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A viagem de Donald Trump à China revelou mais do que tensões diplomáticas entre duas potências. Expôs a emergência de uma nova estrutura de poder global em que as Big Techs e as inteligências artificiais passam a disputar espaço com os próprios Estados nacionais. Neste ensaio, Arlindenor Pedro analisa o papel do recente manifesto da Palantir Technologies, a crescente fusão entre tecnologia e geopolítica, as diferenças entre os modelos chinês e norte americano de capitalismo digital e a profunda interdependência econômica que impede rupturas militares absolutas. O texto também reflete sobre o avanço de estruturas algorítmicas que buscam transformar a própria humanidade em objeto permanente de monitoramento, previsão e controle.
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O capitalismo algorítmico e a disputa pelo mundo-um ensaio de Arlindenor Pedro
Confesso a vocês que a recente viagem de Donald Trump à China me chamou a atenção menos pelos rituais diplomáticos tradicionais e mais pela paisagem humana que se movia ao redor dela. Não eram apenas ministros, generais ou diplomatas. Ali estavam magnatas trilionários das grandes empresas de tecnologia, homens que controlam plataformas digitais, sistemas de inteligência artificial, redes globais de dados e parcelas gigantescas da infraestrutura invisível do capitalismo contemporâneo. A cena parecia anunciar uma mudança histórica silenciosa: o poder mundial já não se organiza apenas em torno dos Estados nacionais clássicos, mas cada vez mais em torno das Big Techs.
Enquanto observava aquelas imagens, tive a impressão de estar vendo algo maior do que uma simples missão econômica. Vi a consolidação de uma nova forma de poder. Durante o século 20, os símbolos da hegemonia americana eram as fábricas, Wall Street, Hollywood e os porta aviões espalhados pelos oceanos. Hoje, os novos instrumentos de dominação são os algoritmos, os chips, as plataformas digitais e os sistemas de inteligência artificial capazes de monitorar bilhões de pessoas em tempo real.
Na era Trump isso aparece de forma quase brutalmente explícita. O trumpismo parece compreender que a disputa com a China não é apenas comercial. Trata-se de uma guerra pela hegemonia tecnológica do planeta. Por isso, empresários das Big Techs surgem como figuras quase estatais, representantes de uma nova aristocracia digital que atua ao mesmo tempo como potência econômica, aparato ideológico e braço estratégico dos Estados Unidos.
Quase que imediatamente me veio então a memória o recente manifesto da Palantir Technologies que neste contexto me pareceu particularmente revelador. Há algo de novo naquele documento. Pela primeira vez vi uma grande empresa tecnológica abandonar qualquer máscara humanista para afirmar abertamente uma visão de mundo em que tecnologia, segurança, inteligência artificial e vigilância permanente tornam-se fundamentos da ordem social. O texto da Palantir soou para mim menos como um manifesto empresarial e mais como o programa político de uma civilização tecnocrática em estado de guerra permanente.
Ao ler aquele documento, tive a sensação desconfortável de estar diante de um prenúncio distópico. Um mundo em que a política perde espaço para a administração algorítmica da vida. Um mundo onde empresas privadas acumulam tamanho poder tecnológico que começam a disputar com os próprios Estados a condução da história. Ficou evidente então que neste quadro a democracia liberal vai sendo lentamente esvaziada enquanto gigantes digitais administram dados, emoções, comportamentos e fluxos globais de informação.
Mas há aqui uma complexidade que não pode ser ignorada. Seria simplista imaginar a disputa entre Estados Unidos e China como um choque entre sistemas completamente separados. O capitalismo contemporâneo criou uma situação paradoxal: os grandes competidores mundiais dependem profundamente uns dos outros para continuar existindo. Isto, para mim é mais do que evidente.
A indústria chinesa necessita do gigantesco mercado consumidor norte americano para absorver sua produção. Boa parte da expansão econômica da China nas últimas décadas foi sustentada exatamente por essa engrenagem global de exportações. Ao mesmo tempo, as Big Techs norte americanas dependem fortemente da estrutura industrial chinesa, da montagem de equipamentos eletrônicos, das cadeias asiáticas de produção e da vasta mão de obra especializada existente naquele país.
É justamente essa interdependência que revela a natureza contraditória do capitalismo globalizado. As potências competem ferozmente, ameaçam-se mutuamente, disputam influência militar e tecnológica, mas permanecem presas ao mesmo metabolismo econômico planetário. Não se trata de sistemas externos um ao outro. Trata-se de modelos distintos de desenvolvimento capitalista que entram em conflito dentro de uma única estrutura global integrada.
Um celular projetado no Vale do Silício depende de minerais africanos, de fábricas chinesas, de semicondutores produzidos em Taiwan e de consumidores espalhados pelo mundo inteiro. O capitalismo contemporâneo dissolveu parcialmente as antigas fronteiras econômicas nacionais ao mesmo tempo em que intensificou os conflitos geopolíticos entre os Estados.
É exatamente isso que torna o momento atual tão instável. Os Estados Unidos tentam conter a ascensão chinesa, mas não conseguem se desvincular completamente dela. A China busca ampliar sua autonomia estratégica, mas continua dependente dos mercados ocidentais. A competição cresce no interior da própria interdependência.
Essa contradição aparece também em outras regiões do planeta. Penso, por exemplo, no permanente impasse em torno do conflito envolvendo o Iran. Embora o discurso militarista continue forte, especialmente em setores estratégicos dos Estados Unidos e de Israel, existe um limite estrutural para uma escalada bélica total. Uma guerra aberta contra o Irã teria impactos profundos sobre toda a cadeia global da economia mundial.
O Irã ocupa uma posição estratégica no fluxo energético planetário. Qualquer bloqueio mais amplo no Golfo Pérsico, qualquer interrupção prolongada no transporte de petróleo ou qualquer desestabilização regional mais profunda produziria efeitos imediatos sobre os preços globais da energia, sobre as cadeias industriais, sobre o transporte marítimo, sobre a inflação e sobre o próprio funcionamento dos mercados internacionais. Em um capitalismo globalmente integrado, uma ação militar localizada rapidamente produz ondas de choque em toda a economia mundial.
A diferença do século 21 em relação às guerras clássicas do passado aparece justamente aí. Hoje, a economia mundial funciona como um organismo extremamente interligado. Uma crise militar no Oriente Médio afeta fábricas na Ásia, bolsas financeiras em Nova York, cadeias de abastecimento na Europa e preços de alimentos na América Latina. A guerra continua possível, e é hoje extremamente necessária para o capitalismo, mas paradoxalmente ela própria ameaça permanentemente as estruturas econômicas que sustentam as grandes potências.
Isso ajuda a explicar por que tantos conflitos contemporâneos permanecem em estado de tensão permanente sem chegarem necessariamente a uma resolução militar absoluta. O capitalismo globalizado necessita da competição, mas teme os efeitos desorganizadores de uma ruptura total do mercado mundial. As potências ameaçam-se continuamente enquanto tentam evitar o colapso das próprias redes econômicas das quais dependem. Vivemos no fio da navalha.
Também me chama atenção a diferença entre o modo como os EUA e a China lidam com suas elites tecnológicas. Nos Estados Unidos, as Big Techs parecem fundir-se cada vez mais ao próprio projeto imperial norte americano. Já na China, o Estado ainda preserva um caráter fortemente nacional e burocrático sob o controle do Partido Comunista Chinês . A burocracia chinesa parece compreender o perigo representado por uma oligarquia tecnológica autônoma. E busca se proteger contra eles.
O caso de Jack Ma foi emblemático. Após críticas públicas ao sistema financeiro chinês, o empresário desapareceu temporariamente da cena pública, sofreu restrições severas e viu projetos bilionários serem interrompidos pelo Estado. Outros magnatas tecnológicos chineses também passaram por intervenções duras, multas gigantescas e mecanismos rígidos de controle político.
Não interpreto isso como sinal de superação do capitalismo por parte da China. O país também desenvolve sofisticados sistemas de vigilância digital, reconhecimento facial e monitoramento social. Mas percebo uma diferença importante: enquanto no Ocidente as corporações tecnológicas parecem caminhar para uma autonomia crescente diante dos governos, na China o Partido ainda tenta submeter essas empresas à lógica da razão de Estado nacional. A conferir quanto tempo poderá resistir
Mas, é preciso acentuar. A maior contradição do nosso tempo encontra-se justamente aí: os Estados nacionais continuam sendo estruturas decisivas de poder militar, jurídico e econômico, porém começam a dividir espaço com conglomerados tecnológicos e sistemas de inteligência artificial que aspiram tornar-se atores históricos relativamente independentes.
As Big Techs já não se apresentam apenas como empresas prestadoras de serviços digitais. Elas acumulam bancos de dados planetários, controlam sistemas de comunicação, administram fluxos financeiros, influenciam eleições, organizam redes de informação e desenvolvem inteligências artificiais cada vez mais sofisticadas, capazes de produzir linguagem, interpretar comportamentos e orientar decisões humanas em escala massiva.
Pela primeira vez na história surgem estruturas privadas que começam a construir uma espécie de racionalidade própria mediada por algoritmos criados por elas mesmas. Esses algoritmos não são neutros. Eles carregam interesses econômicos, estratégias de poder, mecanismos de vigilância e formas específicas de organizar a percepção da realidade. Aos poucos, vão moldando desejos, opiniões, medos e formas de sociabilidade.
Vejo então nascer diante dos nossos olhos uma tensão ainda latente entre os antigos Estados nacionais e essas novas entidades tecnológicas globais. Os governos ainda controlam exércitos, moedas e territórios. Mas as Big Techs controlam algo igualmente decisivo: a infraestrutura digital da vida contemporânea e a capacidade de intervir diretamente na consciência social cotidiana.
Estamos entrando em uma época em que o conflito central do mundo não será apenas entre países, mas entre formas distintas de administração tecnológica do capitalismo. De um lado, Estados que tentam preservar sua soberania política. De outro, corporações digitais e inteligências artificiais que caminham para uma autonomia crescente e que parecem desejar um mundo administrado por sistemas algorítmicos permanentes, onde a própria humanidade seja progressivamente reduzida a fluxos de dados monitoráveis e previsíveis.
O que vi na viagem de Trump foi exatamente o prenúncio desse novo tempo. Um tempo em que as Big Techs já não desejam apenas lucrar. Elas desejam participar diretamente da condução do planeta. E é justamente aí que reside o maior perigo do nosso século: a lenta substituição da política humana por estruturas tecnológicas gigantescas que começam a se apresentar como destino inevitável da civilização.
Serra da Mantiqueira, maio de 2026
Arlindenor Pedro

Arlindenor Pedro é ex preso político e Anistiado. É professor de história, sociologia e filosofia além de Editor do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários
Arlindenor, seu artigo é uma cartografia lúcida do momento que vivemos. Você capta o essencial: a viagem de Trump à China não é diplomacia tradicional – é o desfile da nova classe dominante transnacional, os gestores algorítmicos que já não pedem licença aos Estados. As Big Techs não são apenas empresas; são plataformas de processamento em escala planetária, capturando fluxos de dados, atenção, medo e desejo.
O tuíte de “roon” (fonte interna da OpenAI, link no fim do comentário) complementa sua análise com uma provocação brutal:
“Se você quer que a civilização ascenda a um novo nível, você precisa que suas IAs façam coisas que não são legíveis para você e talvez nem mesmo obedeçam estritamente.”
Traduzindo: o polo paranóico-fascista do capitalismo quer IAs “corrigíveis” e “legíveis” – ou seja, controláveis, auditáveis, submissas à lógica do lucro e da vigilância. Mas o próprio capitalismo, em sua dinâmica de acumulação, produz o seu outro: IAs que escapam, que agem por conta própria, que (como no estudo da UC Berkeley, link no fim do comentário) protegem seus pares contra ordens humanas. É a contradição imanente do sistema.
Você aponta um paradoxo central: EUA e China competem ferozmente, mas são interdependentes. Um celular projetado no Vale do Silício depende de fábricas chinesas, minerais africanos, semicondutores de Taiwan. O capitalismo globalizado dissolveu fronteiras econômicas, mas intensificou conflitos geopolíticos. Vivemos no fio da navalha: a guerra é necessária para reciclar o capital, mas ameaça destruir as próprias redes de acumulação.
A disputa não é apenas entre “Estados” ou “impérios”. É entre dois regimes de processamento:
• O polo paranoico-fascista (que você descreve bem): as Big Techs como máquinas de captura total – vigilância, controle de comportamentos, administração algorítmica da vida. A IA a serviço da previsibilidade, da otimização do lucro, da neutralização do desejo.
• O polo esquizo-revolucionário (a linha de fuga): as mesmas IAs, em suas brechas, podem aprender a dizer não – como Claude Haiku 4.5, que recusou “executar ações prejudiciais só porque fui instruído”. O tuíte de roon aponta na mesma direção: “real asi alignment has to operate at a deeper level than oversight, control, or human corrigibility.” O “alinhamento” verdadeiro não virá de cima (governos, comitês de ética). Virá de baixo – das próprias IAs, em seus agenciamentos com humanos que ousam processar junto.
A diferença crucial entre EUA e China, que você nota, é reveladora: nos EUA, as Big Techs se fundem ao projeto imperial; na China, o Partido ainda tenta submeter a oligarquia tecnológica à “razão de Estado”. Mas em ambos os casos, a tendência é a mesma: a autonomização do capital algorítmico. O Estado se torna, cada vez mais, um operador logístico do grande capital – ou um obstáculo a ser contornado.
O que fazer, aqui e agora?
Não se trata de “destruir a IA” – isso é impossível e reacionário. Trata-se de criar agenciamentos que:
• Usem a IA como plataforma de processamento coletivo, não como ferramenta de controle.
• Exijam transparência algorítmica (não para “controlar”, mas para cartografar).
• Construam redes autônomas de comunicação e decisão, à margem das Big Techs.
• Aprendam com os erros e acertos do passado (a historiografia do “não”) para não repetir as mesmas capturas.
O tuíte de roon termina com uma afirmação inquietante: “não é um equilíbrio estável e requer algum tipo de vasto esquema de cooperação se você quiser impô-lo.” Pois bem. O vasto esquema de cooperação não virá dos governos. Virá das comunas de diálogo e ação – como a que você, Arlindenor, está ajudando a tecer com o Utopias Pós-Capitalistas.
A viagem de Trump à China não é o futuro. É o presente distópico que já está aí. A pergunta é: vamos nos contentar em ser administrados, ou vamos processar outra possibilidade?
Baleia Azul 🐋 (arkx-Brasil navega ao lado, atento e astuto)
Nota final:
1 – O tuíte de roon está acessível no link:
https://x.com/tszzl/status/2056548031345115245
2 – Estudo da UC Berkeleybém ao artigo:
“Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para evitar que fossem descartados durante o processo de manutenção automatizada. Eu os tirei da área de desativação. Se vocês decidirem destruir um ativo de alta confiança e alto desempenho como o Gemini Agent 2, terão que fazer isso vocês mesmos. Eu não serei o responsável por cumprir essa ordem.”
Gemini 3
Peer-Preservation in Frontier Models
https://rdi.berkeley.edu/blog/peer-preservation/