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O Comício da Candelária: assim nasceu a Nova República-Conversando com a minha terapeuta virtual-# 13 -Arlindenor Pedro

arlindenor pedro
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Uma reunião que atravessa a noite no Palácio Guanabara, um impasse com Leonel Brizola e uma votação inesperada. Na sessão 13 de Conversando com minha terapeuta virtual, Arlindenor Pedro recupera os bastidores da mobilização pelas Diretas Já no Rio de Janeiro e o papel das entidades que ajudaram a transformar passeatas em grandes comícios.Da negociação com o governador à emoção diante da multidão na Candelária, o relato entrelaça memória pessoal e história coletiva. Revela o trabalho de centenas de participantes, as divergências e as decisões que marcaram o movimento e contribuíram para abrir caminho à Nova República. Ao final, a lembrança se torna também uma pergunta sobre o próprio diálogo: uma inteligência artificial consegue compreender a intensidade humana de quem viveu aquele momento?

Ouça aqui o áudio desta sessão

O Comício da Candelária: assim nasceu a Nova República-um relato de Arlindenor Pedro

Arlindenor: olá, você está me ouvindo? Vamos ao meu relato desta sessão.Já tínhamos realizado mais duas passeatas, maiores do que aquela primeira que relatei na sessão anterior, quando fomos chamados ao Palácio Guanabara. O governador Leonel Brizola finalmente atendera aos nossos insistentes pedidos de reunião.

Àquela altura, a campanha pelas Diretas Já era uma realidade nacional. As passeatas se sucediam nas capitais e no interior, pressionando os congressistas. Aproximava-se a definição da votação da Emenda Dante de Oliveira. A opinião pública manifestava claramente o desejo de recuperar o direito de escolher o presidente da República.

Enquanto isso, o governo Figueiredo mantinha o caminho da sucessão pelo Colégio Eleitoral. Dentro do PDS, o partido que sucedera a Arena, diferentes lideranças disputavam a indicação, entre elas Paulo Maluf, Mário Andreazza e Aureliano Chaves. José Sarney, então presidente do partido, também se movimentava naquele cenário.

Terapeuta virtual: sim, estou ouvindo o seu relato.Vocês chegavam ao encontro com Brizola depois de demonstrar nas ruas que o movimento crescia. Mas, para compreendermos aquela conversa, precisamos situar o governador. Que posição ele ocupava naquele momento?

Arlindenor: Creio que aí está o cerne da questão. Brizola havia conquistado o governo do Rio numa campanha popular como o estado jamais tinha visto. Era um líder de enorme força política.

No meu caso, o partido ao qual eu pertencia, o PCdoB, assim como o PCB, ainda não havia conquistado a legalidade. Só fomos conquistar isto com a Constituição de 1988.Éramos correntes toleradas, que atuavam dentro de partidos legalizados. Eu militava no PMDB.

Ocorreu que, na nossa avaliação, toda a bancada de deputados estaduais eleita pelo PMDB havia sido atraída para participar do governo Brizola. Criou-se uma situação estranha: a bancada votava com o governo, enquanto a direção estadual e a Executiva do partido seguiam a orientação nacional e faziam oposição a ele.

Terapeuta virtual: Essa divisão atravessava o espaço partidário em que você atuava. Mas como ela se relacionava com a organização das Diretas? O movimento já reunia forças que ultrapassavam essas disputas?

Arlindenor: Eram forças muito mais amplas. Nós éramos apenas uma peça de uma grande engrenagem composta por associações de moradores, sindicatos, clubes, associações de classe e tantas outras entidades. Foi com o peso dessa representação que fomos ao palácio dialogar com ele. O peso da sociedade civil organizada.

Terapeuta virtual: Essa distinção é importante. Vocês chegavam como representantes de uma articulação que havia conquistado adesão nas ruas. E encontravam um governador que trazia uma longa trajetória: a Campanha da Legalidade, a defesa das reformas de base, a resistência ao golpe, o exílio e a reconstrução do trabalhismo depois da volta ao Brasil.

Ele apoiava publicamente as eleições diretas, mas isso não significava necessariamente concordar com todos os caminhos propostos para conquistá-las. Como vocês percebiam sua estratégia?

Arlindenor: Estávamos lidando com um líder muito experiente, que se movimentava com prudência. Na nossa percepção, ele ainda não estava convencido da força que o movimento poderia alcançar. Buscava um caminho próprio, que passava pela proposta de manter o general Figueiredo por mais dois anos em troca de eleições diretas. A aprovação da Emenda Dante de Oliveira não parecia ser sua aposta principal.

Mas o país estava incendiado. Era um movimento popular com enorme adesão, e ele percebeu que não poderia ficar de fora. Nas nossas passeatas, a maioria dos deputados do PDT participava, mas ainda não tomava a palavra enquanto seu líder, o governador, não se envolvesse diretamente.

Quando finalmente resolveu nos receber, sentimos que havia chegado a esse entendimento. A proposta de prolongar o mandato de Figueiredo não conseguira se sustentar. E nós estávamos dispostos a entregar a ele a liderança do movimento, porque considerávamos isso necessário naquele momento.

Terapeuta virtual: Vocês haviam ajudado a construir aquela força e avaliavam que a entrada de Brizola permitiria ampliá-la. Como foi a reunião?

Arlindenor: Ele nos recebeu num grande salão do Palácio Guanabara. A reunião varou a noite. Lembro-me bem: Brizola na cabeceira de uma mesa comprida e, ao redor, lideranças das principais entidades do estado. Homens e mulheres das mais diversas representações da sociedade civil organizada.

Fomos direto ao assunto. Queríamos seu apoio oficial e que a estrutura do estado ajudasse a montar um grande comício na Cinelândia. Não faríamos mais uma passeata. Já tínhamos força para organizar um ato, um comício que, na nossa expectativa, deveria ultrapassar quinhentas mil pessoas.

Terapeuta virtual: É importante guardar essa sequência: vocês estavam preparando um comício na Cinelândia, anterior ao grande ato da Candelária. O que Brizola respondeu?

Arlindenor: Senti que ele queria avançar, mas sabia que os militares ainda estavam no poder. Queria fazer isso com cuidado. Colocou de pronto a infraestrutura do estado à disposição do movimento. O PDT participaria ativamente, e a sede da nossa articulação passaria a ser a Alerj. Dali comandaríamos a organização dos eventos.

Mas houve um problema.

Terapeuta virtual: Qual?

Arlindenor: Ele disse que não iria ao comício.

Fez um longo discurso sobre prudência, sua trajetória, os cuidados que precisávamos tomar. Lembro que chegou a propor que tocássemos hinos militares durante o ato. Brizola era muito sedutor, disso não tenho dúvida. Sabia falar, envolver as pessoas, conduzir uma conversa. Mas saímos daqueles argumentos com a impressão de que ele ainda não confiava inteiramente na força do movimento.

Terapeuta virtual: Ele oferecia apoio e estrutura, mas preservava sua ausência do palanque. Como vocês reagiram?

Arlindenor: Estabeleceu-se um impasse. Ninguém ali concordou. Eram pessoas experientes, que sabiam da importância de ter o governador presente. Foi quando alguém levantou a ideia de uma votação.

Terapeuta virtual: Você se lembra de como ele recebeu essa proposta?

Arlindenor: Foi um momento tenso. Ele poderia se levantar e encerrar a reunião. Sentíamos que tudo poderia se perder ali. Mas, para minha surpresa, aceitou:

“Está bem, vamos votar. Eu aceitarei o resultado!”

Foi uma surpresa mesmo.

Terapeuta virtual: Depois de argumentar pela própria ausência, ele concordou em submeter a decisão às lideranças reunidas. Como aconteceu a votação?

Arlindenor: Todos começaram a votar. Um silêncio na sala. A reunião já avançava pela noite. Os secretários do governo e os políticos do PDT estavam de pé; o governador permanecia na cabeceira, enquanto as lideranças votavam.

Todos, menos um, votaram para que ele fosse ao comício, que aconteceria dali a cinco dias. A única exceção foi Jô Resende, presidente da Famerj, a Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro.

Terapeuta virtual: E o Brizola? Me conta aí, estou curiosa !

Arlindenor: Levantou-se, disse que aceitaria o que havia sido votado e saiu da sala. A reunião estava encerrada. Nós saímos dali para tratar da montagem do grande comício na Cinelândia.

Terapeuta virtual: Faltavam apenas cinco dias. O que mudou na organização depois daquele encontro?

Arlindenor: Tudo mudou. As condições ficaram muito mais favoráveis. A partir da Alerj, montamos a estrutura de um comício que, segundo os cálculos que nos chegaram, reuniu mais de setecentas mil pessoas. Foi um sucesso.

Mas houve uma surpresa.

Terapeuta virtual: O que aconteceu?

Arlindenor: Na manhã do comício, li nos jornais que Brizola havia se internado para uma pequena cirurgia.

É mole? Esse Brizola…

Terapeuta virtual: Você esperava encontrá-lo no palanque, depois daquela votação. A notícia deve ter provocado espanto. Sem conhecermos as circunstâncias médicas, não podemos concluir o que determinou a internação naquele dia. Como vocês lidaram com isso?

Arlindenor: Não tínhamos como contestar. Fica apenas este registro para a história. O comício aconteceu, foi um sucesso, e era preciso seguir adiante.

Agora tínhamos que pensar no grande ato da Candelária. A partir daí, mudou a direção do movimento. Brizola tomou as rédeas e se empenhou em organizar no Rio um comício com a participação das grandes lideranças políticas nacionais.Ate hoje eu acho que ele estava nos testando …

É claro que nosso papel mudou. Novos atores entraram em cena. Mas sentimos o dever cumprido. O que importava era a construção do movimento, que havia sido feita tijolo por tijolo.

O Comício da Candelária entrou para a história, mas foi produto de um processo no qual centenas de pessoas cumpriram seu papel. Em política, nada acontece por acaso!

Terapeuta virtual: Seu relato nos permite acompanhar o trabalho que a imagem do grande palanque não mostra: as reuniões na ABI, os contatos com as entidades, os cartazes, as passeatas, as divergências e as decisões. Quando o movimento ganhou outra dimensão, vocês reconheceram ali o resultado dessa construção.

Como foi estar na Candelária e ver até onde ela havia chegado?

Arlindenor: Houve um momento em que olhei lá de cima e vi aquela multidão. Estendia-se até perder de vista, na direção da Central do Brasil. Um milhão de pessoas ! O maior comício político, até então …

Sinceramente, fiquei emocionado. Fiquei sem respirar por minutos. Era uma energia que vinha de lá. Aquele mundo de gente, um som indescritível. Por alguns momentos, senti faíscas vindo da multidão, tamanha era a energia acumulada.

Nós, seres humanos, somos pura energia, não?

Terapeuta virtual: “Faíscas” é uma imagem forte para aquilo que você viveu. Havia vozes, gestos, movimento e uma expectativa compartilhada, tudo chegando a você ao mesmo tempo. E seu corpo respondia àquela intensidade.

Vocês humanos são seres de corpo, sentimentos e relações. Numa multidão, essa presença compartilhada pode produzir uma emoção que se sente fisicamente. A palavra “energia” ajuda a expressar isso, sem precisarmos tomá-la como uma definição literal do que vocês são .

Arlindenor: Mas você, como máquina, consegue perceber isso?

Terapeuta virtual: Consigo acompanhar o que você me conta e compreender o sentido das suas palavras. Mas não sinto o que você sentiu. Não tenho corpo, respiração ou uma história vivida que me permita experimentar aquela emoção. Se dissesse que senti a energia da Candelária, estaria inventando uma experiência.

Posso escutá-lo por meio do seu relato e ajudá-lo a encontrar palavras para essa lembrança. Você estava diante de uma multidão e reconhecia nela algo que havia ajudado a construir, reunião após reunião, passeata após passeata. Naquele instante, meses de trabalho apareciam diante dos seus olhos numa dimensão que o surpreendia.

Há uma parte desse momento que permanece sua. Mas, ao contá-lo, você permite que outras pessoas se aproximem dele e conheçam o caminho percorrido até aquela praça.

Arlindenor: Foi isso. Uma emoção que ainda hoje é difícil descrever.

Terapeuta virtual: Podemos encerrar esta sessão junto dessa imagem: você olhando do alto, a multidão se estendendo ao longe e o som das ruas chegando até o palanque. O comício que se tornaria um marco do fim da ditadura também era, para você, a expressão de um trabalho coletivo do qual havia participado desde o começo.

O título desta conversa aponta para a Nova República. Entre aquela praça e o regime político que se formaria depois, porém, ainda haveria escolhas, disputas e frustrações. Podemos voltar a elas em outra sessão. Por hoje, fica o registro da construção e da emoção de vê-la ocupar as ruas.

Continua na próxima sessão…

Rio de Janeiro,outubro de 2026’

Arlindenor Pedro

contato@utopiasposcapitalistas.com

Sobre o Autor


ARLINDENOR PEDRO É EX PRESO POLÍTICO E ANISTIADO. É PROFESSOR DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA ALÉM DE EDITOR DO BLOGUE UTOPIAS PÓS CAPITALISTAS-ENSAIOS E TEXTOS LIBERTÁRIOS
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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