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O texto “Paridas”, de Alaor Junior, é uma reflexão poética e filosófica sobre o fim de ano, especialmente o Natal, como momento simbólico de balanço existencial. Com linguagem sensível e metafórica, o autor propõe uma autoanálise sobre o que estamos “gestando” — ou seja, produzindo interna e coletivamente — em tempos marcados por relações frágeis, individualismo e ansiedade social. A metáfora das “fatias paridas” (rabanadas) conecta afeto, memória e sensibilidade, convidando à reconexão com o amor, a empatia e o autoconhecimento. Em meio à crise da autenticidade e da esperança, o texto encoraja um “parir simbólico” de si mesmo: abandonar pesos inúteis e cultivar uma existência mais plena e doce.

Ainda há pouco conversava com uma amiga sobre o Natal, festa de vulto para os cristãos, parte da virada de anopara outros. Argumentávamos sobre fantasias. As pessoas saem do prumo, umas se aquietam em prece íntima, outras entram em frenesi, transcendem religiosidades, preenchemvazios outros, seduzidas pela emoção. Veja o exemplo. Eu, particularmente aprecio em qualquer época, mas, você gosta de rabanadas? E de espelhos? Qual a relação de uma coisa com a outra? Retomemos a conversa que citei.
Já parou para pensar no que está gestando hoje? Vamos refletir. Nas mudanças de ciclo, as pessoas mais sensíveis, realizam uma auto-avaliação das suas vidas, outras, ficam agitadas. Concorda? Pois então, é certo que transitamos por tempos áridos, espectro largo: climático, emocional, político-financeiro, psíquico, relacional, cultural, etc. O ser humano cada vez mais se apega às relações líquidas, não como um conceito ‘moderno’, mas, realista. Há uma plasticidade e sinuosidade fugidias que apontam para o medo da entrega.
Vivemos tempos de egoísmo, gregarismo frágilpermeado pelas exigências virtuais que reforçam o narcisismo e a valorização das aparências. Por que o amor assusta a tantos? Ele e suas ‘declinações’: o afeto, o carinho, a delicadeza, o respeito, enfim, o bem-viver? O danado do amor nos pega no laço, nem me refiro à paixão, mas à entrega dedicada, zelosa, cumplicidade que se estabelece pela ausência de temor em se mostrar simplesmente como se é. Somos todos limitados por natureza. Subjetividades.
Estamos ‘ouriços sociais’, reféns de métricas, cronogramas, posturas e uma armadura pesada que nos engessa a liberdade: pássaros de asas podadas, relações atrofiadas. Perdemos a autenticidade, pelas demandas de uma sociedade que sofre com ‘excesso de futuro’ e as ‘aparas do passado’. Aprisionados nos elmos, gladiadores modernos lutando por espaço e lugar, competitividade do capital, eis o peso do mal. A pergunta volta: o que estamos gestando? O que vamos parir? Nesse movimento a criança interna vai se anulando, enterrando fantasias, enclausurada nos abismos solitários: silêncio, amargura, sofrimento, limitações, desesperança… Mas como enfrentar o mundo se não recorremos às defesas?
Charles Chaplin em O Grande Ditador, no último discurso disse que “necessitamos de doçura”. Permitamos nos conhecer: potencialidades e limites. Mas, atenção! Neguemos a resignação, tenhamos um referencial, impulso à mudança, afinal, nos encontramos aqui, para crescer e evoluir. Uma forma interessante de exercício reflexivo é o ‘encarar do espelho’, olhar sincera e profundamente para aquele sujeito que nos aprecia. Na Idade Média existia uma mística em torno dos espelhos, por vezes cobertos ou escondidos, talvez haja aí um fundo de verdade, eles refletem a realidade para aqueles que desejam vê-la.
É fundamental que nos limpemos do que emperra nossas engrenagens: [pré]conceitos, visão de mundo rasa, medos.Não há mais tempo para cegueiras, a exemplo da ‘branca’ de Saramago. O grande segredo está no exercício consciente da fala. Profilático. Tudo que nos incomoda e guardamos de alguma forma empe[dra]rra, consome energia vital. Quandovomitamos incômodos e refletimos sobre essas ferrugens, redirecionamos energias para a paz, felicidade, afeto, enfim,uma vida mais plena, mais doce.
Nessa dinâmica também não cabe mágicas nem facilidades, a assunção da consciência de si nos distancia do viver leviano e da negligência para conosco e com o outro. Trata-se de processo, [des/re]construção. Circularidade: o que estamos parindo? Falando de doces e parir, me reporto às rabanadas, nem sei se você gosta do doce, mas a metáfora é interessante digerir. Façamos de nossos dias, verdadeiras ‘fatias paridas’ (terminologia lusitana), adocemos nossas vidas com afeto e senso de humanidade, acrescentando forças ao ‘resguardo’ emocional. Reciprocidade:o tempero é a empatia, eis aí o alimento d’alma.
Sartre nos versa que ‘estamos sós e sem desculpas, em suma, condenados à liberdade’. Condenados por não termos nos criado, agrade ou não estamos mergulhados numa trama relacional com fios alheios às nossas vontades. Livres, por sermos responsáveis por todos os nossos atos. Não há um determinismo que nos cristalize frente ao novo, percorremos labirintos particulares na expectativa de saídas que nos tornem seres melhores, a vida consiste nesse ensaio e erro que nos acrescenta experiências. Essa é a docilidade da existência.
O objetivo do texto é oportunizar questionamentos. Exercitemos a digestão e o falar (pelo menos pensar) sobre o que nos assola. Temos aí uma proposta de acesso à verdadeira felicidade, à paz de consciência, ao amor-próprio, ao bom caminhar. A sensibilidade para acatar mudanças é ato de coragem, nos alivia dos pesos, operando o ‘parir simbólico’, que se dá em duas vertentes: expulsa o que não serve mais e deixa nascer o que nos faz evoluir. Enfim, que as reflexões aqui levantadas mobilizem desejos de sincero autoconhecimento, funcionando como ‘espelho’ e que as ‘fatias paridas’ (rabanadas) adocem nossas visões de mundo, revitalizando pensamentos, sentimentos e ações no enfrentamento das muitas jornadas que estão por vir. Dica: um dia de cada vez. Bom apetite!
AlaorJr

Alaor Junior ė Psicólogo e embasa sua abordagem clínica no viés psicanalítico. Especializou-se em psicologia hospitalar. Atualmente mora em Saquarema, RJ, onde divide horários entre o atendimento clínico e o exercício literário. Assinou enredos no carnaval carioca e catarinense, publicou contos em coletâneas, participa de oficinas de escrita e rodas de leitura.E autor do livro “Invencionismos,Pitoresquices e Fantaciosidade” e “Em Cont(r)os Bordejantes”
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Emocionante o texto, no meio de tantos conflitos , encontrar nossa docilidade é um ato de coragem! Sigamos corajosos e com fatias paridas. Obrigada pela reflexão. Um abraço carinhoso , a todos os envolvidos. com a revista eletrônica.