Acompanhado a leitura on line do livro A Ideologia Alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels pelo Grupo de Leituras e Debates feito no Canal @utopiasposcapitalistas, no YouTube.
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Uma leitura crítica do texto de Emir Sader*
O sociólogo Emir Sader, ao revisitar as origens da crítica marxista na tradição hegeliana, propõe uma leitura de A ideologia alemã ,obra na qual Marx e Engels rompem com os pressupostos idealistas da filosofia alemã e afirmam o papel central da produção material na constituição da vida humana. Em seu texto de apresentação da obra de Marx e Engels , o trabalho aparece como o motor da história e como o elo fundamental entre ser humano e mundo. A alienação, nesse modelo, seria então,uma anomalia histórica: um desvio superável, cuja raiz está na perda da consciência sobre esse elo vital entre o sujeito e sua atividade produtiva.
A força do texto de Sader está justamente em sua fidelidade a uma tradição na literatura clássica do marxismo: a de que o homem se humaniza ao transformar a natureza; que o trabalho é a atividade por excelência da nossa espécie; e que, ao se reapropriar de seu próprio fazer, o ser humano pode superar a alienação e retomar o controle da história.
No entanto, é exatamente aí que reside o ponto mais problemático da argumentação.
O trabalho como forma social histórica
É preciso perguntar: o que entendemos por “trabalho”? Não se trata de negar que o ser humano transforma a natureza e cria cultura. A questão é mais radical: será que o trabalho, tal como estruturado no mundo moderno ,isto é : como atividade abstrata, medida em tempo, subordinada à produção de mercadorias, pode ser considerado uma constante histórica ou antropológica?
Ao afirmar o trabalho como essência positiva do ser humano, Sader repete uma concepção clássica do marxismo, herdada do século XIX: a de que o trabalho é universal, transhistórico e, no fundo, libertador, bastando que seja livre, consciente e socialmente reapropriado. No entanto, essa concepção ignora uma inflexão crítica importante que surge nas últimas décadas: a ideia de que o trabalho moderno é, ele próprio, uma forma social fetichizada e historicamente situada, vinculada à lógica da mercadoria, do valor, do tempo abstrato e da separação entre produção e vida.
Em outras palavras, não se trata apenas de um “trabalho alienado” que pode ser redimido. Trata-se de uma forma de trabalho que, por sua própria estrutura, produz alienação, esvaziamento, fragmentação e crise , mesmo quando exercida de forma autônoma ou aparentemente emancipada.
A alienação não é um erro corrigível
Na leitura marxista clássica, como a de Sader, a alienação é vista como algo que “acontece” ao trabalho. Como se o trabalho fosse bom por natureza e se tornasse alienado apenas por interferências externas : como a propriedade privada ou a exploração capitalista. Assim, o horizonte da crítica seria “retomar” o trabalho, resgatar sua essência e restabelecer a unidade entre sujeito e objeto, entre fazer e saber.
Mas creio que a questão deva ser invertida: e se a alienação for constitutiva da forma trabalho tal como ela se realiza na modernidade? E se, em vez de ser um desvio a ser corrigido, a alienação for o próprio modo de funcionamento da sociedade regida pela produção de mercadorias e pelo imperativo do valor?
Se for assim, o desafio não está em retomar o trabalho , mas em superar sua forma histórica atual. Não se trata de voltar a produzir com as mãos ou de reconquistar as fábricas, mas de questionar a centralidade do trabalho como forma de organização da vida, como mediação entre os humanos e como medida de valor social.
Produzir ou viver?
O problema central do texto de Sader, e de toda uma tradição que ele representa é manter intactas categorias como “produção”, “trabalho”, “sujeito”, “história”, “consciência” e “progresso”, como se fossem universais ou redimíveis. No entanto, vivemos hoje justamente o momento histórico que exige a desconstrução crítica dessas formas herdadas da modernidade capitalista.
Vivemos em um tempo de esgotamento. O planeta não suporta mais a lógica produtivista. A automatização torna milhões de trabalhadores supérfluos. O tempo da vida é devorado pelo tempo abstrato da produtividade. As promessas de emancipação se dissolvem sob o peso da exaustão material, psíquica e ecológica.
Diante disso, insistir na reabilitação do trabalho como “essência humana” pode ser mais um gesto nostálgico do que um projeto de futuro. A libertação não virá do trabalho recuperado, mas da reorganização radical da vida para além da lógica da produção, da mercadoria e do valor.
Hoje, mais do que nunca, é preciso ir além. Não para negar o legado de Marx, mas para levá-lo às últimas consequências. E isso significa justamente em abandonar o culto ao trabalho e imaginar novas formas de vida em comum: formas que não se sustentem mais na exploração do tempo, da natureza e da subjetividade, mas na reinvenção da existência fora do paradigma da produção.ou seja : uma outra forma de se viver, longe das amarras da sociedade da mercadoria.
Este texto de Emir Sade está exposto na abertura da Edição da Boitempo da obra de Karl Marx e Friedriche Engels A Ideologia Alemã