O resultado das eleições europeias faz do antifascismo o campo de batalha central no início da crise sistêmica.O centro continuará a erodir, o centro político das sociedades metropolitanas do capitalismo tardio continuará sua transformação fascista. A extrema-direita continuará a ganhar impulso. Esses processos são uma expressão política da crise sistêmica insolúvel em que o capitalismo se encontra. A agonia econômica e ecológica do capital, que provoca o fracasso das atuais elites funcionais, está levando massas de eleitores ao fascismo.

Todo o segredo do sucesso da Nova Direita e da ascensão do fascismo está no fato de que não há qualquer segredo. Tudo está às claras.
O fascismo não tem profundidade. Ele prolifera na superfície das sociedades do capitalismo tardio conduzidas para a crise. Ele prospera nos esgotos da Internet, nas redes sociais e na indústria cultural formadora de opinião, nos programas de entrevistas, nas colunas de comentários e nos editoriais. Os embaraços argumentativos, o tom da conversa e a linguagem comum com os quais os apresentadores burgueses não conseguem "desmascarar" o pessoal da AfD em seus patéticos programas de entrevistas [1] , que batem recordes de audiência toda vez que um misantropo fascista é convidado, deixam claro que o centro [die Mitte] da sociedade está, na verdade, falando consigo mesmo. Os neonazis da Alemanha não vêm do espaço sideral, eles são um produto da crise do centro da sociedade alemã. O nazista é a camada média [Mittelschicht], o cidadão, o trabalhador alemão, que está se borrando de medo em meio ao desenvolvimento da crise sistêmica do capital. Não há segredo aqui. A ideologia capitalista tardia no centro da sociedade, a identidade nacional desgastada, está sendo levada a um extremo bárbaro como reação à crise. O neoliberalismo com seu darwinismo social e o nacionalismo da localização econômica formaram os trampolins usados pela Nova Direita. Ela leva a pressão neoliberal para competir a extremos nacionais e racistas, construindo as respectivas imagens inimigas a cada novo impulso da crise. Não há ruptura ideológica entre o centro capitalista e o fascismo, cuja ideologia apenas legitima a lógica de crise do capital, uma vez que este reage à sua crise socioecológica da valorização com uma dissolução de fronteiras e um impulso extremo de sua pressão pela valorização.
Com a crise, o verniz da civilização agora também se desfaz nos centros e o núcleo bárbaro da socialização capitalista vem à tona. O fascismo é o portador subjetivo dessa tendência objetiva de crise, que dá origem a um extremismo do centro [Extremismus der Mitte] que é tão bem-sucedido em sua revolta autoritária precisamente porque não quer rupturas, porque tudo permanece sob a mesma luz ideológica. Em sua agonia, o capitalismo retorna, até certo ponto, ao seu estado bárbaro original da época de sua imposição "escorrendo sangue e sujeira" (Marx) no início da era moderna - só que agora bilhões, em vez de milhões de vidas humanas, estão em jogo. Auschwitz corre o rico de ser rebaixado a um mero prelúdio do potencial de destruição que está se acumulando.
Tudo é óbvio. O Mediterrâneo, o deserto da fronteira entre os EUA e o México - há muito tempo eles se degeneraram em valas comuns. Bilhões de pessoas vivem em regiões que logo se tornarão inabitáveis. A crise está levando os monstros do Estado capitalista tardio em erosão a uma grande guerra com choques nucleares. A receita de sucesso do fascismo é personificar e externalizar a crise nas vítimas (os desempregados, os europeus do sul durante a crise do euro, os refugiados etc.). A crise sempre vem de fora, na forma das vítimas da crise, que são rotuladas como a sua causa, por meio da comunidade étnica e de desempenho alemã, que se imagina sem contradição.
O fascismo quer manter a crise do lado de fora, para além da comunidade nacional, isolando-se e fechando as fronteiras. A crise mundial do capital deve ser "excluída" até certo ponto, pois foi personificada em grupos estrangeiros (setores marginalizados da população, pessoas com histórico de migração, judeus, minorias etc.). Além disso, há uma tendência de eliminar essas personificações ideológicas da crise em casa: com a deportação em massa e, eventualmente, por meio do extermínio. O fascismo segue uma lógica interna maligna da crise capitalista: às vezes não é mais necessário acreditar de fato nessas imagens ridículas do inimigo fascista, por exemplo, que as vítimas também são as causas da crise. O acordo que o fascismo faz com os assalariados habituais é simples e claro: sem os grupos estrangeiros, ainda conseguiremos superar a crise. A habitual “prioridade para o trabalho alemão” resume essa lógica da crise, que pode ser facilmente ampliada para incluir todo tipo de coisas (moradia, benefícios sociais, assistência médica etc.). Todo o "antifascismo" liberal-burguês, que sempre argumentou com a necessidade econômica da imigração, está se desintegrando justamente por causa da lógica da crise.
No atual pré-fascismo, a Nova Direita, portanto, alcançou em grande parte a hegemonia do discurso; em certo sentido, o fascismo já participa do governo. [2] Os partidos democráticos da Alemanha, de todas as correntes, estão se virando para despejar na lei a loucura isolacionista. Em alguns casos, no leste, na Saxônia e na Turíngia, o fascismo - junto com sua facção nacional-socialista Wagenknecht - já pode esperar por maiorias parlamentares. É um equívoco liberal generalizado acreditar que a democracia capitalista é uma defesa eficaz contra a crescente maré marrom provocada pela crise. O discurso democrático no capitalismo gira em torno do fim em si mesmo irracional e fetichista da valorização ilimitada do capital, em torno da otimização do célebre "crescimento econômico", que deve produzir o maior número possível de postos de trabalho. Assim que, induzido pela crise, esse contexto discursivo, no qual os assalariados discutem sua própria exploração de maneira orwelliana, ameaça se romper, todo o discurso se inclina para os extremos. A sua lógica de autossubmissão aos constrangimentos da relação capitalista, também intensificada, torna-se fascista. As maiorias abertamente de direita, que só querem trabalhar mais e mais em resposta aos surtos de crise, enquanto procuram bodes expiatórios e gritam de ódio, estão todas se ajustando por conta própria à democracia. É por isso que é fácil para o pré-fascismo, por exemplo, fazer com que os assalariados ignorem as consequências ecológicas da crise do capital por medo das consequências econômicas. [3] Para combater efetivamente o fascismo no agravamento da crise sistêmica, não basta a mera militância. É crucial atacar frontalmente a grande mentira do fascismo: não se pode manter a crise longe das fronteiras; ela não pode ser "barrada”, pois ela está nos centros das sociedades do capitalismo tardio, nas contradições crescentes do capital.
Também é imediatamente óbvio que uma compulsão ilimitada por crescimento em um mundo finito deve, em algum momento, levar à catástrofe. Todos entendem isso. O fascismo é, portanto, uma espécie de culto à morte [4], que, por meio de uma transformação autoritária, quer manter o impulso autodestrutivo do capitalismo. A tendência objetiva do capital de destruir o mundo coagula-se em um impulso subjetivo de morte fascista. Esse é o programa real e nada irônico do fascismo do século XXI, ao qual seções cada vez maiores da elite funcional capitalista [5] também estão sucumbindo: apegar-se ao capitalismo até a morte.
O antifascismo eficaz deve, portanto, afrontar a crise sistêmica capitalista que alimenta esse culto fascista da morte. Somente nesse sentido poderíamos falar de um antifascismo radical que expõe a raiz da crise do fascismo. É precisamente porque a transformação do sistema é inevitável que o centro não se manterá e que as contradições internas e externas do sistema mundial capitalista tardio o levarão ao colapso. [6] O fascismo, em sua ânsia de poder, há muito entendeu isso, especulando sobre a tomada do poder na esteira de surtos de crise e também desenvolvendo um discurso de crise estruturalmente antissemita para tal. [7] Enquanto falam publicamente sobre um retorno aos "bons velhos tempos", os fascistas estão secretamente se preparando para as campanhas de deportação e terror após o grande crash. O antifascismo deve, portanto, não apenas abordar o fascismo como uma consequência da crise do capital, mas também enfatizar a necessária viabilidade de uma transformação emancipatória do sistema que supere o regime capitalista de restrições. Precisamente porque é inevitável - e porque o fascismo representa a opção bárbara dessa transformação inevitável e indefinida do sistema.
A crise sistêmica deve ser enfrentada com uma busca por alternativas sistêmicas. Esse despertar transformador consciente, realizado em um movimento antifascista militante, primeiro tiraria o vento das velas do fascismo com seu extremismo de centro e seus repetidos murmúrios sobre o “declínio do Ocidente". Ou um amplo movimento se arrisca de modo consciente em uma saída para sociedade pós-capitalista, especialmente em confronto com a ideologia de crise fascista - ou os fascistas, mais cedo ou mais tarde, assumirão a gestão cada vez mais brutal da crise capitalista interna. Os amplos protestos de 28 a 30 de junho contra a conferência do partido AfD em Essen certamente são motivo de esperança.[8] Em contraste com a onda de protestos contra os planos fascistas de deportação em massa no início do ano, que foi apoiada pelo consenso liberal desgastado pela crise, a aliança anti-AfD de Essen está aberta a diferentes formas de protesto, semelhante aos bem-sucedidos protestos Antifa da década de 1990, que se estendiam de sindicatos a autonomistas. O objetivo aqui não é apenas desenvolver uma variedade de formas de protesto, mas também levar a crítica radical do fascismo como uma ideologia de crise para os protestos, que também aborda abertamente a necessidade óbvia de uma transformação emancipatória do sistema. Precisamente porque o capital está se rompendo e ameaça arrastar o processo civilizatório para o abismo, precisamente porque o centro não vai aguentar.
23.06.2024
Tradução: Marcos Barreira
1 https://www.konicz.info/2024/05/21/wagenknechts-rechte-hegemonie/
2 https://www.kontextwochenzeitung.de/debatte/667/die-extreme-mitte-9310.html
3 https://www.konicz.info/2024/02/23/von-oekonomischen-und-oekologischen-sachzwaengen/
4 https://www.konicz.info/2019/08/30/der-alte-todesdrang-der-neuen-rechten/
5 https://www.konicz.info/2023/12/26/konjunktur-fuer-faschismus/
6 https://www.konicz.info/2022/01/14/die-klimakrise-und-die-aeusseren-grenzen-des-kapitals/
7 https://zuklampen.de/buecher/sachbuch/philosophie/bk/1176-exit.html
8 https://widersetzen.com/