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Dobra temporal: 1989 e 2026-Arkx-Brasil,

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

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Há lembranças que retornam como exigências do presente. Em “Dobra temporal: 1989 e 2026”, Arkx-Brasil aproxima duas eleições atravessadas pelo desejo de transformar o país e pela tensão entre a luta popular e os caminhos da conciliação. A memória do primeiro voto se encontra com a urgência das ruas, fazendo da cabine eleitoral um lugar onde passado e futuro se cruzam. Uma reflexão sobre as promessas ainda abertas de 1989 e a força da organização autônoma para que a esperança de outro Brasil ultrapasse as urnas.

Ouça aqui o áudio deste post

Dobra temporal: 1989 e 2026-um ensaio de Arkx-Brasil,

1989… 1989! Não me saía da cabeça. Aquela eleição, aquele 2º turno, aquela última semana. Tudo parecia tão perto… e tão longínquo se tornou. Tanto que nunca mais nos aproximamos.

Todas as lutas nascidas desde 1977 se encontraram num estuário para então desembocarem. Em 1989. Meu primeiro voto. Pra fazer brilhar nossa estrela. Com o vermelho pulsante, encharcado pelo sangue das lutas por libertação. Em 1989. As veias abertas. Uma ferida nunca cicatrizada. Tudo que poderia ter sido… e ainda não é.

Hoje o tempo se retorce, contorcendo-se até formar uma dobra. 1989 e 2026 estão contíguos. Agora. Tão longe… e tão próximos se tornaram. Agora. Aquilo tudo retornou. Já não é o mesmo… Mas como não reconhecer as semelhanças históricas? Tudo volta. Insiste em reaparecer. Recomeçar, mesmo sem haver terminado.

Ergo o braço. Minha mão se move para pegar a cédula. Estico o dedo indicador em direção à máquina. Em minha mente borbulha, fervendo, o sempre necessário debate político: a via eleitoral-institucional é secundária frente à organização autônoma pela base. Sendo assim, ainda é uma excelente oportunidade de ação política e não deve ser desperdiçada.

O que acontecera naquela última semana do 2º turno das eleições de 1989? O que fizera Lula perder o chão tão vergonhosamente?

O aborto, jamais concretizado? A pasta rosa, nunca aberta? Ameaças e chantagens, até hoje não reveladas?

Ou a certeza de um mandato convulsionado pela Luta de Classes? No qual o único caminho seria seguir avançando com a luta. Um governo atravessado pela confluência de toda a História de um Povo que Luta.

Uma conjuntura com uma margem muito estreita para acordos. Exatamente como agora se apresenta.

Talvez, em 1989, a possibilidade objetiva de um recuo estratégico tenha sido determinante. E o enfrentamento foi substituído pela conciliação. Um retrocesso perdurando por 37 anos. Até agora. Mas como recuar frente ao rolo compressor do bolsonarismo?

Agora a direção estava tão encurralada quanto nós. E as forças da destruição e da morte e as forças da criação e da Vida se enfrentavam à flor da pele. A nossa pele.

O que acontecera naquele 2º turno das eleições de 2026? O que fizera o Povo que Luta sair às ruas tão decididamente?

Há muito e muito tempo não se manifestava tamanho Desejo de transformação. Quando fora a última vez? Junho de 2013. Junto com a irrupção súbita dos estudantes, Junho de 2013 estava agora presente, novamente. Junho de 2013, quando também o Povo que Luta se materializou sem atender a nenhuma convocação, a não ser à dele próprio.

Estou na cabine de votação. Ressoam as palavras de Lula no último comício da campanha de 1989, na Candelária, no Rio de Janeiro:

Antes de sair pra votar, a gente vai olhar na cara das pessoas que a gente ama. E dizer: “Eu quero um outro país! Eu juro que eu quero um outro país. E o país que eu quero não será construído por alguém que seja diferente de mim. O Brasil que eu quero vai ser construído por pessoas iguais a mim.” A gente não vai apenas votar, gente. Nós vamos lavar a nossa alma! Nós vamos fazer com que a nossa alma seja lavada!

Deposito meu voto na urna. Vou apertar a tecla verde. Meu segundo voto. 37 anos depois. Um repentino clarão lampeja no canto de meu olho esquerdo. É o brilho intenso da estrela da revolta a não me deixar esquecer. “Vote! Mas sem a luta, tudo o mais é inútil.”

Pressiono a tecla. Não para votar. Mas para que 2026 se funda com 1989. E o futuro possa nascer.

Sítio Morro Pontudo / Oceano digital, outubro de 2026

arkx-Brasil 

Sobre o Autor

Arkx-Brasil é o nickname conhecido de Antônio Garcia. Ele é um ensaísta, filósofo e observador do mundo contemporâneo e da crise do capitalismo. Vive no Morro Pontudo, na Serra da Mantiqueira

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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