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O ensaio de Dalton Rosado retoma Karl Marx a partir da crise atual do capitalismo, destacando os limites tanto do modelo liberal quanto do estatal. Ao revisitar a experiência soviética, evidencia o impasse entre conservar ou superar as categorias do valor.Em diálogo com a crítica do valor, o texto aponta o esgotamento estrutural da sociedade do trabalho e o vazio da política institucional . Surge, assim, a necessidade de uma ruptura categorial profunda.Trata-se de recolocar Marx no centro da crítica da modernidade e da busca por emancipação humana.

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Karl Marx ressurge com vigor-um ensaio de Dalton Rodado
A troca do trabalho vivo por trabalho objetivado… é o último desenvolvimento da relação de valor… elas constituem as condições materiais para fazê-lo voar pelos ares.
Karl Marx, nos Grundrisse
Karl Marx já foi considerado morto e sepultado muitas vezes e a última delas foi em 1989 com a queda do muro de Berlim, que antes de representar o vigor do capitalismo liberal, representou a etapa ilustrativa do fim do capitalismo de estado como antessala do capitalismo liberal em rota de previsível colapso mundial.
A velha tese marxiana esotérica crítica do valor se torna atual e com ela a perspectiva de surgimento de sociedade de novo tipo que caminhe para a emancipação humana consciente, comunista, sem estado, sem partido, sem valor (dinheiro e mercadorias sensíveis), sem mercado, e sem classes sociais distintas; Marx volta à pauta do dia diante do fracasso das formas políticas de estado liberal e keynesiana (totalitária ou socialdemocrata) como suporte de uma lógica capitalista que faz água prenunciando o naufrágio dela mesma.
Desde a revolução bolchevique de 1917 se estabeleceu entre os revolucionários vitoriosos um debate que agora se torna atual: a conservação (provisória e decrescente) das categorias capitalistas (principalmente o trabalho abstrato, produtor de valor) e toda entourage estrutural política e mercadológica ou a abolição imediata e completa dessas mesmas categorias e seus penduricalhos.
Lenin no poder defendeu a adoção do capitalismo de estado naquele período e até da convivência com concessões ao capital privado de pequenos e médios negócios sob o argumento da necessidade de defesa contrarrevolucionária ainda viva e exploradora da miséria do pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1918) como um mal necessário como foi o caso da implantação da NEP – Nova Política Econômica.
A enfermidade de Lenin que o debilitou paulatinamente e o levou à morte ainda em 1924 deu lugar ao surgimento de novas lideranças propícias à defesa do capitalismo de estado em divergência com a corrente que defendia a prática da crítica do valor e rompimento com tudo que se refere aos comportamentos dentro da imanência capitalista, ou seja, corrente que tinha como norte de comportamento a superação das categorias capitalistas.
Essa corrente, pouco numerosa, mas adequada ao pensamento profundo da crítica marxiana da maturidade daquele pensador à crítica da economia política foi silenciada por um centralismo político cada vez mais distante do debate dialético, mais acomodado a um poder vertical cada vez mais tacanho e pragmático de uma cúpula deslumbrada com o poder recém-instituído.
Importantes avanços foram obtidos com o fechamento intramuros de uma economia imune à concorrência internacional de mercado mais desenvolvida ao longo de duas décadas nas quais ocorreram grandes depressões do capitalismo Ocidental (notadamente em 1929/1930) e que atingiu a Rússia revolucionária que soube resistir sob um ritmo acelerado de recuperação retardatária de tecnologia industrial e criar musculatura capaz de fazer frente aos nazistas na Segunda Guerra Mundial (1939/1940), na qual teve um protagonismo heroico com seus cerca de 27 milhões de mortos em combate (mais da metade do total de mortos em toda a guerra).
Mas a permanência de um capitalismo de estado intramuros, mesmo com a hegemonia político-econômica sobre os países do Leste europeu da República Socialista da União Soviética, terminou por expor seus limites expansionistas e sobreveio a estagnação forçando uma abertura ao capitalismo de mercado e a fragmentação dos estados soviéticos sem um tira sequer (só agora com o Plutocratas Putin é que voltou a ocorrer um imperialismo à moda antiga).
É na esteira de uma falência capitalista estatal ou liberal e suas formas políticas as mais diversas que ressurge o resgate de personalidades como Isaac Rubin, economista estudioso do marxismo da crítica do valor e autor de obras que foram proibidas, e ele mesmo condenado à morte nos famosos processos stalinistas do “grande expurgo” dos anos de 1930, nos quais antigos bolcheviques eram presos, torturados e com familiares ameaçados para a obtenção de testemunhos auto incriminatórios e sentenças de mortes.
É desse período a tragédia genocida do “Holodomor” ucraniano (1932ª 1933) no qual morreram de fome milhões de pessoas, episódio inaceitável sob todos os aspectos e que permanece na memória do seu povo como uma chaga histórica inesquecível.
Ressalte-se que a China percorreu o mesmo itinerário, com a diferença que tinha 1,5 bilhão de campesinos empobrecidos e que com Deng Xiao Ping pode oferecer ao capitalismo multinacional as portas abertas para a extração de mais valia no seu interior tornando-se a nova meca do capitalismo mundial.
Não é difícil se compreender o porquê dos caminhos que terminaram por descaminhos capazes de reduzir os ideais revolucionários a um capitalismo de mercado sem nenhum pejo.
A verdade é como água no óleo: sempre vem à tona!!!
Essa questão voltou à tona graças à dinâmica da terceira revolução industrial da microeletrônica/cibernética que expos o limite da expansão capitalista e coloca na pauta do dia o questionamento à esquerda institucionalizada que atua sob categorias capitalistas sem questioná-las na sua essência; essa nova realidade provoca um novo e atualíssimo realce da crítica do valor para a necessidade da emancipação humana irreversível.
Diante da redução da massa global de valor e de sua necessária reprodução aumentada aparecem como claramente obsoletas as proposições político-institucionais paliativas (ainda que possam ser benfazejas no curto prazo) porque mais parecem um museu de velhas novidades (parafraseando Cazuza).
Os poderes institucionais caem no descrédito porque têm a função prioritária de dar sustentação e validade a uma lógica de relação social disfuncional a qual todas as outras se subordinam e que anuncia seu próprio colapso por contradição de fundamentos.
O capitalismo criou uma institucionalidade capaz de dragar para o seu domínio e subordinação pretensos revolucionários que atuam no campo da luta pela justa distribuição do capital sem compreenderem a sua natureza intrinsicamente concentradora do valor econômico socialmente produzido em torno do próprio capital (movimento autotélico permanente) como mecanismo de segregação social e escravização de todos os humanos (ainda que em escalas diferenciadas de privilégios) à sua abstração tornada real materializada nas mercadorias de modo fantasmagórico; tais agentes atuam conscientemente ou não como alguém que deseja que o veneno sirva como remédio.
Quais são os brasileiros filiados aos partidos políticos que hoje podem ser considerados como emancipacionistas??? Nenhum, justamente porque a institucionalidade os vacina contra a emancipação humana.
Todos os que estão presos à institucionalidade política estão pensando nas eleições de 2026 como forma de se garantir salários, empregos, poder de influência, prestígio midiático personalista, e a quase bilionária e imoral verba partidária; esse é o preço pago pelo capital à esquerda para administrar com zelo o do dito cujo dentro de um figurino ditatorial da lógica perversa da ciência econômica e de sua manutenção (vide rígido respeito aos gastos do exíguo orçamento fiscal cujos recursos são extraídos de uma população já exaurida economicamente via impostos).
O povo financia a opressão da qual é vítima. É mole???
Enquanto isso cresce o descontentamento e desencanto da população diante de sua vida social precarizada, amedrontada e triste.
Por que não rompemos com a pobreza da democracia burguesa antidemocrática???
Há um alto grau de culpa na manutenção do status quo, mesmo que decadente, por conta dos muitos tipos de amarras de premeditada inconsciência coletiva induzida não apenas pelo capital privado extrator de mais-valia de quem só tem para vender a sua força de trabalho e a isso se subordina por dependência a um único meio de sobrevivência; mas também pela grande mídia empresarial dominante proibida de questionar a negatividade da forma valor; pela educação curricular básica e acadêmica que positiva as categorias capitalistas; pelo direito burguês que nega elementares princípios de justiça social; pelas instituições do estado a serviço do capital; pelo fetichismo da mercadoria e mercado; etc., etc.,, etc.
Mas à esquerda cabe a culpa indesculpável do abandono cômodo e desavergonhado, pretensamente ignorante, da perspectiva da luta emancipatória por mais íngreme que seja o seu caminho e que só pode ocorrer com o questionamento dos cânones capitalistas e pugnando-se por sua superação, ainda que dentro dele se esteja por conta de uma imposição estrutural que se nos apresenta como irrecusável mesmo nos sendo estranha.
O desapego constante e negação às(das) categorias capitalistas, mesmo que sob condições adversas, é exercício preventivo indispensável.
Mas apesar de tudo, ou exatamente por tudo, a esperança ressurge. Marx ressurge das cinzas tal qual Fenix a nos orientar sobre o caminho.
Fortaleza,abril de 2026
Dalton Rosado.

Dalton Rosado é Advogado, escritor, articulista de jornais e blogues e compositor nascido na cidade do Rio de Janeiro. Vive e milita na cidade de Fortaleza, cidade que o acolheu, onde faz parte do Grupo Crítica Radical de Fortaleza
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