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Bernie Sanders diante da crise do capitalismo: os limites de uma esperança reformista-Arlindenor Pedro

arlindenor pedro
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Em Bernie Sanders diante da crise do capitalismo: os limites de uma esperança reformista, Arlindenor Pedro reconhece a importância das propostas do senador norte-americano contra a desigualdade social e a concentração do poder econômico, mas aponta uma limitação fundamental: Sanders procura corrigir os efeitos do capitalismo sem enfrentar as relações sociais que continuamente os reproduzem.A contradição torna-se mais evidente com o avanço da inteligência artificial. A tecnologia amplia a capacidade de produzir riqueza com menos trabalho humano, mas, numa sociedade em que a sobrevivência depende do salário, essa conquista pode se transformar em desemprego, precarização e exclusão. O que poderia libertar as pessoas de parte do trabalho necessário passa a ameaçar suas condições de existência.A tese central do artigo é que não basta redistribuir a riqueza, proteger empregos ou ampliar direitos sociais, embora essas medidas sejam indispensáveis. É necessário questionar uma organização econômica que subordina a reprodução da vida ao trabalho assalariado e à valorização do capital. É nesse limite que a proposta reformista de Sanders encontra a crise estrutural do capitalismo.

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Bernie Sanders diante da crise do capitalismo: os limites de uma esperança reformista-um ensaio de Arlindenor Pedro

O recente pronunciamento de Bernie Sanders após as eleições legislativas norte-americanas de novembro de 2026 merece atenção por uma razão que ultrapassa a vitória eleitoral dos democratas. Sanders compreende que derrotar Donald Trump nas urnas não significa enfrentar as condições sociais que tornaram possível sua ascensão. A deterioração da vida dos trabalhadores, a concentração extraordinária da riqueza e a submissão crescente das instituições políticas aos interesses econômicos continuam presentes, independentemente dos resultados eleitorais. Sua advertência é clara: a democracia norte-americana não recuperará a confiança da população enquanto milhões de pessoas permanecerem submetidas à insegurança material e uma pequena oligarquia concentrar poder econômico e influência política.A chegada de Trump ao poder mostrou isto .

O mérito de Sanders está em reconhecer que a crise democrática não pode ser explicada exclusivamente pela atuação de lideranças autoritárias ou pela fragilidade das instituições. Ela possui raízes materiais profundas. Quando famílias trabalham cada vez mais para garantir condições elementares de existência, enquanto grandes fortunas continuam crescendo, a promessa democrática perde substância. Sua denúncia do financiamento bilionário das campanhas eleitorais revela uma contradição fundamental: a igualdade formal dos cidadãos convive com uma desigualdade econômica que permite aos grandes proprietários influenciar decisivamente a política. Entretanto, essa dominação não resulta apenas das doações eleitorais. Ela está inscrita na própria dependência do Estado em relação ao investimento privado, à arrecadação, ao crédito e ao funcionamento dos mercados. O poder do capital não desapareceria com a proibição do financiamento empresarial das campanhas.

É nesse contexto que Sanders propõe tributar grandes fortunas, ampliar a assistência médica, fortalecer os sindicatos, elevar os salários, proteger a previdência e aumentar os investimentos públicos em educação e moradia. Seu programa procura recuperar a capacidade do Estado de limitar a concentração de riqueza e assegurar melhores condições de vida à população. São propostas que enfrentam problemas concretos e que não devem ser desqualificadas por permanecerem dentro do capitalismo. A defesa dos direitos sociais constitui uma necessidade imediata, especialmente num país em que o acesso à saúde, à educação e à segurança econômica continua profundamente condicionado pela renda individual. Mas, é preciso aqui refletir sobre isto.

O problema está nos limites dessa resposta. Sanders pretende corrigir a distribuição de uma riqueza cuja produção permanece subordinada às mesmas relações econômicas que geram a desigualdade. A tributação dos bilionários pode mobilizar recursos para políticas públicas, mas não elimina a dependência dessas políticas em relação à continuidade da acumulação, dos lucros e das receitas fiscais. A concentração de riqueza não constitui apenas uma distorção moral provocada pela ganância de indivíduos particularmente poderosos. É também resultado de um sistema no qual produzir riqueza significa, antes de tudo, produzir valor e ampliar capital. Redistribuir seus resultados não equivale a superar as relações sociais que os reproduzem.

Esta contradição aparece com especial intensidade quando Sanders aborda a inteligência artificial. Ele denuncia o poder das grandes empresas tecnológicas, a ameaça de destruição de empregos, a expansão da vigilância, os impactos ambientais dos centros de processamento de dados e a utilização militar dessas tecnologias. Ao defender uma moratória sobre novos centros de dados e restrições ao desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial, procura impedir que decisões capazes de transformar a vida de milhões de pessoas permaneçam concentradas nas mãos de poucos bilionários. Sua preocupação com o controle privado da tecnologia é pertinente. Mas a solução proposta revela os limites de sua interpretação.

Ora, a inteligência artificial não cria, por si mesma, a contradição entre desenvolvimento tecnológico e sobrevivência humana. Ela a aprofunda numa sociedade em que o acesso aos meios de vida continua condicionado à venda da força de trabalho. O capitalismo desenvolve tecnologias capazes de economizar trabalho humano, mas transforma essa possibilidade em ameaça aos trabalhadores. Aquilo que deveria liberar tempo para a vida aparece como desemprego, precarização e insegurança. A sociedade dispõe de instrumentos para reduzir o trabalho necessário, mas continua exigindo que as pessoas trabalhem para conquistar o direito de existir. Essa é a contradição decisiva que o programa de Sanders não enfrenta.

A inteligência artificial amplia a capacidade de automatizar tarefas intelectuais, administrativas e produtivas, alcançando atividades antes consideradas exclusivas do trabalho humano qualificado. Seus efeitos não se distribuem uniformemente. Algumas profissões são transformadas, outras atividades são ampliadas e determinadas funções podem desaparecer. O resultado depende também de decisões empresariais, políticas públicas e relações de poder. Entretanto, sua incorporação à produção capitalista obedece predominantemente à busca de competitividade, redução de custos e rentabilidade. A possibilidade de produzir mais com menos trabalho não se converte automaticamente em redução da jornada, ampliação do tempo livre ou distribuição social dos benefícios tecnológicos. Sob o comando do capital, a produtividade crescente pode coexistir com desemprego, intensificação do trabalho e concentração ainda maior da riqueza.

Aqui se encontra uma questão que vai além da crítica habitual às grandes empresas tecnológicas. O trabalho não é apenas uma atividade necessária à produção de bens e serviços. No capitalismo, constitui também uma mediação fundamental pela qual as pessoas obtêm renda e acesso à riqueza social. Quando a automação reduz a necessidade de determinadas atividades humanas, ameaça simultaneamente os empregos e os rendimentos daqueles que dependem deles para sobreviver. Não se trata apenas de uma disputa sobre quem ficará com os lucros da inteligência artificial. Trata-se da contradição entre a capacidade material de produzir riqueza com menos trabalho e uma organização social que continua fazendo do trabalho assalariado a principal condição de acesso a essa riqueza.

A Crítica do Valor utilizada como chave teórica nos permite aprofundar aqui essa questão ao distinguir riqueza material e valor. Sabemos que o aumento da produtividade amplia a quantidade de bens e serviços que podem ser produzidos em determinado tempo, mas isto não significa, automaticamente, uma expansão equivalente do valor produzido. Essa distinção torna-se fundamental diante das tecnologias que substituem atividades humanas e reorganizam os processos produtivos. Seria precipitado concluir que a inteligência artificial provocará necessariamente uma redução imediata do valor total produzido ou um colapso econômico. Seus efeitos dependem das transformações do conjunto da produção, da criação de novas atividades, da concorrência e das formas de apropriação dos ganhos tecnológicos. O que já podemos identificar é uma contradição estrutural: o desenvolvimento das forças produtivas amplia as possibilidades de libertação do trabalho necessário, enquanto as relações capitalistas continuam subordinando a existência social à sua realização.

Sanders responde a essa transformação defendendo empregos, salários mais elevados e proteção sindical. São reivindicações importantes diante das condições existentes, mas insuficientes para enfrentar o problema em sua profundidade. A questão não pode limitar-se à preservação de postos de trabalho ameaçados pela automação. Precisamos perguntar por que a redução do tempo de trabalho necessário não se transforma numa conquista coletiva. Se uma sociedade consegue produzir os bens indispensáveis com menor dispêndio de esforço humano, o resultado deveria ser a ampliação do tempo disponível para o conhecimento, a convivência, a cultura e a participação social. O capitalismo converte essa possibilidade em problema porque a reprodução da vida permanece subordinada ao emprego, ao salário e ao dinheiro.

Isso não significa defender a expansão tecnológica sem restrições. Os riscos ambientais, militares, políticos e sociais identificados por Sanders são reais e exigem regulação rigorosa. Entretanto, uma moratória sobre centros de dados não enfrenta, por si mesma, a questão fundamental: quem controla o desenvolvimento tecnológico, quais finalidades orientam sua utilização e como seus benefícios são socialmente distribuídos? Suspender determinadas aplicações pode ser necessário diante de riscos específicos. Mas impedir genericamente o desenvolvimento tecnológico não substitui a necessidade de transformar as relações sociais que determinam sua utilização. O desafio não é escolher entre aceitar a inteligência artificial sob o domínio das grandes empresas ou tentar paralisar seu desenvolvimento. É construir formas democráticas de controle e apropriação social de suas capacidades, queria acentuar isto aqui.

Entendo que este problema está diretamente relacionado à reprodução social. A sociedade contemporânea já possui recursos científicos e tecnológicos extraordinários para ampliar o acesso à saúde, à educação, à alimentação e à moradia. Entretanto, a satisfação dessas necessidades continua dependendo da disponibilidade de dinheiro e das condições de financiamento público. A defesa de serviços universais, como faz Sanders, representa uma conquista importante porque reduz a dependência imediata da compra individual. Mas esses serviços permanecem inseridos numa economia organizada por salários, mercados, empresas e receitas tributárias. Esta é a questão essencial!A emancipação exige avançar também sobre a maneira como os meios necessários à vida são produzidos, distribuídos e administrados. Exige ainda reconhecer o trabalho de cuidado, frequentemente invisível e distribuído de maneira desigual, sem o qual nenhuma sociedade consegue reproduzir sua própria existência.

O pronunciamento também denuncia os gastos militares norte-americanos e sua relação com as guerras e os conflitos internacionais. Sanders questiona a destinação de recursos extraordinários à expansão militar enquanto necessidades sociais permanecem desatendidas. Sua crítica é importante, mas o militarismo não pode ser reduzido a uma escolha orçamentária equivocada. A posição dos Estados Unidos no capitalismo mundial depende de relações financeiras, tecnológicas, comerciais e militares que ultrapassam as decisões de um governo. A disputa com a China, a reorganização das cadeias produtivas e a crescente competição por mercados e recursos revelam uma crise mais ampla da ordem econômica internacional. Um capitalismo norte-americano socialmente mais distributivo continuaria inserido nessas contradições, inclusive nas relações desiguais que sustentam sua posição mundial.

É nessa perspectiva que os limites do reformismo de Sanders se tornam mais evidentes. Sua proposta consiste em recuperar a capacidade integradora de um capitalismo cuja dinâmica produz insegurança, concentração de riqueza e fragmentação social. Busca restabelecer a confiança nas instituições democráticas mediante uma distribuição mais justa dos resultados econômicos. Mas a crise contemporânea não pode ser compreendida apenas como consequência da desigualdade distributiva ou de escolhas políticas equivocadas. Ela envolve contradições da própria produção e valorização do capital, agravadas pela expansão financeira, pela concorrência mundial e pelas transformações tecnológicas.

A crise não conduz automaticamente à superação do capitalismo. Também pode aprofundar formas de dominação, apropriação predatória, militarização e violência. É essa possibilidade que venho examinando na série A Economia da Barbárie que venho gradativamente produzindo no blogue Utopias Pós Capitalistas.Quando a reprodução social encontra dificuldades crescentes, a continuidade da acumulação pode assumir formas cada vez mais destrutivas, sem que daí resulte necessariamente uma alternativa emancipatória. Por isso, a defesa da democracia e dos direitos sociais continua indispensável, e neste sentido o pronunciamento de Sanders tem imenso valor . Mas sua importância não autoriza confundir a contenção da barbárie com a superação das relações que a alimentam. Vivemos momentos cruciais que nos exige ir além .

Nesse sentido seu pronunciamento revela, assim, uma tensão histórica de enorme significado. De um lado, expressa a necessidade urgente de proteger milhões de pessoas contra a desigualdade, a exploração e a concentração de poder. De outro, permanece preso a uma concepção de sociedade em que a existência humana depende fundamentalmente do trabalho assalariado e da capacidade do capitalismo de financiar sua própria proteção social.

A inteligência artificial torna essa contradição impossível de ignorar. Quando o desenvolvimento tecnológico permite reduzir o trabalho necessário à produção da riqueza, a questão central deixa de ser apenas como assegurar empregos e melhores salários. Passa a ser como organizar a própria reprodução da vida para que os avanços da ciência e da técnica se convertam em liberdade humana, e não em novas formas de exclusão e dependência.

Sanders procura reconstruir um capitalismo capaz de proteger seus trabalhadores. A crise contemporânea nos obriga a enfrentar uma questão mais profunda: como construir uma sociedade na qual a sobrevivência das pessoas deixe de depender da necessidade permanente de vender seu trabalho para valorizar o capital?

Essa é a fronteira histórica que seu pronunciamento alcança, mas não ultrapassa.

Serra da Mantiqueira , novembro de 2026

Arlindenor Pedro

contato@utopiasposcapitalistas.com

Sobre o autor


ARLINDENOR PEDRO É EX PRESO POLÍTICO E ANISTIADO. É PROFESSOR DE HISTÓRIA, SOCIOLOGIA E FILOSOFIA ALÉM DE EDITOR DO BLOGUE UTOPIAS PÓS CAPITALISTAS-ENSAIOS E TEXTOS LIBERTÁRIOS

pronunciamento de Bernie Sanders
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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