruptura histórica iminente, o ensaio ultrapassa a conjuntura eleitoral para interrogar os limites do lulismo e a potência emancipatória do povo em movimento. Mais do que uma evocação do passado, é um chamado à recuperação da memória das lutas e à possibilidade de reinventar o futuro. Convidamos nossos leitores a percorrer com Arkx Brasil essa emocionante celebração do povo que luta, resiste e insiste em transformar a vida.

Ouça aqui o áudio deste post

Os últimos dias- um texto de Arkx-Brasil 

Todos já haviam percebido. Em maior ou menor grau. Conscientemente ou não. Mas era impossível não sentir. Porque a emoção se tornara tão densa a ponto de escorrer pelas faces, como lágrimas provocadas por um sentimento tão intenso quanto indeterminado.

O que vinha acontecendo naqueles últimos dias? Ao que conduziria? Como se poderia saber, a não ser vivendo plenamente aqueles últimos dias…

Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida. Mas o que importa um ícone católico ter sido escolhido como padroeira do Brasil? Não sei… Talvez por ser uma mãe-preta. Talvez por ter sido encontrada em águas de rio numa segunda quinzena de Outubro. Talvez por evocar uma origem comum, na qual se encontram todas as crenças e todos os povos.

O que vinha acontecendo naqueles últimos dias já não se tratava de eleições, muito menos de Lula. Aquilo já acontecera muitas vezes anteriormente. Da última vez fora em 2016. O Povo que luta se levantara contra o golpe. Mas…

Como também jâ ocorrera muitas outras vezes, a cúpula, a direção, o Lulismo de novo não abraçara a luta. E sem coordenação, por mais potente que seja o Desejo, ele acaba se dissipando sem conseguir se materializar por completo.

Hoje era diferente. Desta vez a cúpula, a direção, o Lulismo precisavam desesperadamente do Povo que luta. Era uma questão de sobrevivência. Um laço comum se estabelecera. Ninguém podia largar a mão de ninguém.

Todos pressentiam que aqueles seriam os últimos dias. E fosse qual fosse o resultado das eleições, não iríamos sobreviver àqueles últimos dias. A ruptura, tantas vezes rechaçada ao longo da História do Brasil, hoje vinha veloz ao nosso encontro. Já não seríamos os mesmos.

Enquanto caminho por uma estradinha de terra nos altos da Serra da Mantiqueira, me perguntou sobre o futuro. Mas hoje não há futuro algum. A história do futuro somos nós a escrevendo no agora incerto desses últimos dias.

E algo se insinua através da indefinição. Não! Não é ninguém montando um cavalo branco! Espera! É uma multidão! Seriam eles? Os brasileiros?

Sim! Chegou o momento de revelar um segredo: todos nós juntos já vivemos uma vez. E naquela vida fomos chamados de Brasileiros. Não como uma identidade nacionalista, e sim como um Povo que luta.

Caminhando passo a passo pela estradinha de terra, começo a murmurar como se as palavras fossem sendo sussurradas aos meus ouvidos:

Salve os argonautas! Salve, salve!
Salve Ganga Zumba! Salve os Cabanos, os Malês e os Balaios! Salve, salve.
Salve os Tamoios, Aimorés, Potiguares, Tupinambás! Salve, salve.
Salve Felipe Camarão! Salve os Alfaiates e os Cariris! Salve, salve!
Salve o Almirante Negro! Salve o movimento anarco-sindicalista e a Coluna Prestes!
Salve Apolônio de Carvalho. Salve Lamarca! Salve Carlos Marighella! Salve, salve.
Salve as greves de 1979! Salve as “Diretas Já”! Salve Junho de 2013! Salve, salve.
Salve Tiradentes! Salve o Caldeirão do Deserto! Salve Trombas e Formoso! Salve, salve!
Salve Sepé Tiaraju! Salve o Dragão do Mar! Salve, salve! Salve a Hydra de Iguassu! Salve, salve .
Salve o Contestado! Salve Canudos e Palmares! Salve, salve!
Chegou a hora de rejuvenescer. A vida só é bela para os ressuscitados.
Que a luz da estrela da revolta nos inspire a todos!
Ousar lutar! Ousar vencer! Somente a luta muda a vida!
Que os Encantados nos protejam e nos iluminem nesta travessia.
Salve o Povo que luta! Salve, salve!

Sítio Morro Pontudo / Oceano digital, outubro de 2026

arkx-Brasil

Sobre o autor

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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