Ontem estava conversando com um amigo, que é,inclusive, um escritor muito dedicado e, apesar de jovem, desfruta de uma mentalidade clara e atual que beira o vanguardismo dos que despontaram na Semana de Arte Moderna de 1922. Chegamos, em meio às trocas e reflexões à palavra ‘cardápio’, suscitada por ele em alusão à dinâmica que permeia os sites e aplicativos de relacionamento, disponíveis aos que, na minha concepção, se iludem com a fantasia de um encontro mágico, de início pelas imagens filtradas que aguçam os perfis e objetivam a abertura do apetite, à guisa dos contos de fadas, mas o encantamento falacioso passa longe da pureza dos caval[h]eiros virtuosos e princesas prendadas à busca e/ou espera do ‘x’ do tesouro afetivo. Caberia ainda a ingenuidade infantil, supostamente guardada nos baús, e que tanto nos ajudou na nossa formação e nos primeiros passos nesse mundo?
A fantasia é processo necessário ao nosso desenvolvimento identitário, mas como em tudo na vida, há a demanda de limites e de certo grau de consciência para não sermos enredados por sabores construídos pela ilusão. Já disse e reitero que a sociedade se encontra adoecida, apesar de todos avanços tecnológicos, nos percebemos reféns da virtualidade, o que, por vezes, impacta diretamente na qualidade dos relacionamentos que buscamos elencando-os como ‘sadios’. Só que não! O diálogo verdadeiro está em baixa, faltando-lhe pitadas de sinceridade, o medo desponta como tempero tóxico, diluído em excesso o que pode levar à indigestão psíquica, desilusão. Mas, tais encontros são impossíveis? Certamente não, porém a matemática pode nos ajudar na reflexão mais madura se encararmos a existência das probabilidades, isto é ingrediente certo e a lógica sinaliza refeições mais interessantes.
Por uma necessidade extrema de afeto e atenção, muitos passam a subverter a realidade, deixando-se levar pelas expectativas por vezes não correspondidas, visto a ação das redomas e estufas que confinam sabores por trás das telas. Mas esse processo está presente somente na atualidade? Não, mas certamente encabeça o ‘menu’ que alimenta os mais incautos numa sociedade de aparências. Parece que estamos perdendo a capacidade do ‘olho no olho’, do diálogo descompromissado e sem sustância, recheado com máscaras e segundas intenções,nessa pegada as conquistas parecem vulgarizadas, o esforço de empreendimento emocional tem cheiro de amargura e insucesso, o toque empático é relegado à última página, como possibilidademeramente trivial, o certo é que futilidades e superficialidades são calorias vazias, podem até enganar por um tempo, mas não nutrem os que desejam encarar relacionamentos consistentes.
Interessante é que na lida psicoterápica as falas em consultório se encaminham para o descrédito de uma realidade que nos cerca, as palavras poucas, que também apontam para pobreza vocabular, são nítida expressão do embotamento afetivo, dado pela falta de destreza de tantos em enfrentar a realidade, mais do que nunca o molho exigido pelo paciente no processo terapêutico esbarra no anseio de um analista salvador, o ‘Chef’ que indique as melhores degustações aos que temem se desvincular dos avatares construídos, que insistem em ocupar espaços numa vida fictícia, oportuna e repleta de facilidades enganosas. E aí, as dores que necessitavam ser regurgitadas, passam ao cozimento da lentidão, antepasto da procrastinação,que evoca sintomas físicos como os comprometimentos gástricos. Ao olhar e paladar dos mais atentos, fica explícito quea azia é social, indigestão.
Mas, em termos históricos, podemos lembrar de outros cardápios avessos, que tanto salgaram a nossa evolução. Sim, somos filhotes de uma formação patriarcal que até hoje se faz presente às nossas mesas, aliás, camas também… Certos rigores do tradicionalismo se diluem na sopa relacional, ingredientes nefastos como o machismo, a misoginia, a submissão feminina, o culto estético contaminado de ideologias torpes, os preconceitos, o racismo, o etarismo, a falta de empatia, a estratificação socioeconômica, enfim, possibilidades para todos os [des]gostos. A título de exemplo, no Cais do Valongo, Rio de Janeiro colonial, os negros eram dispostos num cardápio bizarro à escolha do consumidor burguês. Creio que nem cabe tecer detalhes sobre as predileções sofríveis que eram direcionadas às negras expostas como mercadorias.
E se pensarmos nos cardápios religiosos que oferecem banquetes vendidos à fé dos mais fragilizados que despontam como famintos de outras ordens? E como não nos remetermos aos ‘cardápios eleitoreiros’ que elencam um rol de ‘podrões’, usando também nesses subterfúgios da precariedade social de uma massa confinada à base da pirâmide das necessidades básicas não correspondidas. Cabe refletir que todo esse avessamento social forjou mentalidades, comportamentos e caráter oportunos a um sistema que se nutre das relações de dependência, estereotipias engessadas que não conseguem se apresentar de forma autêntica, e nem desfrutam de capacidadeelaborativa para exercer a personalidade em plenitude, formatados por ferramentas de controle e dominação.
O capitalismo reforça todo esse banquete, posto valorizar muito mais o ter do que o ser, e é aí que as identidades mais frágeis se permitem a ingestão de qualquer coisa, esquecendo dos engasgos do percurso. Podemos e devemos nos mostrar? Sim! Mas que as exposições sejam autênticas, não empanadas de embustes, deixemos as camuflagens aos pequenos degustadores, egos rotos que ainda acreditam na ficção das aparências e no oportunismo das criações que alimentam interesses mais rasteiros. Comida fina é aquela que alimenta a alma. Somos seres relacionais, estruturamos nossa subjetividade, necessariamente sob a intervenção do outro, mas o pacto dual carece de verdade, naturalidade, cada qual com suas potencialidades, defeitos e limitações. E tudo bem, somoshumanos com carências proteicas e afetivas.
O que talvez deva ser repensado é a ótica positivista, um determinismo que encapsula as visões de mundo dos vulneráveis que não apreenderam o sentido do afeto e do amor. Nem todo alimento é para todos, nem todo banquete é sinônimo de saciedade, é fato que a psicanálise coloca o sujeito no lugar de eterno faltante, a fala terapêutica nos atira à consciência de quem somos, a fala relacional, discurso enunciativo que deve prezar pelos verdadeiros desejos nos faz tangenciar nossos abismos, e é na consciência da repetição que passamos a identificar os pratos que merecem ser valorizados, não pela exposição barata, mas pelo valor psíquico da conquista, da interação, da entrega íntima. Repensemos os cardápios, até onde a virtualidade nos nutre? Se faltar coragem e aceitação seremos sempre ingredientes do sistema. Para ser iguaria carece muito autoconhecimento, coragem e determinação, caso contrário corre o risco de empanzinar… Mas, atenção! Pensando em sobremesas, lembremos do dito popular: laranja madura na beira da estrada, certamente tem problemas… Fica a dica…
Suas palavras trazem uma análise incisiva sobre a realidade contemporânea e a forma como nos relacionamos em uma era dominada pela virtualidade.
Achei particularmente interessante a analogia entre os cardápios e os perfis de sites e aplicativos de relacionamento. Essa metáfora ilumina a superficialidade e a artificialidade que muitas vezes permeiam nossas interações digitais, destacando como podemos nos deixar levar por ilusões construídas e expectativas irreais.
Você aborda com maestria a necessidade da fantasia em nosso desenvolvimento identitário, ao mesmo tempo em que aponta para os perigos da falta de limites e consciência. A crítica à superficialidade e à falta de diálogo verdadeiro ressoa profundamente, especialmente no contexto de uma sociedade que valoriza aparências mais do que substância.
Sua observação sobre a “indigestão psíquica” causada pela virtualidade e a ausência de conexões genuínas é perspicaz. Concordo plenamente que estamos perdendo a capacidade do “olho no olho” e do toque empático, elementos essenciais para relacionamentos consistentes e saudáveis.
Além disso, a menção aos “cardápios avessos” históricos e contemporâneos enriquece a discussão, lembrando-nos das inúmeras formas de opressão e desigualdade que continuam a influenciar nossas interações sociais. A reflexão sobre a influência do capitalismo e a crítica ao determinismo positivista também são pontos fortes que convidam à introspecção e ao questionamento dos valores que guiam nossas vidas.
Em resumo, seu texto é um convite a uma reflexão profunda sobre a autenticidade e a qualidade de nossas relações. É uma chamada à ação para que busquemos conexões mais verdadeiras e significativas, tanto no mundo virtual quanto no real.
Parabéns pela clareza e profundidade de sua escrita. Foi um prazer ler e refletir sobre suas palavras.