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De n(ovo)-Alaor Junior

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 5 leitura mínima

Sabe da tal decepção! Então, é ela! A constatação do já sabido engendra nas massas o sentimento espiralado de circularidade, escoamento do ralo sem tampão e torpe percepção da repetição, vazio, condição oportuna à perpetuação da dominação, ou seja, para a maioria da sociedade o capitalismo traz isso: a imposição da rima da frustração… Abandono[vo]. 

Se divagarmos sobre os últimos dias, mergulhados no calendário dos assédios afetivo-econômicos, não podemos nos furtar à percepção da pressão das exigências culturais, o que nos leva por associada constatação, ao preço do bendito chocolate, o algoz dos bolsos que fechou a quaresma com chave de ouro (Me recuso a citar o bacalhau). Mas como assim? Então, uma massa proletária trocou (foi obrigada a abandonar) a fantasia dos ‘pelos macios pelas penas usuais’, dispensou o simpático coelho e retomou laços com a galinhaamargurada… Comemoremos! É Páscoa na terra dos extremos(rimo, de n[ovo]) … Que o horror da ironia seja perdoado, mas não seja louvado, afinal, aponta para a triste realidade socioeconômica que assola a terra das ‘palmeiras onde canta o sabiá’.

Cabe explicitar que o fel que queima a glote dos vulneráveis, vem da agonia continuada, versos espalhados na repetição que corrói a alma, e que transcende em muito as parcas comemorações. Pois é, o amargo sobrepõe o doce na culinária cotidiana do conhecido cardápio: a pressão do poder pelo poder. Se aos ‘aqui exilados’ é imposto um ‘estranhamento’ à guisa do ufanismo romântico do Senhor Gonçalves, que se recorra ao diplomata ‘boêmio’, aquele Vinícius que ousou ler “Pátria Minha” em Portugal, que inclusive lhe custou uma exoneração, poeta popularizado na sagração da realidade, e seu Soneto da Fidelidade, usado aqui em analogia ao pedido último da atenção das autoridades para a implementação de ferramentas que promovam igualdade cidadã e diminuição da lacuna posicionada entre extremos na acumulação/distribuição de riquezas: ‘que não sejam imortais…, mas que sejam infinitas enquanto durem’. Quase soa como prece: Bem-aventurados os…

Que fique bem claro que aqui não há apologia ao assistencialismo barato (que no final sai bem caro ao assistidoe até ao próprio governo), nem resignação ao messianismo, e muito menos incentivo à mendicância ou quaisquer sentimentos de vitimização, comuns à autoestima rota dos exauridos em lutar por um lugar ao sol. Porém, ao indivíduo que foi usurpado na sua dignidade e nas mínimas condições de trabalho e aquisição de renda, faz-se necessário que os órgãos [in]competentes adotem posturas e medidas que façam frente ao sistema capitalista que prioriza o lucro e a redoma protecionista às elites, fragilizando camadas sociais mais baixas e perpetuando as indecentes relações de controle e concomitante dependência. Em determinados momentos o acesso ao peixe é o mínimo necessário para que haja a retomada de forças ao exercício da pesca.

A velha história entre a vara e o peixe (talvez ovo) – não pode cair na eterna repetição, os milagres da multiplicação, mas a dicotomia reside aí, uma vez que a burguesia carece da massa domesticada, dependente, vulnerável ao troco dos favores, afinal, é exatamente a tal elite empresarial que sustenta os politiqueiros, dessa forma a oportuna relação de continuidade está satisfeita. E o Estado e seus governos encontram os necessários mecanismos à domesticação dos ânimos, mantendo criaturas na fragilidade da insatisfação das necessidades básicas, obrigando-as ao maior empenho como força de trabalho, e o produto adoentado dessa engrenagemsão os ovos da ilusão, sabe-se lá postados aos pés de qual arco-íris. Mas aqui cabe questionamentos, o que precisa ocorrer para que toda essa estrutura sofra modificações que a todos contemple? (Utopia?) Um dos passos necessários é a conscientização das classes aviltadas. Como isso pode se darse algumas portas como a da cultura, saúde, segurança e emprego são fechadas?

Segundo o ditado popular, pensemos que é trabalho de formiga, incansável, e este é nosso papel. Pelo menos questionar o jugo, promovendo um efeito cascata de afronta às falácias vendidas como realidade. No século XVI, um jovem filósofo chamado Étienne de La Boétie, nascido e criado na burguesia francesa, amigo de Montaigne, aos 18 anos de idade escreveu o Discurso da Servidão Voluntária, obra que até hoje suscita reflexões sobre os motivos que nos levam a continuar servindo ‘voluntariamente’, sem questionar o autoritarismo e a tirania dos soberanos, sob pena da perda da liberdade de escolhas e do pleno exercício dos pensamentos. E continuamos, e continuamos… Placidez ovina numa sociedade de rebanho. Fato que abre um leque de considerações que vão muito além da proposta deste texto.

Retomando as argumentações com os ‘ovos’, é importante ressaltar que as comemorações de Páscoa, remetem à transformação, na etimologia de passagem, e que, supostamente, deveria ser destinada a uma condição melhor, porém os entraves construídos, estrategicamente, pelos detentores do capital, confinam nas mãos destes os meios de produção que demandam mão de obra alienada para cumprimento dos objetivos propostos, bela cesta de interesses. Logo, as transformações tão desejadas (e necessárias) pela plebe são ceifadas em suas bases, tentando impedir a percepção de realidade dos dominados, antolhados…

Fazer uma omelete é o que nos resta, na ferrenha expectativa de que os que a acessem, ainda que em pequena porção, se dediquem ao esforço hercúleo de quebrar as gaiolas do pensamento, acreditando que a força e o verdadeiro poder residem e emanam do povo. Coragem! De amarga, basta toda uma vida…

Alaor Junior 01/04/24

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
15 Comentários
  • Diante da constatação da decepção! Eis ela! A constatação do já sabido engendra nas massas o sentimento espiralado de circularidade, escoamento do ralo sem tampão e torpe percepção da repetição, vazio, condição oportuna à perpetuação da dominação. Ou seja, para a maioria da sociedade, o capitalismo traz isso: a imposição da rima da frustração… Abandono.

    Se divagarmos sobre os últimos dias, mergulhados no calendário dos assédios afetivo-econômicos, não podemos nos furtar à percepção da pressão das exigências culturais, o que nos leva, por associada constatação, ao preço do bendito chocolate, o algoz dos bolsos que fechou a quaresma com chave de ouro (Me recuso a citar o bacalhau). Mas como assim? Então, uma massa proletária trocou (foi obrigada a abandonar) a fantasia dos ‘pelos macios pelas penas usuais’, dispensou o simpático coelho e retomou laços com a galinha amargurada… Comemoremos! É Páscoa na terra dos extremos (rimo, de novo)… Que o horror da ironia seja perdoado, mas não seja louvado, afinal, aponta para a triste realidade socioeconômica que assola a terra das ‘palmeiras onde canta o sabiá’.

    Cabe explicitar que o fel que queima a glote dos vulneráveis vem da agonia continuada, versos espalhados na repetição que corrói a alma e transcende em muito as parcas comemorações. Pois é, o amargo sobrepõe o doce na culinária cotidiana do conhecido cardápio: a pressão do poder pelo poder. Se aos ‘aqui exilados’ é imposto um ‘estranhamento’ à guisa do ufanismo romântico do Senhor Gonçalves, que se recorra ao diplomata ‘boêmio’, aquele Vinícius que ousou ler ‘Pátria Minha’ em Portugal, que inclusive lhe custou uma exoneração, poeta popularizado na sagração da realidade, e seu Soneto da Fidelidade, usado aqui em analogia ao último pedido da atenção das autoridades para a implementação de ferramentas que promovam igualdade cidadã e diminuição da lacuna posicionada entre extremos na acumulação/distribuição de riquezas: ‘que não sejam imortais…, mas que sejam infinitas enquanto durem’. Quase soa como prece: Bem-aventurados os…

    Que fique bem claro que aqui não há apologia ao assistencialismo barato (que no final sai bem caro ao assistido e até ao próprio governo), nem resignação ao messianismo, e muito menos incentivo à mendicância ou quaisquer sentimentos de vitimização, comuns à autoestima rota dos exauridos em lutar por um lugar ao sol. Porém, ao indivíduo que foi usurpado na sua dignidade e nas condições mínimas de trabalho e aquisição de renda, faz-se necessário que os órgãos [in]competentes adotem posturas e medidas que façam frente ao sistema capitalista que prioriza o lucro e a redoma protecionista às elites, fragilizando camadas sociais mais baixas e perpetuando as indecentes relações de controle e concomitante dependência. Em determinados momentos, o acesso ao peixe é o mínimo necessário para que haja a retomada de forças ao exercício da pesca.

    A velha história entre a vara e o peixe (talvez ovo) – não pode cair na eterna repetição, os milagres da multiplicação, mas a dicotomia reside aí, uma vez que a burguesia carece da massa domesticada, dependente, vulnerável ao troco dos favores, afinal, é exatamente a tal elite empresarial que sustenta os politiqueiros, dessa forma a oportuna relação de continuidade está satisfeita. E o Estado e seus governos encontram os necessários mecanismos à domesticação dos ânimos, mantendo criaturas na fragilidade da insatisfação das necessidades básicas, obrigando-as ao maior empenho como força de trabalho, e o produto adoentado dessa engrenagem são os ovos da ilusão, sabe-se lá postados aos pés de qual arco-íris. Mas aqui cabe questionamentos, o que precisa ocorrer para que toda essa estrutura sofra modificações que a todos contemplam? (Utopia?) Um dos passos necessários é a conscientização das classes aviltadas. Como isso pode se dar se algumas portas como a da cultura, saúde, segurança e emprego são fechadas?

    Segundo o ditado popular, pensemos que é trabalho de formiga, incansável, e este é nosso papel. Pelo menos questionar o jugo, promovendo um efeito cascata de afronta às falácias vendidas como realidade. No século XVI, um jovem filósofo chamado Étienne de La Boétie, nascido e criado na burguesia francesa, amigo de Montaigne, aos 18 anos de idade escreveu o Discurso da Servidão Voluntária, obra que até hoje suscita reflexões sobre os motivos que nos levam a continuar servindo ‘voluntariamente’, sem questionar o autoritarismo e a tirania dos soberanos, sob pena da perda da liberdade de escolhas e do pleno exercício dos pensamentos. E continuamos, e continuamos…

  • Belíssimo texto! Parabéns ao autor!
    Confesso que ao escrever este breve comentário, minhas mãos estão a segurar um belo pedaço de chocolate recheado com coco, resultado da Páscoa capitalista, embora prefira coco ao chocolate.
    Vamos (a humanidade) caminhando como rebanhos, sem parar para refletir sobre o que nos é imposto. É mais fácil morrer de trabalhar para pagar o preço do que é visto nas mídias, do que se esforçar “perdendo tempo” pensando sobre a possibilidade de sair desta bolha.

  • Texto profundo, uma crítica contunde e pertinente ao atual modelo capitalista brasileiro. De fato, se chegamos nesse estágio de iniquidade social, houve convivência de várias instâncias do poder político.
    Só não podemos esquecer das correlações de forças do capitalismo concorrencial, espraiado por todo mundo. Não podemos esquecer que há uma degradação estrutural que atinge os poderes políticos, a própria natureza não foi poupada, e uma burguesia mundial que atua inclusive na sub-mundo ilegal de tráfico humano, de drogas, de pornografia, tudo isso chancelado e/ou “ocultado” pelo flerte com o neofacismo. E, pior esse ocultamento é contraditóriamente realizado na era da vigilância quase total e irrestrita pelas mídias, pela web e pela enorme capacidade de armazenamento dos dados individuais. A população mundial nunca foi tão vigiada e impedida de pensar criticamente, posto que há robots que direcionam nossos olhares, de acordo com nossas mais ingênuas formas de nós atualizarmos.

    A Páscoa, sem ovos de chocolate, sem coelhinhos e bombos, sem o bacalhau, ou peixe, nos direciona para a singeleza das nossas relações sociais. Substituindo a mercadorização da fé, do sagrado pelo abraço fraternal e o convite à quem de fato, merece nossos pensamentos: o cordeiro da Páscoa cristã ou, sob o ponto de vista de outras religiões : a condição de seres humanos que precisam e devem reconhecer-se como tal: à imagem e semelhança de Deus, irmanados não pelo “fetiche” da festa promovida pelo deus do Mercado, aquele que vendem armas, aparelham as guerras e incentivam os homens a se matarem nas guerras sem sentido ( Ucrânia x Rússia) ou às guerras provocadas pela luta do imperialismo ( russo x OTAN ), Israel x Gaza , o senhor capital ou mamon “deus” das riquezas incitam os homens a morte seja por meio da fome, por meio da banalização da vida, seja pela crueldade de quem domina pelo único e exclusivo desejo de ver seu nome entre os maiores da história. Essa vilania acompanha a soberba e historicamente a gente já viu que a humanidade flerta com a maldade desde sempre. A mentira contada inúmeras vezes, continua sendo mentira; bobo é quem não compreende que todos morremos, quando alguém morre. Pois os sinos continuarão dobrando, e a cada dia a humanidade perde parte de si, ao perder seja quem viveu abastado, ou quem viveu coberto de ouro. A diferença é nesse dia, terá alguém que sinceramente chorará nossa partida ? Em geral, quando um autocrata cruel morre, fogos e festas são feitas. A maioria da população festeja silenciosamente. ” Menos um perverso no mundo”. Mas, quando um ser humano por mais humilde que seja, a vizinha que perde sua amiga e confidente, chora sinceramente e sente a dor da partida. Não importa quem comeu bombom, e viveu abastadamente. Se há um coração que pulsa e ama pelo seu semelhante? Esse é o sentimento que nos provoca irmos a luta por dias melhores. Vale a pena, a sua alma se fez gigante, quando se lutou com as armas do bem, e sem olhar a quem.
    Feliz Páscoa queridos autor 🫶🏾🌻
    ♥️❤️🫶🏾

    • Flávia, minha querida, diga-se que escritora de renome, agradeço as suas considerações e sei que comunga dos nossos ideais para um país mais justo, que nos exija menos ‘estranhamentos’. Segue a luta, a palavra é arma potente.

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