Fundado em novembro de 2011

O Idoso e o Capital: Entre a Margem e a Memória-Arlindenor Pedro

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 7 leitura mínima

Ouça aqui o áudio do nosso Post 

Receba regularmente nossas publicações e assista nossos vídeos assinando com seu e-mail em utopiasposcapitalistas.Não esqueça de confirmar a assinatura na sua caixa de mensagens


“Uma sociedade que descarta seus velhos descarta a si mesma — pois perde a memória que a sustenta e o futuro que poderia aprender com ela.”

1. O espelho demográfico e a sombra do valor

O Brasil de 2022 já tinha mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando 15,6% da população[1]. É um salto de 56% em apenas 12 anos. O índice de envelhecimento (número de idosos para cada 100 crianças )disparou de 44,8 para 80 no mesmo período[2]. Trata-se de uma transformação estrutural silenciosa, mas com impacto explosivo sobre nossas instituições, imaginários e relações sociais.

O problema é que esse crescimento ocorre sob a hegemonia de um sistema cujo reconhecimento social se ancora, quase exclusivamente, na capacidade de produzir valor e não de produzir sentido, coesão ou memória. Na teoria marxiana moderna, o valor é a forma social específica que a riqueza assume no capitalismo: resultado do trabalho abstrato incorporado às mercadorias[3]. Fora dessa lógica, há a “terra do não-ser social”: aquilo que não produz mais-valor, que é, aos olhos do capital, custo, peso ou desperdício.

O idoso aposentado, deslocado do mercado de trabalho, é literalmente um corpo fora da categoria da formação do valor. E, no capitalismo contemporâneo, não basta existir: é preciso justificar a existência pela capacidade de alimentar a acumulação.

2. Sociedades pré-capitalistas: quando a velhice era autoridade

Em formações sociais anteriores,sejam comunidades tribais, sociedades camponesas ou até cidades-Estado, a velhice ocupava um lugar distinto. Entre povos indígenas, o conselho dos velhos não era uma metáfora, mas a instância máxima de legitimidade política[4]. No mundo greco-romano, a gerousia espartana e o Senado romano institucionalizavam o prestígio da experiência acumulada[5]. No feudalismo europeu, o idoso podia manter relevância por deter conhecimento da terra, práticas agrícolas, tradições jurídicas ou funções religiosas.

A utilidade social do idoso não se media pelo vigor físico ou pela capacidade de produzir excedente vendável, mas por seu papel na reprodução simbólica e cultural da comunidade. Em outras palavras: o valor era medido em termos sociais, não em termos mercantis.

3. O envelhecimento sob o capital: de sujeito histórico a custo orçamentário

O capitalismo industrial já havia reduzido a relevância política da velhice ao subordiná-la à disciplina fabril. Mas o capitalismo tardio e financeirizado radicaliza o processo: aceleração tecnológica, obsolescência de competências e pressão fiscal sobre sistemas de proteção social convertem a velhice num problema a ser “administrado” e de preferência, com o menor gasto possível.

O quadro brasileiro é revelador:

70% dos idosos vivem com até dois salários mínimos[6]. A proporção de idosos pobres passou de 2% para 4,2% em dez anos; a de extremamente pobres, de 1,4% para 3,1%[7]. 71,7% dos idosos ativos trabalham na informalidade, sem direitos trabalhistas ou aposentadoria garantida[8].

O Estado de bem-estar social, que no pós-guerra parecia incluir a velhice como etapa legítima da vida, vem sendo erodido por reformas neoliberais que transformam a aposentadoria num privilégio raro. A retórica do “envelhecimento ativo” soa benevolente, mas, muitas vezes, encobre a exigência de que o idoso volte a vender sua força de trabalho,ainda que de forma precarizada.

4. Isolamento e invisibilidade social

A crise não é apenas econômica. O isolamento social é outro sintoma grave:

Estar desconectado socialmente aumenta em 14% o risco de morte em idades avançadas[9]. Metade dos idosos relatou solidão frequente durante a pandemia[10]. 40% enfrentam dificuldades de leitura e escrita, e só 19% usam efetivamente a internet[11].

Na sociedade da conexão permanente, o idoso pobre e desconectado não apenas deixa de ser ouvido: ele se torna invisível. A exclusão digital é uma nova forma de marginalidade, que limita o acesso a serviços, informações e participação política.

5. Resistir à lógica da forma-valor

A situação atual revela uma contradição central do capitalismo: quanto mais a riqueza material cresce, mais estreito se torna o reconhecimento humano, restrito aos que participam do circuito mercantil. A memória, a história e a experiência ,tudo o que o idoso encarna, são invalidadas como formas legítimas de contribuição social.

Superar essa lógica não é apenas questão de política pública, mas de transformação da medida social do valor. Significa recolocar o saber vivido, a mediação cultural e o cuidado intergeracional como dimensões centrais da vida coletiva.

Isso implica defender desde políticas de proteção social universal até formas de economia solidária e comunitária que reintegrem os idosos à vida ativa. Não como trabalhadores precarizados, mas como sujeitos plenos de direitos e saberes.

A história pré-capitalista nos prova que é possível uma sociabilidade em que a velhice não seja sinônimo de obsolescência. Mas essa revalorização não virá por inércia. Requer luta política, imaginação institucional e ruptura com a lógica que mede vidas pelo tempo de trabalho mercantil que contêm. Na verdade, isto nos remete a uma luta incessante para superarmos a lógica capitalista já, nos dias de hoje!

Serra da Mantiqueira, agosto de 2025 .

Arlindenor Pedro

Notas

[1]: IBGE, Censo Demográfico 2022. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br

[2]: Ibid.

[3]: MARX, Karl. O Capital, Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

[4]: CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

[5]: FINLEY, M. I. Democracia antiga e moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

[6]Senado Federal. Audiência Pública sobre Envelhecimento Populacional, 2023. Disponível em: www12.senado.leg.br

[7]PUCRS, Impacto Social do Envelhecimento, 2023. Disponível em: https://portal.pucrs.br

[8]: RBMT. Desafios da Inclusão do Idoso no Mercado de Trabalho, 2022. Disponível em: https://www.rbmt.org.br

[9]: Previva Saúde. Impacto do Isolamento Social em Idosos, 2021.

[10]: SciELO. Velhice e Pandemia de COVID-19, 2021.

[11]: Agência Brasil. Exclusão Digital de Idosos, 2020.

Compartilhe este artigo
Seguir:
Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Ensaios e Textos Libertários

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Ensaios e Textos Libertários