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Carta a um amigo-Arlindenor Pedro

arlindenor pedro
Por arlindenor pedro 8 leitura mínima

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Entre escutar e administrar a si mesmo, este texto percorre um incômodo que cresce no cotidiano. A partir do conceito de fetichismo em Robert Kurz, a chamada Inteligência Emocional deixa de parecer neutra e passa a ser vista como parte de um modo histórico de organizar a vida. O que aparece como cuidado pode esconder ajuste. O que se apresenta como autoconhecimento pode funcionar como autocontrole, como já sugeria Michel Foucault. Em diálogo com Eva Illouz e Pierre Bourdieu, o texto mostra como emoções são moldadas, nomeadas e até performadas socialmente. Não se trata de negar a importância de se compreender, mas de perguntar: a quem serve esse mapa? Uma carta que não fecha respostas, mas abre uma dúvida difícil de ignorar.

Ouça aqui o áudio deste post

Carta a um amigo-um ensaio de Arlindenor Pedro

Caro amigo,

Fiquei pensando bastante depois da nossa última conversa, quando você me contou do seu mergulho nas ideias de Inteligência Emocional. Resolvi te escrever com calma, não para te convencer de nada, mas porque senti que algumas coisas que venho pensando talvez possam fazer sentido para você também.

Quero começar por um ponto que, para mim, foi decisivo.

Existe um conceito na teoria social que, à primeira vista, parece distante disso tudo: o de fetichismo. Autores como Robert Kurz , por exemplo, mostram que, na sociedade em que vivemos, muitas coisas que são construções sociais acabam aparecendo como naturais, como se sempre tivessem existido assim.

O dinheiro parece ter valor por si mesmo. O trabalho parece algo natural. Mas tudo isso são formas históricas de organizar a vida.

Pois é : o fetichismo é justamente isso: quando aquilo que é resultado de relações sociais aparece como algo evidente, indiscutível!

O mapa que promete clareza

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Mas foi aí que algo começou a me atravessar.

Comecei a suspeitar que existe uma tensão profunda entre esse conceito de fetiche e a forma como a Inteligência Emocional, que você me explicou, se apresenta.

Ela fala como se estivesse revelando algo essencial sobre o ser humano. Como se fosse apenas um aprimoramento da nossa natureza.

Mas e se não for assim?

E se a forma como aprendemos a sentir também for histórica?Sim, isto mesmo!For própria desta sociedade específica em que estamos imersos?

Quando sentir vira administrar

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Enquanto o fetichismo desnaturaliza, a Inteligência Emocional tende a naturalizar.

Enquanto um diz “isso é socialmente produzido”, o outro sugere “esse é o modo correto de lidar com suas emoções”.

E aí tudo muda de cor.

A ideia de que precisamos “gerir” nossas emoções, para mim, começa a soar familiar demais.

O controle que vem de dentro

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Foi lendo Michel Foucault que percebi algo importante: hoje, não é mais necessário que alguém nos controle de fora.

A gente aprende a fazer isso sozinho.Isto mesmo : um auto-controle!

E talvez a Inteligência Emocional funcione assim: ela nos ensina a olhar para dentro… mas também a nos ajustar constantemente.Uma fórmula de nós mesmos nos controlarmos.

Percebe? Como se houvesse uma forma certa de sentir!

Quando o mundo vira problema seu

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Pensa em alguém exausto, vivendo sob pressão constante.

Em vez de perguntar “o que há de errado com o mundo?”, a resposta vira: “você precisa melhorar sua inteligência emocional”.

A responsabilidade se desloca. Entende?

O que era crítica ao mundo vira tarefa interna.

É aqui que o fetichismo reaparece com força.Pense nisto!

Aprendendo a sentir de forma apresentável

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Como observa Eva Illouz, passamos a traduzir problemas sociais em linguagem emocional.

E nas redes isso se intensifica.

As pessoas não apenas sentem. Elas apresentam suas emoções.

Uma tristeza bem explicada. Uma vulnerabilidade elegante. Uma empatia admirável.

Gera atenção. Gera validação.Gera likes …

E aí fica a dúvida: ainda estamos sentindo… ou aprendendo a sentir de forma aceitável?

Nem todos podem sentir do mesmo jeito

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Nem todo mundo tem as mesmas condições de desenvolver essa linguagem emocional.

Como lembraria Pierre Bourdieu, o que parece falha individual muitas vezes é efeito de trajetórias sociais diferentes. Sim, isto mesmo: trajetórias sociais diferentes!

E como mostra Roswitha Scholz, muitas dessas competências sempre foram exigidas, especialmente de mulheres, sem reconhecimento.

Agora reaparecem. Mas ainda como exigência.

A pergunta que abre a fissura

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Talvez a Inteligência Emocional não seja apenas um caminho para se entender melhor.

Talvez seja também uma forma de aprender a se ajustar melhor.Isto: se ajustar melhor !

Mas veja bem :isso não significa que tudo nela seja ruim.

Mas significa que ela não é neutra. Isto mesmo : ela não é neutra ! Ela tem um propósito!

Escutar não é administrar

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Pensando nisto eu comecei a sentir que precisava recuperar uma diferença simples:

uma coisa é se escutar
outra coisa é se administrar

Escutar envolve tempo, abertura, até confusão.
Administrar envolve controle, direção, ajuste.

E às vezes a gente troca uma coisa pela outra sem perceber.

Para finalizar, eu queria te deixar uma pergunta simples:

Quando você olha para suas emoções hoje…
você sente que está mais próximo delas?
ou mais responsável por organizá-las?

Se essa dúvida fizer sentido, já valeu a conversa.

Um grande abraço, meu grande amigo

Arlindenor Pedro

Serra da Mantiqueira ,abril de 2926

Arlindenor Pedro é ex-preso político e Anistiado. É professor de história, sociologia e filosofia e também Editor do blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários

Bibliografia de apoio (para quem quiser aprofundar essas inquietações):

  • Robert Kurz – Dinheiro sem valor
  • Robert Kurz – O Colapso da Modernização
  • Roswitha Scholz – O sexo do capitalismo
  • Michel Foucault – Vigiar e Punir; História da Sexualidade
  • Theodor Adorno – Dialética do Esclarecimento (com Horkheimer)
  • Eva Illouz – Cold Intimacies; Saving the Modern Soul
  • Pierre Bourdieu – A Distinção; O Poder Simbólico
  • Sigmund Freud – O mal-estar na civilização
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Libertário - professor de história, filosofia e sociologia .
1 comentário
  • Rosa Luxemburgo nos alertou no começo do século XX, sobre as consequências da não superação do capitalismo, com a sentença “socialismo ou barbárie”. Meszaros, no final deste mesmo século atualizou a sentença asseverando: “barbárie se tivermos sorte”. Sentenças que pressupõem que o capitalismo caminha em direção a barbárie! Discordamos dessas sentenças! Hoje, diante da crise estrutural do capital e conhecendo sua real configuração fundamental cujo o eixo é a valorização do valor ou a ampliação infinita de riqueza abstrata, constatamos que a barbárie está na origem do sistema ou que esta sempre foi sua forma de ser e se reproduzir!

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