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Brasil: Lula ou barbárie-André Márcio Neves Soares

arlindenor pedro
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O que está em disputa quando uma eleição coloca em risco direitos, condições de vida e liberdades? Neste artigo, André Márcio Neves Soares apresenta sua defesa da eleição de Lula como uma urgência diante da ameaça bolsonarista. Ao examinar o ressentimento, a mobilização dos mitos políticos e a permanência da mentalidade colonial, o autor também questiona as limitações de uma esquerda que precisa, repetidamente, convocar a sociedade para impedir a catástrofe. Um convite à leitura e ao debate sobre as raízes dessa ameaça e os desafios que permanecerão além das urnas.

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Brasil: Lula ou barbárie-André Márcio Neves Soares

Se se mantiver a tendência do primeiro turno, de vitória de Flávio Bolsonaro, perderemos muito como sociedade! Pois a questão, na presente eleição, não é de pura e simples derrota democrática do governo atual, e sim de qual projeto de civilização sairá vencedor das urnas.

Confesso que fiquei baqueado, chocado mesmo, com o resultado do primeiro turno! Apesar de as pesquisas eleitorais nunca apresentarem um favorito, eu esperava que Lula tivesse alguma margem de votos para ter chance de repetir o feito de 2022. Infelizmente, eu estava errado.

Eu sei que essas últimas quase três semanas foram intensas, com a população mobilizando-se com o objetivo de evitar a barbárie. As forças progressistas não deram o braço a torcer e continuam lutando, ainda mais desesperadamente. Afinal, se Lula conseguir a façanha de virar o jogo, afastaremos o espectro do fascismo por mais alguns anos. Mas, ainda que isso aconteça, a expressiva votação em Flávio Bolsonaro é prenúncio de turbulências futuras. Lula está em sua última jornada, e o lulismo se encerra com ele. Não existe herdeiro. Isso, por si só, já é muito preocupante.

É fato que todas as vitórias de Lula em eleições anteriores, salvo a sua reeleição, em 2006, foram revestidas de algum senso de urgência civilizatória. E essa urgência só aumentou com o passar das eleições. Com efeito, em 2002, contra José Serra, e em 2006, contra Geraldo Alckmin, a vitória do candidato petista foi contra a direita nacional e o projeto econômico-financeiro do neoliberalismo, capitaneado pelos Estados Unidos. No entanto, após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, a direita brasileira retornou ao poder e preparou o caminho para a ascensão de um ator até então pouco conhecido no cenário nacional: a ultradireita.

A eleição de Jair Bolsonaro, que somente foi possível após o fenômeno estadunidense “Trump”, dois anos antes, confirmou a existência de algo muito sinistro na alma de nossa nação, já conceituado por Sérgio Buarque de Holanda décadas atrás: o homem cordial brasileiro possui um ardil psicológico e comportamental que revela uma dubiedade de caráter muito além do temperamento emotivo. Já sabíamos disso. O que não sabíamos era que o caráter nacional, pelo menos parte dele, não pode mais ser traduzido apenas pelas categorias de cordialidade buarquianas, como a repulsa às regras formais, a mistura entre o público e o privado e a violência disfarçada, tudo envolto em um sentimento ambíguo que vem do coração, para o bem ou para o mal.

De fato, desde a ascensão do bolsonarismo, boa parte da sociedade brasileira está envolta na ambiguidade emocional para o mal. Assim, o ódio ao nordestino, ao ser humano de cor, às comunidades LGBTQIAPN+, aos defensores do clima etc. faz parte de uma racionalidade orgânica da ultradireita, que vê na pessoa diferente de si uma ameaça. O show de horrores dos eleitos para cargos do Poder Legislativo confirma essa perspectiva.

Então pergunto: e agora? Existe uma frase, falsamente atribuída a Winston Churchill (1874–1965), primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial, que diz: “Se entrares no inferno, permaneça nele”. Obviamente, ninguém quer permanecer no inferno. A ideia da frase seria a de ter resiliência, de permanecer vivo e atuante para sair dele. Será que, mais uma vez, vamos precisar ter resiliência para superar o governo do zero um? Porque não resta dúvida de que um novo governo Bolsonaro nos levará de volta ao inferno. Como o pai, Flávio Bolsonaro colocará o Brasil de volta ao mapa da fome em menos de dois anos. E ficaremos de joelhos!

Definitivamente, não precisa ser assim. Será que já esquecemos das mais de 700 mil mortes pela covid-19, ocorridas enquanto Bolsonaro pai fazia chacota e andava de motocicleta? Será que esquecemos que seu infame ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, queria desmatar e garimpar sem limites, passando a boiada? Será que esquecemos que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto covardemente pela polícia baiana, foi condecorado com a Medalha Tiradentes, a maior condecoração do Poder Legislativo fluminense, enquanto estava preso, acusado de homicídio, em 9 de setembro de 2005, por iniciativa de Flávio Bolsonaro? Será que esquecemos que Bolsonaro pai tentou dar um golpe de Estado, com planos para matar um ministro do STF, Lula e seu vice? Esquecemos das cenas dantescas de invasão dos Três Poderes, em Brasília, por uma horda de fanáticos? Esquecemos que o esquema do Banco Master beneficiava diretamente a família Bolsonaro, apesar de não apenas a ela?

Concordo com o texto mais devastador de Luís Felipe Miguel sobre “O povo e sua vontade” (1). A ignorância política das massas é um fato, e a esquerda brasileira nunca atuou efetivamente para combatê-la. É claro que não é só por burrice, mas também por perversidade. Eu acrescentaria dois componentes, extraídos de Gray (2): o primeiro, histórico, que estabelece que “Sem dúvida a intolerância à realidade é inata ao espírito humano. Cada era tem uma imagem alucinatória de si mesma, que persiste até ser dispersada pelos acontecimentos” (2011, p. 8); e o segundo, de cunho político-religioso, segundo o qual “[…] o declínio da religião que se deu no século XX fez-se acompanhar da ascensão da política fundada na fé, uma continuação da religião por outros meios que provou ser tão destrutiva como a religião em seus piores momentos” (2011, p. 9). É possível introduzir, ainda, um componente psicológico: a persistência da mentalidade colonial.

Ora, seria um erro afirmar que, desde que fomos “descobertos”, nossas elites jamais abandonaram a subserviência e a imitação da principal potência mundial? De fato, primeiro Portugal, depois a Inglaterra e, mais recentemente, os Estados Unidos sempre exerceram o poder simbólico e material aqui dentro. Nesse sentido, um tema muito pouco pesquisado, e que me parece de extrema relevância, é, como dito acima, a emergência do bolsonarismo como fenômeno de massa, em paralelo à ascensão do trumpismo. O fenômeno daqui não teria se criado sem o de lá. Parece que estamos sempre a reboque dos acontecimentos na vida do país suserano, atualmente os Estados Unidos.

É claro que essa imitação tem interesses próprios aqui dentro. Lula é odiado pela elite da “Faria Lima” por tentar mitigar a sanha devoradora de recursos públicos pelos mais abastados. Mas também é detestado pela metade de um povo que necessita de um mito para dar sentido às suas vidas. Afinal, Lula pode ter sido tudo até agora, menos um mito. Pelo contrário. Lula traduz o simples que deu certo. Em outras palavras, Lula é o ser comum que conseguiu, pelas próprias forças, superar as barreiras impostas pelo status quo nacional. O mito em si, não, conforme as palavras de Nancy e Lacoue-Labarthe (3): “O mito sempre foi o mito de um evento e de um advento, o mito do Evento absoluto, fundador” (2020, p. 15). Segundo esses autores, onde o mito é procurado, é o evento que é desejado. Mas qual evento os eleitores de Bolsonaro filho perseguem? O evento de submissão e imitação, de maneira autoritária ou não, da potência máxima do planeta, atualmente os Estados Unidos, que rege, e sempre regeu, nosso porvir.

Concordo, em parte, com Ruy Castro, quando disse que “Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá” (4). O passado que metade do eleitorado brasileiro deseja ver de volta pode, realmente, nunca ter sido vivido por uma boa parcela dos que agora o desejam. Mas a outra parte, sim. Afinal, não só de jovens estamos falando. Ainda que os anseios pela família, pelos costumes, pela tradição, pela ordem, pela religião, pela defesa da liberdade e, vejam só, até pela defesa da democracia sejam discursos de ordem imaginária, é justamente desse tipo de discurso que se nutre o mito.

Por outro lado, seria necessário investigar qual futuro não existirá se o bolsonarismo voltar com toda a força. A emancipação política; a defesa do fim da exploração dos trabalhadores, como na luta pelo fim da escala 6×1; a luta pelo fim da devastação predatória da natureza, considerando que nunca se desmatou tão pouco a região amazônica como agora; e a manutenção do ganho real e progressivo, ainda que pequeno, do salário mínimo não serão prioridades e serão prejudicadas nesse cenário. Esse é o futuro que desejam os eleitores bolsonaristas? Se sim ou não, é irrelevante, pois esse certamente é o futuro que todos teremos, em repetição ao que já existiu no governo de Bolsonaro pai.

É importante refletir sobre o que disseram Nancy e Lacoue-Labarthe: “A crença não surge por si, ela deve ser despertada e mobilizada nas massas” (2020, p. 62). Nessas circunstâncias, a história serve como balizador sobre o que existirá ou não no futuro. A ultradireita nacional, assim como a mundial, conhece os ensinamentos de Hitler sobre como pôr as massas em movimento em direção a ela. A esquerda tupiniquim parece esquecer completamente disso, para só lembrar, de tempos em tempos, quando precisa salvar o país da catástrofe, como aconteceu em 2002 e em 2022, na tentativa de reeleição de Bolsonaro pai. Nem sempre dá tempo…

É difícil prever o que acontecerá no dia 25 de outubro de 2026. A reação progressista se fez maior do que muitos esperavam no campo ultraconservador após a vitória de Bolsonaro filho no primeiro turno. Todas as pesquisas estão dando empate técnico. Ainda assim, Miriam Leitão está certa ao lembrar que nunca o candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu virar. Para piorar, os outros candidatos que conseguiram alguma margem significativa de votos são todos de direita. A meu ver, a única chance que Lula tem é engajar os ausentes e os que votaram em branco ou nulo no primeiro turno. Eles somam mais de 33 milhões de pessoas. É gente suficiente para evitar a barbárie!

Salvador, outubro de 2026

André Marcio Neves Soares

Sobre o Autor


André Márcio Neves Soares é administrador de empresas, psicólogo, doutor em Políticas Sociais e Cidadania pela Universidade Católica do Salvador, Bahia, e funcionário público do Judiciário Federal há 30 anos.

Referências

1. MIGUEL, Luís Felipe. O povo e sua vontade. Disponível em: https://lfmiguel.substack.com/p/o-povo-e-sua-vontade.

2. GRAY, John. A anatomia de John Gray. Rio de Janeiro: Record, 2011.

3. LACOUE-LABARTHE, Philippe; NANCY, Jean-Luc. O mito nazista. São Paulo: Iluminuras, 2020.

4. CASTRO, Ruy. A volta a um passado que nunca existiu. Folha de S.Paulo, out. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/10/a-volta-a-um-passado-que-nunca-existiu.shtml.

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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