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Como um continente que prometia construir uma comunidade democrática, socialmente integrada e politicamente autônoma chegou à fragmentação institucional, ao enfraquecimento econômico e à dependência geopolítica? Essas questões atravessam a instigante conferência da cientista política alemã Ulrike Guérot, reproduzida neste post.Guérot apresenta um diagnóstico contundente: a Europa construiu um mercado comum e uma moeda única, mas não conseguiu constituir uma verdadeira comunidade política. Em seu lugar, consolidou-se uma estrutura tecnocrática que, segundo a conferencista, favorece poderes oligárquicos articulados às indústrias de armamentos, farmacêutica, digital e energética. Sua exposição aborda ainda a perda de autonomia europeia, o enfraquecimento democrático e a crescente militarização do continente.Nas Notas das Utopias Pós Capitalistas, examinamos criticamente suas interpretações, relacionando-as à concentração oligárquica do poder nos Estados Unidos e às disputas políticas brasileiras. À luz da crítica do valor-dissociação, investigamos se a oligarquização representa apenas uma deformação da democracia liberal ou uma manifestação mais profunda da crise histórica do capitalismo contemporâneo, conforme nossa hipótese sobre a economia da barbárie.
A visão de Ulrik Guérot
Sobre a autora

Ulrike Guérot
Ulrike Beate Guérot, nascida em 11 de setembro de 1964, em Grevenbroich, na então Alemanha Ocidental, é uma cientista política e intelectual alemã radicada em Berlim. Fundadora do Laboratório Europeu da Democracia (European Democracy Lab), dedica sua trajetória intelectual ao estudo da integração europeia, da democracia e das transformações políticas do continente. Em abril de 2016, assumiu a cátedra de Política Europeia e Estudos da Democracia na Universidade de Educação Continuada de Krems, na Áustria, onde também dirigiu o departamento correspondente. Entre 2021 e março de 2023, ocupou a cátedra de Política Europeia na Universidade de Bonn, na Alemanha. Sua produção intelectual destaca-se pela defesa de uma República Europeia e pela crítica às contradições institucionais, políticas e sociais da União Europeia.

A Europa diante de sua própria crise
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Notas das Utopias Pós Capitalistas
Ulrike Guérot, a oligarquização do capitalismo e os limites históricos da democracia
A conferência da cientista política alemã Ulrike Guérot, que reproduzimos neste post, oferece uma oportunidade particularmente importante para aprofundarmos uma investigação que vimos desenvolvendo nas páginas das Utopias Pós Capitalistas. Estamos nos referindo à transformação das formas de dominação econômica e política no capitalismo contemporâneo, especialmente à crescente concentração do poder nas mãos de grupos econômicos que, articulados às estruturas estatais, procuram assegurar o controle de recursos, instituições e decisões coletivas. O fenômeno identificado por Guérot na Europa encontra correspondências nos Estados Unidos e apresenta manifestações próprias no Brasil, onde a disputa pelo comando do Estado envolve também o projeto político organizado em torno da família Bolsonaro. A aproximação dessas experiências permite examinar uma hipótese que consideramos central em nossos ensaios sobre a economia da barbárie: a oligarquização não seria apenas uma deformação da democracia liberal, mas uma das formas pelas quais o capitalismo procura administrar suas contradições em um período de dificuldades estruturais de valorização.
A importância dessa reflexão aumenta quando recordamos que a denúncia da oligarquização não parte exclusivamente de intelectuais críticos do capitalismo. Em 15 de janeiro de 2025, no discurso de despedida da Presidência dos Estados Unidos, poucos dias antes da posse de Donald Trump, Joe Biden advertiu que uma oligarquia de riqueza, poder e influência extremos estava tomando forma na sociedade americana, ameaçando as instituições democráticas e os direitos fundamentais. Biden estabeleceu uma comparação com os antigos barões industriais e recuperou a advertência de Dwight Eisenhower sobre o complexo militar-industrial, acrescentando sua preocupação com o surgimento de um complexo tecnológico-industrial. Era uma declaração significativa, sobretudo por partir de um presidente que havia passado décadas no centro das instituições políticas americanas. Seu diagnóstico reconhecia que a concentração econômica estava adquirindo uma capacidade de influência política incompatível com os princípios igualitários proclamados pela própria democracia liberal.
Entretanto, a advertência de Biden também revela os limites de uma crítica que permanece circunscrita à defesa das instituições existentes. Sua preocupação era impedir que a concentração excessiva de riqueza comprometesse o funcionamento da democracia americana, recuperando mecanismos de regulação, concorrência e controle político. Não colocava em questão a forma social que produz continuamente essa concentração. A crítica do valor nos permite avançar justamente nesse ponto, perguntando se a oligarquização constitui apenas o resultado de decisões políticas equivocadas ou se expressa uma tendência mais profunda da reprodução capitalista, na qual a concorrência, a centralização do capital e a crescente dependência das decisões estatais ampliam o poder de determinados grupos econômicos.
É sob essa perspectiva que a conferência de Guérot adquire especial relevância. Sua exposição parte do fracasso histórico da integração europeia em constituir uma comunidade política correspondente à unidade econômica construída ao longo de aproximadamente sete décadas. O mercado comum, a circulação de capitais, a moeda única e a estrutura regulatória supranacional avançaram sem que surgisse uma soberania democrática capaz de submeter essa integração às decisões conscientes dos cidadãos. Guérot identifica nessa contradição a origem de uma crise institucional que teria enfraquecido simultaneamente a União Europeia e os Estados nacionais que a compõem. A promessa de uma Europa social, democrática e politicamente autônoma teria cedido lugar a uma estrutura tecnocrática, progressivamente distante das necessidades de suas populações.
Essa interpretação contém uma percepção importante, porém, é preciso ressaltar que sua explicação permanece limitada quando confrontada com as teses da crítica do valor-dissociação. O fato é que a integração europeia não foi simplesmente um projeto político que deixou de completar sua arquitetura institucional. Foi também uma expressão histórica da expansão das relações capitalistas, da internacionalização dos circuitos de produção e circulação e da crescente subordinação das sociedades nacionais às exigências da concorrência mundial. A unidade econômica produzida pelo mercado não poderia, por sua própria natureza, constituir automaticamente uma comunidade política emancipada, porque a racionalidade que a organiza não se fundamenta na determinação consciente das necessidades humanas, mas na reprodução do valor.
Em reforço a tal argumento lembramos que Moishe Postone, como mostramos várias vezes aqui, demonstrou que a dominação capitalista possui uma dimensão abstrata e impessoal, que não se reduz à vontade dos proprietários ou à autoridade dos governantes. Os próprios agentes econômicos, inclusive aqueles que concentram enormes parcelas da riqueza social, encontram-se submetidos aos imperativos da concorrência, da produtividade e da valorização. Robert Kurz também aprofundou essa interpretação ao identificar na crescente substituição do trabalho vivo pelo desenvolvimento tecnológico uma contradição fundamental de uma sociedade que continua dependendo do trabalho abstrato como substância do valor. Já Roswitha Scholz acrescentou a essa análise a dimensão da dissociação, demonstrando que a reprodução capitalista pressupõe atividades de cuidado, relações afetivas e trabalhos de reprodução da vida historicamente desvalorizados e atribuídos de maneira desigual às mulheres. Essas contribuições permitem compreender que a crise da sociedade capitalista não se esgota nas dificuldades de suas instituições políticas, alcançando os próprios fundamentos de sua reprodução material e social.
Reconhecemos, porém, que conferência torna-se especialmente provocadora quando Guérot identifica quatro grandes setores econômicos que, segundo sua interpretação, sustentariam as estruturas oligárquicas europeias: a indústria de armamentos, a indústria farmacêutica, o complexo digital e o setor energético. Sua hipótese é que esses segmentos passaram a ocupar posições estratégicas na distribuição dos recursos públicos, influenciando prioridades governamentais e participando da construção de discursos destinados a legitimar investimentos e políticas estatais. A conferencista aproxima esse processo da formação de um bloco burguês, conceito desenvolvido por Bruno Amable e Stefano Palombarini para examinar a reorganização das alianças sociais e políticas no capitalismo europeu.
Consideramos essa passagem uma das contribuições mais interessantes de sua exposição, embora também exija cuidados analíticos. A articulação entre Estado e grandes empresas não constitui, isoladamente, prova de domínio oligárquico, assim como necessidades relacionadas à saúde, à segurança, à energia ou à proteção ambiental não podem ser reduzidas a justificativas fabricadas por interesses privados. O problema está em compreender como necessidades sociais legítimas passam a ser administradas segundo os imperativos da rentabilidade e como determinados grupos econômicos adquirem capacidade desproporcional de influenciar as decisões coletivas. É nessa relação entre necessidades reais, financiamento público e apropriação privada que encontramos um dos caminhos mais promissores para investigar as transformações contemporâneas do capitalismo.
A experiência americana oferece um campo privilegiado para essa investigação. A concentração de recursos financeiros, tecnológicos e informacionais em grandes conglomerados ampliou a capacidade desses grupos de participar da definição das políticas públicas e das condições gerais da reprodução econômica. As plataformas digitais, em particular, passaram a controlar infraestruturas fundamentais para a circulação de informações, para a organização do consumo e para o funcionamento de inúmeras atividades sociais. A aproximação entre dirigentes dessas empresas e centros de decisão governamental coloca em evidência a crescente interdependência entre poder econômico e poder político. O alerta de Biden sobre o complexo tecnológico-industrial revela que essa transformação já era reconhecida no interior das próprias instituições americanas.
Entretanto, seria equivocado interpretar esse processo como uma simples tomada do Estado por um grupo de bilionários. A concentração econômica possui raízes históricas mais profundas e atravessa diferentes governos e partidos. O que se modifica são as formas de articulação entre interesses empresariais, instituições públicas e projetos políticos. A oligarquização, nesse sentido, não precisa assumir a forma de uma conspiração organizada ou de um comando centralizado sobre toda a sociedade. Ela pode desenvolver-se por meio da dependência financeira, do controle de infraestruturas, da influência sobre a legislação e da capacidade de orientar investimentos e prioridades públicas. A própria impessoalidade dessas relações contribui para ocultar sua natureza social, apresentando decisões condicionadas pela reprodução do capital como exigências técnicas ou necessidades inevitáveis.
Quando voltamos nosso olhar para o Brasil, encontramos uma configuração histórica diferente, mas igualmente importante para nossa investigação. A formação social brasileira sempre apresentou uma profunda articulação entre propriedade, poder político e apropriação privada dos recursos públicos. Das antigas estruturas agrárias às modernas relações entre grandes empresas, sistema financeiro e instituições estatais, a concentração econômica conviveu com mecanismos persistentes de influência sobre as decisões governamentais. O chamado capitalismo de compadres, expressão que utilizamos em nossos ensaios sobre a economia da barbárie, permite identificar modalidades dessa articulação, embora não deva substituir a investigação das formas concretas pelas quais diferentes grupos econômicos disputam o controle do Estado.
É nesse contexto que precisamos examinar o projeto político organizado em torno da família Bolsonaro. Sua importância ultrapassa a trajetória pessoal de Jair Bolsonaro e de seus filhos, alcançando a formação de alianças partidárias, empresariais, religiosas e parlamentares que procuram influenciar a orientação do Estado brasileiro. A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em 2026, e a ampliação das alianças políticas construídas em torno dela evidenciam a continuidade desse projeto. A possibilidade de reorganização das relações entre Executivo, Congresso e Supremo Tribunal Federal tornou-se parte importante do debate público, especialmente diante das iniciativas de parlamentares aliados ao bolsonarismo para alterar o equilíbrio institucional existente.
Essa disputa precisa ser compreendida sem reduzir todos os seus participantes a interesses econômicos idênticos. Os setores empresariais, financeiros, religiosos e políticos que se aproximam do bolsonarismo possuem objetivos distintos e frequentemente contraditórios. Sua convergência não demonstra, por si só, a existência de um comando oligárquico unificado. Entretanto, a formação dessas alianças permite investigar como determinados projetos políticos procuram concentrar capacidade decisória, reorganizar instituições e estabelecer relações privilegiadas com grupos econômicos. A questão fundamental não consiste apenas em identificar quem ocupa a Presidência ou controla maiorias parlamentares, mas em compreender quais interesses materiais orientam as decisões e como se distribuem seus benefícios e custos sociais.
O caso brasileiro acrescenta ainda uma dimensão particular à nossa hipótese da economia da barbárie. A expansão dos mercados ilícitos, a presença de organizações criminosas em atividades econômicas formalmente legais, a disputa por recursos orçamentários e as diferentes modalidades de apropriação privada das estruturas públicas revelam uma realidade na qual as fronteiras entre legalidade e ilegalidade podem tornar-se economicamente permeáveis. Isso não autoriza atribuir indistintamente tais práticas a um partido ou família política, mas exige investigar suas conexões com os mecanismos gerais de acumulação, financiamento e poder. O problema ultrapassa a corrupção individual, alcançando as condições históricas que permitem transformar o controle político e institucional em instrumento de apropriação da riqueza social.
A comparação entre Europa, Estados Unidos e Brasil revela, portanto, configurações distintas de um problema comum. Na Europa, Guérot identifica uma estrutura supranacional na qual a integração econômica avançou sem produzir uma correspondente soberania democrática. Nos Estados Unidos, Biden reconheceu a emergência de uma concentração extrema de riqueza e influência, particularmente associada aos grandes conglomerados tecnológicos. No Brasil, a disputa em torno do projeto político da família Bolsonaro oferece elementos para examinar a articulação entre liderança familiar, coalizões parlamentares, interesses econômicos e transformação institucional. Não se trata de afirmar que essas experiências sejam equivalentes, mas de investigar se expressam, mediante trajetórias históricas diferentes, tendências relacionadas à concentração econômica e à reorganização do poder político.
Essa aproximação nos conduz ao problema teórico mais importante. A oligarquização seria simplesmente uma deformação da democracia liberal, passível de correção mediante reformas institucionais, ou estaria relacionada às dificuldades estruturais de reprodução do capitalismo contemporâneo? Nossa hipótese é que a concentração do poder econômico e político precisa ser examinada em conexão com a crise da valorização, com a financeirização e com a crescente importância do Estado como garantidor das condições de acumulação. À medida que a concorrência se intensifica e determinados processos produtivos enfrentam dificuldades para sustentar a rentabilidade esperada, amplia-se a disputa pelo controle dos recursos públicos, das infraestruturas, dos mercados protegidos e das condições políticas que permitem a reprodução de capitais particulares.
É nesse ponto que nossa investigação sobre a economia da barbárie encontra sua dimensão mais abrangente. A barbárie contemporânea não se manifesta exclusivamente nas guerras, nos mercados ilícitos ou na violência aberta. Ela também pode aparecer nas formas aparentemente normais de administração econômica, quando a preservação de interesses particulares passa a condicionar crescentemente a distribuição da riqueza social, a organização dos serviços públicos e as prioridades dos governos. A sociedade continua produzindo enormes capacidades materiais e tecnológicas, mas sua utilização permanece subordinada às exigências da valorização, mesmo quando essas exigências entram em conflito com as necessidades humanas e com a preservação das condições naturais da vida.
A crítica do valor-dissociação oferece instrumentos especialmente importantes para investigar essa contradição, mas não devemos transformar suas categorias em explicações previamente asseguradas para todos os acontecimentos. É justamente aqui que vemos uma excelente oportunidade de testar, diante da realidade histórica concreta, a capacidade explicativa das ferramentas desenvolvidas por essa corrente teórica. A crise europeia, a concentração oligárquica americana e as disputas pelo controle do Estado brasileiro constituem processos que podem ser examinados a partir das categorias do valor, do trabalho abstrato, do fetichismo, da dissociação, da concorrência e dos limites históricos da acumulação. O desafio consiste em verificar até que ponto essas categorias permitem compreender as conexões entre fenômenos que, à primeira vista, aparecem separados, sem ignorar as particularidades institucionais, políticas e culturais de cada sociedade.
Essa disposição investigativa exige também reconhecer os limites das interpretações que utilizamos. A crise da valorização não explica automaticamente cada decisão governamental, assim como a concentração econômica não demonstra, por si só, a existência de uma estrutura oligárquica plenamente constituída. Precisamos identificar as mediações históricas entre a dinâmica abstrata do capital e as formas concretas de exercício do poder. É necessário examinar como se organizam as alianças econômicas, como os recursos públicos são distribuídos, quais instituições conservam capacidade de resistência e em que condições a reprodução social passa a depender crescentemente de mecanismos de apropriação que não correspondem à expansão da produção de riqueza nova.
Essa investigação permite ainda compreender por que a simples oposição entre esquerda e direita, embora continue politicamente relevante, pode tornar-se insuficiente para explicar determinadas transformações do capitalismo. Governos de orientações distintas permanecem submetidos às exigências de financiamento, crescimento econômico, estabilidade monetária e concorrência internacional. Isso não elimina as diferenças entre seus programas, suas políticas sociais ou suas relações com as instituições democráticas. Significa reconhecer que a capacidade de realizar transformações profundas encontra limites nas próprias condições materiais de reprodução da sociedade capitalista. A crítica do valor não nos autoriza a considerar equivalentes todas as alternativas políticas, mas nos obriga a examinar aquilo que permanece comum a elas enquanto administradoras da mesma forma social.
É precisamente nesse terreno que encontramos a principal insuficiência da perspectiva de Guérot. Sua crítica à União Europeia permanece vinculada à expectativa de reconstruir uma comunidade republicana capaz de recuperar a soberania democrática, a solidariedade social e a autonomia geopolítica. Trata-se de um horizonte que preserva conquistas políticas importantes, mas não ultrapassa necessariamente as relações sociais que produzem as contradições identificadas pela própria conferencista. Uma Europa politicamente unificada, socialmente mais igualitária e menos dependente dos Estados Unidos continuaria enfrentando os imperativos da concorrência, da produtividade e da valorização, caso permanecesse organizada como sociedade produtora de mercadorias.
A mesma observação pode ser dirigida ao discurso de despedida de Biden. Sua advertência sobre a oligarquia americana reconhecia os riscos da concentração extrema de poder, mas propunha enfrentá-los mediante a recuperação dos mecanismos tradicionais de regulação democrática. O problema é que a concentração econômica não constitui apenas uma anomalia produzida pela ausência de fiscalização. Ela também decorre de tendências constitutivas da concorrência capitalista, que impulsionam a centralização dos recursos produtivos e financeiros. Reformas democráticas podem limitar abusos e modificar a distribuição do poder, mas não eliminam automaticamente os mecanismos sociais que reproduzem a concentração.
No Brasil, essa contradição assume uma forma particularmente aguda. A crítica ao projeto político da família Bolsonaro, quando situada no horizonte da emancipação, precisa ultrapassar a denúncia de suas estratégias de poder e investigar as condições econômicas e sociais que permitem a formação e a permanência dessas alianças. O problema não se resolve simplesmente pela substituição de dirigentes ou pela recomposição das antigas coalizões governamentais. A sociedade brasileira continua submetida a uma estrutura de reprodução marcada pela concentração patrimonial, pela dependência financeira, pela desigualdade social e pela disputa permanente pela apropriação dos recursos estatais. É nesse terreno que diferentes projetos políticos encontram seus limites e suas possibilidades.
Ao final dessa reflexão, consideramos que a conferência de Ulrike Guérot nos oferece algo mais importante do que uma interpretação da crise europeia. Ela permite abrir uma investigação sobre a transformação histórica das relações entre capital, Estado e democracia, num momento em que a concentração econômica e a instabilidade política se manifestam em diferentes regiões do mundo. O alerta de Biden sobre a oligarquia americana e as disputas institucionais em torno do bolsonarismo brasileiro ampliam o alcance dessa questão, permitindo observar suas diferentes expressões concretas.
Para nós, das Utopias Pós Capitalistas, essa investigação possui também um significado metodológico. Não pretendemos utilizar a crítica do valor-dissociação como uma doutrina capaz de fornecer respostas antecipadas, mas como um conjunto de instrumentos teóricos que precisam demonstrar sua capacidade de compreender a realidade histórica. A obra de Kurz, Postone, Scholz e de outros autores dessa tradição oferece categorias fundamentais para examinar a crise contemporânea, mas sua fecundidade depende precisamente do confronto com os acontecimentos, com as contradições concretas e com aquilo que ainda não conseguimos explicar satisfatoriamente.
A questão que permanece não é apenas saber se a Europa poderá recuperar sua autonomia, se os Estados Unidos conseguirão limitar a influência de seus grandes conglomerados ou como se reorganizará o poder político brasileiro. Precisamos perguntar se a própria democracia moderna, historicamente desenvolvida no interior da sociedade capitalista, dispõe de condições materiais para realizar suas promessas de igualdade e autodeterminação quando a reprodução do capital encontra dificuldades estruturais crescentes.
A oligarquização, nessa perspectiva, deixa de ser apenas uma denúncia moral contra os poderosos e se transforma em objeto de uma investigação sobre as formas contemporâneas da dominação social. E a economia da barbárie aparece como uma hipótese para compreender por que uma sociedade dotada de capacidades produtivas extraordinárias continua reproduzindo desigualdade, violência, insegurança e destruição.
É nessa direção que pretendemos avançar. Porque o desafio emancipatório de nosso tempo não consiste simplesmente em substituir aqueles que administram o capital, mas em compreender as condições históricas que tornam possível organizar a reprodução da vida humana para além das exigências de sua valorização.
Utopias Pós Capitalistas
Ensaios e Textos Libertários