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O terceiro dia da travessia — As pedras e o rio-uma crônica de Silvie Armand

arlindenor pedro
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No terceiro dia da travessia, Silvie Armand avança pelo arquipélago do Bailique rumo ao norte da Amazônia, enquanto o rio começa a revelar sua complexidade invisível. Entre conversas sobre o colapso da modernidade e os modos de vida da floresta, a viagem deixa de ser apenas deslocamento e se torna experiência. Em Calçoene, o encontro com um antigo círculo de pedras rompe a lógica linear do tempo e provoca uma transformação silenciosa na narradora. Diante das marcas de civilizações esquecidas, Silvie percebe que a Amazônia não é apenas território em disputa, mas memória viva. Ao retornar ao rio, compreende que não atravessa apenas um espaço geográfico, mas um tempo profundo — e que, como o próprio rio, também está em mudança.

O terceiro dia da travessia — As pedras e o rio-uma crônica de Silvie Armand

A manhã nasceu úmida sobre a Vila Progresso. O sol ainda não havia rompido completamente a névoa leve que se levantava sobre os canais do arquipélago do Bailique quando Francisco voltou a dar vida ao motor do Esperança do Norte. O ronco grave espalhou-se entre as casas de madeira erguidas sobre palafitas. Algumas crianças já estavam na beira da água e acenavam para o barco, como se a partida fosse apenas mais um gesto no ritmo natural daquelas ilhas.

Desarmamos as redes ainda presos ao calor da noite. Mateus preparou café forte num pequeno fogareiro e Olga distribuiu pedaços de pão e frutas compradas na comunidade. O rio parecia mais silencioso do que na tarde anterior. Apenas o movimento lento da maré empurrava a água barrenta pelos canais estreitos que serpenteavam entre os manguezais.

Pouco depois deixamos para trás as últimas casas da Vila Progresso. O Bailique foi ficando distante enquanto o barco voltava a buscar águas mais abertas. As paredes verdes da vegetação pareciam fechar lentamente o caminho atrás de nós, como se o arquipélago se recolhesse depois de permitir nossa travessia.

Sentei-me na rede com o livro que Olga havia colocado em minhas mãos no primeiro dia da viagem: Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo. As páginas estavam gastas, como se já tivessem atravessado muitos rios antes de chegar até mim. Comecei a ler devagar, interrompendo a leitura sempre que o olhar era puxado pela imensidão do rio.

Pensei que Eliane Brum escreve a Amazônia como território de conflito. Suas palavras percorrem a floresta não como descrição distante, mas como testemunho de um choque entre mundos. Em suas páginas, o banzeiro deixa de ser apenas o movimento turbulento provocado por grandes embarcações. Torna-se a metáfora de um impacto maior: o encontro entre o progresso moderno e as formas de vida que ainda resistem na floresta.

Levantei os olhos. O rio diante de mim parecia tranquilo, mas aquela tranquilidade escondia correntes profundas que vinham de milhares de quilômetros de distância. Talvez a Amazônia fosse exatamente isso: um território onde aquilo que parece tranquilo na superfície esconde movimentos profundos demais para serem percebidos à primeira vista.

Francisco conduzia o barco com a segurança silenciosa de quem aprendeu a ler a água como se fosse uma linguagem. Aruan permanecia na proa observando o comportamento das correntes. De tempos em tempos apontava uma mudança na cor da água ou indicava um banco de areia escondido sob a superfície.

Olga sentou-se ao meu lado e perguntou o que eu estava achando do livro. Disse a ela que a autora parecia olhar para o mundo inteiro a partir da Amazônia. Expliquei que, em suas páginas, aquele território aparece como um ponto onde se cruzam algumas das tensões mais profundas do nosso tempo: a crise climática, a corrida pelos recursos naturais, a luta dos povos indígenas por sobrevivência e o avanço incessante do capitalismo sobre a floresta. Enquanto eu falava, Mateus se aproximou em silêncio, como quem reconhece naquele diagnóstico algo que também já vinha pensando.

Contei a eles que o livro descreve o choque entre dois modos de existir. De um lado, o sistema econômico que transforma tudo em recurso: rios em energia, floresta em madeira, terra em mercadoria. Do outro, cosmologias indígenas e ribeirinhas nas quais natureza e humanidade fazem parte da mesma comunidade de vida.

Olga ficou em silêncio por alguns segundos e depois disse, com simplicidade:

— Talvez seja por isso que o mundo moderno tenha tanta dificuldade em compreender a Amazônia.

Voltei à leitura. A palavra Òkòtó, explicava o livro, vem da filosofia iorubá e representa um movimento espiralado de expansão. Não um progresso linear, como imagina a modernidade, mas um crescimento que se move em círculos, transformando o presente sem destruir completamente o passado.

A ideia me perturbou. Durante séculos acreditamos que a história avançava em linha reta. Mas talvez o tempo se mova mais como este rio: em curvas, desvios, redemoinhos e retornos inesperados.

À medida que avançávamos para o norte, o Amazonas começava lentamente a se transformar. A largura monumental do rio dava lugar a canais que conduziam a água para o encontro com o Atlântico. O vento carregava um leve gosto salgado e algumas aves costeiras começaram a aparecer sobre o barco.

Mateus explicou:

— Aqui o território já não pertence inteiramente à água doce nem ao mar.

Enquanto observava aquela transição, um pensamento começou a se formar com clareza incômoda. Durante anos vivi no coração de uma civilização que acreditava ser o centro do mundo. A Europa com suas instituições, seus parlamentos e sua fé quase religiosa no progresso.

Mas, olhando agora para aquelas águas imensas, comecei a perceber algo desconfortável.Talvez aquele centro estivesse se esgotando.A Europa parecia cada vez mais ocupada em administrar sua própria decadência. Aqui, ao contrário, neste território considerado periférico, tudo parecia ainda em aberto. Havia risco, havia conflito, mas havia também a sensação de que o futuro ainda estava sendo disputado.

Foi no final da tarde que Calçoene apareceu no horizonte. Primeiro como uma linha irregular de telhados baixos. Depois surgiram o cais, algumas embarcações de pesca e o movimento lento de gente caminhando à beira da água.O Esperança do Norte encostou devagar no porto de madeira. Quando o motor foi desligado, o silêncio voltou a ocupar o espaço com naturalidade.

Olga e Mateus começaram a caminhar pela cidade enquanto Aruan observava os barcos ancorados no cais. Eu permaneci ali conversando com Francisco.

Perguntei de onde ele vinha e como havia se tornado aquele homem que atravessava rios conduzindo pessoas entre lugares tão distantes.

Francisco olhou por alguns instantes para a água antes de responder. Disse que tinha cinquenta e oito anos e que havia nascido em Altamira, muito antes de a barragem de Belo Monte transformar o curso do Xingu.Seu pai havia vindo do Ceará durante a corrida do ouro. Passou meses trabalhando em Serra Pelada, cavando barrancos de terra na esperança de encontrar algum pedaço de riqueza.

Conseguiu retirar um pouco de ouro, mas o verdadeiro perigo do garimpo vinha dos homens armados que controlavam a região. Em certo momento entrou em conflito com gente ligada ao coronel Curió e precisou fugir às pressas. Levou apenas roupas, ferramentas e o pequeno punhado de ouro que havia conseguido juntar.

Foi assim que chegou a Altamira — disse, olhando para mim.

Com aquele ouro comprou um barco e começou a transportar mantimentos, pescadores e famílias que precisavam atravessar o rio.Foi ali também que conheceu a mãe de Francisco, uma mulher indígena da região do Xingu.Francisco nasceu pouco tempo depois e cresceu dentro da embarcação. Aprendeu a ler correntes, nuvens e marés antes mesmo de aprender a escrever.Quando o pai morreu num acidente durante uma travessia noturna, ele herdou o barco. Desde então sua vida passou a ser o rio.

Perguntei como havia conhecido Olga e Mateus.

Francisco sorriu discretamente.

Disse que isso aconteceu em 2013. Eles apareceram na região algum tempo depois das grandes manifestações daquele ano em São Paulo, procurando desaparecer por um tempo. Foi Francisco quem conduziu a primeira travessia deles pelos rios do Amapá.

— Eles estavam procurando outro jeito de viver — disse, olhando para mim com um ar de felicidade.

Enquanto conversávamos, ele mencionou algo que me surpreendeu.Disse que pouca gente que passa por Calçoene sabe que, no interior da floresta, existe um lugar de pedras muito antigas.

— Pedras grandes — explicou. — Colocadas em círculo. Como se alguém tivesse levantado aquilo para conversar com o sol.

A curiosidade foi imediata.

Olga se aproximou e disse, animada:

— Então vamos lá, gente. Quero ver isso de perto.

Pouco depois estávamos numa velha caminhonete avançando por uma estrada de terra que penetrava lentamente na mata. O calor subia da terra vermelha e o silêncio aumentava à medida que nos afastávamos da cidade.

As pedras apareceram de repente.

Um círculo de gigantes de granito erguidos no meio da vegetação baixa. A caminhonete parou a alguns metros e caminhamos o restante do caminho em silêncio, como se o próprio lugar pedisse que diminuíssemos o ritmo.

Durante alguns minutos ninguém disse nada.

Aproximei-me devagar de uma das pedras. O calor da tarde ainda permanecia preso no granito e, quando toquei sua superfície com a palma da mão, senti algo inesperado: uma vibração quase imperceptível, não da pedra em si, mas do meu próprio corpo respondendo àquele contato. Uma espécie de choque.

Fiquei ali por alguns instantes, procurando entender.

Aruan observava o horizonte em silêncio. Francisco permaneceu alguns passos atrás, respeitando uma distância que parecia fazer parte de algum tipo de conhecimento antigo sobre lugares assim.

Refeita, olhei ao redor.

As pedras estavam dispostas em círculo, abertas para o céu. Era impossível não imaginar que aquele espaço havia sido pensado para observar o movimento do sol, as mudanças das estações, talvez até algo mais difícil de nomear. Não havia ali a grandiosidade dos templos europeus, mas uma precisão silenciosa — uma arquitetura construída para dialogar com o tempo.

Passei novamente a mão sobre o granito. Queria repetir a sensação anterior.

A superfície estava quente, áspera, viva de alguma forma. Por um instante tive a impressão de que aquela pedra não era apenas um objeto antigo. Era um fragmento de tempo que havia atravessado séculos intacto, esperando por mãos que já não existem.

Respirei fundo.

Durante anos caminhei por cidades que se orgulham de sua história: museus, catedrais, bibliotecas, arquivos. Lugares onde o passado é preservado atrás de vidros e explicado por especialistas.

Ali, porém, o passado não estava protegido.Ele estava presente.

Era como se aquelas pedras continuassem a cumprir a função para a qual foram erguidas: lembrar que o tempo humano é apenas um breve intervalo dentro de uma duração muito maior.

Fechei os olhos por alguns segundos.Senti o calor do granito na pele, o vento leve vindo da floresta, o cheiro úmido da terra. Pela primeira vez desde que cheguei à Amazônia tive a impressão de que não estava apenas observando aquele território.

Eu estava sendo atravessada por ele.

Pensei nos povos que haviam estudado o céu naquele mesmo lugar. Povos que observavam o movimento do sol sem telescópios, que organizavam o tempo sem relógios, que compreendiam o mundo sem separar natureza e humanidade.Talvez a grande ilusão da modernidade tenha sido acreditar que começamos a história.

Ali, entre aquelas pedras silenciosas, tive a sensação de que o que chamamos de progresso era apenas um capítulo recente de uma narrativa muito mais antiga — uma narrativa que a floresta ainda guarda em fragmentos dispersos.

Em silêncio voltamos para a caminhonete. O céu já começava a mudar de cor.Olhei uma última vez para o círculo de pedras.Não parecia um monumento.Parecia uma pergunta deixada no meio da floresta.

De volta ao cais de Calçoene, o rio corria lentamente diante da cidade.Civilizações haviam passado por ali.O rio, no entanto, continuava.À medida que avançávamos, ele ia mudando.

Foi então que percebi algo que até aquele momento não havia compreendido por inteiro: esta viagem não atravessava apenas rios.Atravessava tempos.

E, de alguma maneira silenciosa, eu também estava mudando.

Pouco a pouco deixava de ser uma observadora para me tornar parte daquele mundo que se abria diante de mim — como o próprio rio, que nunca é o mesmo e, ainda assim, continua a correr.

Ainda restavam muitos dias até o Oiapoque.E muitos banzeiros pela frente.

Calçoene, costa do Amapá

março de 2026

Silvie Armand

Silvie Armand é poeta, ensaísta e cronista, transita entre jornalismo cultural e escrita experimental, unindo crítica e criação.
Atualmente vive em Lisboa e é correspondente do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
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