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A ONU começa a reconhecer que o crescimento do PIB não pode continuar sendo a principal medida do progresso humano. Mas, de que adianta mudar os indicadores se a economia permanece obrigada a crescer indefinidamente, mesmo destruindo as condições que sustentam a vida?Nesta nova Carta da Terra, Yandé Tupinambá parte da iniciativa Beyond GDP para questionar a própria ideia de desenvolvimento. Examina a extraordinária expansão econômica da China, os caminhos percorridos pela Índia e os dilemas dos países periféricos, confrontando a promessa de prosperidade ilimitada com os limites ecológicos do planeta.Com o olhar dos povos originários e a crítica à sociedade da mercadoria, Yandé revela a contradição central: o capitalismo precisa transformar continuamente dinheiro em mais dinheiro, mesmo quando esse movimento esgota a natureza, aprofunda desigualdades e ameaça seu próprio futuro.
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O que vale uma riqueza que empobrece a Terra?
Oi, parente!
Nestes últimos dias, enquanto o Brasil atravessava mais uma eleição presidencial, uma notícia vinda das Nações Unidas me chamou a atenção. Nos dias 21 e 22 de outubro, a ONU promoveu encontros sobre uma nova etapa da iniciativa Beyond GDP, que propõe avaliar o desenvolvimento dos países para além do crescimento do Produto Interno Bruto, o conhecido PIB.
Li a notícia e fiquei pensando no que nossos mais velhos diriam diante dessa descoberta. Imagino alguém chegando à aldeia para anunciar que encontrou uma maneira de medir o progresso de um povo. Antes de perguntar quanto dinheiro circulou, os mais velhos iriam querer saber se as crianças estão bem alimentadas, se os idosos recebem cuidado, se os rios continuam limpos, se ainda existem peixes e se a mata permanece viva. Iriam querer saber se as pessoas conseguem viver com dignidade, se há alimento para todos e se a comunidade continua unida.
Se a resposta fosse positiva, reconheceriam que estamos cuidando bem da vida. Mas, se alguém dissesse que a economia cresceu enquanto o rio morreu e a floresta desapareceu, não haveria motivo para comemoração.
Essa diferença entre contar dinheiro e cuidar da vida está no centro de uma questão que a humanidade precisa enfrentar. Durante muito tempo, aprendemos que uma sociedade progride quando sua economia cresce. O aumento da produção, das vendas, dos investimentos e do consumo passou a ser apresentado como sinal de sucesso, mesmo quando esse movimento destrói as condições que sustentam nossa existência.
A ONU começa a reconhecer que essa maneira de medir o desenvolvimento é insuficiente. Mas a questão vai além dos indicadores. O problema não está apenas na forma de medir a riqueza. Está numa organização social que precisa aumentar continuamente a produção de valor, mesmo quando esse crescimento ameaça a vida.
Uma régua que não mede a vida
O PIB registra o valor monetário dos bens e serviços produzidos por um país. É uma informação útil para compreender determinadas atividades econômicas, mas não revela, por si só, se a população vive melhor.
Uma economia pode crescer com a expansão da mineração, mesmo quando essa atividade contamina rios e destrói territórios. Pode movimentar mais dinheiro com tratamentos médicos sem que isso signifique uma população mais saudável. Pode ampliar a produção de mercadorias enquanto trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, endividamento e insegurança.
O PIB não distingue aquilo que fortalece a vida daquilo que a ameaça. Ele registra a movimentação econômica sem perguntar se essa movimentação atende às necessidades humanas ou aprofunda a destruição ambiental.
É como avaliar a saúde de uma floresta contando apenas quantas árvores foram derrubadas e vendidas. Os números podem aumentar enquanto a mata desaparece.
A iniciativa da ONU procura enfrentar parte dessa limitação ao incorporar medidas de saúde, educação, bem-estar, desigualdade e sustentabilidade. É um avanço necessário, porque permite enxergar aquilo que as estatísticas econômicas costumam esconder.
Entretanto, mudar a maneira de medir o progresso não significa transformar a sociedade que produz a destruição.
Um governo pode adotar indicadores ambientais e continuar dependendo da expansão das exportações, dos investimentos e dos lucros empresariais. Pode reconhecer que a devastação ameaça o futuro e, ao mesmo tempo, estimular atividades que aprofundam essa ameaça para garantir crescimento e arrecadação.
A contradição permanece porque o Estado está preso ao funcionamento de uma economia que precisa transformar dinheiro em mais dinheiro. As empresas dependem da rentabilidade, os trabalhadores precisam vender sua força de trabalho e os governos necessitam da atividade econômica para financiar seus serviços.
Quando a produção e os investimentos desaceleram, aparecem desemprego, queda de arrecadação e dificuldades sociais. Por isso, até os governos preocupados com a natureza continuam tratando o crescimento econômico como uma necessidade permanente.
A ONU está aprendendo a medir melhor os danos. O desafio é construir uma sociedade que deixe de produzi-los como condição de seu funcionamento.
A China e o caminho do crescimento
Para compreender essa contradição, fui olhar a trajetória da China, hoje uma das maiores potências econômicas do planeta.
Em poucas décadas, o país passou por uma transformação gigantesca. Expandiu sua indústria, construiu cidades, ferrovias, estradas e sistemas de infraestrutura, desenvolveu tecnologias e ampliou as condições materiais de vida de uma parcela imensa de sua população.
Em 2025, segundo os dados do Banco Mundial, a economia chinesa alcançou aproximadamente 19,5 trilhões de dólares, com uma renda anual por habitante próxima de 13,9 mil dólares.
Não podemos ignorar o significado dessas mudanças. A redução da pobreza extrema, a ampliação dos serviços e o desenvolvimento da capacidade produtiva representam conquistas concretas. Quem passou fome tem direito à alimentação abundante. Quem viveu sem saneamento tem direito à água tratada. Quem não teve acesso à saúde e à educação precisa conquistar essas condições.
O problema começa quando o caminho utilizado para superar a pobreza se transforma numa obrigação de crescimento sem fim.
A industrialização chinesa exigiu quantidades imensas de cimento, aço, carvão, minerais e energia. O país também avançou em tecnologias renováveis e eletrificação, mas a escala de sua produção continua exercendo enorme pressão sobre os recursos naturais.
A China demonstra a capacidade humana de transformar profundamente as condições materiais de uma sociedade. Ao mesmo tempo, sua experiência revela os limites de um desenvolvimento que continua associado à expansão permanente da produção.
Depois de garantir alimentação, moradia, infraestrutura e serviços essenciais, uma sociedade precisa decidir o que deseja fazer com sua capacidade produtiva. Pode utilizá-la para reduzir o trabalho necessário, ampliar o tempo livre, recuperar ecossistemas e melhorar a convivência. Ou pode continuar ampliando a produção de mercadorias porque a economia exige novos investimentos, novos mercados e novos lucros.
Essa escolha define o sentido do desenvolvimento.
A riqueza de um povo não pode ser medida apenas por sua capacidade de produzir mais. Precisa ser reconhecida também em sua capacidade de viver melhor com menos destruição.
A Índia e o direito de viver com dignidade
A Índia apresenta outra face dessa mesma questão.
Com uma população imensa e profundas desigualdades sociais, o país busca ampliar sua infraestrutura, sua produção industrial e o acesso da população a serviços essenciais. Em 2025, seu PIB estava próximo de 4 trilhões de dólares, mas a renda anual por habitante permanecia em torno de 2,7 mil dólares.
Esses números mostram que uma economia pode ser gigantesca sem que a riqueza material esteja igualmente disponível para sua população.
Milhões de indianos precisam de melhores condições de moradia, alimentação, saúde, transporte, educação e saneamento. Essas necessidades exigem recursos, investimentos e atividades produtivas. A defesa dos limites ecológicos não pode servir de justificativa para conservar a pobreza.
Mas garantir uma vida digna não significa reproduzir o padrão de consumo das populações mais ricas do planeta.
Existe uma diferença entre construir sistemas de saneamento e estimular o desperdício de água; entre garantir transporte para todos e organizar cidades inteiras em torno do automóvel particular; entre assegurar alimentação saudável e ampliar uma produção que destrói solos, florestas e rios.
Os povos que ainda enfrentam privações materiais têm direito de superar essas condições. Ao mesmo tempo, os países e grupos sociais que concentram riqueza e consomem recursos em excesso precisam reduzir radicalmente seu desperdício.
A justiça ecológica exige as duas coisas: superar a pobreza e abandonar o consumo destrutivo.
A humanidade já dispõe de conhecimentos e capacidades técnicas para garantir necessidades fundamentais. O obstáculo está na maneira como essa capacidade é organizada, distribuída e submetida à rentabilidade.
Os países periféricos e a antiga promessa do progresso
A China e a Índia não estão sozinhas nessa encruzilhada. Muitos países da África, da Ásia e da América Latina continuam buscando superar desigualdades históricas e formas de dependência econômica.
Durante séculos, os países que primeiro se industrializaram foram apresentados como modelos que todos deveriam seguir. O desenvolvimento passou a significar alcançar os padrões de produção e consumo das nações mais ricas.
Mas essa história esconde uma violência antiga.
A riqueza das potências industriais foi construída também através da colonização, da escravidão, da exploração de trabalhadores e da apropriação de territórios e recursos naturais. Não existe uma estrada universal do progresso que todos possam percorrer nas mesmas condições.
Muitos países continuam dependentes da exportação de minérios, petróleo, alimentos e matérias-primas. Para obter dinheiro, financiar investimentos e cumprir compromissos externos, precisam ampliar a exploração de seus territórios.
Assim, a promessa de desenvolvimento pode reproduzir a própria dependência.
A terra fornece riqueza ao mercado mundial, mas suas populações permanecem enfrentando dificuldades para garantir uma vida digna.
Conhecemos essa história no Brasil. Ela começou quando os colonizadores olharam para nossas florestas, nossos rios e nossos territórios e enxergaram riquezas que deveriam ser retiradas e enviadas para longe.
A ideia de progresso chegou acompanhada da tomada de terras, da exploração de corpos e da destruição de modos de vida.
O progresso que não aprendeu a escutar a Terra
Para nós, povos indígenas, a palavra progresso carrega uma memória difícil.
Durante séculos, disseram que nossas terras precisavam produzir, que as florestas deveriam ser aproveitadas e que nossos modos de vida pertenciam ao passado.
O colonizador não compreendia que um território pudesse ser habitado sem estar inteiramente submetido à produção de mercadorias. A floresta em pé parecia riqueza desperdiçada. A terra compartilhada parecia terra sem dono. O tempo dedicado à convivência, ao cuidado e à transmissão de conhecimentos parecia tempo improdutivo.
Essa maneira de enxergar o mundo transformou a exploração da natureza numa medida de civilização.
Mas a terra não é um depósito de mercadorias esperando alguém abrir suas portas. O rio não existe apenas para produzir energia. A floresta não vale somente pela madeira, pelos minérios ou pelo carbono que pode ser negociado.
Um território é uma rede viva de relações. Nele existem histórias, conhecimentos, alimentos, águas, animais, plantas e vínculos entre gerações.
Quando uma floresta desaparece, não perdemos apenas uma quantidade de recursos naturais. Perdemos relações que levaram muito tempo para se formar e que sustentam diferentes maneiras de existir.
Isso não significa que os povos indígenas devam viver sem tecnologia, infraestrutura ou serviços modernos. Temos direito à saúde, à educação, à mobilidade e a todas as condições necessárias para uma vida digna.
O que recusamos é a ideia de que essas conquistas exijam transformar toda a Terra em mercadoria.
Melhorar a vida não é a mesma coisa que ampliar indefinidamente a produção e o consumo.
Uma economia que não sabe quando parar
Existe uma diferença fundamental entre produzir para atender necessidades e produzir para valorizar capital.
Uma comunidade que precisa de alimento organiza seu trabalho para garantir a colheita, guardar sementes, preservar o solo e cuidar das águas. A produção possui uma finalidade concreta: sustentar a vida.
Na sociedade capitalista, essa finalidade fica subordinada a outra exigência. O dinheiro investido precisa retornar aumentado. As empresas competem, ampliam mercados, desenvolvem tecnologias e procuram vender quantidades crescentes de mercadorias.
Não existe um ponto em que a acumulação possa ser considerada suficiente.
Mesmo quando as necessidades fundamentais poderiam ser atendidas com a capacidade produtiva já existente, a economia continua pressionada a crescer.
É uma sociedade que não sabe quando parar.
Essa obrigação produz uma contradição profunda. As tecnologias permitem fabricar mais produtos com menos trabalho humano, mas o acesso aos meios de vida continua dependendo do dinheiro obtido através do trabalho. Ao mesmo tempo que a produtividade aumenta, milhões de pessoas enfrentam insegurança econômica e precisam disputar empregos para sobreviver.
A capacidade de produzir riqueza material cresce, mas a sociedade continua subordinada à necessidade de produzir valor.
Quando essa engrenagem encontra dificuldades, a disputa pela riqueza se torna mais agressiva. O Estado passa a sofrer pressões de grupos que procuram contratos, privilégios, proteção financeira e acesso a patrimônios coletivos. A natureza se transforma em nova fronteira de negócios.
É a economia da barbárie, sobre a qual venho refletindo nas últimas cartas.
O capitalismo começa a consumir suas próprias condições de existência. A riqueza pública é apropriada por interesses particulares, os territórios são destruídos e os custos sociais e ambientais recaem sobre a população.
É um sistema que consegue enriquecer alguns grupos enquanto empobrece o mundo que sustenta a todos.
O crescimento diante dos limites da Terra
A crise ecológica tornou essa contradição impossível de esconder.
Os estudos científicos mostram que a humanidade ultrapassou diversos limites ambientais importantes. A alteração do clima, a perda de biodiversidade, a transformação dos solos e a pressão sobre os ciclos naturais revelam que nossa atividade econômica alcançou uma escala capaz de desestabilizar condições fundamentais da vida planetária.
Mesmo assim, os governos continuam prometendo crescimento permanente.
Falam em transição energética, economia verde e inovação tecnológica. Essas transformações são necessárias, mas não eliminam a contradição central.
Painéis solares, turbinas eólicas, baterias e redes elétricas exigem materiais, energia, mineração e infraestrutura. Se as melhorias tecnológicas forem utilizadas apenas para ampliar continuamente a produção e o consumo, a pressão sobre a natureza continuará crescendo.
Precisamos substituir atividades destrutivas por alternativas menos danosas, mas também reduzir o desperdício, abandonar produções socialmente desnecessárias e reorganizar nossas necessidades coletivas.
Não existe justiça em negar eletricidade a uma comunidade pobre enquanto enormes quantidades de energia são consumidas em atividades voltadas ao luxo, à especulação e ao desperdício.
A questão ecológica não se resolve apenas mudando a fonte de energia. Exige decidir democraticamente o que produzir, em que quantidade, para quem e com quais consequências para a Terra.
O crescimento não pode continuar sendo uma finalidade em si mesmo.
A vitória de Lula e o tempo que conquistamos
Foi com essas questões na cabeça que acompanhei a eleição presidencial brasileira.
Lula venceu Flávio Bolsonaro numa disputa apertada. Segundo os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de seu adversário.
Recebi o resultado com alívio, mas sem confundir a vitória eleitoral com a superação dos problemas que enfrentamos.
Para os povos indígenas e para todos que defendem a proteção ambiental, as diferenças entre os projetos em disputa possuem consequências concretas. A eleição ergueu uma barreira política contra a possibilidade de acelerar medidas de destruição dos recursos naturais e de ataque aos direitos territoriais.
Essa barreira é frágil, mas importante.
Ganhamos tempo para defender a floresta, fortalecer nossas organizações e impedir retrocessos. Não ganhamos uma solução para a crise ecológica e social do capitalismo.
O novo governo continuará enfrentando pressões para ampliar exportações, atrair investimentos, explorar recursos naturais e fazer a economia crescer. O Brasil permanece profundamente dependente de atividades que transformam terra, água, minérios e produtos agrícolas em mercadorias destinadas ao mercado mundial.
Essa contradição não desaparece com a eleição de um governo mais comprometido com a proteção ambiental.
Por isso, a vitória de Lula precisa ser compreendida como uma oportunidade de luta e de reorganização das forças sociais, não como autorização para continuar seguindo o mesmo caminho econômico.
Defender a democracia, os direitos indígenas e as políticas ambientais é indispensável. Mas precisamos ir além da administração dos danos produzidos pela sociedade da mercadoria.
A esquerda precisa abandonar a religião do crescimento
Aqui está uma tarefa que considero decisiva.
Durante muito tempo, grande parte da esquerda associou a emancipação humana ao desenvolvimento industrial, à ampliação do emprego, ao crescimento econômico e à distribuição mais justa da riqueza.
Essa perspectiva respondeu a necessidades históricas reais. Num país marcado pela fome, pela desigualdade e pela ausência de serviços públicos, ampliar a produção e garantir direitos representava uma tarefa urgente.
Mas o mundo mudou.
A humanidade desenvolveu uma capacidade produtiva gigantesca e, mesmo assim, continua enfrentando pobreza, insegurança social e destruição ecológica.
Não basta defender que a riqueza seja distribuída de maneira mais justa se sua produção continuar subordinada à expansão ilimitada do capital.
A esquerda precisa se libertar da ideia de que todo crescimento representa progresso.
Construir saneamento onde ele não existe é necessário. Recuperar rios contaminados também. Garantir alimentação saudável, moradia digna, educação e transporte coletivo são tarefas fundamentais.
Mas estimular o consumo descartável, ampliar atividades poluidoras e destruir ecossistemas para gerar lucros não se transforma em progresso apenas porque aumenta o PIB ou cria empregos.
Uma sociedade emancipada precisa ter condições de reduzir trabalhos inúteis e atividades destrutivas, distribuir o trabalho realmente necessário e ampliar o tempo disponível para a convivência, o cuidado, o conhecimento e a cultura.
Isso exige questionar a própria obrigação de produzir valor.
A política não pode continuar limitada à disputa sobre quem administrará melhor o crescimento econômico. Precisa recuperar a capacidade coletiva de decidir como queremos viver e quais atividades são realmente necessárias para sustentar essa vida.
O que nossos mais velhos já compreendiam
Quando volto a essas questões, lembro que o conhecimento indígena começa pela atenção às relações.
Antes de mexer num rio, precisamos compreender o que acontece com suas margens, seus peixes e suas águas. Antes de retirar demais da mata, precisamos pensar no que ficará para as próximas gerações. Antes de concentrar riqueza nas mãos de poucos, precisamos olhar para aqueles que ficarão sem alimento e sem território.
Essas perguntas não se opõem à ciência. Elas ampliam nossa responsabilidade diante do conhecimento.
A ciência pode medir a temperatura do planeta, a perda de biodiversidade, a contaminação das águas e a quantidade de materiais retirados da Terra. Mas nenhum indicador decide sozinho como uma sociedade deve viver.
Essa decisão pertence às pessoas e às comunidades que compartilham o mundo.
Nossos povos não possuem respostas prontas para todos os problemas contemporâneos. Enfrentamos conflitos, mudanças e desafios que também exigem novos conhecimentos.
Mas nossas experiências mostram que a vida coletiva não precisa ser organizada exclusivamente através do dinheiro e da mercadoria.
A terra pode ser lugar de pertencimento, e não apenas propriedade. O alimento pode circular através da reciprocidade. O conhecimento pode ser transmitido entre gerações sem precisar ser vendido. O cuidado pode ser uma responsabilidade compartilhada.
Essas relações nos ajudam a imaginar uma sociedade em que a riqueza seja reconhecida pela capacidade de sustentar a vida.
Além do PIB, mas para onde?
Volto, então, à iniciativa da ONU.
É importante que os governos passem a considerar a saúde, a educação, o bem-estar, a desigualdade e a sustentabilidade quando avaliam o desenvolvimento de seus países.
Mas novos indicadores não serão suficientes enquanto a organização econômica continuar subordinada à concorrência, ao dinheiro e à valorização do capital.
O desafio não é apenas medir melhor a vida.
É deixar de submeter a vida à necessidade de crescimento permanente.
Precisamos garantir alimentação, moradia, saúde, educação, cultura e cuidado sem depender indefinidamente da expansão da produção de mercadorias. Precisamos utilizar a tecnologia para reduzir o trabalho necessário e o desperdício material. Precisamos superar a pobreza sem reproduzir o consumo excessivo dos grupos mais ricos.
E precisamos reconhecer que a Terra possui limites que nenhuma decisão econômica pode eliminar.
A China demonstrou a força da transformação produtiva. A Índia enfrenta o desafio de ampliar as condições materiais de sua população. O Brasil precisa superar suas desigualdades históricas sem continuar destruindo seus territórios. Outros países também buscam caminhos para garantir uma vida digna.
Nenhum desses povos deve ser condenado à pobreza.
Mas nenhum deles precisa aceitar como destino a obrigação de crescer indefinidamente.
A humanidade já possui conhecimento e capacidade produtiva suficientes para começar a organizar sua existência de outra maneira. O que falta é romper com a ideia de que a economia deve continuar crescendo mesmo quando esse crescimento deixa de servir à vida.
A riqueza que permanece viva
Parente, quando penso em tudo isso, imagino um povo caminhando por uma trilha.
Depois de muitas horas, alguém pergunta para onde estão indo. O homem que segue na frente responde que o importante não é chegar a algum lugar, mas caminhar cada vez mais depressa.
Quando a trilha começa a desaparecer, ele manda todos acelerarem. Quando falta água, diz que precisam andar mais rápido. Quando os mais velhos ficam para trás, afirma que a caminhada não pode parar.
É assim que a sociedade capitalista trata o crescimento econômico.
Produzimos mais, consumimos mais, retiramos mais materiais da Terra e aceleramos o ritmo da vida, mas continuamos sem responder qual é a finalidade dessa corrida.
A iniciativa da ONU mostra que até as instituições internacionais começaram a reconhecer os limites de medir o progresso apenas pelo PIB. É um passo importante, mas não chega ao centro da questão.
O problema não está somente na maneira como contamos a riqueza. Está na obrigação de aumentá-la continuamente sob a forma de dinheiro, mesmo quando isso destrói as condições da existência.
A vitória de Lula nos deu tempo para defender direitos, proteger territórios e resistir à aceleração da devastação. Precisamos utilizar esse tempo para construir alternativas que não repitam a velha promessa de crescimento sem limites.
A esquerda precisa abandonar a crença de que produzir mais mercadorias significa necessariamente construir uma sociedade melhor.
E todos nós precisamos recuperar uma pergunta que a economia esqueceu: o que é necessário para viver bem, sem destruir a possibilidade de que outros também vivam?
Para mim, riqueza é uma criança crescendo saudável, uma comunidade vivendo sem medo, um rio onde ainda existem peixes, uma família com tempo para estar junta e uma floresta que continua de pé.
Nada disso cabe inteiramente nas contas do mercado.
Uma sociedade verdadeiramente rica não é aquela que transforma mais natureza em dinheiro. É aquela que garante a vida sem destruir a Terra que a sustenta.
Esse é o progresso que precisamos construir.
Pensa nisso, parente.
Sul da Bahia, outubro de 2026
Yandé Tupinambá
Sobre o Autor

YANDÉ TUPINAMBÁ É UM JOVEM INDÍGENA DO POVO TUPINAMBÁ DA BAHIA
E ESTUDANTE DE ANTROPOLOGIA EM SÃO
PAULO FILHO DA TERRA E DO MAR, TRANSITA ENTRE A ALDEIA E A UNIVERSIDADE, LEVANDO CONSIGO O SONHO DE UNIR O SABER ANCESTRAL E O PENSAMENTO CRÍTICO
CONTEMPORÂNEO.