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O Show do Consumo: Como “Descer Pra BC “Representa a Crise de Identidade na Sociedade Atual-Gustavo Gabriel Garcia. 

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 6 leitura mínima

Atualmente, vivemos em um período caracterizado pela Modernidade Líquida, conceito elaborado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que descreve uma era em que tudo é efêmero e volátil. Em sua visão, nada se sustenta por muito tempo, e a estabilidade das relações humanas, antes um ideal, foi substituída pela fluidez. Bauman argumenta que as conexões interpessoais são cada vez mais rápidas, superficiais e imediatas, sem a profundidade necessária para estabelecer vínculos duradouros. No âmbito das relações afetivas, casais enfrentam dificuldades em resolver juntos as crises da vida conjugal, uma vez que a capacidade de construção conjunta foi corroída pela pressão do imediatismo.

A dissolução das relações é um reflexo da incapacidade de suportar as demandas constantes e a constante pressão de atender a expectativas externas, uma situação que Bauman caracteriza como a “auto-dissolução” da identidade. Nesse contexto, os indivíduos, ao se verem confrontados com a pressão do consumo incessante e das expectativas externas, acabam se distanciando de sua própria essência, tornando-se figuras moldadas pelo modelo capitalista de produção de subjetividade.

O reconhecimento social deixa de ser uma construção genuína e passa a ser superficial, mediado por imagens construídas e promovidas nas mídias sociais, como se as pessoas fossem mais um espetáculo no vasto mercado das identidades.

Essa superficialidade das relações e a desintegração da identidade são evidentes na música Vamos Descer para BC, de Ariosto Porto Müller e João Dalzoto, um dos maiores sucessos de 2024. Na letra, o sujeito lírico nega sua herança familiar e tradicional, ao se distanciar de sua identidade de origem. Ele busca em lugares como Camboriú, em Santa Catarina, um novo espaço para se afirmar, longe das amarras da tradição. O desejo do sujeito não está voltado para o outro como ser humano, mas como objeto de consumo, uma relação de desumanização. A canção reflete essa pulsão de autoafirmação pela negação da identidade e pela coisificação do outro, com versos como: “Os bombonzin tão bronzeando pra eu chegar e morder” e “Os cowboy vai litorando e vai torar você”, que reforçam a ideia de um ser que busca prazer e consumo sem se preocupar com as consequências humanas dessas ações.

Essa busca incessante por prazer imediato, essa liquidez das relações e o desaparecimento da identidade como algo autêntico, são características da sociedade atual que, segundo Bauman, se afasta de uma forma de ser genuína e sólida, em favor de uma existência moldada pelo mercado e pela imagem.

Dessa forma, o sucesso da música está em sua capacidade de atender a uma demanda criada artificialmente, que não reflete uma identidade sólida, mas sim um fluxo incessante de vontades e desejos que precisam ser atendidos a curto prazo. A canção, portanto, revela um sintoma da modernidade líquida, onde as relações se transformam em processos cada vez mais voltados para submeter o outro à mesma lógica de subjetividade imposta pelo modelo midiático atual. Em um mundo de fantasia, tudo se torna permitido, desde que satisfaça os desejos mais imediatos e efêmeros.

A indústria cultural atua de forma glamourizada, ou seja, envolve o indivíduo transmitindo-lhe o que ele pode ser, pode ter, pode conseguir e possuir, desde que se integre, desde que consuma, participe. Ele será um rei, identificando-se, vestindo-se com o véu da cultura que a indústria cultural insiste em transmitir e chamar como tal. No entanto, é o rei destronado, porque é o ser do conformismo, da subordinação e da simbiose, mas que goze do status que lhe é conferido. Torna-se, então, mesmo sem o saber, cúmplice do processo psicossocial que o violenta” (Caniato, Cesnik, & Rodrigues, 2012).

O sucesso da música Vamos Descer para BC torna-se claro, pois ela é uma produção que expõe de maneira evidente o processo impulsionado pela indústria cultural, como um modelo de construção de uma identidade fluida, desprovida de laços ou ancoragens sociais, exceto pelo excesso de consumismo e pela coisificação do outro, ou seja, pela violência.

Portanto, quando você ouvir essa música novamente, o sentimento será ainda mais desolador, pois ficará claro que ela é apenas um produto de inúmeros outros, destinados a condicionar a subjetividade dos indivíduos dentro do modelo atual, onde nada se sustenta, a não ser o consumo desenfreado e a coisificação das pessoas, por meio de uma violência subjetiva, de como pensar e sentir. 

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

CANIATO, Angela; CESNIK, Claudia Cotrim; RODRIGUES, Samara Megume. A captura da subjetividade pela violência simbólica da indústria cultural: da submissão à culpabilidade dos indivíduos. Psicologia USP, v. 23, p. 661-681, 2012. Disponível em: SciELO Brasil – A captura da subjetividade pela violência simbólica da indústria cultural: da submissão à culpabilidade dos indivíduos A captura da subjetividade pela violência simbólica da indústria cultural: da submissão à culpabilidade dos indivíduos

Gustavo Gabriel Garcia fez Graduação  em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá(2018), especialização em METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA pela Faculdade de Educação São Luís(2020), mestrado em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá(2019). Atualmente atua como professor na rede estadual de educação do Paraná e é membro de corpo editorial da GEOINGÁ: REVISTA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA. 

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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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